DEU NO TWITTER

J.R. GUZZO

A DEMOCRACIA CONTRA A DEMOCRACIA

Veio, enfim, o maior teste de força popular que o presidente Jair Bolsonaro já teve desde que assumiu o governo, dois anos e meio atrás – e o presidente, à vista de todos, saiu ganhando. O povo foi em massa para a rua em seu apoio e contra os seus inimigos, apesar do imenso esforço feito pelas autoridades locais, pela mídia e pelas “instituições” para que não fosse. (Chegaram a dizer que “grupos armados” de bolsonaristas iriam atirar na multidão, e que haveria um “cadáver”; não se esclareceu por que diabo fariam uma coisa dessas, mas a ameaça foi feita e levada a sério pelos grandes meios de comunicação.) Não adiantou nada. A Avenida Paulista, símbolo da praça pública no Brasil de hoje, lotou – como lotaram a Esplanada dos Ministérios, a Praia de Copacabana e centenas de outros lugares pelo Brasil afora. Foram as maiores manifestações de rua que o país já teve desde o “Fora Dilma” de 2016.

Isto dito, a questão que fica é: “E daí?” Bolsonaro está em guerra com o Supremo Tribunal Federal, e usou as manifestações do 7 de Setembro para dobrar a aposta. Disse, entre outras coisas, que o ministro Alexandre de Moraes deveria deixar de ser “canalha”; também disse que o ministro deveria “se enquadrar” ou, então, “pedir para sair”. Moraes e o STF, do seu lado, continuam numa atividade frenética e diária contra Bolsonaro – prendendo gente, bloqueando contas, mandando depor na polícia, e por aí afora. O que muda nessa guerra, então, depois que a multidão foi para a rua? Para Bolsonaro, muda uma coisa fundamental: o impeachment, única forma indiscutivelmente legal de tirá-lo da Presidência, ficou muito mais difícil do que já era. É a velha história: rua cheia, impeachment vazio. Já era muito difícil, antes do 7 de Setembro, reunir no Congresso os votos necessários para aprovar o impeachment; agora, com centenas de milhares de pessoas manifestando seu apoio a Bolsonaro em praça pública, ficou mais difícil ainda. Para o STF, vai ser preciso concentrar a energia numa estratégia de jogar todas as suas fichas no tapetão dos tribunais superiores; ou se derruba o homem ali, e todo mundo aceita quieto, ou ele continua no governo.

O povo esteve na rua, sem dúvida – e a queda de popularidade de Bolsonaro, que vem sendo anunciada com tanta esperança pelos institutos de pesquisa, foi desmentida em seu primeiro teste diante da realidade. É certo, igualmente, que as tentativas da esquerda de concorrer no dia 7 com Bolsonaro foram um fracasso miserável de público. Também fica com uma fratura exposta o imenso esforço da mídia para dizer que as manifestações foram antidemocráticas. Como assim “antidemocráticas”, se a população exerceu o seu direito de se expressar em público – por sua livre e espontânea vontade, com bandeiras do Brasil e com crianças, sem ônibus das prefeituras, sem lanche, sem nenhuma violência, sem uma única vidraça quebrada? Tudo bem, mas o povo na rua não vai fazer que o ministro Moraes se “enquadre”, e muito menos que peça para sair; não vai fazer o STF menos hostil a Bolsonaro em suas decisões, nem levar ao arquivamento do inquérito (este sim, ilegal e antidemocrático) conduzido pelo ministro Moraes. O STF, com a massa na Paulista e tudo, sente que tem a força da inércia a seu favor; parece determinado a levar adiante a guerra.

Continua exatamente do mesmo tamanho, assim, o único problema de verdade que existe hoje na política brasileira. Esqueça a discurseira neurastênica que aparece dia e noite, em tempo real, em todo o noticiário – anunciando calamidades imaginárias, golpes de Estado que ninguém vai dar e “ameaças à democracia” descobertas debaixo de cada cama pelo ministro Alexandre de Moraes e por seus colegas do STF, que funciona cada vez mais, nestes dias, como uma delegacia de polícia. O problema que está realmente causando toda essa desordem é, muito simplesmente, o presidente Jair Bolsonaro – ou, numa tradução mais direta, o fato de que o atual presidente da República foi eleito em eleições limpas com quase 58 milhões de votos, tem chances objetivas de se reeleger para mais quatro anos e não é aceito, de jeito nenhum, pelo Brasil que manda na política nacional, nas decisões públicas e na máquina do Estado.

