“A sociedade desenvolverá um novo tipo de servidão que cobre toda sua superfície com uma rede de regras complicadas que as pessoas não conseguem entender. Esse estado não tiraniza, mas estupidifica um povo até transformá-lo em um rebanho de animais tímidos e obedientes, dos quais o governo é o Pastor” Alexis de Tocqueville (1805-1859)
Quando se fala em educação, uma expressão muito repetida diz “A tarefa do sistema educacional é formar pessoas questionadoras e com pensamento crítico”. A repetição dessa frase é tanta que parece até discurso decorado.
Quando escuto isso, me lembro de um outro comentário feito por uma professora da rede pública: “As aulas foram usadas para fazer cartazes sobre o 7 de setembro, sobre o outubro rosa, sobre o dia da consciência negra e sobre o novembro azul. Terminou o ano, as crianças não sabem nada de português, matemática, história ou geografia, mas sabem fazer cartaz que é uma beleza!”
O problema aí é que, como qualquer um pode constatar, os tais cartazes são justamente o oposto de “pensamento crítico” ou “cidadão questionador”. Em todas as escolas do país, os cartazes são todos iguais, todos repetindo os mesmos clichês, com o mesmo vocabulário, defendendo os mesmos mocinhos e atacando os mesmos vilões.
Isso não acontece por acaso. Para explicar, vou me repetir e citar de novo Aldous Huxley, de quem já falei em outro pitaco: “Em um estado totalitário verdadeiramente eficiente os escravos não precisam ser coagidos, porque amam a escravidão. Fazer o povo amar a escravidão é a tarefa dos ministérios, diretores de jornais e professores.”
Ao transformar a escola em um centro de repetição, onde todos pensam igual e repetem as mesmas idéias, o estado apela para o “espírito de grupo”, um instinto básico que vêm do nosso passado animal, e mostra que ficar sozinho é perigoso mas ficar junto a um grupo traz segurança. Traduzindo: as crianças são ensinadas – talvez fosse melhor dizer “adestradas” – a ter medo de discordar da maioria. Ao levar ao extremo a idéia de uniformidade, criam-se adultos que sentem um medo irracional de serem vistos como diferentes ou divergentes do grupo. Este comportamento irracional se manifesta na repetição quase mecânica de expressões vazias, palavras de ordem e clichês politicamente corretos. Alguém um dia teve a idéia de chamar o dono de cachorro ou gato de “tutor”, e em poucos dias todo mundo se esforçava para usar a nova palavra com ares de quem falava assim desde criancinha.
No método de “pintar cartaz”, o raciocínio é substituído pela reação instintiva a palavras e expressões, exatamente como funciona o adestramento de animais. Palavras como “tolerância”, “empatia”, “bondade”, “justiça”, “democracia” são designadas como positivas. “Preconceito”, “desigualdade”, “ilegal”, “desumano” e muitas outras são designadas como negativas. A reação ao encontrar qualquer palavra deve ser automática, sem jamais questionar se o uso dessa palavra faz sentido ou se é apenas um apelo emocional.
A dedicação da escola pelo método de “pintar cartaz” não é gratuita: serve para formar adultos infantilizados, porque o aluno aprende que o importante não é fazer um cartaz bonito ou bem pintado, mas fazer um cartaz que diga exatamente o que deve ser dito, com as palavras e expressões pré-determinadas. A criança aprende, e o adulto prossegue obedecendo às ordens que ele não sabe quem proferiu, mas que ele recebeu através da mídia e das redes sociais. Se para a criança as ordens são sobre o outubro rosa e o novembro azul, para o adulto serão sobre tudo o que ele enxerga e vive: obedecer às autoridades, acreditar no governo, jamais pensar em mudar qualquer coisa sem que seja pelo caminho “democrático”, acreditar que os seus direitos são favores concedidos pelos políticos, colocar as ordens desses mesmos políticos acima da sua própria noção de moral e ética. Como ironia final, uma das ordens a serem obedecidas é chamar esse comportamento submisso de “pensamento crítico”.
O Brasil, embora seja um dos países que mais gastam com educação (cerca de 5% do PIB, acima de Suíça e Coréia do Sul), está cada vez pior em tudo que diz respeito ao assunto. Quem quiser pode pegar os números de estudos internacionais como o PISA. Quem preferir, basta assistir à TV ou ler as redes sociais para constatar que o brasileiro médio é incapaz de acertar uma concordância, ignora mais da metade das conjugações verbais e não consegue compreender frases com construção mais complexa que o básico sujeito-verbo-predicado.
Um instituto chamado INAF (https://alfabetismofuncional.org.br/) estima que 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais e outros 36% são semi-analfabetos. Pior que isso: entre os brasileiros com curso superior, analfabetos e semi-analfabetos somam 39%, e apenas 23% são considerados “proficientes”. Então é o caso de se perguntar: escola para quê?
Alguns dos problemas de nosso sistema de ensino são óbvios: gasta-se mais com três milhões de alunos de universidade do que com quarenta milhões de alunos do ensino fundamental; os burocratas de Brasília insistem em controlar e regulamentar cada detalhe das milhares de escolas pelo país; a família é vista como inimiga e não como parceira indispensável do processo de educar uma criança.
Os burocratas da educação brasileira mal disfarçam que no mundo com que eles sonham, crianças só iriam para casa para dormir. O mantra básico de todos eles é “mais verba!”, e entre as justificativas, sobressaem duas: as crianças devem ir para a escola cada vez mais jovens, e ficar lá cada vez mais tempo. Para quê? Para ensinar é que não é: o mundo acadêmico concorda que crianças com menos de sete anos são incapazes de raciocínios abstratos, o que torna impossível ensinar matemática, ciências ou mesmo gramática. Algumas crianças aprendem a ler aos quatro ou cinco anos, mas a capacidade de compreender e interpretar o que lêem demora mais.
