MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MOEDA FORTE OU MOEDA FRACA?

A idéia é simples e qualquer aluno de primeiro grau sabe repetí-la de cor, porque a escutou centenas de vezes de todos seus professores engajados e admiradores do socialismo: “câmbio valorizado é ruim, a moeda deve ser fraca para favorecer as exportações”. Alguns mais empolgados chegam a fixar valores: “com Ciro Gomes presidente, o dólar vai valer oito reais e o Brasil vai virar uma superpotência de tanto exportar.” Infelizmente, nossa história mostra o contrário: quando o dólar sobe, as exportações caem.

Na verdade, é quase instintivo pensar que moeda forte é bom. O governo se esforça para nos doutrinar, desde criancinhas, para conseguir que a maioria acredite no contrário. Por quê? Ora, porque é um hábito do governo dizer que faz o que é melhor para nós, enquanto faz o que é bom para ele e ruim para nós.

Basta uma simples olhada nos dados sobre comércio mundial para constatar que os países mais abertos são ricos, e os países mais fechados são pobres. Importante: país aberto é aquele que exporta e importa, não aquele que só exporta – esse quase sempre é pobre. Os economistas podem explicar isso de várias formas (e até mesmo negar os fatos, se forem partidários do Ciro Gomes), mas eu prefiro as explicações simples: um país que é aberto às importações pode ter tudo do melhor, sem ter que ser o melhor em tudo. Pode comprar computadores do Japão, smartphones da Coréia, automóveis da Alemanha, máquinas da Suíça. E ao exportar, tem que ser eficiente, porque está concorrendo com o mundo todo. E é mais fácil produzir algo bom se você pode importar as melhores máquinas e os melhores computadores.

O país fechado, por outro lado, não pode ter o melhor. Só pode ter o que o governo permite, que é o produto nacional. E como é difícil ser tão bom como o Japão, a Coréia, a Alemanha e a Suíça ao mesmo tempo, as pessoas só podem ter computadores ruins, smartphones ruins, automóveis ruins, máquinas ruins. Ruins e caras, porque se as empresas têm um mercado garantido, porque se esforçar?

Para participar do mercado global, há dois caminhos. O primeiro, o dos países bem-sucedidos, é ser bom em alguma coisa. Fazendo isso, o resto do mundo vai querer seus produtos. A Nova Zelândia é boa em produzir ovelhas. A Escócia, em uísque. A Coréia do Sul produz aparelhos eletrônicos. O Japão é bom em automóveis. O Chile produz vinhos e cobre. E por aí vai. Nenhum deles quer produzir tudo. A Nova Zelândia não tem fábricas de automóveis nem de eletrônicos: eles preferem comprar dos melhores (e veja que interessante: eles não importam automóveis nem computadores do Brasil).

O segundo caminho é seguido pelos que não querem ou não conseguem ser bons em nada: vender barato. O jeito mais fácil de fazer isso é justamente desvalorizando a moeda. Quanto mais “forte” for o dólar ou o euro, mais vantajoso parece ser o negócio. Parece, mas não é, porque exportar com câmbio desvalorizado é simplesmente trabalhar por mixaria. O que adianta ter um superavit comercial de trocentos bilhões de merrecas, se estes trocentos bilhões de merrecas não valem nada?

Isso não quer dizer que não podemos ser um grande exportador de soja ou minério de ferro. Podemos, mas desde que nossa competitividade venha da eficiência, da tecnologia, da produtividade. Produzindo com eficiência, não precisamos baixar o preço. A Escócia não precisa de moeda desvalorizada para vender uísque para o mundo todo. A Suíça tem uma moeda fortíssima e mesmo assim todos os países querem comprar seus produtos. E sempre é bom lembrar: não acredite na imprensa chapa-branca que diz que a China conquistou mercado desvalorizando a moeda. É mentira. Durante todo o período em que a China cresceu a passos de gigante, sua moeda se valorizou frente ao dólar (e nos últimos anos, quando sua economia desacelerou, a moeda voltou a cair). Aliás, na grande maioria dos países, a relação é sempre a mesma: economia crescendo, moeda valorizando; economia piorando, moeda desvalorizando. É quase inacreditável que economistas e jornalistas continuem repetindo que moeda desvalorizada é bom para a economia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TRUMP E O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

O presidente Donald Trump está metendo os pés pelas mãos na questão das tarifas, e isso é uma pena, porque pode acabar compromentendo as boas idéias que ele anunciou em outras áreas. Por exemplo, sua promessa de acabar com o Departamento de Educação, que é o ministério deles.

Aqui no Brasil, onde é costume achar que até o sol e a chuva só existem pela vontade do governo, uma idéia dessas parece absurda. Mas para entender do que se trata, é preciso lembrar um pouco como tudo começou.

Os Estados Unidos têm esse nome porque era exatamente isso que eles se propunham a ser: não um “país” no sentido usual da palavra, mas um “conjunto de estados livres e independentes”, “unidos” entre si em uma confederação. Após a independência, eles nem tiveram muita pressa em elaborar uma constituição, e alguns até achavam que seria desnecessário, porque cada estado já estava elaborando a sua. Só dez anos após a independência é que foi formado um comitê para elaborar uma constituição federal, que entrou oficialmente em vigor em março de 1789. Mas mesmo com a constituição, a idéia de uma confederação de estados soberanos persistia: a independência de cada estado era muito maior do que é hoje, com o governo federal sendo responsável basicamente pelas forças armadas e relações diplomáticas com outros países. Na época, o único imposto federal era o cobrado sobre importações, e cada estado tinha autonomia para definir seu próprio sistema tributário.

As intenções dos constituintes, gente como Thomas Jefferson, James Madison e Benjamin Franklin, eram as melhores. Eles sabiam que o governo deve ser pequeno e próximo do povo, e fizeram de tudo para mantê-lo assim. Não conseguiram. O governo federal começou a crescer e se intrometer na vida dos estados, privilegiando alguns em prejuízo de outros. A coisa acabou com sete estados decidindo se retirar da união, e o governo federal (representado pelo presidente Lincoln) iniciando uma guerra para impedi-los, em uma afronta ao espírito da confederação: se os estados aderiram à União voluntariamente, também poderiam retirar-se dela voluntariamente, e isso foi até explicitamente dito por três dos estados ao ratificarem a constituição.