Bolsonaro, para esse Brasil, nunca poderia ter sido candidato à Presidência em 2018. Tendo sido candidato, não poderia nunca ter ganhado a eleição – mesmo porque não tinha partido, dispunha de tempo zero na televisão e foi excomungado desde o primeiro minuto pela mídia, pelas elites e pelas classes intelectuais, do Brasil e do mundo. Tendo ganhado, não poderia nunca ter tomado posse. Tendo tomado posse, não poderia nunca governar. O diabo é que foi acontecendo tudo isso, já se passaram dois anos e meio e ele continua presidente. Pior que tudo, para quem não admite a sua existência na vida política brasileira: pelo que se sabe, Bolsonaro quer continuar sendo presidente do Brasil e conta, para isso, com a reeleição, através das próximas eleições diretas, livres e constitucionais, com voto eletrônico e tudo. Fazer o quê?

É uma sinuca de bico. Esse Brasil que quer Bolsonaro fora do Palácio do Planalto, com ou sem a Paulista lotada, não admite um dos mandamentos mais elementares da democracia: para tirar o presidente que você condena, é preciso derrotar sua candidatura na primeira eleição disponível, caso ele seja candidato, e esperar até o último dia do seu mandato para colocar um outro no lugar. Se ele não for candidato, vai ser indispensável, da mesma forma, aguardar o dia 1º de janeiro de 2023 – antes disso, e fora um dificílimo processo de impeachment, não há o que se possa fazer, a não ser virando a mesa. Eis aí a questão real: virar ou não virar a mesa. O clima entre os exércitos anti-Bolsonaro, no momento, é cada vez mais agressivo. A frase mais repetida, ali, é a seguinte: “Não dá para esperar a eleição”. É muito usada, também, a sua irmã gêmea: “O país não aguenta até lá”. Se não querem que o homem fique até o fim do seu mandato legal, imagine-se, então, o pesadelo que estão tendo com a possibilidade de um segundo mandato de quatro anos; seria, na sua maneira de ver o Brasil, pura e simplesmente intolerável. Sendo assim, “não pode” acontecer.

Conclusão, entre as lideranças do Brasil que manda e os seus fiéis: não é possível correr o risco de que Bolsonaro ganhe as eleições de 2022. Como se resolve um embrulho desses? A maneira mais direta, eficiente e garantida é dar um jeito, qualquer jeito, de não deixar que o presidente seja candidato. É esse o começo, o meio e o fim do problema que existe na base de toda a agitação política de hoje. A eleição presidencial não pode ser suspensa por uma liminar do STF, nem por um embargo-de-qualquer-coisa apresentado pelo PT-Psol-etc. – ou, pelo menos, ninguém está propondo algo assim até agora. Nesse caso, é simples: se tem eleição, não pode ter Bolsonaro. É o que se diz todos os dias, hoje, na confederação nacional antibolsonarista. Não com essas palavras, é claro – afinal, o catecismo mais repetido ali dentro, e dali para fora, é que a democracia está acima de tudo. Mas para haver democracia no Brasil é indispensável eliminar o presidente que foi eleito, dizem eles. A democracia tem de estar acima da democracia, entende? Se não entendeu, tente o seguinte: a democracia é tão importante, mas tão importante, que em certas horas é preciso ignorar as regras democráticas para garantir a sua sobrevivência. Afinal, não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos, não é mesmo? Não se pode levar tudo a ferro e fogo, na letra exata da lei, não é mesmo? Etc. etc. etc. O pensamento é esse, e nenhum outro.

As forças que não reconhecem o direito constitucional de Bolsonaro à Presidência da República, nem hoje e nem nunca, são a essência do que se chama de elites – os grupos, tribos e seitas que sempre controlaram, de um jeito ou de outro, o poder público no Brasil, através da privatização do seu aparelho, da sua autoridade e dos seus recursos. O Estado brasileiro não é público; é privado, e os seus proprietários são a minoria de magnatas que realmente toma as decisões do dia a dia, sempre, seja lá quem estiver no governo. Sabe-se perfeitamente quem são. É o Brasil das castas do alto funcionalismo, das empreiteiras de obras públicas e da turma que tem férias de dois meses por ano, estabilidade no emprego e aposentadoria com salário integral. É o mundo de quem controla as corporações, as federações e as confederações. São os empresários que tinham “acesso” ao governo – hoje estressados por não estarem mais no centro das decisões, deslocados pelo comércio eletrônico, as empresas de tecnologia de ponta e o agronegócio conectado aos sistemas mundiais de produção. São os banqueiros – alguns deles, imaginem só, já se dizem de “esquerda”. É a mídia. São os donos das universidades públicas, que ficam com a maior das verbas da educação. São os que influem no Orçamento. São os intelectuais, os artistas e a alta classe média que se sente culpada por ser branca, pagar escola particular e andar de SUV. É o mundo do privilégio. É o oposto do mundo do trabalho. Não há um único pobre aí dentro, nem um. Nunca houve, nem vai haver.

