Alzheimer é o sobrenome mais apropriado para o termo “morte lenta”. O sujeito vai deixando de existir aos poucos.
Vai vivendo como uma garrafa que caiu e se rachou, deixando o líquido que lhe ocupava ir saindo devagar, devagar, devagar, até o momento que restará apenas o vidro vazio.
Certamente a garrafa será descartada. A vida também descarta o homem com Alzheimer.
É duro para quem vai vendo o “líquido” escorrer, sem nada poder fazer.
Dia desses papai passava diante de um espelho. Quando se viu ele cumprimentou seu reflexo como se não o conhecesse. E não o conhecia de fato.
O espelho passou a ser para ele uma porta. Pediu licença para passar, e insistiu ao não receber resposta.
– Hômi, eu quero passar. Saia do meio – pedia ao seu reflexo calado no espelho.
Segurou com as duas mãos a moldura, como se segurasse nos umbrais de uma porta. E pedia insistentemente, suplicando por passagem livre. A neta mais velha gravou a triste cena.
Quando viu que “o outro” não lhe dava passagem, agrediu o espelho com uma joelhada leve, exclamou um palavrão e saiu irritado. De tão fragilizado também fisicamente, o espelho nenhum dano sofreu com a agressão.
Minha garrafa, ou melhor, o meu pai, vai perdendo o seu conteúdo, como um vidro que se rachou na queda. Ainda tem o cheiro do meu pai, a voz do meu pai, a “casca” do meu pai… ainda é o meu pai e não deixará de sê-lo!
Cheio ou vazio.
Desculpem por este desabafo.
Sei o que está sentindo, eu vivi essa mesma triste historia por 16 anos com minha mãe. Certa feita, diante do espelho do elevador, minha mulher lhe falou: veja Dona Maria como a senhora está bem arrumada, olhou-nos seriamente, como que nos repreendendo, disse: “eu não essa velha feia” – dando a impressão que estava lúcida, isso durou apenas um segundo. E ela volta para dentro de si.
Duro, amigo, vivermos isso.
Jesus, conheci isso na Avó da minha mulher. Algo que prefiro não descrever. Ela tinha uma filha (não era minha sogra) que cuidava dela. Cuidava de tudo. Aquela filha ainda que vivesse, aos poucos morreu junto. Cuidou da mãe no estágio vegetativo, e, infelizmente, também vegetou. Anos depois, a filha desencarnou mas, na verdade, morrera junto com a mãe.
Caro amigo, lamento muito por seu pai. Vivo experiência igual a está com meu avô e meu sogro, fui umas das últimas pessoas a estar com ele antes de sua garrafa esvaziar. Não vou descrever os ocorridos, acho desnecessário.
Desejo apenas que Deus em sua bondade lhes dê forças para superar esta fase, cuidando de seu pai da melhor forma possível. Ele continuará “cheio” em sua memória. Abçs.
Jesus, não peça desculpas. Quem está acompanhando ou já acompanhou o líquido se esvaindo da garrafa sabe bem do seu sentimento.
Sempre leio sua coluna e em uma delas você disse algo que me marcou com relação a seu pai. “Uma grande caixa amarela de panetone Bauducco”.
Vi também uma foto dele com o neto. Algumas coisas permanecem na nossa memória mesmo sem conhecer os envolvidos. Pra mim seu pai é doce com sabor inconfundível do panetone que ele tanto gosta. Minha avó teve Alzheimer. Olhava para ela e ficava imaginando em qual mundo ela estava vivendo. E pedia a Deus que fosse um mundo de sonhos e alegrias. O líquido esvaziou e ela continua, na saudade, sendo minha avó querida.
Um abraço.
É lamentável meu amigo, e entendo você profundamente. O seu pai está dentro do seu coração e continui amando ele como garrafa não se rachou. Abraço grande poeta.
Minha solidariedade, amigo Jesus de Ritinha de Miúdo! O seu texto contém muito amor filial e o desalento de não poder conter o avanço do tempo, no caso do seu Pai!
Somos pobres seres viventes e não podemos questionar os desígnios de Deus.
Muita força!
Agradeço pela solidariedade e empatia de todos vocês.
Alguns comentários fizeram transbordar ambas as cacimbas do meu rosto.
Meu olhar virou rio. Rio de emoções descendo para o coração.
Corações virou mar de agradecimento.