Como todos sabem, o lado do presidente Lincoln venceu a guerra, impediu os estados do sul de criar uma nova confederação, enterrou o conceito “todo poder emana do povo” e transformou os Estados Unidos em mais um país como todos os outros haviam sido: um lugar onde o governo manda e o povo obedece. De passagem, a guerra serviu de pretexto para a criação do imposto de renda, que foi demagogicamente (ou seria melhor dizer cinicamente?) previsto para durar cinco anos com uma taxa máxima de 5%.

Depois que Lincoln “abriu a porteira”, o governo federal não parou mais de crescer. Como a constituição continuava dando autonomia para os estados, o governo adotou a tática do suborno: criava novos impostos federais, e usava o dinheiro para instituir “programas” onde esse dinheiro era usado para ajudar os estados, exigindo em troca que os estados concordassem com as políticas do governo central.

Um exemplo: segundo a constituição, quem constrói as estradas são os estados. Mas em 1916 um deputado propôs uma lei criando um fundo federal para construção de estradas, que foi aprovado com festa pelo então presidente Woodrow Wilson. Outro fundo foi criado em 1921. E em 1956 o presidente Eisenhower criou o Sistema de Rodovias Interestaduais, com uma verba que equivale hoje a mais de 200 bilhões de dólares. Os governadores gostaram da idéia de não precisar gastar seu dinheiro com a construção de estradas, deixando a despesa para Washington (a cidade, não o presidente). Mais tarde, nos anos 1970, quando o governo federal iniciou a famosa “guerra às drogas”, os estados que discordaram foram ameaçados com a suspensão das verbas federais para o setor rodoviário.

Mas vamos falar da educação: embora seja natural pensar que um ministério da educação sempre existiu, na verdade ele só foi criado em 1979, durante o governo Jimmy Carter. E seu método de ação seguiu a mesma receita: tirar dinheiro dos estados através de novos impostos federais e exigir a submissão dos estados em troca de devolver o dinheiro sob a forma de “verbas federais”.

A principal preocupação do departamento federal de educação, como sempre acontece, foi dar a impressão de que ele é necessário e indispensável, e sob esse pretexto aumentar de tamanho continuamente. Como se diz no popular, “criar dificuldades para vender facilidades”. Ou, no caso, criar problemas para criar novos departamentos que prometem resolver os problemas.

Talvez a parte mais escandalosa da atuação do departamento de educação em seus 45 anos de existência tenha sido a implantação de políticas raciais: O Distrito de Columbia definiu uma meta de aprovação nos testes de leitura de 94% para alunos brancos e de 71% para alunos negros. No Tennessee, a meta de aprovação nos cursos de Inglês III foi de 65,4% para estudantes brancos e de 47,6% para estudantes negros. Em Minnesota, a meta de proficiência em matemática do 11º ano foi definida em 82% para alunos brancos, 66% para alunos hispânicos e 62% para alunos negros. No Alabama, a meta era que 92% dos alunos brancos e 79% dos alunos negros do terceiro ano passassem em matemática. Tudo isso, claro, seguindo as diretrizes criadas pelo governo federal.

Claro que esse duplo padrão criou problemas, e o departamento de educação reagia aos problemas criando novos “programas”, novas “metas” e novas burocracias que eram enfiadas goela abaixo dos departamentos estaduais. Como resultado, o nível escolar do país caiu a níveis nunca antes vistos, o que resultou na desindustrialização que agora Trump quer resolver com tarifas de importação. A atual Secretária de Educação foi nomeada por Trump com a missão de extinguir o departamento e devolver o poder aos estados. Não se sabe se irá conseguir.

O caso do ensino nos EUA seria um excelente exemplo para nós e para qualquer país que esteja disposto a aprender com a história e com os fatos.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

MILHARES DE UCRANIANOS MORRERAM EM VÃO – Ted Snider (colunista do The Libertarian Institute)

Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Não sendo suficiente para conquistar a Ucrânia, a força invasora foi suficiente para persuadir a Ucrânia a sentar-se à mesa de negociações. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que esse era o objetivo original da operação militar: “As tropas estavam lá para pressionar o lado ucraniano a negociar”.

Quase funcionou. Em poucas semanas, em Istambul, uma paz negociada estava próxima. Mas os Estados Unidos, o Reino Unido, a Polônia e seus aliados da OTAN empurraram a Ucrânia para fora do caminho da diplomacia e para dentro do caminho contínuo da guerra. Putin mobilizou mais tropas e mais recursos.

Três anos depois, uma paz negociada semelhante será assinada, apenas ajustada à realidade atual. A Ucrânia poderia ter feito um acordo mantendo todo o seu território, exceto a Criméia. Centenas de milhares de soldados ucranianos morreram ou ficaram feridos em vão, em nome da fantasia dos Estados Unidos de uma OTAN sem limites e uma Rússia enfraquecida.

A Rússia foi para Istambul em uma posição mais fraca do que está hoje. Ela sobreviveu à guerra de sanções e isolamento e venceu a guerra contra as armas da OTAN no campo de batalha. A Rússia está disposta a um cessar-fogo, mas apenas se puder obter sem lutar tudo o que pode obter através de combates.

Depois de toda a perda de vidas, a Ucrânia abrirá mão de mais território e da adesão à OTAN. Eles não receberão uma garantia de segurança que envolva um compromisso militar dos EUA. Kursk se tornou um fracasso estratégico caro e as forças armadas ucranianas mal conseguem se manter em toda a extensão da frente de 1.600 quilômetros. A Rússia não vai parar a guerra sem garantir um acordo assinado pelos EUA e pela OTAN de que não haverá Ucrânia na OTAN nem OTAN na Ucrânia. E não vai parar a guerra sem a Criméia e pelo menos alguns dos quatro oblasts que anexaram e uma garantia na constituição ucraniana da proteção dos direitos dos russos étnicos no território que permanecer na Ucrânia.

Parece claro que, antes de os EUA pressionarem a Ucrânia a aceitar a proposta de um cessar-fogo imediato e provisório de 30 dias, eles já haviam lançado as bases discutindo com a Rússia, que pode continuar lutando para alcançar seus objetivos inegociáveis.

O secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou, por exemplo, que as negociações da Arábia Saudita com a Ucrânia incluíram discussões sobre “concessões territoriais”. Donald Trump disse que na próxima vez que falar com Putin, “falaremos sobre terra, falaremos sobre usinas de energia”. O secretário de defesa, Pete Hegseth, já disse que qualquer ideia de recuperar o território perdido da Ucrânia é “um objetivo irrealista” e uma “meta ilusória”.

E, o mais importante, Hegseth também estipulou que Trump “não apoia a adesão da Ucrânia à OTAN como parte de um plano de paz realista”. E Trump compartilhou esse veredicto com seus aliados da OTAN. Em 14 de março, quando o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, foi questionado se Trump havia retirado a adesão da Ucrânia da mesa de negociações, ele simplesmente respondeu: “Sim”.

Desde o momento em que a Ucrânia foi afastada das negociações em Istambul até o momento em que retornará à mesa de negociações, toda a perda de vidas e território foi em vão. Está definido que a Ucrânia não recuperará todo o seu território e está definido que eles não se tornarão membros da OTAN. Centenas de milhares de soldados ucranianos morreram por nada além da arrogância americana.

* * *

P.S. Faço uma ressalva à análise de Ted. Não se deve descartar a possibilidade de Alemanha, França e Inglaterra convencerem Zelensky a continuar a guerra sob a promessa de que a União Européia irá garantir armas e dinheiro para a Ucrânia no lugar dos Estados Unidos. Nesse caso, é impossível prever como tudo terminará porque trata-se de uma situação completamente absurda e irracional. Ao contrário dos EUA, os países da Europa não têm de onde tirar centenas de bilhões de euros para bancar uma guerra. Se tentarem, estarão cavando sua própria derrota.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TRUMP: UM ERRO E UM ACERTO

Difícil imaginar um assunto mais frequente nos dias de hoje que Donald Trump. O novo presidente parece decidido a ter o monopólio dos noticiários. Deixando de lado as opiniões pré-formadas, que são muitas, podemos dizer que até agora Trump tem um grande acerto e um grande erro.

O acerto de Trump é estar acabando com a guerra na Ucrânia. Ainda existe muita gente, incluíndo jornalistas e comentaristas de TV, que acredita (ou finge que acredita) que a história do mundo começou em fevereiro de 2022 e que a guerra começou porque o Putin um dia acordou sem nada para fazer e disse “Sabe de uma coisa? Vou invadir a Ucrânia.”

Os leitores aqui do JBF são mais inteligentes que isso, claro. Eles sabem que esta guerra começou lá em 2010 quando a Ucrânia elegeu o presidente Viktor Yanukovich em uma eleição muito polarizada e que mostrou um país claramente dividido, geograficamente falando, entre os pró-ocidente e os pró-Rússia. Em 2014 uma revolução derrubou Yanukovich e colocou no poder todos os políticos pró-ocidente que haviam sido derrotados nas urnas. Quando uma revolução vence rapidamente, derruba o governo e coloca outro no lugar, isso é um indício claro de que essa “revolução” não tem nada de povo, porque o povo é desorganizado e tende à anarquia.

No caso da Ucrânia, um dos organizadores foi justamente aquele que virou presidente no lugar do deposto Yanukovich: Petro Poroshenko, um típico oligarca bilionário, que disse em uma entrevista ao Washington Post: “Desde o início, eu fui um dos organizadores da revolução. Meu canal de TV, o Channel 5, teve uma participação tremendamente importante.” A revolução se espalhou pelas redes sociais e pelos estudantes universitários, comprovando mais uma vez na história uma frase que Janer Cristaldo gostava de repetir: “A revolução se faz com os jovens. São estúpidos e entusiasmados.”

Os entusiasmados estudantes do oeste da Ucrânia foram vistos com simpatia pela Europa Ocidental e com satisfação pelos políticos da OTAN. Poroshenko virou presidente em uma eleição onde os eleitores do leste do país foram impedidos de votar para evitar que votassem errado. O novo governo pró-europeu apressou-se em romper os compromissos assumidos desde a dissolução da União Soviética e passou a falar em fazer parte da OTAN, ao mesmo tempo em que entrava em atrito com o governo regional da Criméia, que acabou sendo ocupada pelo exército russo.

A Criméia, é bom lembrar, pertence à Rússia desde 1783. Antes disso, foi povoada por tártaros, otomanos, gregos, armênios e polovetsianos, mas nunca por ucranianos. Na Constituição ucraniana de 1996, ela tem o nome oficial de República Autônoma da Criméia. Desde o século 19 a Criméia é um local estratégico para a Rússia, sede de uma importante base naval que dá acesso ao Mar Negro e ao Mediterrâneo. Achar que a Rússia abriria mão da Criméia faz tanto sentido quanto achar que os Estados Unidos poderiam fechar Pearl Harbor e abrir mão do Havaí.

A ocupação da Criméia foi a desculpa para os senhores da guerra repetirem o que já haviam feito na Coréia, Vietnam, Afeganistão, Iraque, Líbia e tantos outros: criar uma guerra em país alheio sacrificando vidas alheias. Nos EUA, os políticos neoconservadores nunca esconderam que o objetivo da guerra era enfraquecer a Rússia militar e economicamente, objetivo que já foi em grande parte alcançado.

Em resumo, essa é hoje uma guerra que nenhum dos lados pode ganhar. Um lado, a Rússia, sofreria uma grave e imprevisível crise política se o enorme custo (econômico e em vidas perdidas) de repente desse em nada. O outro lado, que não é a Ucrânia e sim a OTAN, não pode intensificar mais sua atuação sem perder a desculpa de que está só “ajudando a Ucrânia a se defender”.

Trump está enxergando o óbvio: não há sentido em continuar gastando bilhões para manter uma guerra impossível de ganhar, e é ingênuo acreditar que a Rússia irá desistir dos territórios que conquistou, onde boa parte da população é pró-Rússia. A atual proposta de cessar-fogo deve se transformar em um acordo para parar a guerra do jeito que está. E, como diziam os antigos, “um acordo ruim ainda é melhor que uma guerra boa”.

