MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GARRINCHA E A GUERRA DA UCRÂNIA

Dizem que na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, o técnico Vicente Feola, antes do jogo com a União Soviética, explicou aos jogadores: “Nilton Santos lança a bola da esquerda do meio de campo para Garrincha na direita, que dribla os zagueiros e cruza para Mazola fazer o gol de cabeça.” Aí Garrincha perguntou: “Seu Feola, o senhor já combinou com os russos?”.

Essa historinha foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando li sobre o novo “Plano da Vitória” que o presidente ucraniano Zelensky apresentou uns dias atrás em discurso no congresso da Ucrânia. O plano dele basicamente é:

– Entrada imediata da Ucrânia na OTAN

– Instalação de armas de longo alcance da OTAN na Ucrânia, com permissão para uso destas contra o interior da Rússia.

– Expulsão imediata das forças russas da parte ocupada da Ucrânia.

– Instalação de bases da OTAN na Ucrânia para proteção de recursos naturais e uso conjunto de seu potencial econômico.

– Presença de soldados da Ucrânia nas demais bases da OTAN na Europa.

– E mais três adendos “secretos” que serão do conhecimento apenas dos aliados da Ucrânia e não serão divulgados pela imprensa.

Tenho a “ligeira impressão” de que ao pensar nesse plano, Zelensky não combinou com os russos. Quando ele fala em usar mísseis da OTAN para “atingir alvos no interior da Rússia”, ele está pensando em quê, exatamente? Bombardear Moscou?

Eu já escrevi sobre a guerra da Ucrânia antes, e minha opinião permanece a mesma: é uma guerra inútil e estúpida como todas as guerras dos últimos séculos. Seu único objetivo é gerar lucros para as indústrias bélicas e votos para os políticos populistas. A eleição de Trump nos EUA traz alguma esperança de um fim próximo. Os líderes europeus, por outro lado, desejam ardentemente que a guerra continue, tanto pelo dinheiro que ela movimenta como pela distração que ela oferece para os problemas locais.

A Alemanha, por exemplo, acaba de ver a demissão do ministro da economia, Christian Lindner e o fim da coalizão que forma o governo, o que obrigará o país a eleições antecipadas. O motivo da demissão? Desentendimentos quanto ao enorme déficit fiscal do país. A opinião do chanceler que demitiu Lindner é que o ministro seria “mesquinho” por querer um orçamento equilibrado, e que ele não compreende os “desafios geopolíticos” envolvendo a guerra na Ucrânia. Mesmo com um déficit previsto de 2,8% do PIB, o chanceler é a favor de aumentar gastos, inclusive os militares. A atual presidente da Comissão Européia, Ursula von der Leyden, por coincidência ex-ministra da defesa da Alemanha, tem feito discursos a favor da guerra, sob a alegação de que Putin é alguém muito malvado e que é uma ameaça para toda a Europa – uma espécie de bruxo malvado das histórias em quadrinhos.

Os discursos dos líderes europeus tornam-se irônicos quando se constata que as fronteiras que eles supostamente defendem nunca foram as fronteiras históricas da Ucrânia. Pelo contrário, elas foram definidas por Lênin em 1922, Stalin em 1945 e Kruschev em 1954, enquanto a Ucrânia fazia parte da URSS e fronteiras internas eram meras formalidades burocráticas. E, naturalmente, para esses líderes europeus a opinião da população local, que sempre foi favorável à Rússia, não importa. Se os “desafios geopolíticos” dizem que eles devem obedecer ao governo de Kiev, é assim que deve ser.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AS AGÊNCIAS E O PODER

O primeiro artigo da nossa constituição diz “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. Você votou em quem para diretor da ANAC? E da ANVISA? E da ANTAQ, tão importante no dia-a-dia do povo brasileiro?

Como é? Você não votou em nenhum deles? Então de onde “emana” o poder da ANVISA de dizer o que você pode comer e quais remédios pode ou não tomar? E como a ANAC determina até o peso da mala que você pode levar no avião? E porque a ANATEL mantém o mercado de telefonia fechado e restrito a três operadoras? Pois é, parece que o artigo 1º da constituição não vale muita coisa. As agências mandam no que querem, e o poder do povo não atinge seus diretores, que não podem ser demitidos antes do fim do mandato.