Por outro lado, na hora de impôr modelos de comportamento, quanto mais cedo melhor. Frequentando creches desde alguns poucos meses de idade, ao chegar ao ensino fundamental as crianças já estão perfeitamente condicionadas a não ter individualidade, a se comportar como membros de um grupo homogêneo em que todos agem e pensam da mesma forma, e obedecem sem questionar a todos os rituais estabelecidos: fila para entrar, fila para sair, hora para comer, hora para brincar, hora para ir ao banheiro e, principalmente, jamais ser diferente dos outros.
Costuma-se falar da escola contrapondo os conceitos de “educar” e “ensinar”. Na minha opinião, o que a escola brasileira faz é adestrar, de forma muito parecida com o que se faz com cachorros e cavalos. A razão de ser de todo o sistema é impôr a todos um padrão de comportamento que atenda ao politicamente correto, desestimule o pensamento crítico e, acima de tudo, produza pessoas dóceis, obedientes e dependentes do governo. Escolas e universidades não são lugar para pensar: são lugares para repetir incessantemente o comportamento esperado. Aula de história? Decore o nome das batalhas da Guerra do Paraguai. Aula de geografia? Decore o nome dos afluentes do rio Amazonas. Aula de língua portuguesa e literatura brasileira? Decore o nome dos poetas parnasianos. Se decorar tudo direitinho, ganha de presente um diploma.
Já estamos pelo menos na terceira geração formada por esse modelo. O pai que frequentou durante anos uma escola que não ensinou nada, apenas exigiu que ele cumprisse o ritual de ficar X horas sentado na cadeira para acumular N créditos e conseguir um diploma, não vai questionar se seu filho está aprendendo ou não: ele vai aconselhar o filho a seguir o mesmo caminho e não reclamar.
E como o “dinheiro da educação” no Brasil é coisa de centenas de bilhões de reais por ano, há muita gente que tem todo o interesse do mundo em manter a coisa desse jeito. Já imaginaram se as pessoas descobrem que um jovem motivado pode aprender mais com um tablet ligado à internet do que com o professor funcionário público que dá a mesma aula faz vinte anos? Então aparece todo tipo de apelação e mentira para manter a farsa do jeito que está.
1971, EUA : Em Washington, vários governadores estão reunidos com o presidente Nixon para discutir o aumento do consumo de drogas, especialmente maconha. O presidente apresenta um relatório preparado pelo governo federal que recomenda tratar a questão como um problema de saúde pública. Silêncio na sala, rostos constrangidos, até que um governador se anima e diz: “Presidente, esse seu relatório é muito bonito, mas o problema na prática é que se eu não prender ninguém eu não me reelejo!”. Todos os demais governadores se apressam em apoiar o colega. A reunião acaba com a seguinte conclusão: o problema das drogas será tratado como caso de polícia.
2025, Brasil : A Guerra às Drogas já dura mais de meio século; o consumo de drogas nunca parou de crescer, e propiciou o surgimento de grupos organizados que começam a desafiar o poder do governo. A luta contra o tráfico de drogas confunde-se com a luta pelo controle das favelas, em especial no Rio de Janeiro. As tradicionais operações policiais, conhecidas como “subir o morro”, já não convencem a opinião pública. Sentindo a necessidade de algo novo, e de olho, como todo político, na próxima eleição, o governo estadual parte para algo maior, instantaneamente batizado de “megaoperação”. Com um saldo de 121 mortos, a operação foi declarada um sucesso e aprovada com entusiasmo pela maior parte da população.
Baixada a poeira, porém, algumas dúvidas surgem sobre o que vai acontecer daqui para frente:
Algum “chefe do tráfico” ou “líder de facção” foi preso ou morto? Não, até porque é notório que os membros do primeiro escalão não moram nas favelas, moram nos bairros nobres da cidade.
Algum membro do segundo ou terceiro escalão foi preso ou morto? Não, parece pouco provável que algum deles vá para as ruas enfrentar a polícia.
Então quem morreu? Os funcionários de último escalão, facilmente substituíveis.
Então a tal “megaoperação” fez algo para acabar com o crime organizado e com o tráfico de drogas? Não, porque não existe a menor intenção de fazer isso.
A atual política dos governos pelo mundo segue uma lógica simples: Criar algo que deixe a população com medo, e apresentar-se como a solução para esse medo. Isso funciona melhor com uma combinação entre “medos permanentes” e “medos temporários”. Por exemplo, a crise do COVID-19 foi um medo temporário que levou muita gente à beira da paranóia. Já a ameaça da “saúde cara” é um medo permanente onde o governo mantém os hospitais e os planos de saúde particulares próximos da inviabilidade para que a população tenha medo de ficar sem o SUS. Da mesma forma, o governo mantém a criminalidade como um medo permanente e complementa o sentimento com crises periódicas que elevam a retórica a níveis de “o mundo vai acabar”, novamente levando a população à beira da paranóia.
O salário de muita gente no governo depende da existência da Guerra às Drogas. Alguns são empregos fixos, na polícia, ministério público, justiça e diversos departamentos federais, estaduais e municipais. Outros são cargos eletivos, ocupados por políticos que fazem da retórica da guerra sua eterna plataforma de campanha.
Também há gente cujos rendimentos vêm do outro lado: são todos os que fazem parte da estrutura dos tão falados cartéis.
E é óbvio que existe gente que recebe dos dois lados, ou seja, combinam o salário recebido do governo com a propina recebida dos criminosos, em troca de conivência e ajuda nos mais diversos graus.
