CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

INSTANTES ETERNOS

Para acalentar o desconsolo de haver-me tornado adulto, de quando em quando aplico um olhar retrospectivo sobre os instantes da aurora menineira, ocorridos no sertão. Para esse efeito, valho-me, eventualmente, dos meus escritos preferidos, um grosso maço de folhas, todas em adiantado estado de esgarçadura. É que as lembranças a terra não as come, mas o tempo se encarrega de apagá-las.

O sertão a que aludo não é o de hoje, mas o de ontem: inculto, sem pressa, sem relógio, sem rádio, sem telefone, sem maquilagem, sem apuramento de fidalguia, sem estresse coletivo, enfim, em estado virginal. Os adultos daqueles tempos sertanejos tinham o vezo de povoar as mentes infantis com histórias míticas e lendas de assombração, algumas inverídicas, mas que os miúdos as davam por verdadeiras. Isso se passava nos terreiros enluarados, ao ensejo dos serões familiares, quando o clarão das fogueiras imensas, crepitando em labaredas rubras, tanto denunciava as caras entorpecidas de sono quanto banalizava o breu da noite. Os faróis intermitentes dos pirilampos, que vagavam na pretidão das noites, sobremaneira nas florestas densas (que hoje não existem mais), exerciam indescritível fascínio sobre a infância, crédula e tola.

O concerto da passarada tinha dupla serventia: saudar o alvorecer e despertar os dorminhocos. As flores silvestres, perfumosas e multicoloridas, viviam enxameadas de insetos. As borboletas, indecisas, ataviavam os jardins, as ramadas, as pradarias. Dentre as cobras mais bonitas a coral desfrutava da minha admiração; seu veneno tanto matava quanto concedia soro salvador. Os nomes que escrevi, a carvão, nas paredes caiadas, já não os lembro. Igualmente não lembro das preces que a minha mãe rezava para Deus clarear a minha estrada. Dentre os meus medos o mais pavoroso dizia respeito ao “velho do surrão”. Quanto aos sonhos que sonhei, agora pálidos, desfigurados, por certo se tornaram prisioneiros de coleira das noites do esquecimento. Para os meus banhos habituais, minha preferência era pelas águas frescas do Riacho do Aleixo, desde que não estivesse cantando grosso.

Ainda que muito mais eu possa dizer sobre os instantes menineiros, limito-me, exemplificativamente, a esses, sobreditos. É o aperitivo que ofereço para abrir a porteira do imaginário dos leitores, quiçá latejando.

Aliás, o ato de retornar ao berço além de aliviar o peso da adultidade é a régua mais competente para medir o quanto as pessoas se modificaram.

Agora, que vou pingar um ponto final nesse mostruário menineiro, fio que a Divina Providência não me falte com a lenha que mantém acesa as relíquias da infância, ainda que murchas.

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

O AEROLULA E AS AGRURAS DO PRESIDENTE VIAJANTE

Diogo Schelp

Lula

Chegada do presidente Lula a Lisboa, em 21 de abril, acompanhado da esposa, Janja

O presidente Lula está insatisfeito com o Aerolula, o avião oficial da presidência, um Airbus 319CJ, desde o final do seu segundo mandato, em 2010, quando preparava-se para transferir o bastão para Dilma Rousseff. E isso que o Aerolula, como o apelido da aeronave indica, havia sido comprado por encomenda do próprio Lula, em 2005, ao custo de 56,7 milhões de dólares.

O Aerolula tem baixa autonomia, o que significa que precisa ser reabastecido antes de completar doze horas no ar. Em uma viagem à Ásia, por exemplo, são necessárias pelo menos duas escalas, algo que Lula classificava já em 2010 como “humilhante”. Dilma Rousseff não mandou comprar outro avião. Já havia sido um desgaste político grande quando seu antecessor e mentor decidiu trocar de aeronave poucos anos antes.

