GUSTAVO GAYER

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ENCONTRO – Carlos Drummond de Andrade

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG (1902-1987)

GUSTAVO GAYER

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

INFLAÇÃO, DE NOVO

O presidente do Banco Central declarou que “Temos inflação de curto prazo bem alta, com expectativas subindo. O Banco Central acreditava em inflação temporária, que não se mostra verdade.”

Para mim isso soa como se a Tereza Cristina falasse “o Ministério da Agricultura acreditava que as bananeiras produzem abacaxi, o que não se mostra verdade.”

A ministra Tereza Cristina não vai falar uma bobagem dessas, lógico, mas a área econômica do governo atual continua mentindo descaradamente como fizeram todos os governos anteriores praticamente desde D.Pedro I.

Roberto Campos Neto sabe perfeitamente o quanto o governo fabricou de dinheiro: o M1, termo em economês para isso, subiu 50% desde o início do ano passado (já mostrei esse gráfico antes, mas não custa nada mostrar de novo). Sabe também que a redução maluca e injustificável da SELIC fez o dólar disparar. Juros baixos refletem a solidez da economia, e no ano passado nossos juros estavam menores que os da Suíça. Alguém acha que a economia brasileira é mais sólida que a suíça? Os investidores não acharam.

Ou seja, nossos governos continuam fazendo o que sempre fizeram, que é culpar a vítima: misturam os termos “inflação” e “aumento de preço” para fingir que a culpa é do comerciante, do empresário ou da chuva que afetou a produção do chuchu. O povo, que é proibido pelo Ministério da Educação de aprender na escola os conceitos básicos de economia, acredita.

De uma vez por todas: Inflação é o aumento da quantidade de dinheiro, e o governo é o único culpado, porque só ele pode fabricar dinheiro. Aumento de preços não é inflação, é consequência da inflação, de acordo com a lei da oferta e procura.

COLUNA DO BERNARDO

ALEXANDRE GARCIA

O REAL É FORTE, MAS NINGUÉM FALA

Isto não foi noticiado, mas, na semana passada, o presidente Bolsonaro participou de uma reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul).

E ninguém disse que a moeda mais forte do grupo é o real, que está mais valorizado que o rublo russo, que a rupia indiana, que o yuan chinês e que o rand sul-africano.

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A inflação da pandemia

Outra coisa que ficam dizendo por aí é que a inflação é causada pela instabilidade política. A ONU acaba de derrubar essa versão. A FAO acaba de mostrar que a inflação dos alimentos, nos últimos 12 meses, foi de 39,7%. Milho, trigo, óleos vegetais, subiram todos os alimentos. Foi a inflação mundial da pandemia e é preciso que a gente tenha isso em mente.

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Mais um

Mais um processo contra o ex-presidente Lula foi para o lixo. A juíza da 9ª Vara Federal de São Paulo mandou arquivar o inquérito que investigava tráfico de influência por parte do petista em relação à OAS, com base na delação do dono da empreiteira, Léo Pinheiro, aquele do caso tríplex do Guarujá.

A juíza alegou que só tinha o depoimento dele e nada mais, e que o caso já está prescrito. Isso beneficiou Lula, o próprio Léo Pinheiro e o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que também estava sendo investigado.

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Manifestações do dia 12

As pessoas estão tão incomodadas na mídia porque promoveram, anunciaram muito, previam uma multidão muito grande para dar uma resposta forte ao 7 de setembro e saiu pela culatra. Foi um vexame em toda a parte e agora estão dizendo que o ato do último domingo (12) foi um movimento “centro-direita”. Ora, lá na Avenida Paulista, onde mais juntou gente, em dois palanques, estavam lá o partido socialista, o partido comunista, o ex-partido comunista, o PDT, o PSDB – e isso não é centro-direita nem um pouco.

Havia lá cinco presidenciáveis, ou seis, se a gente contar a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Estava o João Doria (PSDB), João Amoêdo (Novo), Luiz Henrique Mandetta (DEM), Ciro Gomes (PDT) e Alessandro Vieira (Cidadania). O que a gente está vendo é que vai dividir a chamada terceira via. Ela vai acabar ajudando alguém a ganhar em primeiro turno, ou vai ficar fora do segundo turno, se dividindo. Acho que vão pensar a respeito de não terem conseguido atrair o povo.