Por isso, é extremamente ingênuo acreditar que existe, em algum governo, a intenção de acabar com o tráfico de drogas, simplesmente porque, acabando o tráfico, acaba a guerra, e nenhum dos interessados quer acabar com algo tão conveniente e tão lucrativo.
Se os governadores que participaram da reunião com Nixon estivessem aqui, iriam sorrir satisfeitos: se a questão é manter a Guerra às Drogas, a reeleição de todos eles está garantida.
Os números não mentem. Há alguns anos, fiz uma previsão que ninguém queria ouvir: as despesas públicas brasileiras ultrapassariam estruturalmente as receitas em 2027 e 2028. Não foi pessimismo — foi matemática. Hoje, com um buraco de R$ 35 bilhões no orçamento de 2026 e uma dívida pública que já ultrapassa R$ 9,4 trilhões, o equivalente a 76,6% do PIB segundo o Banco Central, a conclusão é inescapável, pois não estamos caminhando para o precipício — estamos correndo. O número não é apenas uma estatística em uma planilha, é a confissão de um governo acuado e a prova de que a aritmética sempre vence.
Assim como uma empresa, um país não deveria sobreviver pensando apenas “no próximo trimestre”. Mas o Brasil vive exclusivamente para a próxima eleição. Cada decreto é pensado para o ciclo eleitoral seguinte; cada medida provisória é um remendo tático. A política de Estado foi substituída pela política de governo — imediatista, reversível e destrutiva.
A MP 1303 não é um erro técnico, mas um suicídio econômico deliberado mascarado de justiça social. Ao aumentar a tributação sobre investimentos e eliminar incentivos de longo prazo, o governo age na contramão do que o Tesouro mais precisa: tempo para alongar sua dívida.
O problema não são as isenções estratégicas para infraestrutura e imobiliário — setores que dependem de estímulo porque o próprio governo quebrou. O problema são as renúncias fiscais mantidas para grupos de interesse enquanto se pune quem investe. É uma medida autodestrutiva, movida por cálculo político, reflexo de um governo que pensa no calendário eleitoral, não no país.
Quando a MP começou a fracassar no Congresso, o relator transformou uma questão tributária em guerra eleitoral, responsabilizando governadores de oposição. A mensagem foi clara: quem se opõe é inimigo dos pobres. Não importam os efeitos fiscais — importa a narrativa. Quando a política tributária vira campanha antecipada, o país perde a capacidade de governar.
Após a derrota, o líder do governo anunciou um “arsenal de possibilidades” para recuperar a arrecadação, reeditando medidas rejeitadas e decretos já declarados inconstitucionais. Isso não é firmeza — é desespero. E, para quem investe pensando em décadas, é devastador. As regras podem mudar a qualquer momento; a previsibilidade desapareceu.
A ironia é que o Congresso respondeu com elegância e aprovou a isenção de IR até R$ 5 mil, mas rejeitou todos os aumentos de impostos que a financiariam. O recado foi claro: querem populismo? Ótimo. Mas paguem cortando privilégios do próprio governo.
O fato que ninguém quer confrontar é que o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis eleições presidenciais e, dos últimos 24 anos, ficou 17 no poder — oito de Lula, seis de Dilma e três do atual governo. São 17 anos definindo prioridades, nomeando ministros e moldando políticas. Se uma empresa tem o mesmo CEO por quase duas décadas e vai à falência, ninguém culpa o mercado — culpa-se o gestor. Com o Estado, não é diferente. Se, após todo esse tempo, a dívida explodiu, o sistema tributário se distorceu e a máquina pública inchou, a responsabilidade é de quem governou.
Há algo mais profundo: o sistema aprendeu a sobreviver da própria ineficiência. Quando as coisas funcionam, os políticos se tornam irrelevantes. Se os Correios fossem lucrativos, não precisariam de salvadores políticos; se o Marco das Garantias funcionasse, juízes não decidiriam cada contrato; se a reforma administrativa passasse, o Estado não precisaria de intermediários para operar. A equação é simples e deixa claro que a eficiência torna políticos desnecessários, e para quem vive do poder, ser desnecessário é inaceitável.
Por isso, quando o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, tornou os Correios lucrativos pela primeira vez na história recente, a resposta foi imediata: bloqueio total à privatização. O resultado hoje é um prejuízo projetado de R$ 20 bilhões até 2026. Não se trata de esquerda ou direita, mas de quem lucra com o caos versus quem precisa que o país funcione.
O buraco de R$ 35 bilhões é mais do que uma falha fiscal; é o sinal de que estamos entrando em um regime de dominância fiscal, quando o endividamento se torna tão grande que a política monetária perde poder, a inflação passa a ser o único imposto possível e o Estado, incapaz de se reformar, começa a se financiar destruindo o valor da própria moeda.
Quando o Judiciário declara que nenhuma reforma “contra” passará, a mensagem é clara: o sistema não está protegendo a instituição, está garantindo que nunca se torne irrelevante por ser eficiente.
O contraste é obsceno: reformas que atingem contribuintes andam rápido; as que tocam privilégios são barradas preventivamente. Executivo capturado, Legislativo fragmentado e Judiciário autocentrado — três poderes falhando simultaneamente, todos priorizando a autopreservação em detrimento do interesse público.
O Brasil não tem uma crise fiscal, mas uma crise de complexidade. São mais de 90 tipos de tributos, um sistema que consome 2.600 horas anuais das empresas, contra 200 horas na média global. É um imposto invisível sobre produtividade e inovação. O Estado foi capturado por si mesmo: quase metade do orçamento federal é destinada à folha de pagamento e aposentadorias. Qualquer reforma atinge quem teria de aprová-la — um sistema travado por design. Foi capturado também por setores privados de interesse.
