CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

BOAVENTURA BONFIM – FORTALEZA-CE

Caro Editor Berto,

Peço-lhe a gentileza de publicar nessa democrática Gazeta material gráfico, referente ao Projeto “CORDEL E REPENTE”, da lavra de nossa amiga Helena Leite, que vive na Espanha, filha do grande escritor, jornalista e poeta pernambucano/cearense Rogaciano Leite.

“CORDEL E REPENTE” leva Pernambuco para a 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Basta clicar aqui para ler.

Cordialmente grato,

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

(IN)GRATIDÃO

A algodoeira Nóbrega & Dantas nos meados dos anos 960 chegou a ser a maior do norte-nordeste.

Foi nessa organização empresarial que papai assinou a carteira pela primeira vez.

Nos meados dos anos 980 a grupo foi sendo derrotado pelo bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus Grandis) e mudando de atividade principal, sempre diversificando no ramo têxtil.

Trabalhando na malharia do grupo Nóbrega & Dantas, instalada no prédio onde por muitos anos foi o escritório sede da algodoeira em Acary, durante um tempo – entre o finalzinho de 1989 e o início de 1991 – papai ficou responsável pelo pagamento dos “moradores” da Fazenda Margarida, propriedade dos Nóbregas.

Todo domingo ele abdicava do seu descanso logo cedo e se dirigia a Cruzeta numa moto adquirida por seus patrões para uso exclusivo desse fim.

Um dia o chamaram em Macaíba, onde ficava a sede da FAMOSA, nova razão social da extinta Nóbrega & Dantas. Saiu de casa esperançoso que receberia o aumento solicitado e prometido três anos antes, para se aposentar com “um salário melhorzinho”.

Faltavam seis meses para se aposentar. Foi apenas comunicado de sua demissão.

Como consolo ficou a afirmação que ele era o último demitido do grupo em Acary.

Chegou em casa arrasado.

Fora leal à família durante quase trinta anos, sempre recebendo um salário mínimo, mesmo tendo sido “promovido” duas vezes.

Papai foi um dos poucos que exerceu cargo de chefia e mexeu diretamente com o dinheiro dos Nóbregas e não “saiu rico”.

Sua honestidade é um norte para mim. Um exemplo mais valioso que muitas heranças gordas.

Para se aposentar meu irmão mais velho assumiu as obrigações com o Estado durante os seis meses restantes.

Papai se aposentou com um salário mínimo. Um!

Ainda assim cobrou enquanto pode que tivéssemos gratidão: “sustentei vocês com o salário que recebia de lá”.

Coisas que o Alzheimer dele já o fez esquecer.

Mas, às vezes, eu ainda lembro.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

INFÂNCIA SALUTAR E SAUDOSA

O “leiteiro” domiciliar

Costumo defender a tese de que “o mundo não mudou – mudaram as pessoas”, fruto, talvez, de uma criação diferenciada, por famílias que não se quer admitir, passaram a valorizar algo e/ou caminhos que não levam à lugar nenhum. O caminhar do caranguejo.

Equivocados estão os pais que, injustificadamente, facilitam tudo para os filhos, tentando justificar que apenas querem evitar que os dependentes passem pelas dificuldades que, eles, pais, passaram.

Ué, e tem escola melhor que a vida?

Como um jovem vai ganhar experiência, se “encontrar a comida mastigada”?

Não queiram esconder, jamais. Todos os erros cometidos aqui e alhures, são iniciados em casa, com a conivência familiar dos pais ou dos avós. Mente quem diz o contrário.

Dito isso, jovem ainda, imaginei estar apaixonado por uma jovem que conhecera casualmente numa missa matinal de um domingo ensolarado – sempre o sol a iluminar!

Servi ao Exército e dei baixa. Servi no CPOR de Fortaleza. Comecei a trabalhar, e, logo surgiu oferta de melhor salário, mudei para a Western, como Teletipista. O salário melhorou seis vezes mais.

Comprei uma “radiola portátil movida a pilhas”. Comprei vinis pequenos e grandes. Dava preferência às músicas instrumentais (sempre fui assim).

“Apaixonado” mais que qualquer um, aderi às serenatas feitas com aquela radiola. Ron Montila no bolso traseiro das calças, e dois ou três amigos na companhia. Víamos coisas estranhas naquelas madrugadas de serenatas.