***

E o erro? O erro, claro, está nessa história maluca de “tarifas”, que é outro nome para imposto. As idéias de Trump se alinham com um “nacionalismo” típico do século 19 (na América Latina, sempre atrasada, há quem pense assim até hoje) que vê em todo país estrangeiro um inimigo e defende o isolamento econômico do país, disfarçado em expressões vazias como “soberania” e “mercado interno”.

As tarifas de importação produzem dois efeitos óbvios, nenhum deles positivo: Em primeiro lugar, reduzem a concorrência, ou seja, permitem aos produtores “protegidos” aumentar seus preços ou diminuir a qualidade de seus produtos, já que o consumidor fica sem opção. O segundo é tirar dinheiro da mão do cidadão e colocar na mão do governo, o que nunca dá um bom resultado. E o discurso de “não estamos taxando o consumidor, estamos taxando as empresas estrangeiras” mão cola mais, especialmente depois da famosa “taxa das blusinhas”.

Além disso, o governo Trump está caindo em uma contradição que costumava acontecer só em países do terceiro mundo (incluindo nós mesmos, claro): o de alegar que as tarifas, além de “proteger o mercado interno”, vão ajudar na política fiscal e ajudarão a baixar impostos – na verdade, já houve comentários sobre “abolir o imposto de renda”. Acontece que tarifas de importação não podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Se o objetivo é fechar o mercado, então as importações serão bastante reduzidas e a arrecadação será mínima. Se, ao contrário, a arrecadação das tarifas for significativa, é porque elas não estão cumprindo o papel de reduzir as importações. Na prática, a coisa se resume a trocar um imposto por outro.

Para piorar, estamos em um mundo onde as redes sociais exigem respostas populistas e rápidas dos governantes, e já estamos vendo uma corrida para ver “quem taxa mais”. O Canadá já falou até em cortar a venda de eletricidade para os EUA. Na prática, o que os políticos fazem é dizer “Já que o governo de um outro país está prejudicando os seus cidadãos, nós vamos prejudicar os nossos também.”

No século 19, o grande economista Fréderic Bastiat disse “Quando as mercadorias param de cruzar as fronteiras, os soldados começam.” Tomara que o mundo não chegue a esse ponto.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A CHINA

São poucas as palavras que, sozinhas, são capazes de provocar uma reação tão forte como a palavra “China”. Parece que todo mundo guarda no bolso uma lista de “verdades prontas” a respeito do país, e não se mostra muito propenso a aceitar opiniões divergentes.

Em geral, as idéias prontas a respeito da China se dividem em três grupos, um favorável e dois desfavoráveis. Estes grupos podem ser sintetizados nas seguintes frases:

“A China é um sucesso econômico e social que prova que o comunismo/socialismo funciona”

“A China é uma ditadura cruel que se tornou rica às custas de trabalho escravo”

“A China é uma farsa que vai desmoronar a qualquer momento”

As três afirmações estão erradas. Existe um conceito científico, infelizmente pouco difundido entre o público em geral, de que a explicação mais simples geralmente é a mais correta. A China não é um reino de conto de fadas ou um planeta distante de ficção científica. As pessoas de lá são parecidas com as de cá, com as mesmas características, qualidades e defeitos. No final, é só mais um país, que como todos os países faz suas escolhas e vive com as consequências dessas escolhas, boas ou ruins.

A China é uma ditadura?

Sim, é um país com regime de partido único, com restrições à liberdade de expressão. Não existem partidos de oposição. Mas desde a mudança de regime que seguiu à morte de Mao, não tem sido uma ditadura que se destaque por atos de repressão violenta.

A China é um país comunista?

Depende do que se entende por “comunista”. A política dos tempos do Mao morreu junto com ele. A China hoje tem milhões de empresas privadas, existe liberdade de comércio, o número de funcionários do governo só diminui, a participação do estado na economia também é cada vez menor, o direito de propriedade é garantido, e o número de bilionários é o segundo maior do mundo. Em resumo, a China hoje não segue nada daquilo que Marx, Lênin e Stalin defendiam. Mas, possivelmente por razões sentimentais, o partido que está no poder conserva o nome “Partido Comunista”.

Na verdade, olhando para alguns critérios geralmente usados nas discussões esquerda x direita, pode-se dizer que a China está “à direita” do Brasil: a facilidade para empreender é muito maior, a carga tributária é menor, não existe imposto sobre herança, é muito mais fácil importar. Na área social, o governo chinês é muito mais ativo: Cinema, TV e redes sociais são controlados e não podem fazer referências a sexo, drogas ou qualquer coisa que possa agredir os chamados “bons costumes”.

A China tem trabalho escravo?

Não. A China possui muitos empregos industriais, coisa a que o Brasil está desacostumado, e por isso esses empregos parecem penosos. Mas é preciso lembrar que o padrão de comparação do chinês médio é diferente: depois de décadas de um regime onde a maioria literalmente passava fome e trabalhava de sol a sol na agricultura, um emprego na indústria que dá moradia, comida, assistência médica e salário para trabalhar ao abrigo do sol e da chuva é um grande avanço.

Vale lembrar que o salário médio da China superou o do Brasil há varios anos; em 2023, correspondia a 1300 dólares mensais. O salário mínimo também é bem maior, sendo equivalente hoje a dois mil e cem reais.

E o “sistema de controle social”?

Embora muito citado, até hoje ninguém provou que exista.

A China é rica?

Depende do que se considera “riqueza”. Em PIB per capita a China está à frente do Brasil, empatada com o México e bem atrás de Japão e Coréia do Sul, por exemplo. Mas tem uma economia com espaço para crescer, inflação baixa, moeda sólida. Mais importante, a China hoje é um fornecedor que faz parte da cadeia produtiva de praticamente todos os países, o que torna quase impossível uma crise financeira.

A China vai quebrar?

Embora alguns economistas (e muitos palpiteiros) estejam prevendo a derrocada da China há pelo menos duas décadas, não há indicadores econômicos que apontem para isso. Como já disse acima, a China exporta para praticamente o mundo inteiro, e essa exportação não pode ser substituída com facilidade, porque a China é um fornecedor industrial altamente produtivo.

