Lula recebeu Maduro no Palácio do Planalto com honras de Estado em 2023
A imprensa que desistiu de ser imprensa demorou a admitir de verdade que Nicolás Maduro é um ditador e que, mais uma vez, a Venezuela pode ser vítima de uma fraude eleitoral. Lula ficou “assustado” com as ameaças do amigo de que, se a oposição vencer, haverá uma guerra civil e um banho de sangue no país. Nossa… Perseguir, prender opositores (matá-los?) ou torná-los inelegíveis, tudo isso parecia normal até anteontem. Maduro faz isso; Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, outro amigo de Lula, também. E estava tudo bem… Vladimir Putin, igualmente apoiado pelo petista, sempre adotou essa “estratégia”, e recebeu até “cartinha de amor” de Lula… Sigilosa, claro, mas obviamente com felicitações por mais uma eleição fraudulenta concluída com sucesso.
A imprensa, por questões particulares, está quase sempre tentando concordar com a turma de Lula. Os fatos, o que são os fatos? O apego ao mundo real, o senso crítico, isso é perigoso, pode provocar problemas… Mesmo quando agredidos, muitos “jornalistas” preferem dar de ombros. Ninguém nunca atacou a imprensa como Jair Bolsonaro… Nem o ditador da Venezuela, que, essa semana, chamou veículos internacionais, como as agências EFE, AFP e AP e a emissora CNN, de “assassinos de aluguel”. Nem Lula, que chamou jornalistas que fizeram críticas a ele de “cretinos” e “titica de cachorro”. E o jogo segue… Maduro pode falar e agir à vontade contra críticos – políticos, profissionais de imprensa, portais de notícias e canais independentes, influenciadores… Ele controla o Judiciário venezuelano, tem parentes e aliados fiéis em cargos importantes nesse poder. Lula tem muitos amigos e alguns aliados de ocasião no STF, que parece acima do Executivo e do Legislativo. E claro que o petista não se opõe às ações do Supremo contra aqueles que ele considera inimigos e chama de “extremistas” e “radicais”.
Para o petista, todos que não concordam com ele deveriam ser eliminados. Essa é a meta, cumprida parcialmente, por enquanto, com Bolsonaro inelegível, perseguições e prisões políticas, jornalistas exilados, sem passaporte, com contas bancárias bloqueadas, redes sociais banidas… Empresários, influenciadores, pessoas comuns, a ninguém será permitido criticar o Lula, e criticar o Supremo, e criticar o TSE. Nicolás Maduro que se cuide… Foi inventar de falar mal do sistema eleitoral brasileiro… Na nossa “imprensa”, virou “bolsonarista”: “Maduro adota discurso de Bolsonaro e diz que sistema eleitoral do Brasil não é auditável”; “É inadmissível tolerar fala bolsonarista de Maduro sobre eleições no Brasil”; “Maduro lembra Bolsonaro, que usou urnas para escalada golpista e acabou inelegível”.
A imprensa que desistiu de ser imprensa faz questão de esquecer que Lula já questionou nosso sistema eletrônico de votação e totalização dos votos: “Nada é infalível, só Deus”, o petista declarou… Maduro só repetiu o que já disseram, em outros tempos, ministros do atual governo, como Simone Tebet e Carlos Lupi. E também Flávio Dino, agora no Supremo. E ministros do STF… E Ciro Gomes, João Amoêdo, Roberto Requião, Carlos Sampaio… A lista é enorme. Todos, certamente, “bolsonaristas”. Maduro não entrou no grupo agora. Já tinha sido chamado de “conservador”… Putin também. Até Lula vira “bolsonarista” quando a imprensa procura desesperadamente um jeito de ajudá-lo. No ano passado, Metrópoles, O Globo, UOL, Folha, essa turma toda publicou coisas assim: “A profusão de declarações polêmicas de Lula tem um quê do jeitão ‘vingativo’ e ‘fora da casinha’ de Bolsonaro”; “Bolsonarização de Lula assusta aliados de centro e até do PT”; “Clima de violência é fruto dos instintos despertados pelo bolsonarismo”…
Há sempre um pano para Lula, não importa o que ele faça ou fale, e uma guilhotina para Bolsonaro. Saiu numa coluna do UOL, essa semana: “Lula coleciona falas machistas, ainda que nem de perto eu perceba nele o desprezo que Bolsonaro sentia por mulheres, o sentimento era de falta de respeito”. É a imprensa desvairada que também sempre chamou Donald Trump de “machista” e “misógino”. A mesma que agora trata o republicano como um “idoso decrépito” e questiona se ele já não passou da idade de ser presidente, evitando citar que Lula é quase um ano mais velho do que Trump… A mesma que passou os últimos anos dizendo que Joe Biden estava “em forma e bem” e que agora tenta transformar o democrata num “patriota”, num “herói”, por “abrir mão” da reeleição. A mesma que sabe que Joe Biden foi obrigado a desistir de concorrer.
