GUSTAVO GAYER

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

REGRESSO AO LAR – Guerra Junqueiro

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!…
Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!…
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!…

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida…
Só achei enganos, decepções, pesar…
Oh! a ingênua alma tão desiludida!…
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!…

Trago d’amargura o coração desfeito…
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!…
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!…

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d’astros, gemas de luar…
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
Minha velha ama, sou um pobrezinho…
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

Cante-me cantigas, manso, muito manso…
Tristes, muito tristes, como à noite o mar…
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!…

Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Portugal, (1850-1923)

DEU NO JORNAL

PODES CRER

* * *

O fato assucedeu-se na madrugada de quinta pra sexta passada, no Clube Pinheiros, em São Paulo.

Xandão Cabeça-de-Ovo é sócio e frequentador assíduo do clube Pinheiros e mora bem próximo ao local, por essa razão, seus seguranças ficam sempre nas proximidades.

Ele não estava presente no bar.

Conforme diz a notícia, Xandão “ficou  sabendo” do fato através de um segurança.

Segurança pago com o dinheiro do contribuinte, claro.

E o servidor baba-ovo de Xandão determinou a um funcionário do bar que dissesse aos clientes pra pararem de ofender e falar mal de uma pessoa tão popular, tão querida, proba, de notável saber  jurídico e de reputação ilibada.

Atenção, meus caros leitores: não é novela, não é piada, não é ficção.

O fato aconteceu mesmo.

Houve até registro de uma queixa.

Clique aqui para ler o Boletim de Ocorrência e tomar conhecimento das qualificações que os cachaceiros atribuíram a Xandão.

J.R. GUZZO

SETE DE SETEMBRO

É possível que as manifestações de rua deste Sete de Setembro, que têm sido a obsessão do mundo político brasileiro nas últimas semanas, acabem sendo uma coisa rala, muito abaixo do que esperam os admiradores do presidente Jair Bolsonaro – e abaixo, ao mesmo tempo, do que causa tanto pavor junto aos seus inimigos. Podem, ao contrário, reunir gente que não acaba mais e receberem a classificação de movimento de massa de primeira grandeza. Tanto num como no outro caso, não muda o verdadeiro problema que envenena a política brasileira no momento: o que fazer com o presidente da República, hoje e principalmente no futuro? É um nó de marinheiro – e daqueles difíceis de desmanchar.

As manifestações pró-Bolsonaro têm sido vistas pelo Supremo Tribunal Federal, pelas elites pensantes, pela mídia, pela oposição em peso, pelas classes intelectuais e até mesmo pelos banqueiros – imaginem aonde chegamos – como uma ameaça direta à democracia. O presidente, por este modo de ver as coisas, está querendo usar a rua (se conseguir mesmo encher a rua de gente) para desmoralizar as “instituições”, romper com as leis e dar um golpe de Estado. Mesmo que não seja quebrada nem uma vidraça, como vem sendo a regra nesse tipo de protesto público, os manifestantes vão com certeza falar o diabo – e isso, hoje em dia, é considerado infração gravíssima. (Grave a ponto de o STF, como medida de resistência aos golpistas, ter decretado ponto facultativo no dia 6 – uma bela “ponte” que vai render quatro dias seguidos de feriadão, do sábado à quarta-feira, dia 8.)

Vastas emoções, portanto – mas com pensamentos imperfeitos. Aconteça o que acontecer na rua no dia 7 de setembro, não vai haver golpe militar nenhum. O motivo disso é muito simples. Golpe militar tem de ser dado por militar, e o militar brasileiro não quer dar golpe – não quer, não pode, não tem planos para isso, não tem liderança, não tem recursos, não obedece a carro de som nem à barulheira em rede social. Golpe exige força – e o único que tem força, o Exército Brasileiro, não vai se meter nisso. Em compensação, os inimigos do presidente continuam com o mesmíssimo problema que têm agora: o risco de que ele permaneça no governo até o fim do mandato, coisa que acham intolerável – ou, muito pior ainda, que fique por quatro anos além disso, se for reeleito. Aí já seria o fim do mundo.