Como lembra o economista Marcos Lisboa, 10% de todo gasto público vem de decisões judiciais, muitas garantindo privilégios e subsídios setoriais. O PERSE, criado na pandemia como medida temporária, virou permanente até 2027, custando mais de R$ 20 bilhões em renúncias fiscais.
Enquanto isso, pequenas e médias empresas pagam as maiores alíquotas do mundo. Zona Franca de Manaus, BNDES escolhendo “campeões nacionais”, setores inteiros com isenções e juros subsidiados, enquanto empreendedores reais são sufocados. O resultado é uma economia disfuncional em que o Estado escolhe vencedores, mas não os deixa fracassar. Empresas zumbis sobrevivem com subsídios; inovação morre porque inovar exige liberdade para errar — e o Estado não permite.
A crise de eficiência se reflete também no capital humano. Profissionais qualificados estão saindo, levando décadas de produtividade e impostos futuros. Cada um que vai embora torna mais difícil a vida dos que ficam.
A diferença entre competência e fracasso sistêmico é visível: São Paulo, sob gestão profissional, passou de um déficit de R$ 10 bilhões em 2018 para superávits consecutivos, atingindo R$ 11,5 bilhões em 2023 — o maior da história do estado. Contas equilibradas, investimentos em infraestrutura e credibilidade recuperada. Enquanto isso, em 17 anos de poder federal, o PT entrega rombo, dívida crescente e uma máquina pública inchada. Não é coincidência — é competência versus fracasso sistêmico.
O governo não precisou ser derrubado; derrubou-se sozinho. O que vemos não é apenas a preparação para uma eleição, mas a reorganização completa do tabuleiro político diante do esgotamento de um modelo de governança.
A dúvida não é se haverá mudança em 2026 — ela já começou. A questão é se virá acompanhada de uma reforma real ou se será apenas a troca de rostos que preserva o modelo disfuncional. As medidas necessárias contradizem décadas de narrativa construída pelo PT, que sempre evitou cortar privilégios, reformar a máquina pública e reduzir gastos estruturais. O governo não pode fazer isso sem negar sua própria história. Por isso, não fará — e por isso a crise será enorme.
Quem assumir em 2027 herdará não apenas um país quebrado, mas um Estado em regime de dominância fiscal. Não haverá espaço para gradualismo. Será necessário total apoio do Congresso e medidas duras para dar um choque de credibilidade — algo como o modelo Temer-Meirelles, entre 2016 e 2018, quando a simples demonstração de responsabilidade fiscal devolveu confiança aos mercados e interrompeu a espiral de deterioração.
A diferença é que um candidato ungido pelo Centrão terá condições maiores de implementar reformas estruturais, com apoio automático da base parlamentar para aprovar o que hoje é impossível: reforma administrativa, corte de privilégios e ajuste fiscal real. Mas essa janela será curta, e o custo do fracasso, irreversível. Porque, se apenas trocarmos o governo sem mudar o sistema, estaremos adiando a crise — e o custo de cada adiamento cresce exponencialmente.
Amo este país. Construí empresas e criei empregos aqui. Mas ver pessoas competentes fazendo escolhas destrutivas por sobrevivência política é insuportável. A MP 1303 foi rejeitada, mas nada estrutural mudou. O buraco de R$ 35 bilhões continua, os decretos virão, a dívida crescerá. E quando o colapso finalmente chegar, todos fingirão surpresa. A matemática não mente. As pessoas, sim.
Walter Maciel é CEO da gestora de investimentos AZ Quest desde 2011.
Nos últimos doze meses, o congresso aprovou leis aumentando a pena para:
– falsificação de bebidas alcoólicas – violência doméstica ou de gênero – porte de arma de fogo – adulteração de identificação de armas de fogo – bullying e bullying digital – entrega de álcool ou drogas a menores de idade – exploração sexual de menores de idade – sequestro ou cárcere privado de menores de idade – crimes contra idosos ou pessoas com deficiência – abandono ou maus-tratos a idosos – atear fogo em vegetação – danificar florestas – roubo ou furto de cabos de energia – crimes cometidos em escolas – receptação de celulares, eletrônicos e medicamentos controlados – crimes cometidos contra membros do sistema de justiça – apologia ao crime – apologia ao crime pela internet
Eu fico pensando: se nossos nobres deputados e senadores acham que aumentar a pena é a solução para um crime, não seria mais fácil aumentar de uma vez a pena para todos os crimes? Talvez até, se aumentassem bastante, os crimes acabariam.
Claro que isso é só uma brincadeira, porque é óbvio que político nenhum quer o fim dos crimes; pelo contrário, ele quer que os crimes continuem deixando os eleitores com medo, para que ele possa se apresentar como a solução. Da mesma forma, o fim das doenças seria algo horrível para os políticos, porque o povo deixaria de ter medo de ficar sem o SUS. Isso foi bem resumido em um filme de 1995, onde o personagem de Michael Douglas diz “Políticos só querem duas coisas: que vocês tenham medo, e que acreditem que eles são a solução”. (A bem da verdade, a fala exata é “políticos como ele”, se referindo ao adversário republicano, porque Michael Douglas interpretava um político democrata, e nos filmes de Hollywood políticos do partido democrata são santos imaculados, verdadeiros anjos que só pensam no bem do povo.)
Então, essa pantomima toda serve para manter a ilusão de que sem os políticos e suas leis, nossa sociedade se desmoronaria e mergulharíamos no caos. Fazer-se de importante é o pensamento central da política. Vale lembrar que:
– O governo está se vangloriando de ter encontrado e fechado não sei quantas fábricas de bebidas clandestinas, mas só fez isso depois que as pessoas começaram a morrer envenenadas.