Não são só as agências que fazem isso. No judiciário não há ninguém eleito pelo povo. No ministério público muito menos. E mesmo no executivo e no legislativo, os tais representantes eleitos muitas vezes descobrem que pouco podem fazer diante da burocracia mantida pelos funcionários de carreira protegidos pelo corporativismo e por leis que podem ser legais, mas que não emanaram da vontade do povo.

Essa é a grande diferença entre os serviços oferecidos pela livre iniciativa (que alguns chamam de capitalismo) e os oferecidos pelo estado: na livre iniciativa, se você é mal atendido ou não gosta do produto ou do preço, você simplesmente procura outro fornecedor. Funciona assim quando você quer comer um pastel, comprar uma roupa, trocar sua TV ou cortar o cabelo. Mas quando se trata do estado, a coisa muda: o estado fornece serviços que você é obrigado a usar mesmo que não queira, por um preço que você não pode contestar, e sem a menor chance de reclamar para alguém caso o serviço seja ruim.

A boate que pegou fogo em Santa Maria e matou quase duzentas pessoas? Foi fiscalizada pelos “órgãos competentes” que disseram que estava tudo certo. Ninguém dos órgãos competentes foi punido.

As barragens que romperam em Brumadinho e Mariana? Foram fiscalizadas pelos “órgãos competentes” que disseram que estava tudo certo. Ninguém dos órgãos competentes foi punido.

Lembra do escândalo das carnes estragadas? Eram fiscalizadas pelos “órgãos competentes” que nunca viram nada de errado. A coisa só apareceu porque os envolvidos se desentenderam na divisão das propinas e um deles fez uma denúncia na polícia. Nenhum dos órgãos competentes sofreu qualquer sanção. As empresas continuam sendo obrigadas a usar os serviços do SIF.

No momento estão todos escandalizados porque o governo contratou a empresa do primo de um deputado e ex-secretário, e o resultado foi seis pessoas recebendo órgãos contaminados com HIV. Os funcionários da tal empresa já estão sendo presos. Mas e o governo, que é o responsável por essa contratação específica, e também é responsável pela fiscalização de todas as empresas? Alguém acha que alguém do governo vai sofrer alguma punição pelo caso? Talvez algum juiz determine que o estado deve “indenizar” as vítimas, o que será feito com o NOSSO dinheiro, e não com o dinheiro de quem fez a cagada.

Um outro exemplo? O setor elétrico é totalmente regulado e controlado pela ANEEL junto com Ministério de Minas e Energia e junto com Eletrobras e mais um punhado de empresas estatais. Quem se der ao trabalho de ler um edital de licitação para as concessões, que a mídia chama de “privatização”, vai constatar que o governo determina até o tamanho dos parafusos que a empresa privada deve usar. O nome mais apropriado para isso seria “contratação” ou “terceirização”, porque a empresa privada não tem nenhuma autonomia e simplesmente executa as diretrizes do governo.

Bem, nesse ambiente tão bem controlado e regulado pelo estado, uma concessionária, Amazonas Energia, começou a ter prejuízo e os órgãos competentes só perceberam quando a dívida passou dos 11 bilhões de reais. No mundo privatizado, quando uma empresa é mal administrada e tem prejuízo, quem se lasca é o dono. No mundo governamental, a idéia é diferente: a dívida será rateada entre todos os consumidores do país.

Acontece que uma empresa chamada Âmbar falou para a ANEEL que tem interesse em assumir a concessão e a dívida da Amazonas Energia (sendo ressarcida pelos consumidores, naturalmente, em suaves prestações mensais). Poucos dias depois da Âmbar entregar sua proposta, surgiu uma Medida Provisória que efetuava as mudanças burocráticas necessárias para viabilizar o negócio. Talvez interesse saber que a tal Âmbar pertence ao grupo J&F Investimentos, cujos donos são os irmãos Joesley e Wesley Batista, já ouviu falar?