Provavelmente a China não voltará a ter as taxas de crescimento da época da virada do século, e isso é bastante normal, e até esperado.

A China vai dominar o mundo?

Aparentemente sim. Por um lado, têm mantido um bom desempenho econômico, cometendo muito poucos erros. Por outro, seus concorrentes têm se esforçado para meter os pés pelas mãos. A China tem seguido o conselho de Napoleão Bonaparte, “nunca interrompa seu inimigo enquanto ele está cometendo um erro”, e é hoje a maior ganhadora da guerra da Ucrânia: está comprando gás e petróleo baratos da Rússia graças às sanções, e vendo os EUA e a Europa gastarem bilhões em material bélico que vai acabar sendo destruído.

Para situar a posição do Brasil nesta briga, uma comparação simples: a China forma um milhão e meio de engenheiros por ano; o Brasil, cinquenta mil, sendo metade em EAD (ensino à distância). Uma das causas foi mostrada no último PISA, em 2022: 70% dos estudantes brasileiros de 15 anos têm dificuldades com problemas matemáticos simples.

Aos mais jovens, fica o conselho: Aprendam chinês.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PERMISSÕES

A data de 9 de novembro de 1942 provavelmente não é lembrada ou mesmo mencionada em nossas universidades. Mas mereceria ser, porque criou uma mudança que afetou todo o mundo e persiste até hoje.

A Grande Depressão, nos EUA, serviu de desculpa para o governo federal de lá se intrometer e regulamentar praticamente tudo. Uma das maluquices que os políticos inventaram na época foi chamado de Ato de Ajuste da Agricultura, que estabelecia limites para a área que os agricultores podiam plantar. Sim, em uma época em que um quarto dos cidadãos passava fome, o governo fez uma lei para diminuir a produção de alimentos, porque segundo as suas teorias, comida mais abundante e mais barata seria ruim para a economia.

Em 1940, fiscais do governo multaram Roscoe Filburn, um agricultor de Ohio, por ter plantado trigo em uma área maior do que a lei determinava e por ter colhido seis toneladas a mais do que o permitido. Filburn não se conformou e procurou um advogado para contestar a multa. O argumento era simples: a constituição dos EUA dizia, na chamada “cláusula do comércio”, que o congresso tinha o poder de “legislar sobre o comércio com outros países e entre os estados”. Filburn não vendeu o trigo que colheu, ele o usou para alimentar seus animais; portanto, não havia comércio nisso, muito menos comércio interestadual ou internacional, e os políticos não tinham poder constitucional para determinar quanto ele podia ou não plantar.

O caso acabou na suprema corte, que no tal dia 9 de novembro de 1942 proferiu sua decisão sobre o caso: o governo estava certo. O raciocínio era o seguinte: se Roscoe não plantasse trigo para seus animais, ele teria que comprar alguma coisa para eles comerem. Ao comprar, ele alteraria a relação oferta/demanda na sua cidade. Isso poderia alterar o preço, o que poderia afetar o comércio da sua cidade com outras cidades, e até mesmo com cidades de outros estados. Está feita a mágica! O comércio entre Ohio e os outros estados poderia ser afetado pelas seis toneladas de trigo que Roscoe deu para seus animais, e portanto o governo federal tinha todo o direito de “regulamentar” o que ele podia ou não plantar em sua própria fazenda.

Governos são sempre sedentos por poder, e a decisão do caso Roscoe Filburn foi recebida com festa. Com esse tipo de raciocínio, é possível justificar a intervenção estatal em qualquer coisa, porque sempre será possível encontrar uma suposta “influência sobre o mercado” em qualquer coisa que alguém pensar em fazer. E efetivamente o tal raciocínio da “influência” tornou-se cotidiano nas ações do governo.

Voltando para nossa realidade: a cidade de São Paulo tem vários grandes problemas a enfrentar, como enchentes e cracolândia, mas o seu prefeito está muito preocupado em proibir que pessoas prestem o serviço de moto-táxi, sob o argumento de que “estudos” mostrariam que isso seria “perigoso”. Vamos fingir que não sabemos que a permissão para a atividade de táxi é, inexplicavelmente, um privilégio concedido pelas prefeituras a um número limitado de pessoas, e que o moto-táxi é um concorrente desse restrito grupo. Vamos fingir também que não sabemos que muitos dos donos das concessões são pessoas com boas conexões políticas, tanto em São Paulo como em outras cidades. Vamos tentar analisar apenas o argumento:

É permitido andar de moto? Sim, é permitido em todo o território nacional. É permitido andar de moto levando alguém na garupa? Sim, é igualmente permitido. Por que, então, andar de moto levando alguém na garupa em troca de dez reais seria perigoso? E por que só no município de São Paulo, mas não em Guarulhos, São Bernardo do Campo ou Pindamonhangaba? Não há resposta. O governo só insiste em que é proibido porque é proibido, e tem colocado sua força policial para apreender as motos dos infratores (a Guarda Municipal tem autoridade para apreender veículos? Essa função não seria dos batalhões de trânsito da polícia militar?)

Nenhuma novidade, claro. Anos atrás, outro prefeito, na mesma cidade, disse “Governar é como cuidar do filho adolescente. Temos que fazer o que é bom para ele, não o que ele pede.” Na ocasião, ele estava falando da regulamentação de patinetes, mas poderia estar falando de qualquer coisa. Já é hábito dos políticos e funcionários do governo achar que eles têm, por alguma mágica, o dom de sempre saber o que é melhor para os outros. Não seria tão grave se não fosse o hábito de tantos brasileiros de achar que são mesmo incapazes de saber o que é melhor para si mesmos, e incluir os outros nessa opinião.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TODO MUNDO SABE DISSO

Tenho quase sessenta anos, e uma coisa que nunca deixou de me espantar é a facilidade com que muitas pessoas acreditam com convicção em certas coisas argumentando que “todo mundo sabe disso”. Talvez porque eu tenha adquirido o gosto de ler sobre ciência muito antes do que a maioria, eu tenho o hábito de ser cético. Mas vamos ao caso concreto.

