Ouço, desde o berço, que cidadão é cidadão e ponto final. A bem dizer, o vocábulo cidadão é bastante para abranger os brasileiros, de palácios ou de favelas, que estejam na plenitude dos seus direitos civis e políticos. Apesar disso, dia a dia cresce na mídia, televisual e de radiodifusão, a expressão cidadão “comum”.
Esse neologismo, cidadão “comum”, insinua a existência de várias categorias de cidadãos, digamos de primeira e segunda classe, aliás, aos moldes do que sucede às casas de detenção onde os presos comuns não se confundem com presos especiais, entendidos estes como sendo aqueles delinquentes que se particularizam por suas diplomações em ensino superior.
Se é verdade que no Brasil já vigoram várias categorias de cidadãos, algumas providências se impõem: a primeira é fazer isso figurar no currículo das escolas e, a segunda, é explicitar os critérios e fundamentos pelos quais os brasileiros são enquadrados numa ou noutra categoria.
De primeira classe seriam os ricos? Os políticos? Os honestos? Os cultos? Os de segunda classe seriam os pobres? Os apedeutas? Os que moram em arruamentos distantes? Os trabalhadores rurais? Apreciaria conhecer os elementos que caracterizam a sobredita expressão, cidadão “comum”.
Aliás, muito tenho diligenciado em busca do significado dessa expressão, cidadão “comum”, mas debalde. Encontrei cidadão do mundo ou cidadão do universo, (“pessoa que põe os interesses da humanidade acima dos da pátria”).
Agora, se a locução cidadão “comum” não está amparada em nenhuma explicação plausível, é invencionice que tem o dissimulado propósito de aviltar a segregação social e lembrar, de modo oblíquo, que a população brasileira é feita das classes ouro, prata e bronze, por que insistir nessa sandice dentro de um país pejado de segregações?
O escritor marxista Paulo Freire completaria 100 anos neste domingo, 19. O recifense é conhecido por atuar fortemente na educação dos brasileiros a partir de uma ótica socialista. Em 2012, a então presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou uma lei que tornou Freire “Patrono da Educação” do país.
Em seus livros, Freire defende o “papel primordial da educação no processo de conscientizar o povo e levá-lo ao senso crítico” – esquerdistas brasileiros dão a ele créditos pelo avanço da alfabetização. A Revista Oeste selecionou 10 pensamentos extraídos da obra Pedagogia do Oprimido, a mais famosa de Freire:
1) A educação tem de servir à revolução
“O sentido pedagógico, dialógico, da revolução, que a faz ‘revolução cultural’ também, tem de acompanhá-la em todas as suas fases. É ele ainda um dos eficientes meios de evitar que o poder revolucionário se institucionalize, estratificando-se em ‘burocracia’ contra-revolucionária, pois que a contra-revolução também é dos revolucionários que se tornam reacionários”
O foco de Freire é permitir que a sala de aula se torne palanque político, com foco em atingir os alunos.
2) A opressão da família
“As relações pais-filhos, nos lares, refletem, de modo geral, as condições objetivo-culturais da totalidade de que participam. E, se estas são condições autoritárias, rígidas, dominadoras, penetram nos lares que incrementam o clima da opressão. Quanto mais se desenvolvem estas relações de feição autoritária entre pais e filhos, tanto mais vão os filhos, na sua infância, introjetando a autoridade paterna.”
No livro, Freire não menciona que as famílias têm um papel na educação dos filhos. A tarefa é papel do professor, que assume o papel de “agente transformador social”.
3) O mundo se divide entre opressores e oprimidos
“Precisamos de uma pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação.”
Ao se basear em Karl Marx, Freire defende que os estudantes têm de buscar sua liberdade diante dos “opressores”.
4) Os homens “se libertam” em comunhão
“É este caráter de dependência emocional e total dos oprimidos que os pode levar a manifestações que Fromm chama de necrófilas. De destruição da vida. Da sua ou da do outro, oprimido também. Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua “conivência” com o regime opressor.”
O trecho ressalta a defesa de Freire pela organização das esquerdas com a finalidade de derrubar um inimigo em comum.
5) Che Guevara versão paz e amor
“O que não expressou Guevara, talvez por sua humildade, é que foram exatamente esta humildade e a sua capacidade de amar que possibilitaram a sua ‘comunhão’ com o povo. (…). Este homem excepcional revelava uma profunda capacidade de amar e comunicar-se.”
No livro Antes que anoiteça, do escritor Reinaldo Arenas, o guerrilheiro Che Guevara é descrito como alguém que detesta gays. Che defendia que homossexuais precisavam ser “curados” através de trabalho forçado ou fuzilados em um paredão. A obra destaca que gays eram vistos no regime castrista como “seres inferiores”.