Eis que, escuridão noturna indo embora, dando lugar à claridade do dia, surgia a figura do “Leiteiro” – uns em montarias de éguas, e outros com algo parecido com o que hoje chamam de “delivery” – colocando um, dois ou até três garrafas de leite nos batentes das portas de algumas entradas residenciais.

A juventude era diferente, pois ainda não adquirira a cultura de “roubar um celular para vender e tomar uma cervejinha”. Ninguém mexia ou vandalizava aquelas garrafas.

Essa é uma saudade que dói.

Meninos “tocando” a campainha

A outra que atiça a lembrança: fim de tarde, crianças que frequentavam a escola no período matinal, reuniam nas calçadas da rua para brincar e fazer travessuras. Travessuras que jamais prejudicaram a alguém.

As casas eram enormes em profundidade. As donas das casas, via de regra, nessa hora estavam na cozinha preparando o jantar. Havia sempre o mais travesso da turma, ou alguém que não morava na rua onde era feita a travessura: tocar a campainha e sair em disparada.

Quem fez isso, relembrando, sabe como era gostoso!

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARCOS MAIRTON – BRASÍLIA-DF

Berto, querido amigo,

Com toda essa polêmica sobre redes sociais e sua permanência ou retirada do ar, deixe eu convidar os amigos fubânicos a ouvir e compartilhar a minha canção “NINGUÉM VAI ME OUVIR”.

Lembrando que o vídeo é do ano passado, o que significa que a parte em que apareço usando o Twitter foi gravada quando essa era uma atividade permitida no Brasil.

DEU NO JORNAL

A CULPA

O banimento do X nivelou o Brasil às cinco ditaduras que adotaram medida idêntica.

A pretexto de restringir redes sociais, Coreia do Norte, China, Cuba, Irã, Mianmar, Turcomenistão e Venezuela conseguiram vedar o acesso de milhões de pessoas a esse espaço onde se expressavam livremente na crítica aos governos.

Ditadores como Nicolás Maduro tentam disfarçar, direcionando sua ira contra Elon Musk, dono do X, como o fez recentemente, mas o objetivo mesmo era calar os críticos.

Tentar culpar o mensageiro pelo conteúdo da mensagem é tão absurdo quanto criminalizar os Correios pela carta com conteúdo criminoso.

* * *

A frase que fecha esta nota aí de cima resume tudo.

Se a mensagem é criminosa, a culpa é dos Correios.

Simples assim.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CARRO VELHO

Se eu puxar a maçaneta
A praga cai nos meus pés
Não vale um conto de rés
Vou quebrá-lo de marreta
Do óleo, aquela vareta
Já não consigo puxar
Se eu saio pra passear
Lá vem um pneu rasgado
Quem tem carro velho usado
Tem o cão pra lhe atentar.

Hélio Crisanto

Já fiz muito finca-pé
Pra empurrá-lo em ladeira
Quando eu engato a primeira
Pula da quarta pra ré
Se eu ainda tomasse “mé”
Tentaria consertar
Mas parei de “biritar”
Pra não ser “flagranteado”
Quem tem carro velho usado
Tem o cão pra lhe atentar.

Wellington Vicente

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria da Penha

Maria da Penha Maia Fernandes nasceu em 1/2/1945, em Fortaleza, CE. Farmacêutica e ativista do direito das mulheres, foi vítima da violência doméstica, tornando-a paraplégica. Batalhou para que seu agressor fosse condenado com base na lei que recebeu seu nome, promulgada em 7/8/2006. Sua atuação fez com que este crime saísse da área dos juizados especiais, que julgam crimes de menor potencial ofensivo, modificando a competência para julgá-los

Em 1983, seu marido, o colombiano e professor universitário Marco Antonio Heredia Viveros, deu-lhe um tiro em suas costas, enquanto dormia, e deixou-a paraplégica. Sua alegação foi que o tiro ocorreu devido a uma tentativa de assalto e não foi preso. Ela passou por duas cirurgias, internações, tratamentos e retornou para sua casa 4 meses depois. Após ser mantida por 15 dias em cárcere privado, o marido, tentou assassiná-la pela segunda vez, agora por eletrocussão durante o banho.