Durante muito tempo o alumínio foi um metal muito caro, de produção difícil. No final do século 19, era mais caro do que a prata. Mas a invenção de um sistema de produção chamado Hall-Héroult permitiu a produção em grande escala e a um custo cada vez menor. Na década de 1920, o alumínio já era barato e amplamente usado.

O processo Hall-Héroult, porém, tem um inconveniente: gerava grandes quantidades de fluoreto de sódio. Trata-se de uma substância tóxica e não-degradável, e livrar-se dela era difícil e caro, em uma época onde algumas preocupações com o meio ambiente já começavam a surgir.

Mas onde existe um interesse financeiro, as soluções aparecem. Em 1931, o Serviço Público de Saúde (PHS) dos EUA iniciou um estudo sobre os benefícios do flúor na prevenção de cáries. O PHS era subordinado ao Departamento do Tesouro, cujo chefe era Andrew Mellon. Depois de algum tempo, as pesquisas foram transferidas para o Instituto Mellon, que em 1939 enviu ao governo uma proposta para fluoretação da água, dizendo que os benefícios eram totalmente comprovados. Talvez interesse saber que Andrew Mellon, além de Secretário do Tesouro e bilionário, também era o dono da ALCOA, a maior fabricante de alumínio dos EUA na época (e até hoje).

1939 foi o início da Segunda Guerra, e a produção de equipamento bélico, especialmente aviões, aumentou enormemente o uso de alumínio. Quando a guerra terminou em 1945 era urgente achar um destino para o fluoreto de sódio. Neste mesmo ano, o PHS selecionou duas cidades do estado de Michigan para um experimento: uma delas receberia fluoreto de sódio na água, a outra não. Quatro anos depois, o governo cancelou o estudo e passou a colocar flúor na segunda cidade também. A explicação foi “demanda popular”. De fato, havia uma enorme campanha alardeando as vantagens do flúor, ainda que os dados científicos fossem poucos e muito recentes. Em 1950, quase 100 cidades americanas compravam o fluoreto de sódio das indústrias de alumínio para fluoretar a água distribuída à população. As indústrias se livravam do problema e os políticos posavam de bonzinhos e preocupados com o bem-estar do cidadão. Bom para todos, certo?

Bem, sempre há cientistas dispostos a ir mais fundo. Em 1956, um estudo comparando duas cidades, Newbergh e Kingston, descobriu que a incidência de câncer ósseo em jovens da cidade que colocava flúor na água era o dobro da cidade que não colocava. O estudo foi considerado “espúrio” e “irrelevante” pelas autoridades do governo. Outras pesquisas também mostraram resultados preocupantes.

O governo federal demorou mais de 20 anos para começar um estudo relacionando flúor com câncer, e o estudo levou 12 anos para ser concluído. O estudo mostrou que durante o período analisado, a incidência de câncer ósseo em jovens diminuiu 4% nas cidades que não usavam flúor e aumentou 70% nas cidades que usavam. O governo criou uma comissão “neutra” e “imparcial” que concluiu que os dados eram “espúrios” e “irrelevantes”.

De lá para cá, dezenas de estudos foram feitos, enquanto a indústria de alumínio continua recebendo dinheiro público para se livrar de algo que antes era um problema. É fácil perceber que os estudos a favor do flúor são amplamente divulgados e elogiados por “especialistas”, enquanto os que mostram problemas são geralmente criticados. Talvez o caso mais chocante seja o da Nova Zelândia: O Dr. John Colquhoun era presidente do Comitê para Promoção da Fluoretação, e o mais ardoroso defensor do uso do flúor. Decidido a provar seu ponto de vista, realizou uma grande pesquisa nacional, cujo resultado mostrou que a a percentagem de crianças sem problemas dentais era maior em áreas não-fluoretadas da Nova Zelândia, do que na parte fluoretada deste país. O departamento nacional de saúde não permitiu que Colquhon publicasse a pesquisa e o demitiu do posto de diretor de saúde dental.

No momento, o assunto voltou à tona porque o novo secretário de saúde dos EUA, Robert Kennedy Jr., já se manifestou contra a fluoretação e promete usar a força do governo federal contra ela.

Neste momento eu imagino o leitor pensando: “Espera aí, esse maluco do Marcelo está dizendo que colocar flúor na água não é bom? Claro que é! Todo mundo sabe disso!”. Pois é, leitor, lembra do primeiro parágrafo? Eu não sou dentista nem oncologista, e não tenho conhecimento para julgar por mim mesmo se flúor na água é bom ou não. O que eu posso fazer é procurar várias opiniões e tentar avaliar a credibilidade de cada uma. E nesse caso me parece óbvio que existem interesses econômicos e políticos poderosos envolvidos na questão.

Basta puxar um pouquinho pela memória para lembrar de outros casos. Nos anos 70, o mundo estava quase conseguindo erradicar a malária com o uso do DDT. De repente, o DDT foi proibido, a malária voltou, e todo mundo hoje tem certeza que o DDT é perigoso porque todo mundo sabe disso. Nos anos 80 algumas substâncias industriais da categoria dos CFCs foram proibidas porque iriam destruir a camada de ozônio e hoje todo mundo sabe disso. A pandemia de covid só acabou graças ao governo que vacinou todo mundo e todo mundo sabe disso. Aliás, tudo que o governo faz é para o nosso bem e todo mundo sabe disso.

Para deixar bem claro: eu não estou afirmando que o DDT não é perigoso ou que os CFCs são seguros. Estou dizendo que eu não sei e a maioria das pessoas também não sabe, porque é preciso um conhecimento técnico muito específico para poder ter uma opinião embasada. O que eu estou afirmando é que muita gente acredita em uma coisa simplesmente porque essa coisa foi repetida à exaustão em campanhas bem planejadas e bem pagas, onde quase sempre existe um interesse por trás. Em um tempo onde está na moda xingar os outros de “gado”, um bom hábito para quem não deseja ser parte de um rebanho é refletir bastante antes de acreditar em algo que ouviu.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SEMPRE O GOVERNO

Antigamente os governantes controlavam as pessoas através da violência. Quem desobedecia era açoitado ou queimado vivo, ou colocado em um pelourinho em praça pública. Mas com o tempo os governantes descobriram uma maneira mais fácil, mais eficiente e menos trabalhosa. Um filme com Michael Douglas resumiu muito bem o método na seguinte frase: “Políticos só estão preocupados com duas coisas. A primeira é deixar as pessoas com medo. A segunda é convencer as pessoas de que eles, políticos, são a solução para esse medo.”