Anunciaram como manifestação anti-Bolsonaro e talvez tenha sido por isso que fracassou. E mais: a palavra mais repetida no dia 12 e mais escrita nas faixas era “Bolsonaro”. Ou seja, acabou que os atos fizeram também uma tremenda propaganda para o presidente, que foi o mais citado na manifestação.

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O país dos queijos

Por fim, uma grande vitória dos queijeiros brasileiros, que levaram 183 queijos para o concurso mundial do queijo na França e só perderam para os queijos franceses, que são os melhores do mundo. O Brasil levou 57 medalhas, inclusive cinco de super-ouro. A maior parte das medalhas foi para Minas Gerais, mas também teve premiação para São Paulo. Está aí a França reconhecendo, entre 940 queijos do mundo, os nossos brasileiros.

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

PERSEGUIÇÃO

Aras pede que STF suspenda MP de Bolsonaro que garante direito a liberdade de expressão nas redes sociais.

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Pelo que me disseram, Aras tá querendo mesmo é lascar com o JBF.

Os grandalhões morrem de raiva da esculhambação que reina nessa gazeta escrota.

COLUNA DO BERNARDO

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

INTELLIGENTSIA

Este fim de semana estava em minha taba, abanando os mosquitos com um leque de palmeira, tomando banho de hora em hora para espantar o calor e pensando em Pindorama neste mês de setembro de 466 d.S. (depois de Sardinha). E, nesse pensar estava, também fazendo um paralelo entre a taba central, que muitas pessoas teimam em chamar de Brasília, ou BrasILHA, buscando perceber como nós, caetés, nos tornamos especialistas em embarcar no trem que vai na direção contrária de nossos interesses, mesmo sabendo que outros caetés, mais pìu grasso e com dois graus a mais de desfaçatez, se locupletam com esses erros planejados.

Tomo neste texto, um termo russo, para me referir à nossa monumental capacidade de sabotar nosso futuro, escolhendo representantes que mais lutam pelo progresso do nosso atraso. Refiro-me à palavra Intelligentsia (leia “gen”, como na palavra aguente, só que sem pronunciar o “U”). Inteligentsia, pode ser traduzida como “elite”. Mas não me refiro, e nem a palavra denota isso, como sendo uma elite econômica, ou mesmo social. O termo que mais se aproxima do vocábulo é “elite pensante”.

Relendo, naquela tarde calorenta, o professor Samuel Huntington, em um texto que ele fala sobre as guerras do futuro, uma expressão ficou marcada: “Nós sabemos o que queremos ser daqui a cem anos e sabemos o que o resto da América Latina deve ser para nós daqui a cem anos”. Alguns podem até dizer que isso é um espírito entreguista, que eu sou capacho de imperialista – bem, ainda não me ofereci, como a senadora Kátia Abreu, como capacho para que chinês pise em mim -. No entanto, a maioria das pessoas esquece de ler essa afirmativa em um contexto histórico e de possibilidades e não de probabilidades.

Os países mais desenvolvidos do mundo fizeram essa lição de casa bem cedo. Países como Alemanha, Reino Unido, mesmo a França, Rússia, Japão e até a China investiram na criação de sua “Intelligentsia”, ou de sua elite pensante, pinçados nas universidades, no meio econômico e social e, ao longo do tempo foram elitizando essa classe, de maneira que elas pudessem pensar, influenciar, inspirar e auxiliar os países a ter uma visão de futuro de longo prazo.

Lembro-me do governo George W. Bush que buscou seus principais assessores em universidades como Harvard, Princenton e Yale. A ex-secretária de defesa do governo Bush, Condoleezza Rice, saiu da reitoria de Harvard para ser uma das mulheres mais poderosas do planeta (eis um exemplo de “empoderamento” que as feministas de suvaco cabeludo deveriam seguir). Mesmo no Reino Unido de Baldwin, com a crise da guerra se aproximando, não se deixou de confiar na sua intelligentsia, pois o país já pensava, não o pós-guerra imediato, mas os desdobramentos dela para cerca de 50 anos a frente.

Retornando ao texto de Huntington, o professor fazia um exercício, que muitos chamariam de “futurologia”, Em parte isso é verdadeiro, pois esse cenário depende de muitas conjunturas favoráveis, ou, o famoso “combinar com os russos”, como se fala em táticas de futebol. Por outro lado, não deixa de parecer sensato fazer previsões e inspirar gerações futuras a tentar concretizar esses exercícios, lutando para que seu país esteja sempre na avant-gard do progresso, da ciência e da tecnologia, além da defesa de seus interesses.