É essa a gente que acha que “o Brasil não aguenta” – a turma do “é preciso achar uma solução”, do “alguém tem de fazer alguma coisa” e por aí afora. Nunca ocorre a nenhum deles que “a coisa” a fazer – a única coisa a fazer – é seguir a Constituição, e não anular com truques legais os votos de 58 milhões de brasileiros. Não lhes ocorre, também, que a maneira correta de substituir presidentes é a eleição livre, e não o impeachment – a solução de que mais gostam, tanto que, dos cinco presidentes eleitos neste país por eleições diretas nos últimos 30 anos, dois foram depostos, Collor e Dilma, e um terceiro, Bolsonaro, está sendo bombardeado por pedidos de impeachment desde o dia em que entrou no Palácio do Planalto. Pode ser normal um negócio desses?

O bonito dessa história toda é que os inimigos objetivos da democracia e da obediência às suas regras para resolver conflitos são, justamente, os que estão em estado de excitação extrema em “defesa da democracia” e contra os “atos antidemocráticos” – a começar pelo STF, que deveria ser o defensor número 1 da Constituição e hoje se transformou num comitê de salvação pública, com poderes que nenhum órgão do governo brasileiro teve desde o Ato Institucional Número 5. Como pensavam os governos militares, a democracia, na visão dos 11 ministros que estão hoje no Supremo, é “relativa”. Ou, mais precisamente, a obrigação do STF não é interpretar as leis, tentando fazê-las fiéis ao que o legislador aprovou – e sim aplicar a lei segundo as “consequências” que ela pode causar. A lei, pelo ponto de vista predominante no STF atual, não é mais o que está escrito – é a consequência, boa ou má, melhor ou pior, que a sua aplicação vai trazer. A consequência é ruim? Então não se aplica a lei – ou, em português claro, os fins justificam os meios. Como os ministros deram a si próprios o direito de decidir quais são as consequências desejáveis e quais as que não são, e ninguém fala nada, a lei passou a ser o que eles querem. No caso de Bolsonaro, o STF parece ter decidido que respeitar a lei terá as piores consequências possíveis; dane-se a lei, portanto.

Não é isso o que se entende por Estado de direito, e nem por equilíbrio na vida política. Em ambas as situações, a solução para remover um governo ruim é fazer eleição e colocar outro no seu lugar. Ou não é? Talvez não seja. Eleições, argumenta-se há muito tempo, não são um sistema eficaz para escolher presidentes. É claro: na eleição ganha quem teve mais voto, e não quem é o melhor. Ou, de outra forma: é a população que decide quem é o melhor, e a população pode errar; talvez erre na maioria das vezes. No Brasil, por exemplo, o eleitorado é notoriamente ruim para escolher presidente. Nas seis eleições realizadas nos últimos 60 anos, foi capaz de eleger Jânio Quadros, Fernando Collor, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro – para não falar em Lula. Alguém acha que um sistema que produz esses resultados está funcionando direito? Alguém acha que um eleitorado em que dois terços dos eleitores não têm capacidade para entender direito um texto em português ou executar as quatro operações matemáticas elementares está qualificado para eleger o presidente da República?

Tudo bem, mas eleições em que todos votam, inclusive os analfabetos e menores de idade, são o que a Constituição manda fazer. Não há outro jeito. Bolsonaro é ruim, segundo o Brasil da elite, da esquerda e dos jornalistas? Então é preciso arrumar um candidato capaz de ter mais votos que ele nas eleições do ano que vem. Ou, então, reunir dois terços dos votos dos deputados federais (342 em 513) e dos senadores (54 em 81) para aprovar o impeachment. Não há outra saída, dentro da democracia – não importa a quantidade de gente que foi para a rua no 7 de Setembro e que pode voltar nas próximas manifestações, e nem o governo paralelo do ministro Moraes e seus companheiros.

DEU NO JORNAL

SÃO MUITOS PROPIMILHÕES

Lula afirma que sobrevive com salário de R$ 27 mil pago pelo PT e que está devendo para advogados.