Teoricamente não deveria haver problema nenhum com nada disso. Se Bolsonaro é mesmo o pior presidente que o Brasil já teve em toda a sua história, e se ainda por cima é genocida, ladrão de vacina e culpado por todas as desgraças que o País tem hoje, ele vai ser derrotado por qualquer outro candidato nas eleições de 2022, não é mesmo? Que risco pode haver se o presidente é realmente o monstro que aparece todos os dias no noticiário? Os institutos que pesquisam “intenção de voto”, aliás, dizem que o grande nome da oposição, o ex-presidente Lula, já está com mais de 50% dos votos no papo; mais um pouco, na toada em que está indo, chega aos 100%. Como um desgraçado da vida como Bolsonaro poderia ganhar dele, ou de outro qualquer?

Acontece que não é assim, claro – ou ninguém acredita mesmo que esteja sendo assim. Na vida real da política o Datafolha é uma coisa e a eleição é outra; eleição, na prática, é voto na urna, e não no jornal ou nas notícias do horário nobre. O panorama visto de hoje, pelo estado de excitação nervosa extrema que foi montado em torno do presidente da República, dá a entender que existe a possibilidade real de Bolsonaro ganhar a eleição. E aí? Há cada vez mais gente, no Brasil que manda, dizendo que “não dá para esperar”. Como fica, então?

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A BANDA

Seu Luiz Murá era um senhor sessentão, sempre de bem com a vida e muito bem humorado. Contador antigo, fazia “a escrita” de vários estabelecimentos comerciais, e frequentava sempre a Receita Federal para pegar informações. Muito bem relacionado, todos gostavam dele, do seu alto astral e do seu grande senso de humor.

Carmen Pimentel era fiscal da Receita Federal, cargo que passou a se chamar, posteriormente, Auditor Fiscal dos Tributos Federais.

Nessa época, estava no auge o grande sucesso de Chico Buarque, “A Banda”, e era a música mais tocada nas rádios de Natal.

Carmen Pimentel estava em pleno expediente na Receita Federal, quando entrou na sua sala Seu Luiz Murá, o contador, com sua costumeira pasta na mão. Como Carmen era especialista em “Imposto de Renda”, era a ela que seu Murá sempre se dirigia para pedir orientações. Ela tinha amizade pessoal com o contador e o atendia muito bem.

Como também era muito bem humorada, numa tarde em que Seu Luiz Murá foi lhe fazer consultas sobre declaração de imposto de rendas, Carmen, funcionária antiga, perto de se aposentar, quis brincar com o contador e cantou baixinho um trecho da música “A Banda”:

“O velho fraco esqueceu o cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou….”

Imediatamente, Seu Luiz Murá respondeu à provocação, como se respondesse a um desafio, cantando outro trecho da mesma música “A Banda”:

“…E a moça feia debruçou na janela,
Pensando que a banda tocava pra ela…”

Os funcionários da Receita Federal que ouviram a resposta de Seu Murá não se contiveram, e a gargalhada foi geral. Seu Murá tinha presença de espírito e não ficou por baixo na provocação de Carmen. A simpatia por Seu Murá ainda aumentou mais depois desse episódio.

* * *

Republicada atendendo a pedido do leitor Boaventura Bonfim.

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NHONHO LEVANTA O DEBATE BOIÓLICO

* * *

UM OLHAR DOCE, TERNO, APAIXONADO…

RODRIGO CONSTANTINO

O BRASIL CANSA…

Duas coisas são péssimas para uma democracia: a judicialização da política e a politização da justiça. Ambas, infelizmente, seguem em alta no Brasil. A esquerda, derrotada nas urnas, lança mão do “tapetão” judicial com enorme frequência, encontrando boa vontade numa corte suprema que detesta o presidente. E esta, por sua vez, pratica cada vez mais ingerência nos demais poderes, com um ativismo extremamente preocupante.