O jornalismo que correu para o ralo decidiu que há “extremistas perigosos” apenas de um lado. Eles são uma “ameaça à democracia”, e ninguém precisa de fatos para confirmar essa história. Donald Trump sobreviveu a um atentado. Jair Bolsonaro também. A imprensa que desistiu de ser imprensa fez força para não acreditar nas duas tentativas de assassinato. Discretamente ou descaradamente. Há também os que lamentaram e ainda lamentam que Adélio Bispo e Thomas Matthew Crooks tenham falhado. São os “democratas” que não querem oposição a eles. Os outros não são seres humanos, devem ser extirpados. Maduro, disparando ameaças, avisou que “haverá justiça contra os fascistas” e chamou Bolsonaro e Milei de nazistas… Um ditador pode tudo. Lula, no lançamento da campanha de Guilherme Boulos, vociferou contra “nazistas, fascistas, genocidas e negacionistas”, aqueles que ele quer enxergar. E tudo o que possa “desabonar” Maduro e Lula, para a imprensa destrambelhada, de alguma forma, será sempre uma influência maléfica de Jair Bolsonaro.
Alzheimer é o sobrenome mais apropriado para o termo “morte lenta”. O sujeito vai deixando de existir aos poucos.
Vai vivendo como uma garrafa que caiu e se rachou, deixando o líquido que lhe ocupava ir saindo devagar, devagar, devagar, até o momento que restará apenas o vidro vazio.
Certamente a garrafa será descartada. A vida também descarta o homem com Alzheimer.
É duro para quem vai vendo o “líquido” escorrer, sem nada poder fazer.
Dia desses papai passava diante de um espelho. Quando se viu ele cumprimentou seu reflexo como se não o conhecesse. E não o conhecia de fato.
O espelho passou a ser para ele uma porta. Pediu licença para passar, e insistiu ao não receber resposta.
– Hômi, eu quero passar. Saia do meio – pedia ao seu reflexo calado no espelho. Segurou com as duas mãos a moldura, como se segurasse nos umbrais de uma porta. E pedia insistentemente, suplicando por passagem livre. A neta mais velha gravou a triste cena.
Quando viu que “o outro” não lhe dava passagem, agrediu o espelho com uma joelhada leve, exclamou um palavrão e saiu irritado. De tão fragilizado também fisicamente, o espelho nenhum dano sofreu com a agressão.
Minha garrafa, ou melhor, o meu pai, vai perdendo o seu conteúdo, como um vidro que se rachou na queda. Ainda tem o cheiro do meu pai, a voz do meu pai, a “casca” do meu pai… ainda é o meu pai e não deixará de sê-lo!
Celso Amorim, o supra-chanceler do Brasil, disse que a democracia na Venezuela está consolidada. O seu chefe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fingiu-se assustado com as declarações do ditador Nicolás Maduro sobre haver o risco de um banho de sangue no país se não for mantido no poder.
O presidente Lula, por sinal, é possivelmente aquele que mais evoca uma anomalia para dizer que a Venezuela é uma democracia pujante, com “mais eleições” que o próprio Brasil.
O que o presidente brasileiro não sabe – ou faz parecer não saber – é que os eventos de massa que envolvem milhões de pessoas na Venezuela não são eleições de fato. Já tratei sobre este tema que retomo aqui com três perguntas.
É possível chamar de “eleição” um processo no qual o incumbente controla todas as instâncias dos poderes? Que entre as medidas de contenção dos opositores prende, exila, inabilita e até espanca?
Mesmo assim, todo mundo chama o teatro de Maduro (e de diversos outros autocratas) de eleição, por vício do conceito. Por acreditar que a “eleição”, aos moldes deles, é de fato a eleição, um dos elementos das democracias. Uma confusão que serve apenas aos autocratas.
Há muitos cenários possíveis com a divulgação do resultado do simulacro de eleição na Venezuela. Nenhum deles é bom. Nenhum mesmo. Escolho dois.
