JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Cheguei ao Maranhão, morando sempre na capital, São Luís em 1987. Nunca brinquei carnaval, já estava satisfeito com o carnaval do Rio de Janeiro, onde morei por vinte anos.

No Maranhão, o bumba-boi me fascinou e conquistou. Me habituei a ir até aos muitos ensaios, sem preferência de sotaque (sotaque, aqui, significa a linha cultural e o ritmo a serem seguidas e apresentadas).

Dito isso, preferi curtir o carnaval em casa: lendo, dormindo e acordando. Acho que ganhei!

Na tarde de quarta-feira, 18, mudei de atitude e fui ao Shopping tomar um café, e espairecer. Café expresso, que gosto muito, acompanhado com uns pães de queijo, que também aprecio.

No playground do shopping (vejam: quatro palavras, duas de origem inglesa no nosso dia-a-dia de brasileiros), para saborear o café, estrategicamente sentado observei que, num espaço cheio de umas bolinhas plásticas, um menino sofreu um pequeno acidente, e logo surgiu um trauma. A mãe (ou Babá) ficou atarentada e aparentemente sem saber o que fazer. Pegou o celular e falou com alguém. Depois de desligar o telefone, saiu apressada para garantir o atendimento à criança.

Passada aquela cena, continuei saboreando o café com os pães de queijo – e foi aí que me vieram à mente cenas da infância, e quando sofria algum acidente. Se o trauma provocasse sangramento, eu mesmo punha areia sobre o machucado e continuava brincando. Na capital, minha mãe me socorria com o nosso maravilhoso merthiolate.

Ardia, o merthiolate?

Puta que pariu! Como ardia! Era pior que sofrer o acidente.

Mas, a cena que me veio à mente, não foi estando na capital. Era no interior, na casa da minha milagrosa Avó!

Se o trauma provocasse apenas um “dedo desmentido”, a solução era o emplastro de mastruz (ou mastruço), que curava em menos de 24 horas. O leite de jasmim ou pó de café também eram usados.

Mastruz a erva milagrosa

“Mastruz (Mastruço) Dysphania ambrosioides – é uma espécie de planta com flor pertencente à família Amaranthaceae. É popularmente conhecida como erva-de-santa-maria, mentruz, mastruz, mastruço, chá-do-méxico, erva-formigueira, lombrigueira ou quenopódio. É uma planta de porte herbáceo que possui ampla distribuição pelo Brasil e outros países da América Latina. A espécie possui diversas propriedades biológicas muito utilizadas na medicina popular para tratamento de humanos, destacando-se as atividades vermicida, anti-inflamatória e cicatrizante.”

Das Queimadas – povoado pertencente a Pacajus (município cearense onde nasci) – até a margem da BR por onde passavam os ônibus que levavam à Fortaleza, precisávamos caminhar cerca de 20 léguas, numa estrada de areia fofa que nos obrigava a retirar os calçados. Precisávamos lavar os pés, quando atingíssemos a margem da BR.

Melhor não sacrificar ninguém com essa caminhada (entendia e decidia minha anafabeta Avó), o que a obrigava a recorrer, sempre, às “meizinhas”. Meizinhas, nada mais era que providências e curativos inventados e seguidos entre nós: e que nos curava de tudo.

As meizinhas curavam até soluço. A melhor meizinha para curar soluço, lembro bem, era provocar um “susto” ao acometido.

Plano de Saúde era coisa do mundo da lua. Cirurgia, ninguém conhecia. E, muitas vezes, a melhor meizinha para certas doenças, era a morte. O falecido gosaria da eternidade divina.

Melhor lugar que muitos foram, e, de tão satisfeitos, nunca voltaram.

Mutamba ou mutambo afrodisíaco e antidiarréico

Mutamba (Mutambo) – (Guazuma ulmifolia), da família Malvaceae, é uma árvore nativa da América Latina usada na medicina popular para tratar problemas digestivos (diarreia, cólicas), quedas de cabelo, diabetes e como adstringente, anti-inflamatório e antioxidante, sendo usada em chás e loções capilares, mas seu uso deve ter orientação profissional. A Guazuma ulmifolia é espécie arbórea pioneira, integrante da familía Malvaceae, conhecida no Pará como embira e mutamba-verdadeira, no Rio Grande do Sul como embiru, na Bahia como periquiteira (daí a certeza de ser afrodisíaca), no Mato Grosso como envireira e pau-de-bicho e em São Paulo como araticum-bravo, cabeça-de-negro e guaxima-torcida, é uma árvore que ocorre nativamente do México ao Brasil. Ela é encontrada em todos os estados brasileiros nos domínios fitogeográficos: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga em vegetações de área antrópica, floresta de terra firme, Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila e Floresta Ombrófila Mista. A planta possui diversos usos, incluindo como forragem animal e em preparos para alimentação humana e medicina tradicional.”

Tadalafila, ninguém conhecia. Ainda mais naqueles cerrados onde até o diabo perdera as botas (tirou-as para caminhar no areal e esqueceu nunca se soube onde).

Mas, alguém sempre teve a meizinha certa para alguns casos. Minha Avó. A figura era mestra nessas coisas.

Quando meu Avô estava cansado e sem “coragem” (aqui tem o sentido de “sem tesão”, mesmo. Vontade de nhanhar), minha Avó preparava uma gemada de ovo de galinha caipira com o chá da folha da mutamba. Era tiro e queda. Vovó saía pela casa pedindo socorro e procurando o cachimbo para ir fumar na latada fronteiriça da casa.

Cravo-da-India – O cravo é uma especiaria originária da Indonésia, muito apreciado na culinária e muito presente nas masalas, a parte consumida é chamada de botão floral, que é usada como tempero e chá. Possui aroma intenso e sabor marcante e uma especiaria muito versátil para preparos doces e salgados. O seu uso em sobremesas remonta de um antigo hábito, está relacionado ao poder repelente para impedir a invasão de formigas. Seus benefícios são associados a bons estímulos digestivos e a uma marcante propriedade bactericida e fungicida. Analgésico: O óleo de cravo contém um composto chamado eugenol, que tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias. Por esse motivo, o cravo-da-índia é frequentemente usado para aliviar dores de dente e gengivas. Bactericida: O cravo pode ajudar a combater bactérias nocivas quando aplicado topicamente, como na limpeza de feridas ou em tratamentos naturais para infecções cutâneas. Fungicida: O cravo também possui propriedades antifúngicas, pode ser usado no tratamento de infecções fúngicas, como pé de atleta ou micoses de unha.

Cravo-da-índia – Muito usado na medicina popular e na culinária

Nas férias escolares, quando íamos para a casa da Vovó levávamos nossos produtos de assepsia pessoal. Sabonete e creme dental Eucalol. Colgate ainda não existia, muito menos o Kolynos. Mas, lembro bem, já existia o sabonete Phebo. Apesar disso, banhos no açude tinham o auxílio do sabão Pavão. O dentifrício, quando acabava, usávamos a raspa do juazeiro ou folhas de melão São Caetano.

Mas, como o assunto é “meizinhas”, nas aflições com dentes estragados que doíam, Vovó fazia uma gororoba com cravo-da-índia, embebia num pedaço de algodão e punha na “panela” do dente. Era como se fosse uma anestesia.

E… por que, dor de dente em criança ataca sempre durante a noite?

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