Não faz muito tempo, falei sobre uma fantasia chamada “contrato social”. É uma das racionalizações que as pessoas usam para ajudá-las a acreditar que se elas forem boazinhas e fizerem tudo que o governo mandar, elas estarão protegidas e seguras, e não precisarão “sentir medo”. Na prática, os resultados costumam ser ruins.

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Na Califórnia, a idéia de “nós pagamos impostos para o governo nos dar coisas de graça” é levada ao extremo. É o estado com a maior carga tributária dos EUA, e o estado se intromete em absolutamente tudo (recentemente um jornalista de lá contou que foram precisos oito meses e quatro visitas de fiscais da prefeitura de Los Angeles para ele ser “autorizado” a trocar o portão da garagem da sua casa).

O serviço dos bombeiros é um dos exemplos que costumam ser citados pelos defensores do estado. Em um estado tão rico, seria de se esperar um serviço “de primeiro mundo”, não é? Bem, embora a temporada de incêndios florestais seja quase tão previsível quanto as temporadas de futebol e de basquete, todo ano vemos a completa incompetência do governo em resolver o problema. O chefe dos bombeiros de Los Angeles ganhou mais de 800.000 dólares de salário em 2024 (na cotação de hoje, seriam 400.000 reais por mês), mas está reclamando que a prefeita reduziu as verbas do seu departamento devido à “crise orçamentária”. Enquanto isso, a prefeita esta semana esteve em Gana, na África, em viagem paga pelos contribuintes, para prestigiar a cerimônia de posse do novo presidente, algo que certamente interessa muito aos moradores de L.A. E enquanto isso o fogo continua destruíndo casas enquanto surgem relatos de hidrantes sem água e falta de equipamentos.

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Além dos bombeiros, outra coisa em que nós dependemos do estado é a polícia, não é? Afinal, quem senão ela vai nos proteger dos criminosos e fazer cumprir a lei?

Na Inglaterra, veio a público a existência de gangues formadas predominantemente por homens de origem paquistanesa que montaram um esquema de tráfico humano que manteve milhares de meninas aprisionadas como escravas sexuais, muitas delas submetidas a estupros sistemáticos durante anos. Documentos mostraram que estas gangues foram alvo de investigação pela polícia inglesa em três ocasiões, e em todas elas as autoridades, juntamente com os políticos, optaram por encobrir o caso por medo de que a opinião pública enxergasse o caso como racismo.

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Enquanto isso, o dono do Facebook, Instagram e Whatsapp, Mark Zuckerberg, anunciou que a empresa vai parar de usar “certificadores” para classificar coisas em suas redes sociais como “fake news”. No mundo todo, e aqui no Brasil, muitos estão indignados. Afinal, como podemos viver sem alguém tomando conta daquilo que lemos? Será que teremos (oh horror!) que ser responsáveis por nós mesmos? Será que teremos que decidir por nós mesmos o que ler?

O conceito de alguém “certificar” aquilo que a imprensa publica era completamente desconhecido até poucos anos atrás, e os leitores selecionavam o que liam com base em algo chamado “reputação”. Agora, quando uma empresa diz que vai desistir dos “checadores”, surgem gritos desesperados falando até em “soberania nacional”. Um jornalista que por acaso assisti essa semana falou em “retorno aos tempos da Idade Média, sem leis e sem regras” (não sei de onde ele tirou a idéia de que na Idade Média não havia leis). Vozes anunciam o fim do mundo por conta da suposta proliferação do “discurso de ódio”.

Enquanto isso, um ministro do STF mandou proibir e destruir todos os exemplares de quatro livros publicados por uma tal Conceito Editorial. Afinal, brasileiro não gosta muito de livro mesmo, e a maioria dos cidadãos acha que uma das funções da justiça é exatamente censurar e proibir as pessoas de ler ou ver coisas “inadequadas”.

A questão é que estamos acostumados com a idéia confortável de ter um governo tomando conta de nós, e de preferência impondo nosso ponto de vista aos outros. Quando o governo defende pontos de vista diferentes, muita gente reclama, mas não ao ponto de pedir menos governo. O choro é sempre pela mudança para o governo “certo”. E a liberdade é algo que cada vez mais causa medo.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A SITUAÇÃO DO JAPÃO

Entender economia não deveria ser difícil. Basta observar o comportamento humano em relação a tudo que chamamos “bens” ou “riqueza” e aplicar a lógica. O problema é que no mundo moderno existe muito poder e dinheiro em jogo, e acaba sendo vantajoso para alguns confundir as coisas. Graças ao controle dos donos do poder sobre a mídia e a escola, a confusão acaba sendo tão grande que alguns acabam acreditando nas mentiras que eles mesmos inventaram.

Por exemplo: o Japão é um país com uma economia estagnada há mais de vinte anos. Sua dívida é uma das maiores do mundo: 266% do PIB (se fosse uma pessoa, seria equivalente a ter uma dívida 30 vezes maior que o salário mensal). Outro problema é que os gastos do governo representam 45% do PIB, o que significa que o “PIB real” é apenas a metade do que parece ser, porque o governo não produz riqueza, apenas toma de quem produz e repassa.

A lógica diria que o primeiro passo para resolver um problema de dívida é parar de se endividar, mas parece que o governo do Japão não acredita nisso. No final de novembro foi aprovada uma emenda adicionando ao orçamento do governo a quantia de 92 bilhões de dólares. De onde virá esse dinheiro? Do aumento da dívida. E para que será usado? Para bancar auxílios a famílias de baixa renda, subsídios aos combustíveis e outras “bondades” do tipo.

Ao anunciar a medida, o primeiro-ministro Shigeru Ishiba defendeu a atual política de subsídios e de aumento do salário mínimo dizendo ““Precisamos que os salários aumentem mais rapidamente do que a taxa de inflação para tornar as famílias mais ricas”. É o tipo de frase que merece o comentário “seria cômico se não fosse trágico”, e tem tudo a ver com a charge lá do início.