O Aerolula continuou em uso nos anos seguintes, servindo tanto a Michel Temer quanto a Jair Bolsonaro. Temer, porém, chegou a alugar por três anos um Boeing 767-300ER capaz de voar por 11.000 quilômetros sem reabastecer, contra os 8.500 quilômetros do Aerolula. Mal completou o primeiro semestre do seu terceiro mandato, e Lula já iniciou as tratativas para substituir o Aerolula por um avião maior, com mais autonomia e… com mais conforto para o casal presidencial.

Além da “humilhante” baixa autonomia do A-319CJ, Lula agora reclama que o avião precisa ter uma suíte com cama de casal maior e banheiro com chuveiro para ele e a primeira-dama Janja poderem rodar o mundo. Também quer um pequeno escritório e uma sala de reuniões, além de cerca de 100 poltronas semileito para os ministros e assessores. Uma das alternativas colocadas para a Aeronáutica é adaptar um dos dois Airbus 330 comprados na gestão de Jair Bolsonaro para uso militar. O custo ainda está sendo estudado.

Em um momento em que o governo está sob pressão para demonstrar responsabilidade fiscal e é suspeito de querer equilibrar as contas públicas com aumento de impostos, em vez de corte de despesas, qualquer gasto adicional que pareça supérfluo ou não emergencial pode representar um ônus político. Mas Lula, pelo visto, considera que comprar ou adaptar um novo avião “não é gasto, é investimento”. O desejo de ter um equipamento para voar com mais conforto sinaliza claramente que Lula pretende fazer do seu terceiro mandato o recordista em viagens internacionais.

O recorde já está sendo estabelecido: 13% do mandato atual de Lula já foi gasto fora do país, contra 11% de Bolsonaro nos primeiros meses de governo, 10% de Temer e 8% do início do primeiro mandato de Dilma Rousseff e 5% do segundo. Lula 3 também já está viajando mais do que Lula 1, que passou 8,5% do início do mandato no exterior, e Lula 2, com 10%.

Também quando se faz a comparação do número de viagens em todo o mandato, Lula foi recordista entre os presidentes desde o fim da ditadura militar. E caminha — ou voa — para bater o próprio recorde. Até agora, Lula já foi para Estados Unidos, Argentina, Uruguai, China, Portugal, Espanha, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos e Japão. E já tem previstas viagens este ano para França, Argentina novamente, Colômbia, Bélgica, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Índia e de novo para os Estados Unidos. Também há a possibilidade de que ele vá ao Vaticano para visitar o papa Francisco.

O que pretende Lula com tanta viagem internacional, se enfrenta tanta dificuldade no âmbito doméstico, por exemplo na aprovação de projetos de interesse do seu governo no Congresso — onde já se demonstrou que não possui uma base sólida?

A ênfase nas viagens é resultado da pretensão que Lula tem de marcar seu terceiro mandato por conquistas na arena internacional. Para isso, ele recorre à diplomacia presidencial, que consiste em deslocar o processo decisório em política externa do Itamaraty para a presidência. Esse deslocamento tem por objetivo promover mudanças mais rápidas nas relações externas, contornando a burocracia ou a “tradição” diplomática dos funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores. É uma forma de colocar preferências ideológicas e partidárias do presidente acima de políticas de Estado, de continuidade diplomática.

Outro efeito da diplomacia presidencial é o papel de caixeiro viajante assumido pelo presidente, o que o aproxima de setores empresariais interessados em negócios no exterior. Em resumo, a diplomacia presidencial favorece a absorção da ideologia e a influência do lobby empresarial na política externa. Já sabemos onde isso vai dar, certo?

DEU NO X

ALEXANDRE GARCIA

PLANOS RISÍVEIS

Risíveis planos de Lula: moeda única do Mercosul e o “caminhão popular”

Lula com o presidente argentino Alberto Fernández

Eu não sei se é de rir ou de chorar, né? Essa história que foi anunciada para supostamente agradar o consumidor que deseja ter carro 0 quilômetro, mas principalmente para agradar as montadoras, que estão fechando pouco a pouco, se paralisando por falta de mercado. O tal do carro popular. Então vai haver a redução de impostos federais para carros até R$ 120 mil.