Essa combinação é péssima para o país. Uma república que mereça tal nome precisa ter instituições sólidas e independentes. O nome vem de “res publica”, ou coisa pública, e o foco não deveria ser atender interesses particulares. Em nossa “república”, porém, grupos de interesses dominam a política e também a justiça, como fica claro. Tudo vira moeda de troca para servir aos donos do poder. Vejam, por exemplo, essa notícia:

O que mais me espanta não é se isso for verdade, pois é crível, mas sim a naturalidade com que a nossa imprensa trata uma clara chantagem do STF, ou seja, o uso de pautas econômicas como moeda de troca, vindo da corte constitucional, que age como um partido de oposição. Nossos jornalistas acham normal um STF que usa decisões sobre questões econômicas para pressionar o presidente. República de bananas, só se for!

Enquanto isso o Senado segura a sabatina do nome indicado por Bolsonaro para o STF, para a vaga de Marco Aurélio Mello. Em Brasília, fala-se abertamente de que é uma “retaliação” ao presidente pelo seu tom belicoso, ou seja, não importa que o presidente tem a prerrogativa de indicar alguém, que cabe ao Senado avaliar a escolha dentro dos critérios objetivos de reputação ilibada e notório saber jurídico.

Até Dias Toffoli passou na sabatina do Senado! Ele estava sob o mensalão, é verdade. Mas André Mendonça, que tem bom trânsito no Congresso e no STF, continua na “geladeira” por barganha política. O senador independente Eduardo Girão condenou a postura nada republicana:

Aliás, vale pensar numa coisa: André Mendonça, com bom trânsito no Senado, sequer foi sabatinado ainda, por retaliação a Bolsonaro. Imagina se o presidente tivesse indicado um nome mais conservador para agradar sua base! Não parece justo simplesmente criticar que o presidente não escolhe aquele nome ideal para o STF. Teria de combinar antes com os “russos”, ou chineses, que mandam de fato no país…

Enquanto isso ocorre, o PIB fica estagnado e o país numa crise hídrica sem precedentes, além dos efeitos da pandemia. A preocupação em Brasília nunca parece ser com o povo. Em seu editorial de hoje, a Gazeta do Povo criticou a postura de todos os envolvidos: “Chega a ser surreal que o combate ao trio formado por estagnação, desemprego e inflação não esteja dia e noite na mente dos ocupantes dos três poderes, mais preocupados com outros assuntos.”

Por fim, a Câmara aprova com folga a reforma tributária, mas isso tampouco parece espírito público. Quando vemos que PT, PDT e PSOL votaram junto com os anseios de Paulo Guedes, temos a obrigação de questionar se nosso ministro liberal acertou mesmo nessa, ou se está equivocado. Até porque na reforma trabalhista o Senado impôs derrota ao governo:

O texto-base da reforma do Imposto de Renda foi aprovado pela Câmara na quinta, em projeto que estabelece alíquota sobre lucros e dividendos em 20% e o fim dos Juros sobre o Capital Próprio (JCP). Como reflexo, o dia é de queda generalizada na Bolsa, com destaque para os bancos, setor com maior peso no Ibovespa cujas ações recuam mais de 2%.

Já em dois reveses para o governo no Senado, o texto da minirreforma trabalhista foi rejeitado, enquanto  os parlamentares da Casa aprovaram decreto legislativo que reduz restrições colocadas em planos de saúde de estatais, com custo adicional de R$ 1,5 bilhão ao ano.