“Acho que tenho que gastar tudo com eles”, disse o ex-presidente.

O ex-presidente Lula revelou como paga as contas todos os meses.

“Hoje, eu sobrevivo do PT”, disse, em entrevista a um podcast do rapper Mano Brown, que foi ao ar na ontem, quinta-feira, 9.

“O PT me paga um salário, acho que é de R$ 27 mil”, contou, ao mencionar que vários membros da executiva da legenda recebem ajuda da sigla.

O petista ocupa o cargo de presidente de honra do partido.

Sem revelar o valor, Lula contou que seu patrimônio está bloqueado em razão da Lava Jato.

Segundo o ex-presidente, ele possui três imóveis, sendo um apartamento de 190 m2, onde mora atualmente, além de valores de palestras – entre abril de 2011 e maio de 2015, Lula recebeu R$ 25 milhões pelos eventos, segundo a Justiça.

À época, a Polícia Federal viu suspeita de propinas.

* * *

O que achei arretado nessa notícia aí de cima foi o verbo “sobreviver”, logo na primeira linha, e, em seguida, aquele “acho” que Lapa de Mentiroso usou pra se referir ao “salário” de 27 mil reais que recebe da organização criminoso da qual é proprietário.

Ele “acha” que ganha isso.

Coitadinho, é tão ocupado que não sabe nem quanto recebe mensalmente da Orcrim.

E garante que está devendo uma soma enorme pros advogados.

Mesmo já tendo sido absolvido pelos seus correligionários do STF.

A notícia também diz que Lapa de Corrupto faturou 25 milhões de reais, um prêmio da Mega Sena, dando palestras num período de quatro anos.

Dinheiro que, segundo a Polícia Federal, era um disfarce nada sutil das propinas de grandes empresas que mamaram nos cofres públicos.

Segundo apurou o Departamento de Fuxicos do JBF, só pra fazer comercial da Itaipava, Lapa de Canalha recebeu 2 milhões: um milhão em dinheiro e mais um milhão de latas de cerveja.

Confesso que chega fiquei com inveja…

Eu já fiz diversas palestras aqui no Recife e em outras cidades, e não faturei porra alguma.

E ainda tinha que pagar a gasolina pra abastecer o carro!

E olhem que eu sou presidente!

Presidente do Complexo Midiático Besta Fubana.

Se eu tivesse ganho de cachê apenas 1% dos 25 milhões que Lapa de Bebão faturou, estaria pra lá de satisfeito e de rabo cheio!!!!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MANOEL XUDU, UM GÊNIO DO REPENTE

O grande poeta paraibano Manoel Lourenço da Silva, o Manoel Xudu (1932-1985)

O meu verso é como a foice
De um brejeiro cortar cana.
Sendo de cima pra baixo,
Tanto corta, como abana,
Sendo de baixo pra cima,
Voa do cabo e se dana.

***

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
E a lua chora com pena
Por não poder mais ouvi-lo

***

Eu admiro um caixão
Comprido como um navio
Em cima uma cruz de prata
No meio um defunto frio
E um cordão de São Francisco
Torcido como um pavio.

***

Nessa vida de amargura
O camponês se flagela
Chega em casa à meia-noite
Tira a tampa da panela
Vê o poema da fome
Escrito no fundo dela.

***

Uma novilha amojada
Ao se apartar do rebanho,
Quando volta, é com uma cria
Que é quase do seu tamanho;
Ela é quem lambe o bezerro,
Por não saber lhe dar banho.

***

Carneiro do meu sertão,
Na hora em que a orelha esquenta,
Dá marrada em baraúna
Que a casca fica cinzenta
E sente um gosto de sangue
Chegar à ponta da venta.

***

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem, sem força,
O bico do pinto novo.

***

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

***

O ligeiro mangangá
Passa, nos ares, zumbindo;
As abelhas do cortiço
Estão entrando e saindo,
Que, de perto, a gente pensa
Que o pau está se bulindo.

***

A raposa arrepiada
Se aproxima do poleiro,
Espera que as galinhas
Pulem no meio do terreiro;
A que primeiro descer,
É a que morre primeiro.

Continue lendo

DEU NO JORNAL

DEU NO ISTRANJÊRO

* * *

Essa manchete aí de cima foi publicada num jornal de Praga, capital da República Tcheca.

E eu fiquei curioso que só a peste.

