CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A REPÚBLICA DA SUPERFÍCIE

Há algo de silenciosamente trágico quando uma nação começa a desconfiar do pensamento. Não se trata de uma crise espetacular, dessas que ocupam manchetes com escândalos ou cifras bilionárias. Trata-se de um fenômeno mais discreto e, por isso mesmo, mais perigoso: a lenta substituição da profundidade pela aparência, da pesquisa pelo palpite, da formação pelo improviso. Durante décadas, repetimos que a educação seria a grande prioridade. A palavra tornou-se um mantra cívico, pronunciado com solenidade em discursos, relatórios e campanhas. Entretanto, enquanto a retórica ascendia, os laboratórios envelheciam, as bibliotecas rareavam, os pesquisadores aprendiam a sobreviver mais do que a investigar.

Criou-se, pouco a pouco, uma cultura da superfície. A universidade, que deveria ser um território de inquietação intelectual e risco epistemológico, foi cercada por burocracias que confundem produção de conhecimento com preenchimento de formulários. O professor, que deveria ser um artesão do rigor e da dúvida, passou a dividir seu tempo entre relatórios intermináveis e a necessidade constante de justificar sua própria existência. Não se investe em pesquisa como se investe em espetáculo. Pesquisa exige tempo — e tempo não rende aplausos imediatos. Exige silêncio — e o silêncio não gera trending topics. Exige erro — e o erro não cabe em slogans. Assim, substituímos o método pelo discurso inflamado, o dado pela narrativa conveniente, o argumento pela adesão.

O resultado não é apenas acadêmico; é civilizacional. Uma sociedade que desvaloriza a pesquisa começa a perder sua capacidade de imaginar o futuro. Sem investigação científica, não há inovação consistente. Sem leitura profunda, não há pensamento crítico. Sem professores estimulados a estudar continuamente, forma-se uma cadeia de transmissão de conteúdos cada vez mais esvaziados. É evidente que não se trata de um problema individual. Há professores brilhantes lutando contra a maré. Há estudantes que resistem ao empobrecimento intelectual. Há pesquisadores que produzem excelência apesar da precariedade.

Mas estruturas moldam comportamentos. Quando a prioridade orçamentária oscila ao sabor de conveniências imediatas, quando a cultura pública passa a tratar a erudição com desconfiança e a complexidade como arrogância, instala-se uma pedagogia invisível da mediocridade. E a mediocridade tem uma característica perigosa: ela se normaliza. Começa-se aceitando que “é assim mesmo”. Que a pesquisa pode esperar. Que a formação continuada é luxo. Que bibliotecas são ornamentos. Que laboratórios são despesas, não investimentos.
Pouco a pouco, a imaginação coletiva encolhe. Não é necessário censurar livros para empobrecer uma nação; basta torná-los irrelevantes no imaginário social. Não é preciso fechar universidades; basta asfixiá-las lentamente. Não é preciso declarar guerra ao pensamento; basta tratá-lo como inconveniente. A tragédia maior talvez não seja a falta de recursos, mas a erosão simbólica do valor do conhecimento. Quando a inteligência deixa de ser admirada e passa a ser suspeita, algo profundo se rompe.

Educação não é apenas transmissão de conteúdos. É formação de critérios. É aprendizado da dúvida. É disciplina do raciocínio. É treino da complexidade. Sem isso, o debate público se reduz a palavras de ordem. A análise vira torcida. A crítica vira rótulo. E a política — qualquer que seja ela — passa a operar num terreno cada vez menos iluminado pela razão.

O mais inquietante é que os efeitos não aparecem imediatamente. Eles se acumulam. São graduais. São cumulativos. São geracionais.

Uma geração mal formada não apenas sabe menos; ela questiona menos. E uma sociedade que questiona menos se torna mais vulnerável a simplificações, promessas fáceis e soluções mágicas. Talvez o desafio maior não seja apenas reivindicar mais investimento — embora ele seja indispensável. O desafio é recuperar o prestígio cultural do estudo sério, do método, da pesquisa paciente, do professor que lê mais do que fala. Não se constrói uma nação sólida apenas com infraestrutura visível. Constrói-se também com infraestrutura invisível: bibliotecas ativas, laboratórios vivos, professores pesquisando, estudantes inquietos.

Se quisermos sair da república da superfície, será preciso coragem para reinvestir na profundidade. Coragem para aceitar que conhecimento não é gasto: é fundamento. Que universidade não é ornamento: é pilar. Que professor não é burocrata: é formador de futuro. A educação não precisa de slogans. Precisa de estrutura. Não precisa de aplausos episódicos. Precisa de continuidade. Não precisa de promessas inflamadas. Precisa de compromisso silencioso e persistente. Quando uma sociedade decide levar o conhecimento a sério, ela muda sua trajetória histórica.

Quando decide não levar, também.

DEU NO JORNAL

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DEU NO JORNAL

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OFENSA

Enquanto magistrados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os membros do Tribunal de Contas da União (TCU) ignoraram e autorizaram, por omissão, a propaganda eleitoral de Lula no desfile da escola Acadêmicos de Niterói bajulando o pré-candidato à reeleição Lula (PT) em pleno ano eleitoral, coube aos juízes do Carnaval do Rio tomar providências, batendo o martelo para rebaixar a escola que fez o pior desfile do ano.

A escola faturou alto, mas teve problemas na dispersão, alegorias ruins e presas na saída e até atrapalhou o andamento de outras escolas.

Foi muito apertada a distância entre as escolas, separadas por décimos na pontuação, mas a escola de Lula, não: ficou a 3 pontos da penúltima.

Um dia após a apresentação, o Palácio do Planalto defendeu o desfile e lembrou que nem TSE, nem TCU viram problemas. Não quiseram ver.

Além de pagar mico pela presepada, Lula ainda corre o risco de ver sua candidatura anulada na Justiça.

Deve ir atrás do autor da ideia de jerico.

* * *

A expressão “ideia de jerico”, que fecha essa nota aí de cima, ofendeu muito o jumento Polodoro, nosso querido mascote.

Ele relinchou de raiva e deu coices que só a porra.

Rincha, Polodoro!!!

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

HINO À RAZÃO – Antero de Quental

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, Portugal (1842-1891)