– O governo proibiu a Voepass de operar, mas só depois que um acidente matou dezenas de pessoas. Antes disso o governo dizia que estava tudo certo com a Voepass. Aliás, o governo disse que estava tudo certo com a pista de Congonhas no dia do acidente do TAM 3054 e que não havia problemas com o controle de tráfego aéreo no dia do acidente do GOL 1907.
– O governo descobriu que a boate em Santa Maria onde um incêndio matou mais de duzentas pessoas tinha várias irregularidades, mas só depois do incêndio. Antes, a boate tinha todos os alvarás e licenças e tinha sido fiscalizada por todos os “órgãos competentes”.
– As instalações da Samarco em Mariana e da Vale em Brumadinho eram também regularmente fiscalizadas pelos “órgãos competentes”, que nunca encontraram nada de errado. Idem para a ciclovia do Rio de Janeiro, o viaduto de Belo Horizonte, as barreiras de contenção de enchentes em Porto Alegre, e tantos outros casos.
Para um cético como eu, nada disso surpreende. Pessoas são movidas por interesses, e essas coisas acontecem porque nossa sociedade caminhou, passo a passo, nessa direção, com a participação (ou omissão) de todos. Repetindo o que eu já disse várias vezes aqui no JBF, a cada dia fica mais difícil mudar essa realidade, porque o poder controla dois aliados de peso que executam a tarefa de introduzir as idéias de submissão na cabeça das pessoas: o sistema educacional e a mídia.
No dia 4 de novembro haverá eleições para a prefeitura de Nova Iorque, maior cidade dos Estados Unidos e tradicionalmente favorável ao Partido Democrata. Nas primárias, o escolhido dos democratas foi o deputado Zohran Mamdani. O pré-candidato derrotado, o ex-governador Andrew Cuomo, lançou uma candidatura independente. Em uma pesquisa do mês passado, Mamdani tinha 47% das intenções de voto, Cuomo tinha 29% e o candidato republicano, Curtis Sliwa, 11%. A maioria dos analistas considera a vitória de Mamdani altamente provável, se não surgir alguma surpresa de última hora.
Sendo uma cidade tão famosa e rica, é natural pensar que a escolha de seus eleitores seja racional e inteligente, mas nesse caso essa afirmação parece duvidosa. Os pontos principais da plataforma de Mamdani são:
– Congelar os aluguéis e modificar as leis para aumentar os direitos dos inquilinos. – Usar o dinheiro público para construir 200.000 moradias que serão alugadas a preços congelados. – Aumentar as exigências e a fiscalização sobre proprietários de imóveis e confiscar as propriedades daqueles que “demonstrarem consistente negligência para seus inquilinos”. – Criar o Departamento de Segurança Comunitária e aumentar a verba para programas de prevenção de “violência de ódio” em 800%. – Criar uma rede de mercearias estatais para vender produtos básicos mais baratos. – Tornar gratuitos todos os ônibus da cidade. – Creches gratuitas para todas as crianças entre seis semanas e cinco anos de idade. – Cesta básica gratuita para todo bebê nascido na cidade, com itens como fraldas, toalhas, roupas e livros. – Implantar estrutura de energia renovável em 500 escolas e substituir pátios escolares cimentados por “vibrantes espaços verdes”. – Criar o Escritório de Assuntos LGBTQIA+. – Melhorar o sistema de saúde, com ênfase em “ajudar os trabalhadores e sindicatos a subsituir o sistema baseado em lucros”. – Aumentar o salário mínimo em 100% até 2030. – Criar regulamentações e exigências para o serviços de entrega como o iFood para “proteger os trabalhadores negros, marrons e imigrantes”. – Transformar NY em uma cidade “a prova de Trump” (sério, está literalmente no site dele: “Trump-proof NYC”)
Para pagar isso tudo, o programa prevê arrecadar:
– 5 bilhões por ano de um aumento no imposto municipal sobre empresas. – 4 bilhões por ano cobrando imposto de renda municipal dos “muito ricos”. – 300 milhões por ano “melhorando os gastos públicos e reduzindo desperdícios”. – 700 milhões por ano contratando mais fiscais de impostos e cobrando mais multas de “proprietários corruptos”.
Depois de ler o “programa de governo”, o leitor provavelmente estará imaginando que a candidatura de Mamdani se baseia em usar populismo e demagogia para conquistar o voto dos eleitores mais pobres e ignorantes. Mas não. Nas primárias democratas, onde ele concorreu com Cuomo, Mamdani:
– Venceu com ampla margem entre os eleitores com menos de 50 anos, e perdeu entre os eleitores acima dos 50. – Perdeu para Cuomo entre os hispânicos e os negros, e venceu Cuomo no eleitorado branco e asiático. – Perdeu para Cuomo entre os eleitores sem curso superior, e venceu Cuomo entre os eleitores com diploma universitário. – Mamdani venceu por pouco entre os homens e perdeu, também por pouco, entre as mulheres.
Como era de se esperar, Mamdani está sendo duramente atacado pelo presidente Trump, com as usuais ameaças vagas de “salvar a cidade de Nova Iorque”. Trump não fez nada para apoiar o candidato republicano Curtis Sliwa, e ser xingado por Trump provavelmente mais ajuda do que atrapalha Mamdani junto ao eleitorado democrata.
Se Mamdani ganha, como parece provável, o que aconterá? Obviamente ele não conseguirá fazer tudo que está prometendo. Seus aumentos de impostos certamente irão afugentar empresas e moradores para outros lugares – lembrando que em NY basta atravessar uma ponte para estar em outro estado, Nova Jersey. Quando isso acontecer, os seus simpatizantes dirão que ele está sendo sabotado pela ganância dos milionários, enquanto seus adversários verão uma prova de que as suas idéias não funcionam. Se conseguir algum sucesso e agradar o eleitorado, isso certamente afetará a próxima eleição presidencial nos EUA, e se fracassar de forma retumbante, também.