O mais irônico é que o governo japonês, como praticamente todos, segue uma porção de dogmas econômicos que incluem acreditar em algo chamado “inflação de demanda”, que diz que o aumento de preços é causado por um aumento de consumo. É um dogma inútil porque não explica como o poder de consumo pode simplesmente aumentar de uma hora para outra. Mas quem acredita nele não deveria ao mesmo tempo dizer que acredita que é possível aumentar os salários via canetada sem causar inflação. O que pode aumentar os salários é o aumento de produtividade, e a coisa mais importante que o governo pode fazer para ajudar é não atrapalhar, reduzindo impostos, burocracias e restrições populistas e eleitoreiras.

Outro dogma comum aos governos é falar em “equilíbrio fiscal” como eufemismo para “aumento de impostos”. Em visita ao Japão no ano passado, a vice-diretora do FMI Gita Gopinath disse: “Nossa mensagem geral é que qualquer aumento nos gastos deve ser enfrentado com um aumento nas receitas.” Não é preciso dizer que falar em aumento de impostos em uma economia estagnada é como oferecer um copo d´água a alguém que está se afogando, mas o mundo financeiro se esforça para não perceber isso.

A tara por impostos leva a um terceiro dogma: na maioria dos artigos sobre a economia do Japão, é dado como certo que a maior causa da estagnação da economia é o “baixo consumo” e que o governo deve tomar providências para estimulá-lo. Ora, um país como o Japão, altamente industrializado e com uma população de excelente nível educacional, tem tudo para ser muito produtivo. E o que enriquece um país é produzir riqueza, não consumir, até porque aquilo que não é consumido internamente pode ser exportado. Mas o problema é outro: é muito mais fácil tributar consumo interno do que exportação, e é mais útil em termos eleitorais subsidiar crédito para consumo. Daí a importância para o governo do pacote de 92 bilhões recém-aprovado.

O caso do Japão é apenas mais um entre tantos países (quase todos, na verdade) que se metem a inventar dogmas econômicos para justificar suas burradas. A longo prazo, porém, todos descobrirão a verdade de um velho adágio: “É possível ignorar a realidade, mas não é possível ignorar as consequências de ignorar a realidade”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

EU NÃO ASSINEI O CONTRATO SOCIAL

Talvez muita gente não perceba, mas a historinha acima está brincando com uma idéia que alguns políticos e intelectuais levam muito a sério: um negócio chamado “contrato social”. A expressão foi criada por Rousseau no século 18, mas o conceito sempre rodeou o discurso dos estatistas. Já esteve mais na moda, mas ainda reaparece de vez em quando; na semana passada a Folha de São Paulo achou necessário relembrar o conceito, em um artigo que dizia que “imposto faz parte de um pacto social”, que cada um “abre mão de uma liberdade para viver melhor em coletividade”, e deu estes belos exemplos: “você abre mão de parte de sua renda para ter polícia, banco central, sistema judiciário, transferência de renda para os menos afortunados, hospital público, exército, escola pública, monitoramento florestal, pesquisa universitária básica”. Sem querer analisar cada um, é o caso de perguntar porque é necessário obrigar as pessoas a pagar por isso; se são coisas tão maravilhosas, as pessoas não pagariam voluntariamente?

Uma das características que distingue o ser humano dos outros animais é a fala, a capacidade de se expressar. Para que essa capacidade de expressão funcione, é preciso que a sociedade tenha uma linguagem comum. Para o poder, essa capacidade pode ser inconveniente, e pode ser mais conveniente que aqueles que não fazem parte do poder fiquem mais próximos dos demais animais, incapazes de se expressar – no linguajar moderno, “gado”. A idéia de manipular a linguagem para controlar o pensamento aparece no famoso “1984” de George Orwell e é citada por diversos filósofos.

Na prática, a pessoa que é obrigada, sob ameaça de prisão, a pagar impostos é chamada de “contribuinte”. Quando o contribuinte, após ser obrigado a entregar parte do que ganha durante décadas, chega à idade de se aposentar, o governo chama issso de “conceder um benefício”. Quando um cidadão tenta exercer seu direito fundamental de trabalhar, é obrigado a pedir ao governo um sem-fim de licenças e alvarás, e na maioria deles vêm escrito “O Exmo. Sr. Secretário resolve conceder…”, como se fosse um grande favor.

O tal do contrato social é apenas mais uma dessas manipulações da linguagem que, de tão numerosas e tão usuais, já nem são notadas. Serve apenas como um obstáculo útil para interromper o debate mais importante, que é o da relação de poder entre estado e povo. Quando um defensor do estado fica sem resposta, recorre à falácia do contrato que ninguém assinou.

Qualquer dicionário mostra que um contrato é “um acordo voluntário entre duas partes”. O contrato social não é voluntário.

Um contrato estabelece obrigações para ambas as partes e prevê consequências em caso de descumprimento. O contrato social prevê obrigações para um lado e promessas e boas intenções para o outro lado.

Um contrato só pode ser alterado mediante o consentimento de ambas as partes. O contrato social é reescrito diariamente pelos milhares de políticos e funcionários do estado, sempre em seu próprio benefício.

Um contrato pode ser encerrado por qualquer uma das partes, mediante condições previamente estabelecidas. O poder usa o contrato social como uma prisão da qual ninguém deve poder escapar.

Aldous Huxley, no prefácio de seu livro “Admirável Mundo Novo“, fez (em 1946!) a seguinte profecia:

“Um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos e os administradores controlassem uma população de escravos que não precisariam ser coagidos, porque amariam a escravidão. Fazer o povo amar a escravidão é a tarefa, hoje, dos ministérios, diretores de jornais e professores.”

Ministérios, diretores de jornais e professores. Em outras palavras, o governo, a imprensa e a escola. São eles que se dedicam à tarefa de fazer o povo amar a escravidão, temer a liberdade, suplicar por ordens e regulamentos, e de forma geral odiar qualquer um que cometa a heresia de pensar por si mesmo. São eles os executores do plano de levar-nos ao Admirável Mundo Novo. Já são muitos os seus apoiadores, que dizem que o bom cidadão respeita o “contrato social”: repete o que ouve mas não pensa, apoia o que a maioria apoia e sempre, sempre, obedece sem questionar.