Confesso ao leitor: estou com muita dificuldade em absorver essa reforma tributária liderada por Paulo Guedes! Votar junto do PT para tributar dividendos é dureza. Sabemos como funcionam as coisas em Brasília: o ministro promete compensação de outros lados, mas ela acaba não vindo. E depois que abriu a porteira, o céu é o limite. Se a esquerda voltar ao poder, alguém acha que as taxas vão ficar nesses patamares? O confisco será inevitável…

Leandro Ruschel, empresário do mercado financeiro e apoiador do governo, subiu o tom das críticas: “Nem o PT havia conseguido abrir a porteira da tributação de dividendos. Parabéns aos envolvidos”. Ele acrescentou: “A esquerda votou integralmente a favor da ‘reforma tributária’, que na verdade é um aumento de impostos, com implicações de longo prazo, mantendo o ciclo de crescimento tumoral do Estado que nos esmaga. Parabéns aos parlamentares que votaram contra”.

Helio Beltrão, empresário que apoia o liberalismo há longa data, também condenou a medida: “O brasileiro foi chamado pela Câmara dos Deputados a pagar MAIS impostos, via este pacote fiscal aprovado ontem… um pacote patrocinado pela Receita Federal e pelo ministro Paulo Guedes. Empresas terão menos recursos para investir, crescer e gerar emprego. Vai tudo pra Brasília”.

Salim Mattar, empresário liberal e que foi o Secretário de Desestatização do governo, criticou duramente a reforma também: “LAMENTÁVEL! Câmara vota texto-base da Reforma Tributária a toque de caixa. Uma proposta que não foi discutida adequadamente e desagradou praticamente todos os setores. Com essa reforma, ao invés de simplificação e redução de impostos, teremos aumento da carga tributária”.

Os mercados estão reagindo negativamente. O Ibovespa cai quase 2% neste momento, mas a correção já começou quando o projeto de reforma foi apresentado. Deveria ter servido de sinal amarelo para a equipe econômica. Guedes parece convencido de que é uma boa reforma, e nem o apoio de petistas serviu para convencê-lo do contrário.

Agora só nos resta concentrar as esperanças para o dia 7, sem saber ao certo o que vai resultar da manifestação no dia seguinte. Somos patriotas e não desistimos nunca. Mas sim, o Brasil cansa…

DEU NO JORNAL

VACAS LOUCAS

* * *

Uma descoberta preocupante.

Segundo apurou o Departamento Bovino do JBF, os dois casos descobertos pelo Ministério da Agricultura são as petistas Maria do Rosário e Gleisi Hoffmann.

Duas vacas completamente loucas.

Cientificamente, o exemplar bovino classificado como “Dilma Rousseff” continua com a denominação de Vaca Peidona.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A GRAÚNA DE JOÃO BURETAMA

A graúna Nêga Véia”

Foi por muito pouco, um tantinho de nada, que João Buretama não pegou a cobra caninana comendo a graúna velha no ninho feito no pé de pau (uma catingueira que disputava a sobrevivência com um pé de avelós – este, conhecido também como “cachorra-magra” de reconhecido valor curativo contra alguns tipos de câncer). A bicha conseguiu fugir mais rápido que pensamento, enquanto Buretama desembainhava o facão Collins de 30 polegadas – quase uma espada.

Foi quando descansava à sombra da catingueira, que João Buretama descobriu o ninho da graúna. Subiu cuidadosamente, e encontrou o ninho, com dois ovos. Acompanhou o choco e quase ajudou no “parto” do casal de filhotes. O macho, dizem os especialistas, nasce sempre primeiro.

João Buretama trabalhava diariamente, cuidando do roçado, onde tinha algumas linhas de mandioca e feijão, sem contar pouco mais de cem touceiras de macaxeira e muitos pés de maxixe, que ficavam mais próximos da vazante do pequeno açude. Dali, tirava o alimento para a filharada e aderentes.

João cuidava de algumas covas de batata doce quando escutou um piado diferente, próprio de ave que foi pega pelo predador. Parou com a enxada, pôs-se a escutar, até descobrir que o som estranho vinha da catingueira. Andou rápido. Andou mais rápido ainda. Quase correndo, encontrou uma cobra caninana se esgueirando entre as folhas secas, consumando a fuga.

