DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO JORNAL

CONVERSA SENATORIAL

O senador Flávio Bolsonaro confirmou ida aos EUA para “defender o PIX” e alfinetou Lula, acusando o presidente de estar “se lixando” para o Brasil e para os brasileiros:

“Vou lá defender o nosso Brasil”, disparou.

* * *

Muito amostrado esse senador Flávio.

Quero ver mesmo ele ganhar essa parada com o Lula num detalhe:

Falando mais verdades do que o descondenado fala, na média de uma por dia.

Fico no aguardo.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PROMOÇÕES E EVENTOS

DEU NO JORNAL

LADROAGEM FARDADA

Na Venezuela, cai o ditador, mas não muda o regime.

Com denúncias de militares roubando vítimas do terremoto, a ditadora em exercício Delcy Rodriguez não prende malfeitores, mas restringe o acesso da imprensa.

* * *

Militares roubando vítimas do terremoto…

PQP !

É de lascar.

Um absurdo só possível mesmo de acontecer naquele recanto de mundo.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AO AMOR ANTIGO – Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

DEU NO JORNAL

NA COPA, NÃO SOU EU QUE ESCREVO, É NELSON QUE ESCREVE POR MIM

Francisco Escorsim

copa do mundo bélgica senegal

Belgas comemoram vitória e senegaleses lamentam eliminação da Copa do Mundo, após vitória da Bélgica por 3 a 2 na prorrogação

Amigos, Nelson Rodrigues não me abandona, continua escrevendo certo por minha digitação torta. Aviso ao leitor menos frequentador de arquivo morto: não é plágio, é possessão. Ele dita, eu erro a pontuação, ele corrige e seguimos os dois diante da televisão, torcendo pela Seleção – e contra todos, que é a única torcida decente que existe.

Na tela, enquanto aguardamos a Espanha entrar em campo, conferimos a reprise da Bélgica morrer contra o Senegal. Dois a zero, quase acabando. De Bruyne sumido, Doku sacado, Lukaku no banco feito móvel velho esperando a casa pegar fogo para ser útil. E Nelson aqui, pensando: a Bélgica vai morrer como morrem os aristocratas, sem drama, apenas cansada de si mesma.

Nós, particularmente, não cremos em acaso. Cremos em destino, que é o acaso com CPF. E o destino, nesta Copa de 2026, anda especialmente cruel com os africanos. Lukaku entrou e os belgas empataram nos minutos finais, em uma saída errada do goleiro senegalês, um instante que ficará, para Mory Diaw, como fica para todo homem a lembrança exata do momento em que confundiu a mulher errada com a certa.

Quando a prorrogação chegava ao minuto final e já nos preparávamos para os pênaltis, relembrávamos nossa virada contra o Japão. Como sofremos. O bastante para não perder o velho complexo de vira-lata que inventei – sim, fui eu, Nelson – e que o brasileiro carrega como sua certidão de batismo. E vencemos nos acréscimos, porque no Brasil tudo se resolve assim. Martinelli marcou como um menino chutando a própria angústia para dentro do gol.

Falando em angústia, pensem agora na Alemanha, que tentava o penta e perdeu pro Paraguai – o Paraguai! Antes de morrer de vergonha, morreu nos pênaltis, que é a forma mais civilizada de suicídio que o futebol inventou. E o goleiro paraguaio Orlando Gill, que ninguém conhecia até terça-feira, entrou para a história como quem despacha visita inconveniente.

A Holanda também caiu nos pênaltis, e voltou para casa laranja e murcha, como sempre voltou de todas as Copas. Não houve viúva chorando: a arrogância morre sozinha, sem cortejo. Vale para os alemães também. E quase para os ingleses, derrotados quase sempre, mas não (ainda) nesta Copa. Ainda assim, sofrem. É da natureza inglesa sofrer, mesmo vencendo a República Democrática do Congo.

Quem não sofreu foi a França, que passeou sobre a Suécia com a crueldade elegante de moça bonita que sabe que é bonita. Tampouco o México, que atropelou o Equador, e os outros anfitriões da Copa, que avançaram também sem maiores sustos. O Canadá bateu a África do Sul por 1 a 0, com a austeridade de quem nunca leu um romance russo, e a torcida dos EUA acredita até agora que venceu por 3 a 0 porque não entende a regra do impedimento.

A Noruega bateu a Costa do Marfim e se tornou nossa próxima adversária. Contemplamos o rosto de Haaland no final, aquela alegria escandinava que não sabemos se está de férias no verão ou num velório no inverno. Não sentimos medo algum. Talvez tenhamos exorcizado nossos medos com os nipônicos. Ou talvez seja o humano preconceito que atesta que gigante loiro pode ser ótimo para publicidade de leite, não pro futebol.

Voltamos à Bélgica, que marcou na bacia das almas da prorrogação, vencendo o jogo. Concluímos em voz baixa, católicos envergonhados, que no futebol a metafísica é outra: morre-se em noventa minutos, ressuscita-se depois de mais trinta, e às vezes é preciso esperar a descida do Espírito Santo na cobrança de pênaltis para consumar o sacrifício.

Vai ver é por isso que não tememos os noruegueses. Os deuses nórdicos que fiquem com seus fiordes como zagueiros e sua austeridade luterana no meio de campo e seu viking solitário no ataque. No campo, a religião é outra, e só a Seleção reza na língua certa.

Mas cesse tudo o que a musa antiga canta, pois as trombetas da vaidade ibérica começam a soar na tela iluminada. Entra em campo a Espanha, com seus passes de uma geometria milimétrica, asséptica, quase profilática. Vão enfrentar a Áustria, que parece aguardar um massacre com a dignidade impotente de sua aristocracia fantasmal.

Nelson ajeita os óculos escuros na ponta do nariz e dá a última baforada no seu cigarro imaginário. Já não me dita nada, apenas observa, olímpico, a soberba europeia em campo. Aguarda o momento exato em que a bola – essa mulher caprichosa e sem coração – decidirá punir os que jogarem sem pecado e sem paixão.