INSTANTES ETERNOS
Para acalentar o desconsolo de haver-me tornado adulto, de quando em quando aplico um olhar retrospectivo sobre os instantes da aurora menineira, ocorridos no sertão. Para esse efeito, valho-me, eventualmente, dos meus escritos preferidos, um grosso maço de folhas, todas em adiantado estado de esgarçadura. É que as lembranças a terra não as come, mas o tempo se encarrega de apagá-las.
O sertão a que aludo não é o de hoje, mas o de ontem: inculto, sem pressa, sem relógio, sem rádio, sem telefone, sem maquilagem, sem apuramento de fidalguia, sem estresse coletivo, enfim, em estado virginal. Os adultos daqueles tempos sertanejos tinham o vezo de povoar as mentes infantis com histórias míticas e lendas de assombração, algumas inverídicas, mas que os miúdos as davam por verdadeiras. Isso se passava nos terreiros enluarados, ao ensejo dos serões familiares, quando o clarão das fogueiras imensas, crepitando em labaredas rubras, tanto denunciava as caras entorpecidas de sono quanto banalizava o breu da noite. Os faróis intermitentes dos pirilampos, que vagavam na pretidão das noites, sobremaneira nas florestas densas (que hoje não existem mais), exerciam indescritível fascínio sobre a infância, crédula e tola.
O concerto da passarada tinha dupla serventia: saudar o alvorecer e despertar os dorminhocos. As flores silvestres, perfumosas e multicoloridas, viviam enxameadas de insetos. As borboletas, indecisas, ataviavam os jardins, as ramadas, as pradarias. Dentre as cobras mais bonitas a coral desfrutava da minha admiração; seu veneno tanto matava quanto concedia soro salvador. Os nomes que escrevi, a carvão, nas paredes caiadas, já não os lembro. Igualmente não lembro das preces que a minha mãe rezava para Deus clarear a minha estrada. Dentre os meus medos o mais pavoroso dizia respeito ao “velho do surrão”. Quanto aos sonhos que sonhei, agora pálidos, desfigurados, por certo se tornaram prisioneiros de coleira das noites do esquecimento. Para os meus banhos habituais, minha preferência era pelas águas frescas do Riacho do Aleixo, desde que não estivesse cantando grosso.
Ainda que muito mais eu possa dizer sobre os instantes menineiros, limito-me, exemplificativamente, a esses, sobreditos. É o aperitivo que ofereço para abrir a porteira do imaginário dos leitores, quiçá latejando.
Aliás, o ato de retornar ao berço além de aliviar o peso da adultidade é a régua mais competente para medir o quanto as pessoas se modificaram.
Agora, que vou pingar um ponto final nesse mostruário menineiro, fio que a Divina Providência não me falte com a lenha que mantém acesa as relíquias da infância, ainda que murchas.