Imagina, R$ 119 mil ser carro popular. Só que não. O ministro mudou a ideia, um dia depois. Não vai ser um bônus. Obviamente vai dar a corrupção, né? Vai dar falsificações aí no meio, nesse bônus. Claro que não vai dar certo, é mais uma interferência em mercado. É muito mais fácil o governo não se meter, gastar menos consigo mesmo, e cobrar menos imposto das pessoas, aí tem menos imposto sobre o carro, e o carro fica mais barato, sobre todos os componentes do carro. Sobre todas as operações mercantis envolvendo um veículo. Só que também não, nem o bônus.

Agora o ministro da Fazenda diz que foi repaginado o programa, vai ser caminhão e ônibus. Como é que é? Caminhão e ônibus, popular, pra facilitar o moço ali que queria ter um carrinho, ele compra um ônibus? E aí leva família, amigos, todo mundo, né? Só que, por isso que eu digo, é risível, mas é de chorar. Caminhão e ônibus, já são subsidiados com redução de impostos federais sobre o diesel, todo o combustível que caminhões e ônibus usam já é subsidiado. É uma coisa assim, sem lógica. Sem raciocínio.

* * *

Moeda do Mercosul

E tem uma outra coisa que o presidente Lula confirmou, depois de tanto negar, o ministro da Fazendo falou em moeda única no Mercosul e tal, o presidente Lula naquele fiasco daquela reunião em Brasília, em que ele trouxe o Maduro para tentar empurrar goela abaixo a ditadura venezuelana nos outros presidentes, que nem os esquerdistas aceitaram, como a gente viu no caso do Boric, do Chile, que criticou o governo de Maduro naquela reunião. O presidente fala de novo em moeda única no continente que não seja o dólar. Opa! Vai ser o grande herói que vai derrubar o dólar. Moeda única! Sabe quanto? O peso em relação ao dólar: 500 pesos por um dólar. Nós estamos aí a menos de cinco reais por dólar. Vai dar pra fazer moeda única com uma disparidade dessas. Só que o peso oficial, o câmbio oficial é 235.

Vocês acham que algum exportador argentino vai querer exportar, digamos, carne, a 235? Recebendo ele 235, em vez de receber 500? Não vai. Deram calote no FMI, vamos ver o que o FMI vai fazer. Nem no Brics – cujo banco é presido pela Dilma – a direção não topou dar apoio à Argentina. Só o Lula. Só o Lula está dando apoio ao Maduro e dando apoio ao Fernandéz. Será que vai sobrar para o BNDES e pode sobrar para o Fundo de Amparo ao Trabalhador, essas coisas? BNDES é Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, ou seja, desenvolvimento econômico social nacional, da nação brasileira, que usa fundos brasileiros, dinheiro dos brasileiros, não é caixa beneficente de países que têm regimes que quebram a economia.

* * *

Ricardo Salles

E por fim, Ricardo Salles. O deputado desistiu de ser candidato à prefeitura de São Paulo. Diz ele que o Centrão venceu. O fato é que o ex-presidente Bolsonaro julgou que ele não seria adversário para o Boulos. O bom adversário para o Boulos é o atual prefeito Ricardo Nunes, e Bolsonaro disse que o melhor candidato é Ricardo Nunes. E não o Salles. E eu vejo que eleitores do Salles já estavam reclamando. Votaram nele para nos representar por quatro ano e não só chegar na metade do mandato, jogar a nossa procuração fora, que é uma coisa que eu bato muito aqui. Bati no Eduardo Bolsonaro, quando ele quis ser embaixador em Washington. Eu disse que ele iria jogar fora seus milhões de votos e dar as costas para os eleitores. Acabou não dando as costas para os eleitores. É terrível isso! A pessoa vota em alguém para ser seu representante no Congresso, e essa pessoa resolve ser empregado do presidente da República, auxiliar do presidente da República. É horrível isso, devia ser proibido.

DEU NO X

DEU NO X

DEU NO JORNAL

PENINHA - DICA MUSICAL