Com apoio da família e amigos, ela pode sair de casa sem que isso pudesse configurar abandono do lar, correndo o risco de perder a guarda dos filhos, dando-lhe apoio jurídico. Assim, foi iniciado um processo contra o agressor, que durou 8 anos. Com isto, configurou-se mais um ato de violência, cometido agora pelo Poder Judiciário. Em 1991, ocorreu o primeiro julgamento. O agressor foi sentenciado a 15 anos de prisão, mas devido a recursos impetrados pela defesa, saiu do fórum em liberdade.

Sua luta em busca de justiça continuou foi intensificada com seu relato publicado no livro Sobrevivi… posso contar, publicado em 1994, em Fortaleza pela editora Armazém da Cultura. Com a lentidão da justiça, somente 2 anos depois deu-se o segundo julgamento. O agressor foi condenado a 10 anos e 6 meses de prisão. No entanto a defesa recorreu alegando irregularidades processuais e mais uma vez a sentença não foi cumprida. Em artigo publicado em 2003, a advogada Carmem Campos apontou as várias deficiências desta prática jurídica, que, na maioria dos casos, gerava arquivamento massivo dos processos, insatisfação das vítimas e banalização da violência doméstica.

A partir daí o caso Maria da Penha ganhou dimensão nacional, impulsionado pela divulgação do livro e sua participação na imprensa através de entrevistas. O caso foi levado às organizações não governamentais CEJIL-Centro para a Justiça e o Direito Internacional e CLADEM-Centro Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, que lhe perguntaram se ela aceitava denunciar o Estado brasileiro à CIDH/OEA-Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos.

A denúncia foi aceita, em 1998, e o caso assumiu o caráter de litígio internacional, o qual trazia uma grave questão de violação dos direitos humanos e deveres protegidos por documentos que o próprio Estado assinou. Mesmo assim, o Estado brasileiro permaneceu omisso e não se pronunciou em nenhum momento durante o processo. Assim, em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001) − e silenciando diante das denúncias −, o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. A história de Maria da Penha significava mais do que um caso isolado: era um exemplo do que acontecia no Brasil sistematicamente sem que os agressores fossem punidos.

A CIDH/OEA, além de responsabilizar o Estado, em 2001 pelo crime, deu 9 “recomendações” ao Governo brasileiro. A primeira foi “Completar, rápida e efetivamente, o processamento penal do responsável da agressão e tentativa homicídio em prejuízo da Senhora Maria da Penha Maia Fernandes”. A última foi “Incluir em seus planos pedagógicos unidades curriculares destinadas à compreensão da importância do respeito à mulher e a seus direitos reconhecidos na Convenção de Belém do Pará, bem como ao manejo dos conflitos intrafamiliares”. Entre as “recomendações”, há uma crítica a manutenção de impunidade por mais de 15 anos e a necessidade de ação reparatória e indenização civil

Assim, foram lançadas as bases para a elaboração da Lei, em 2002, através de um consórcio de ONGs feministas. Após muitos debates com o poder Legislativo, o Executivo e a sociedade, o Projeto de Lei nº 4.559/2004, da Câmara dos Deputados, chegou ao Senado Federal e foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas. A Lei nº 11.340 foi sancionada em 7/8/2006 e o Estado do Ceará teve que pagar uma indenização à requerente. O Governo Federal nomeou a Lei com o nome Maria da Penha, como forma de reparação simbólica. 18 anos após, o presidente do STF-Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, fez um pedido de desculpas à Maria da Penha pela demora e por falhas da justiça brasileira.

A Lei Maria da Penha é considerada pela ONU como uma das três leis mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica e familiar contra mulher. A mulher que a nomeia continua vigilante quanto a sua aplicação através do IMP-Instituto Maria da Penha, organização não governamental, criada em 2009 (https://www.institutomariadapenha.org.br) com sede em Fortaleza e representação no Recife. Recebeu inúmeras homenagens em seu País e no mundo: Ordem do Rio Branco (2009), Medalha da Abolição (2015), Prêmio Franco-alemão de Direitos Humanos (2013), Orden de Isabel la Católica (2011), International Women of Courage Award (2010) etc.

Os interessados em conhecê-la melhor podem acessar uma entrevista sua clicando aqui.