João desembainhou o Collins – que mais parecia uma espada – deu alguns golpes no chão, mas a cobra, com a fome saciada, conseguiu fugir.

– Bicha desgraçada! Comeu o meu passarim!

Na verdade, o passarinho comido pela cobra caninana não era de João. Era do mundo, era da natureza, propiciando o equilíbrio entre as espécies e enriquecendo-as. Mas, no interior é sempre assim. Criou, é “dono”.

Quando alguém vê um canário e ele volta ao lugar onde foi visto, ele passa a “pertencer” a quem o viu. Vai continuar solto, voando, cantando. Mas será sempre de quem o viu por uma ou mais vezes. São essas as coisas boas do sertão, que pontificam e diferenciam entre as coisas das cidades asfaltadas e metrópoles.

Dando uma leve pancada na testa, João lembrou dos ovos que tinha visto no ninho. Sabia ele que, provavelmente, o primeiro ovo, que muitos entendem como sendo o macho, já tivera a casca rompida há alguns dias. A fêmea dessa espécie (graúna, chico preto, melro – gnorimopsar chopi) é mais preguiçosa. Demora mais para nascer e a se movimentar em busca do alimento. Há quem afirme que seja por isso que ela – a fêmea – cresce mais.

Pois o filhote havia saído à procura de alimento quando a caninana pegou a mãe no ninho. A aproximação de João Buretama apressou a fuga da cobra que, em parte, tivera um bom alimento.

Atônito, João lembrou que o filhote que acabara de romper a casca do ovo morreria de fome. Com todo cuidado possível, parou o trabalho, pegou a graúna fêmea ainda filhote, e levou para casa. Não tinha gaiola, e aninhou a ave entre alguns panos velhos. Antes de voltar para continuar a labuta, recomendou à mulher que fizesse uma papa de farinha seca com leite de cabra e, com um garrancho improvisado de colher, tentasse dar para a nova inquilina da casa.

De noite, na chegada à casa, a primeira pergunta de João foi pela nova “cria” da casa. Aquele amontoado de carne com alguns “canhões” nascendo, apenas dormia. Se fosse humana, estaria roncando, certamente.

O tempo passou. A graúna cresceu. Ficou coberta de penas e até ensaiou os primeiros voos. João entendeu que chegara a hora de prendê-la numa gaiola, pois ela poderia voar e nunca mais voltar. Aí veio a mágica da natureza. João achava que não ficava bem chamar a graúna de “graúna”, ou simplesmente “passarinha”. Assim, batizou-a de “Nêga véia”. Embora fosse nova, ou apenas uma “adolescente”.

“Nêga véia” pra cá, “Nêga véia” pra lá, e assim os dias se passaram. Num belo fim de dia e João chegou a casa, trazendo uma gaiola de talos de carnaubeira que encomendara ao Zé do Pifo, um desocupado que vivia fazendo aquelas coisas. Muitas sob encomendas.

“Nêga véia” dormia tranquilamente sobre uma tábua, onde também ficavam um vasilhame de barro com água e outro com a comida (milho verde, papa de farinha, arroz cozido). João colocou tudo, inclusive “Nêga véia”, na gaiola, e fechou a porta da dita cuja.

Com o surgimento dos primeiros raios da claridade daquele domingo, João pegou um caneco com água e foi “moiá os óios prumode tirá a remela.” Pegou o café e, com o cachimbo numa mão, e a faquinha de cortar o fumo na outra, sentou-se num tamborete próximo de onde havia pendurado a gaiola com “Nêga véia”. Sentou, e continuou cortando o fumo, enquanto oiava pra gaiola.

A natureza se manifestara, como que por um passe de mágica. “Nêga véia” começou a desfiar um cântico tão maravilhoso que levava qualquer um às lágrimas: fiu-tu-fiu, fiu-tu-fiu-fiu! Repete a mesma coisa várias vezes.