O primeiro cenário
Maduro vence. O ditador sai triunfante do espetáculo e, como diz Celso Amorim, consolida de vez a democracia venezuelana. Não haveria motivos para sanções. Todo mundo interessado em fazer um bom dinheiro na Venezuela estaria livre para ajudar a reconstruir o país e faturar. Parece lindo, mas a Venezuela, sob o chavismo, se transformou em uma realidade avessa a qualquer institucionalidade ou lei.
Maria Corina, a líder opositora, já inabilitada politicamente por um processo surreal – sem provas ou sequer uma acusação clara –, vai para prisão ou exílio. Quem quer que se associou a ela, mais proximamente, também entrará para a lista daqueles que deverão ser varridos do mapa.
Em 2018, quando Maduro esquentou o seu segundo mandato em um dos processos de simulação eleitoral, mais de 50 países julgaram sua “vitória” ilegítima, e reconheceram Juan Guaidó, em janeiro de 2019, como presidente interino que deveria fazer a transição democrática. Não serviu de nada. Houve muita retórica, agravamento das perseguições, crises e Maduro seguiu em frente.
É evidente que o mundo saberá que a permanência de Maduro, e seu regime no poder, é resultado de uma farsa. Mas, qual será a resposta? A receita de cinco anos atrás, com sanções ao regime e seus membros, não funcionou. Além disso, nos Estados Unidos, de onde saíram as maiores pressões contra o regime naquele longínquo 2019, o lobby petroleiro não vê a hora da Venezuela ganhar o atestado de democracia. O mesmíssimo já auferido por Celso Amorim.
O povo venezuelano já tomou as ruas em protestos massivos nos anos de 2014, 2017 e 2019. Mais de 220 pessoas foram mortas, mais de 11.000 foram presas, e outras milhares feridas gravemente. O mundo assistiu e torceu por eles. Mas só. Depois de meses sofrendo toda ordem de abusos, voltaram para casa, sob uma onda redobrada de violência perseguição e pobreza.
Os venezuelanos estariam novamente dispostos a voltar para as ruas e enfrentar com paus e pedras os militares venezuelanos com seus blindados? Com os paramilitares armados e sustentados pelo regime? Suspeito que não. Mas se insistirem, não terão destino diferente dos protestos passados.
O segundo cenário
Maduro perde. As pesquisas são confirmadas e o ditador, apesar de todo o controle sobre o seu simulacro eleitoral, não consegue conter a vontade popular que resiste ao medo e as ameaças (fatores que determinam o voto na Venezuela) e conquista nas urnas – a despeito de não se tratar de uma eleição de fato – a saída de Maduro, que está no poder desde 2013.
Mas quando falo, ou falamos de Maduro, vale ressaltar, estamos nos referindo à cara, ao personagem mais visível de um regime com estrutura e ramificações profundas que não se rompem da noite para o dia. O falecido Hugo Chávez (1954-2013) e depois o seu substituto Maduro criminalizaram o Estado.
O regime é um conglomerado de máfias locais – políticas e criminais – combinado com organizações de crime organizado transnacional, e atores estatais externos que usam a Venezuela como ponta de lança para seus interesses no Ocidente.
São armados, ensandecidos e sob coordenação de interesses e atores que não pensariam duas vezes em usar da violência para garantir seus direitos.
E como a Venezuela não é uma democracia “consolidada” e muito menos um país regular, ainda que se tire o ditador, não se desmonta o regime e suas bases. Esses elementos são mais sólidos e duradouros que a figura do líder.
Em um “subcenário” onde os chavistas não partiriam para a pancadaria, mas negociam a paz em troca de seus direitos políticos e negócios ilícitos, vai dar para dizer que a Venezuela entrou nos trilhos?
Por esses dois caminhos que resumem os destinos possíveis da Venezuela, apesar de uma infinidade de variações dentro de cada um deles, não há chances de esperar por um final feliz. Nicolás Maduro e o chavismo sabem que, em um contexto de derrota, em tese, não haveria para eles uma outra opção além da prisão, exílio ou morte.
Por essa razão, Nicolás Maduro não combina com eleições. Ele só aceita montar o teatro, assim como nas demais autocracias eleitorais, para dar aos seus aliados a justificativa minimamente moral para apoiá-lo. A ficção é para dar legitimidade a discursos como o do Brasil de Lula e Celso Amorim.