Em resumo, haverá muitos discursos, muitas promessas, muitas acusações, muitas narrativas. Muita gente usará os fatos, ou uma parte cuidadosamente escolhida dos fatos, para provar para si mesma e para os outros que está certa. Como no resto do mundo, grupos a favor e contra brigarão entre si como torcidas de futebol. Quando tudo se acalmar, continuará existindo a famosa frase de Shakespeare em “Macbeth”: A vida é uma história contada por um idiota, cheia de barulho e fúria, significando nada.
Trump anunciou que vai mudar o nome do Departamento de Defesa dos EUA para Departamento da Guerra, como era até 1947. Guerra nunca é boa notícia, mas pelo menos é uma hipocrisia que deixa de existir.
Guerras sempre existiram, parece ser uma “falha de projeto” do ser humano. Ao longo do tempo, a guerra tornou-se algo burocratizado, como tudo que envolve o governo. Exige uma declaração formal e é sujeita a regras e convenções. Mas o desejo humano de brigar fala mais forte, e então o mundo moderno inventou uma novidade: fazer guerra sem dizer que é guerra. De preferência, no país dos outros.
Isso é muito vantajoso para os políticos, especialmente quando se trata de controlar um fator cada vez mais importante: a opinião pública. Governo e mídia convencem o telespectador a acreditar na sua narrativa, e consequentemente acreditar que o governo está sempre do lado da verdade, da justiça, da paz, das criancinhas e dos ursinhos carinhosos. Na prática, a propaganda de guerra consegue eliminar dos telespectadores os princípios éticos, e transformá-los em criaturas animalescas que comemoram a morte de seres humanos como quem comemora um gol do seu time. E não é preciso dizer que essa irracionalidade continuará na hora de votar.
Vamos pegar apenas um exemplo: Estados Unidos, o país mais poderoso e influente do mundo moderno. Desde a Segunda Guerra Mundial, que foi uma guerra devidamente formalizada com todos os carimbos e assinaturas necessárias, não houve um único ano na história em que os EUA não estivessem envolvidos em algum conflito em algum lugar do mundo. Mas nenhum desses conflitos foi formalizado como “guerra”. Falamos em “Guerra da Coréia”, “Guerra do Vietnam”, “Guerra do Golfo” e “Guerra da Ucrânia”, mas em nenhuma delas a burocracia foi cumprida. Houve apenas o discurso apontando alguém como “inimigo”, e pronto: mais uma guerra que não é guerra.
O mais antigo dos “inimigos” provavelmente é o Irã. Entrou para a lista em 1951 com a eleição de Mohammad Mossadegh para primeiro-ministro. Mossadegh prejudicou os interesses das empresas de petróleo e por isso foi derrubado em 1953, em um golpe organizado e pago pela CIA (os arquivos secretos da época já foram liberados para o público após o prazo de sigilo). O golpe transformou o rei Reza Pahlevi, aliado dos EUA, em ditador absoluto, situação que perdurou até 1979 quando Pahlevi, muito doente, abandonou o país. O Irã transformou-se em uma ditadura islâmica, cujo primeiro líder foi o Aiatolah Khomeini. Disposto a não permitir o fortalecimento do Irã, os EUA incitaram uma guerra com o Iraque, então governado por Saddam Hussein. A guerra durou quase toda a década de 1980 e terminou sem vencedor, mas com altos lucros para as indústrias bélicas dos Estados Unidos.
Desde o fim da guerra com o Iraque, o Irã nunca mais atacou ninguém, o que não o salvou de ser atacado várias vezes por EUA e Israel. A alegação tende a ser sempre a mesma: o país estaria a “poucas semanas” ou “poucos dias” de enriquecer urânio em quantidade suficiente para construir bombas atômicas. Sob essa alegação, instalações de pesquisa, laboratórios e prédios do governo foram bombardeados, e pessoas, muitas delas civis, foram mortas.
Uma informação curiosa para os telespectadores que recebem e aceitam sem questionar a questão do urânio enriquecido: nenhum país constrói bombas atômicas com urânio desde os anos 1950. Embora tenha sido usada em Hiroshima, bombas de urânio são consideradas primitivas em comparação com as de plutônio, como a usada em Nagasaki. Um dos motivos é justamente o enriquecimento do urânio, que é caro e demorado. Bombas de plutônio não necessitam de processos de enriquecimento. Então, ou os cientistas iranianos são tão burros que decidiram construir bombas atômicas de pior qualidade e mais difíceis de produzir, ou todo o argumento justificando os ataques ao Irã é falso.
Outro exemplo é o Afeganistão. O país foi ocupado pela União Soviética em 1980, e os EUA forneceram armas para grupos de oposição, como mostrado no filme Rambo III. Houve mais de um milhão de mortes nesta década. Após o fim da URSS, estes grupos tomaram o poder sob o nome Taliban. Após o 11 de setembro, os Estados Unidos ocuparam o Afeganistão e lá permaneceram por vinte anos. Depois de outro milhão de mortes e mais de um trilhão de dólares de gasto, os EUA e a OTAN se retiraram completamente em 2021. Quem passou a mandar no Afeganistão? O Taliban.
Após o 11 de setembro, os EUA também atacaram o Iraque sob a alegação de que o país protegia a Al-Qaeda, embora até os camelos soubessem que isso era mentira. Em 2003 Saddam foi deposto e o Iraque mergulhou na anarquia, o que permitiu à Al-Qaeda se instalar no norte do país e criar o Estado Islâmico em 2013, que durante cinco anos assassinou e destruiu tudo que pôde dentro de seus domínios.