“Nêga véia” nunca havia cantado antes. João parou de cortar o fumo e ficou de olhos arregalados e marejados, espiando e procurando entender aquilo.

Quem conhece a letra da música gravada por Gonzagão: “… furaro os óios, do assum preto, prumode assim, ele cantá mió” com certeza vai entender o que aconteceu.

Ninguém furou os óios de “Nêga véia”. João escutou mais uma vez o cântico de “Nêga véia” e começou a achar que tinha algo de diferente naquilo. Algo fora de rotina. Não era toda graúna que cantava pausado daquele jeito, como se pretendesse dizer algo, como se pretendesse falar com alguém. Como se pedisse alguma coisa. Não era um cântico. Era um lamento.

João tirou “Nêga véia” da gaiola e esticou o dedo indicador da mão direita, como quem pede o pé a um papagaio. “Nêga véia” pousou no dedo de João, e, em vez de voar, pulou para a tábua onde costumava dormir e comer. Viver, enfim. E, imediatamente, parou de cantar.

Finalmente, João entendeu que o cantar de “Nêga véia” era um lamento. Um pedido para sair da gaiola, para continuar solta como manda a Natureza. Assim como quem pretendia dizer que tinha algo a cumprir e, presa, isso ficaria difícil.

Os dias se passaram e “Nêga véia” começou a alçar voos mais altos e mais demorados. No fim do dia, ao entardecer, depois do cântico do Vem-Vem, regressava para casa e, pousada e educadamente sacudindo todas as penas como se tirasse algo do corpo, ficava arrepiada e adormecia. Assim era, até os primeiros raios do novo dia.

Os voos demorados de “Nêga véia” já não incomodavam tanto a João. “Nêga véia” aprendera a sair para procurar alimento, da mesma forma que aprendera a voltar ao fim do dia, cansada, como se voltasse de um dia de trabalho. E era. “Nêga véia” estava trabalhando. “Maquinando” alguma coisa.

Todos os dias, sem que João percebesse, “Nêga véia” voava, voava e, de mansinho, pousava entre os galhos daquela antiga e velha catingueira. A velha catingueira onde nascera e, sabia, onde também perdera a mãe, comida pela caninana.

O calor tórrido e o vento parado faziam do ambiente um mormaço só. A sombra da catingueira era um oásis e, depois de secar o suor com a ponta da camisa, João foi refrescar o corpo na sombra da catingueira, sua velha conhecida. Usando o chapéu de palha como se fora um travesseiro, João olhou para cima e, como que por milagre, viu a ave e a identificou como sendo “Nêga véia”. E era “Nêga véia”, com certeza.

Mas o que “Nêga véia” estaria fazendo ali, naquela fatídica catingueira, depois de tanto tempo? Depois de reconhecer “Nêga véia”, tinha também certeza que ela voaria, e voltaria para casa ao fim do dia, depois do cantar do Vem-Vem.

Mas, olhando mais fixamente, João percebeu que um galho estava mais grosso do que de costume. Fixou o olhar e percebeu que o “galho” se mexia lentamente. Abriu ainda mais os olhos e viu: era aquela mesma caninana miserável que comera a mãe e conseguira fugir e, agora, ali nas suas ventas, começava a armar o bote para pegar também “Nêga véia”.

Com violência hercúlea e a raiva de todos os demônios, João desembainhou o Collins e usou toda a sua força para cortar o galho e, ao meio, a caninana. “Nêga véia” continuava inerte no galho, não tão alto. Antes de alçar voo, “Nêga véia” foi pulando de galho em galho, até que se aproximou da caninana e, percebendo que ali não havia mais vida, voou e voou até chegar próximo da casa de João (e dela).

Quando o Vem-Vem cantou, ao escurecer, “Nêga véia” voou e pousou na tábua onde fora criada. E, como a dar vivas à Natureza por aquilo que pode ser considerada a vingança da morte da mãe, começou a cantar:

– Fi-fiu-tifi, fiu-fi-fiu!