6) O diálogo começa na “busca do conteúdo programático”
“Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição — um conjunto de informes a ser depositado nos educandos, mas a revolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada.”
Freire busca uma revolução social organizada, que comece dentro da sala de aula, com a finalidade de “devolver ao povo sua humanidade roubada”.
7) Organização das massas
“A organização não apenas está diretamente ligada à sua unidade, mas é um desdobramento natural desta unidade das massas populares. Desta forma, ao buscar a unidade, a liderança já, busca, igualmente, a organização das massas populares, o que implica no testemunho que deve dar a elas de que o esforço de libertação é uma tarefa comum a, ambas.”
O trecho ressalta a necessidade que Freire vê em unir “classes oprimidas” contra o que chama de manipulação. O foco é instruir as pessoas desde pequenas.
8) Combate à “invasão cultural”
“Os estudantes precisam ser protegidos da ‘invasão’: “Neste sentido, da invasão cultural, indiscutivelmente alienante, realizada maciamente ou não, é sempre uma violência ao ser da cultura invadida, que perde sua originalidade ou se vê ameaçado de perdê-la.”
9) Instrumentos de conquista da “elite”
“Os opressores desenvolvem uma série de recursos através dos quais propõem à “admiração” das massas conquistadas e oprimidas um falso mundo. Um mundo de engodos que, alienando-as mais ainda, as mantenha passivas em face dele. Daí que, na ação da conquista, não seja possível apresentar o mundo como problema, mas, pelo contrário, como algo dado, como algo estático, a que os homens se devem ajustar.”
No trecho, Freire afirma que “discursos” em torno de direitos, como o da defesa da propriedade privada, são mecanismos utilizados como ferramenta de dominação de uma classe dominante. Da mesma forma, o escritor critica o ensinamento segundo o qual rebeliões são ruins: “O mito de que as elites dominadoras, ‘no reconhecimento de seus deveres’, são as promotoras do povo, devendo este, num gesto de gratidão, aceitar a sua palavra e conformar-se com ela. O mito de que a rebelião do povo é um pecado contra Deus.”
10) Liderança revolucionária
“A liderança revolucionária, comprometida com as massas oprimidas, tem um compromisso com a liberdade. E, precisamente porque o seu compromisso é com as massas oprimidas para que se libertem, não pode pretender conquistá-las, mas conseguir sua adesão para a libertarão. Adesão conquistada não é adesão, porque é “aderência” do conquistado ao conquistador através da prescrição das opções deste àquele.”
Freire prega a adesão popular ao movimento revolucionário, de modo a questionar padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Segundo ele, “problematizar” esses temas “não é sloganizar, é exercer uma análise crítica sobre a realidade problema.”
Para tentar rivalizar com os atos do dia 7, PT, Psol, PCdoB, PDT, PSB, PV, Rede, SD e Cidadania combinaram manifestações contra o governo e pelo impeachment de Bolsonaro nos dias 2 de outubro e 15 de novembro.
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Vai entupir de novo.
E entupir muito.
Entupir as esquinas e os becos de bosta e de mijo.
Vão descarregar pelos cantos todo o estoque de bosta que trazem na cabeça.
As próximas “manifestações” das zisquerdas, nos dias 2 de outubro e 15 de novembro, vão entrar para a história da Ciência Sanitária.
Conheci Belchior pessoalmente em 1977, em Fortaleza, no Bar do Anísio, na Praia de Iracema, onde se encontravam os músicos e poetas de Fortaleza. Belchior, admirador de Dante e de sua teológica DIVINA COMÉDIA HUMANA, era presença constante naquele ambiente onde, meio por enxerimento, meio por não ter o que fazer, eu frequentava com regular habitualidade. No dia em que o cantor foi ‘visitar outro plano’ eu escrevi em sua homenagem a letra a seguir, que, com seu costumeiro talento, minha parceira Maria Dapaz melodiou e virou canção na bela voz de Tonfil. Está no meu disco CHAMA INFINITA:
PROFANA COMÉDIA DESUMANA
Houve um tempo em que havia lua e as estrelas ouviam serenatas. Era quando a minha boca doida e nua passeava por todas as calçadas, quando vez em quando se escutava, além de tiros, uma ou outra canção e a pureza ria e se deleitava bem distante do inferno da solidão.
Hoje desacordei com a noite escura, o canto alucinado não existe mais. É só uma foto num caderno de cultura, purgatório numa banca de jornais. Mas a vida segue e a canção insiste feito avião brabo lá no céu sem rédea, fazendo um paraíso cada vez mais triste, a mais profana e desumana comédia. Medo, medo, medo …
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