Também há a Síria. Suas fronteiras foram desenhadas pelas empresas de petróleo depois da Primeira Guerra Mundial e do fim do Império Otomano. Formalmente independente desde 1936, viveu em tumulto até 1970, quando os militares liderados por Hafez Al-Assad impuseram um regime ditatorial que aos poucos pacificou o país. Hafez foi sucedido por seu filho Bashar, e no início deste século a situação parecia estar se normalizando, especialmente porque Bashar Al-Assad havia conseguido diminuir a influência do radicalismo religioso muçulmano, em especial a Al-Qaeda.
Mas, por algum motivo, o ocidente decidiu que era necessário derrubar Assad. Por anos, os noticiários ocidentais falaram em “grupos moderados” que se “opunham” ao regime. Na verdade, os tais moderados eram radicais sunitas da Al-Qaeda e sua derivada Al-Nusra, que recebiam dinheiro e armas do ocidente em grande quantidade. A guerra ficou um tempo em banho-maria até que, aproveitando que os telespectadores estavam prestando atenção na Ucrânia, um golpe final derrubou Assad. Abu Mohammad al-Jolani, conhecido líder da Al-Nusra, de um dia para outro trocou a roupa de guerrilheiro por um elegante terno, cortou a barba, colocou no pulso um relógio Patek Philippe de US$ 90.000 e se declarou presidente.
O nome de Al-Jolani ainda estava em várias listas de terroristas procurados pelo mundo (até mesmo na embaixada dos EUA em Damasco) quando o presidente Trump o chamou de “um cara durão, um lutador, com um histórico muito forte. Ele tem muito potencial, ele é um verdadeiro líder.” Ou seja, o governo da Síria, que era inimigo da Al-Qaeda, foi derrubado com o pretexto de combater a Al-Qaeda, e substituído por um aliado da Al-Qaeda. Os jornalistas e os telespectadores ocidentais se emocionaram com a volta à Síria da “democracia”. O número de mortos é estimado em meio milhão nos últimos quinze anos, e as perseguições religiosas têm aumentado.
Para contar a história completa do Oriente Médio, seria necessário falar do aliado local dos EUA, Israel, outro especialista em atacar os outros sem declarar guerra. Mas o pitaco já está bastante longo, então fica para outro dia. Boa noite aos telespectadores.
Essa é uma entrevista com o senador e ex-candidato à presidência dos EUA, Ron Paul, realizada em 2012:
Qual o problema com o Banco Central?
Um banco central tenta fazer algo que é impossível de ser feito. Portanto, não se trata de culpar uma única pessoa. O culpado não é apenas o atual presidente ou o presidente anterior. O principal problema é a suposição de que os burocratas podem saber exatamente qual deve ser a taxa de juros do momento e qual deve ser a oferta monetária, ou a suposição de que é possível ter preços estáveis ao mesmo tempo em que se imprime dinheiro. Há ainda o grande problema de se imaginar que o desemprego pode ser solucionado pela simples manipulação da oferta monetária.
O país estaria melhor sem um Banco Central?
É claro. É melhor que não tenhamos depressões, inflação, caos econômico e todos os outros problemas por que passamos. Não teríamos esse sistema furtivo de financiamento de programas de um estado gigante. Seria impossível o estado financiar suas guerras e seus vários programas assistencialistas, coisas que apenas fazem com que o estado cresça ainda mais e torne as pessoas – ricos e pobres – dependentes do assistencialismo. Nada disso pode acontecer sem um banco central.
O que o senhor acha da medida do Fed de injetar US$ 600 bilhões de dólares na economia americana na esperança de estimular a recuperação por meio da compra de títulos de longo prazo em posse dos bancos?
É terrível. Eles nos jogaram nessa encrenca porque houve um afrouxamento monetário excessivo. Foi a contínua inflação da oferta monetária e taxas de juros artificialmente baixas que levaram os EUA à sua atual situação econômica – isso nos deu todas as bolhas por que passamos e você não pode resolver todos os problemas causados pela inflação simplesmente gerando mais inflação. Já tivemos a primeira rodada de afrouxamento monetário; estamos agora na segunda. Porém, dessa vez será sob a orquestra de Bernanke. Eles não falaram que houve afrouxamento monetário sob o comando de Greenspan, mas essencialmente houve a mesma coisa – uma maciça inflação da oferta monetária, com taxas de juros muito abaixo das que prevaleceriam no livre mercado.
Vivemos em um mundo que é impulsionado cada vez menos por idéias e cada vez mais por palavras de ordem e discursos emocionados. Ao lado da “democracia”, da “igualdade” e da “empatia”, despontou nas últimas semanas a “soberania”. Como de costume, pouca gente se dá ao trabalho de entender do que realmente estamos falando.
O que Trump está fazendo não é nada diferente daquilo que o Brasil têm feito desde que existe: fechar-se ao comércio com outros países a pretexto de “fortalecer a indústria nacional”, o que nos discursos dos políticos se mistura com a tal “soberania”. Aliás, o Brasil em muitas ocasiões já cobrou tarifas de importação bem maiores que os 50% do Trump – sem resultado, claro.
“Quem defende o protecionismo para o seu país fala em “soberania nacional”, “setores estratégicos” e outras expressões ufanistas. Mas quando os outros países fazem o mesmo, aí eles são “imperialistas”, “arrogantes”, “agressivos”. Não é ilógico (e hipócrita) achar que uma coisa é boa quando nós fazemos com os outros mas é ruim quando os outros fazem com a gente?”