Mas voltemos nossos olhos para Pindorama. Não se pode falar que a Bananolândia construiu uma Intelligentsia nacional. Ao contrário, pode-se dizer, sem medo de errar, que construímos o que eu chamo de Burritsia, como elite. E, não digo isso como um modo de ofender nossa nacionalidade caeté. O que digo, o faço com base na história da terra brasilis e sua teimosia em sempre preferir aqueles que mais trabalham e mais suor despedem para que haja o progresso de nossa miséria. E, miséria em todos os sentidos e não apenas o alimentar.

Vejamos a seguinte linha histórica. No Brasil Império, do Gabinete Alves Branco, até o Gabinete Ouro Preto, o último da fase imperial – o Gabinete Ladário nem pode ser contado, pois o Barão nem chegou a colocar os fundilhos na cadeira ministerial -, houve um ensimesmamento centrada na política da monocultura cafeeira. Essa característica própria da fase imperial levava os filhos da elite econômica a buscar profissões liberais, ou se aceitassem cargos públicos, era apenas para ficar num “dolce far niente”.

O Império, dada sua própria configuração, não conseguiu criar uma intelligentsia que se pensasse para além de uma troca ministerial. Aliás, não havia intelligentsia alguma. O que havia eram apenas parasitas que viviam no “deixe como está para ver como vai ficar”. Houvesse essa elite pensante, bem capaz de estarmos fazendo reverência a um imperador. Nenhum gabinete do Segundo Reinado teve interesse nisso. O resultado foi a débâcle do regime, e várias gerações perdidas, cada uma delas lutando pela melhor parte do Sardinha a devorar.

Com a República a coisa não mudou muito. Quando Deodoro assumiu, nomeou Rui Barbosa Ministro da Fazenda. Acreditando que dinheiro nascia como pé de alface, a política do encilhamento encangalhou a população brasileira, e o avanço econômico que vinha desde o Segundo Reinado virou fumaça. Só para citar alguns. Juscelino, ao construir BrasILHA, escolhendo o lugar quase que do mesmo jeito que se escolhe um sabor de sorvete, nomeou um compadre para assumir a estatal nascente: a NOVACAP, que está nos seus estertores e ainda não morreu, porque todo ano tunga o pagador de impostos para cobrir seus rombos.

Durante o governo militar o Brasil conviveu com uma elite pensante como um Roberto Campos, um Antônio Delfim Netto, um Alysson Paulinelli, um Golbery do Couto e Silva, mas também conviveu com tapados como um João Paulo dos Reys Veloso, Shigeaky Ueky, um Aurélio de Lira Tavares, e por aí vai. Na cleptocracia petista, Pindorama chegou ao Estado da Arte no quesito formar uma Burritsia nacional que investiria muito dinheiro para alavancar o progresso de nosso subdesenvolvimento.

Eu se me alembro do governo do boneco de mamulengo do ladravaz nove dedos, saudando uma mandioca e dizendo que uma bola feita de folha de bananeira era o ápice da civilização brasileira. Pensei comigo, na minha rede… se aquela bola feita de folha de bananeira, amarrada com cipó era o ápice de nossa civilização, então estaríamos ferrados mesmos. Enquanto a Alemanha louva conquistas como a de Max Planck, os Estados Unidos o feito de Robert Oppenhaimer e Niel Armstrong, o Brasil louvava uma quinquilharia feita de folha de bananeira que qualquer criança analfabeta de algum grotão de Pindorama sabe fazer.

Mesmo agora, no governo Bolsonaro falta a criação dessa intelligentsia que vai pensar o Brasil no longo prazo e estimular, incentivar, inspirar novas gerações a buscarem concretizar esse sonho. Ainda nos falta romper com o clichê de que a pátria é o povo com bola na mão e chuteira no pé, e que os problemas se resolvem no botequim da esquina com cerveja e torresminho. Esse é um tipo de ação que somente um estadista pode fazer, nunca um político. A formação dessa Intelligentsia é necessária para banir a Burritsia que está impregnada em todas as esferas de poder e na sociedade. Enquanto isso não ocorrer, o cheiro do churrasco do Sardinha não vai sair tão cedo de nossas narinas e a Burritsia que nos governa não vai deixar de lutar com afinco pelo progresso de nossa pobreza.