Como sei que aqui no JBF tem muitos trogloditas – aquelas pessoas que falam várias línguas -, vou pedir ajuda deles.

Traduzam o que está escrito aí em cima, por favor.

Tão esculhambando “presidenta Bolsonara“? 

Agradeço antecipadamente a atenção.

RODRIGO CONSTANTINO

BOLSONARO COLOCA A BOLA NO CAMPO DO STF

A nota divulgada pelo presidente Bolsonaro nesta quinta gerou enorme celeuma no país. Do lado dos patriotas que foram às ruas no dia 7 para um lindo espetáculo cívico pedindo liberdade, e que estão indignados com os arbítrios supremos, houve um misto de decepção e revolta inicial. Do lado dos autoritários de esquerda, a reação inicial foi atacar Bolsonaro, chamado de frouxo, tigre de papel, rato.

Minha própria reação foi exacerbada: enxerguei fraqueza no tom excessivamente conciliatório, sugerido por Temer, e cheguei a constatar que era o fim na luta contra o arbítrio do sistema. Nos grupos de bastidores da direita, o sentimento era de frustração e revolta, além de certo desespero: “eles venceram”. Mas nada como um dia após o outro…

Refletindo com mais calma sob vários ângulos, fica mais claro que jornalistas experientes como Augusto Nunes têm um ponto: Bolsonaro pode ter feito uma jogada inteligente. E cá entre nós: a esquerda já saiu da euforia acerca da “covardia” do presidente para a preocupação e até revolta com o “papelão” de Temer na possível pacificação da República. E quando a esquerda não gosta muito de algo, eu já passo a gostar mais!

Falam num acordo costurado por Temer, Ciro Nogueira e Artur Lira, que traga mais harmonia aos poderes. O inquérito ilegal das Fake News, por exemplo, seria transferido para a PGR, seu caminho legal. Entre outros pontos de recuos mútuos. Não vamos esquecer que o principal fator de revolta do lado patriótico é o ativismo de Moraes, que foi indicado ao STF pelo Temer.

Se fui precipitado e injusto em minha reação inicial – e torço muito por isso – volto atrás e assumo o erro sem problema. Nunca tive compromisso com erro. Sigo desconfiado de acordo com esse sistema, mas não sou revolucionário, e sim um liberal com viés conservador. Se houver recuo do lado de lá também, então o Brasil ganha. E meu compromisso é e sempre foi com o povo brasileiro.

A situação colocada pela greve dos caminhoneiros agravou bastante o quadro. Cheguei a criticar os métodos na véspera, alegando que poderia prejudicar o povo, os mais pobres. Tem uma turma do “vai ou racha”, do “tudo ou nada”, que quer ver o circo pegar fogo pois acha que o seu lado leva a melhor na guerra: esquerdistas que apostam na queda de Bolsonaro e bolsonaristas que apostam numa ruptura revolucionária de direita. Esse nunca foi meu perfil, e tentei em diversos momentos alertar para o perigo de levarem o país nessa direção. Ninguém quer uma convulsão social, uma guerra civil.

O que Bolsonaro fez foi acenar para a pacificação, e resta saber o custo dela. Paz na escravidão não serve, e se o arbítrio continuar, haverá caos certamente. Mas há uma possibilidade de mudança de postura. Afinal, Bolsonaro colocou a bola no campo do STF, demonstrou capacidade de ceder, rechaçando a narrativa midiática de que é um golpista. Ele nunca quis fechar o STF, e sim fazê-lo retornar ao seu campo, dentro das quatro linhas da Constituição.

Ninguém sabe ao certo se isso vai mesmo acontecer. Mas se os ministros mais ativistas insistirem em suas ações e falas, ficará mais escancarado ao mundo todo quem de fato acena para o golpismo. Espera-se que o tal acordo tenha sido feito de uma posição de força do presidente, com base na multidão que ele arrastou para as ruas no feriado da Independência. Os veículos de comunicação que agem como partido de oposição ficaram perdidos e sem discurso. Queriam o Bolsonaro “golpista”, da ruptura.

Se houver um recuo de ambos os lados, o Brasil ganha. O sistema é forte demais, poderoso, ainda que podre. Antes da nota do presidente, gravei o podcast da Gazeta e comentei exatamente isso: ninguém pode menosprezar a resiliência dos “monstros do pântano”, que estão aí desde sempre, passando por confisco do Collor, FHC, PT. São sobreviventes num ambiente hostil, controlam o jogo, são os tais donos do poder. Não se peita o sistema impunemente, e o Brasil não vai virar a Suíça num mandato de direita.