Muita gente está protestando por “soberania” simplesmente porque enxerga o mundo girando ao redor do seu umbigo, e portanto acham que o direito de fazer o que quer é apenas nosso, e não dos outros. Ou seja, não conseguem enxergar que o Trump também tem a soberania dele, e ela inclui cobrar impostos de importação quando achar conveniente, e quem têm que gostar ou não são os eleitores dele. Bom notar que muita gente nem sequer entendeu do que se trata e acha que quem vai pagar 50% são os brasileiros.
Os atuais protestos por soberania misturam diversos conceitos: Também há quem se preocupe com antigas noções militares de “independência”, sonhos de um país que seja auto-suficiente e não dependa de ninguém (o Brasil está tão perto dessa independência quanto eu estou perto de vencer a maratona nas próximas olimpíadas). Nunca chegamos a ser um “país industrializado”, no sentido comum do termo. Na Europa do século 19 os países competiam em número de siderúrgicas e em produção de aço, enquanto nós, deitados em berço esplêndido, só fomos ter uma em 1941. Somos totalmente dependentes dos outros países em coisas básicas como medicamentos, computadores e automóveis. Exportamos petróleo bruto mas importamos diesel porque não temos capacidade de refinar tudo que consumimos. Nosso agro negócio cantado em prosa e verso depende não só desse diesel para mover suas máquinas mas também de fertilizantes importados. E por aí afora.
Também está se falando em soberania em outro sentido: a soberania do judiciário. Aí trata-se apenas da nossa secular subserviência, nossa tradicional postura de endeusar a autoridade. Porque, em uma análise mais fria, o judiciário não tem soberania alguma. Alguns poderiam falar em soberania do governo, do qual o judiciário é apenas uma parte, que deveria ser “independente e harmônica” com as demais. Mesmo assim não estaria correto, soberano é o povo, a não ser que o artigo 1º da constituição está lá só para enfeitar. Mas para um país onde já se disse “autonomia não é soberania”, discutir isso parece preciosismo, e não muda o fato de que muita gente acha mesmo que o judiciário está acima da sociedade e pode fazer o que lhe dá na telha. Na verdade, ele até tem mesmo feito o que lhe dá na telha, mas tudo na vida tem consequências, incluindo o campo das relações internacionais.
A guerra do passado era uma questão de poder e ego: os poderosos brigavam entre si e obrigavam o povo a participar. Eles, os poderosos, iam para as batalhas junto com seus comandados, então pelo menos podemos dizer que eles “colocavam o deles na reta”.
Hoje, a guerra é uma questão de economia e política. É feita para dar lucro e criar oportunidades, como disse um assessor do ex-presidente Obama: “Nunca devemos desperdiçar uma crise. Na crise, podemos fazer aquilo que normalmente não poderíamos”. E como Orwell ensinou em “1984”, não há crise melhor e mais eficiente do que uma guerra contra um inimigo externo a quem podem ser atribuídos todos os males do mundo.
Se o objetivo das pessoas comuns, no mundo todo, é construir coisas, o objetivo dos senhores da guerra é gastar dinheiro em uma coisa que vai se auto-destruir destruindo outras coisas junto com ela. Nos dias de hoje, quanto mais riqueza destruída melhor. Generais, políticos e empresas de defesa adoram brinquedos caros de alta tecnologia.
Uma comparação rápida: o P-51, o caça mais eficaz da 2ª Guerra Mundial, foi de um papel em branco para a linha de produção em seis meses, e cada um custava cinquenta mil dólares. Hoje, os mesmos EUA têm o caça F-35 que ficou sendo projetado durante 10 anos e custa algo entre cem e duzentos milhões de dólares, dependendo de como se olhe uma contabilidade feita para não ser entendida e para ocultar os desvios, desperdícios e propinas que fazem parte do custo. Já foram fabricados 1200 deles, e após esse gasto de mais de um trilhão, eles não servem para nada porque hoje se usam drones, e um caça de cem milhões é inútil contra um drone de dez mil. (vale lembrar que isso ocorre em praticamente todo o mundo: o Brasil, por exemplo, também está gastando bilhões em caças suecos para se defender sabe-se lá de quem ou do quê)
Então, nos últimos sessenta ou setenta anos, as guerras existem para justificar o gasto de enormes quantias de dinheiro. Um exemplo mais recente: No mês passado, depois que Israel atacou o Irã, este respondeu lançando montes de foguetes em direção a Israel. Para interceptá-los, foram usados entre 60 e 80 mísseis THAAD, cada um custando quinze milhões de dólares. Em uma única noite, um bilhão de dólares virou fumaça. Os políticos adoraram. Um deputado não pensa em termos de eficácia das armas, ele pensa apenas em quantos dólares serão gastos e quantos empregos serão criados na região que é sua base eleitoral se uma indústria de equipamentos militares se instalar lá.
O mais irônico é que os trilhões gastos em equipamentos sofisticados não se destinam a enfrentar países que usam equipamentos similares. A arma preferida dos supostos inimigos é um estoque inesgotável de adolescentes semi-analfabetos e fanáticos o suficiente para sacrificar a própria vida em atentados terroristas. São “armas” baratas e muito mais eficazes do que mísseis e aviões bilionários. Se realmente os tais “inimigos da democracia e da liberdade” quisessem atacar os EUA ou os países da OTAN, estas armas, isto é, estes adolescentes, já estão instalados aos milhares dentro dos países-alvo, apenas aguardando uma ordem de agir. E as modalidades de ataque são inúmeras, além das primitivas (mas ainda assim eficientes) bombas: ataques químicos, biológicos, cibernéticos, destruição de infra-estrutura.
Mas nada disso interessa muito aos senhores da guerra. O que importa é manter a máquina funcionando, manter o dinheiro fluindo, e manter o cidadão comum quieto e confiante de que o governo está zelando por ele.