É absolutamente compreensível a angústia dos patriotas, a decepção com os recuos do presidente. Muitos foram nas ruas acreditando numa bala de prata, numa intervenção divina – ou ao menos militar. Mas uma ruptura tem enorme custo e é bem arriscada, pode lançar o país no caos e o resultado final é incerto. Poucas revoluções acabaram bem na história. Por isso o conservador é mais prudente, cauteloso, paciente. As mudanças podem vir de dentro do sistema, sem sua implosão? Ou seu estágio de putrefação já é avançado demais para isso?

Eis a dúvida. Mas quero crer na possibilidade de reformas graduais, sem mergulhar o país numa guerra civil. Se há ainda essa chance, então Bolsonaro pode ter acertado. Cabe agora ao STF devolver a bola com suavidade, ciente do risco de dar uma bicuda nela.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

11 DE SETEMBRO

Amanhã, serão 20 anos dessa data. E o que dá para chorar, dá para rir. Assim, em vez de lembrar a tragédia (tantos já fizeram isso), prefiro contar o que aconteceu com um casal querido, Lourdeca e José Maria Pereira Gomes (hoje, apenas saudade). Manhã de terça-feira, chegaram em Nova York. Não sabiam, mas esta seria a única boa notícia do dia. Que os aviões-bomba de Bin Laden já passavam pela Estátua da Liberdade. Um taxi os levava do aeroporto Kennedy ao Newark, onde fariam conexão para Washington. À noite, estariam na abertura de Congresso Mundial de Cardiologia, próximo ao Pentágono. O motorista era um brasileiro, Orlando. Como todos os motoristas de táxi de Nova York, falando um inglês de quinta categoria.

Na ponte Verrazano, local de partida da maratona de NY, ouviram a primeira explosão. E caminhões, motocicletas, bombeiros e ambulâncias com sirenes enlouquecidas. Maus presságios. Pelo rádio, souberam que um avião entrou pelo World Trade Center. Depois o outro. E o motorista, apavorado, só gritava “o que está acontecendo?, o que está acontecendo?” Trânsito engarrafado. Pelo rádio souberam que os aeroportos estavam fechados. Cavaletes policiais interditavam a ponte Bayone, que dá acesso a Nova Jersey e Manhattan – já prenunciando que eles, ao menos dessa vez, voltariam ao Brasil sem pôr os pés no Bloomingdales. O locutor anunciou one tower has collapsed. Tentaram voltar pela ponte Verrazano, agora já bloqueada. Meio-dia e estavam presos na pequena e sem graça Staten Island.

Procuraram hotel e acabaram encontrando um que lembrava Al Capone – com móveis, pinturas e cheiros daquele tempo. No lobby, mais de 100 casais esperando quartos e rezando. Uma espécie de ante-sala do apocalipse. A distribuição se daria por sorteio. Disse o nome. E, por não confiar tanto assim na sorte, foi junto uma nota de cem dólares que o gerente embolsou, discretamente. Receberam a ficha no 20. Lembrou para jogar no bicho.

A noite veio e ainda esperavam. Por cima das malas. Sem lanche. Sem água. Sem notícias. Até que, afinal, alvíssaras. O investimento valeu a pena. Ganharam o último quarto disponível. Sem televisão. E sem ar condicionado, numa temperatura local de quase 40º. Para piorar, o único restaurante do hotel era mexicano. E foi ali que à noite, entre outros homeless, ouviram perplexos a voz gaguejante do Presidente Bush, na televisão, “somos um grande país… uma nação forte… que Deus abençoe a América”. E os que passavam por lá, como aqueles dois brasileiros.

Ainda ficaram seis dias no mais puro sofrimento. Pagando diárias que expressavam, admiravelmente, os efeitos da lei da oferta e da procura. Comendo só fajitas e tortillas. No café, no almoço e no jantar. Contaram os custos da viagem – motorista, diárias perdidas do hotel de Washington, propina, diárias roubadas no hotel de Capone e 100 mil milhas do cartão Varig jogadas fora. Negocinho da China. Até que, Deus é pai, conseguiram voltar. Tendo antes de entrar no avião, ironia suprema, que nos autofalantes do aeroporto ainda ouvir a voz melosa de Louis Armstrong anunciando que o mundo era maravilhoso, “What a Wonderful World, oh yeahhhhhh”.

* * *

GUSTAVO GAYER

DEU NO TWITTER

COLUNA DO BERNARDO