Bem, o negócio não agradou a dois grupos que hoje atuam no mercado de energia e são credores da Amazonas: Termogás e BTG Pactual.

Uma característica interessante das agências reguladoras brasileiras é que, embora elas não tenham muita pressa em atender as necessidades do povo que paga os seus salários, elas são espantosamente empenhadas em defender os interesses de determinados empresários. Assim, nessa situação que tem a J&F de um lado e o BTG de outro, a ANEEL não consegue decidir se aceita o negócio ou não, e as votações de sua diretoria tem terminado empatadas em dois a dois.

A coisa se tornou tão enrolada que, quando a J&F conseguiu uma liminar que determinava a transferência do negócio para a Âmbar, a diretoria da ANEEL se reuniu para decidir se cumpriria ou não a decisão – reunião que mais uma vez terminou em empate. Veja o que declarou em seu voto o diretor Ricardo Tili: “Valendo-se de autonomia na tomada de decisões por parte da agência reguladora, e estando o agente público vinculado ao Princípio da Legalidade, não vejo como conciliar a decisão que obriga a agência a aprovar um plano claramente ilegal…”

É isso mesmo. Você andava indignado porque o STF se intrometia nas decisões do Congresso? Pois agora uma agência reguladora resolveu que tem “autonomia” e pode decidir se cumpre ou não decisões da justiça e se estas decisões são “legais” ou “ilegais”. Aliás, não é a primeira vez que alguém diz que as agências não precisam cumprir ordens da justiça porque suas decisões se baseiam em “aspectos técnicos”. Outra reclamação constante das agências é que o dinheiro delas depende do orçamento aprovado pelo Congresso; elas querem ter o direito de gastar quanto quiserem sem dar satisfação a ninguém.

Enquanto isso, o contribuinte dorme feliz, acalentado pela fantasia de que “todo poder emana do povo”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PODERES E EMENDAS

A gente aprende na escola que o governo é dividido em três poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Também nos ensinam que os tais poderes são “independentes e harmônicos” e que cada um têm uma função específica.

Claro que na prática a gente vê que não é bem assim: o Executivo gosta de legislar e de julgar no lugar do Judiciário; o Judiciário também gosta de legislar e de governar no lugar do Executivo; e o Legislativo gosta de brincar de Judiciário de vez em quando e de ser o Executivo de vez em sempre. Mas em uma coisa eles são bem harmônicos: todos eles querem manter-se no poder.

Um bom exemplo dos mecanismos que o poder usa para se perpetuar pôde ser visto nesta eleição:

Em 2019 nosso Legislativo aprovou uma emenda constitucional criando um novo tipo de emenda parlamentar – “emenda parlamentar” é o eufemismo para verba, dinheiro, grana. Mais especificamente, uma emenda é quando o Legislativo, cuja função deveria ser elaborar leis, se mete no trabalho do Executivo e diz para onde deve ir o dinheiro arrecadado dos nossos impostos. A novidade, identificada pelo código RP6, permite que um parlamentar ordene que uma determinada quantia seja transferida para um estado ou município sem especificar o destino ou finalidade da verba. É quase um “presente” do deputado para o prefeito. No dia-a-dia, o tal RP6 foi apelidado de “emenda pix”. Neste ano, o congresso distribuiu mais de 8 bilhões em emendas pix, a maior parte para municípios pequenos.

O resultado e a idéia por trás de tudo isso ficaram bem claros quando os resultados da eleição foram cruzados com os dados das emendas. Dos cem municípios que mais receberam emendas pix, em 66 deles a “situação” venceu a “oposição”.

Para detalhar mais: em 58 desses 100 municípios, o prefeito concorreu à reeleição, e 54 – mais de 90% – se reelegeram. Entre os demais 42, 12 prefeitos elegeram o sucessor. As três cidades que receberam as maiores verbas nesse método foram:

– Macapá (AP): recebeu 44,9 milhões; o prefeito se reelegeu com 85% dos votos.
– Coari (AM): recebeu 33,6 milhões; foi eleito o primo do atual prefeito.
– Coração de Maria (BA): recebeu 20,3 milhões; o prefeito se reelegeu com 67% dos votos.

Vale notar que as verbas recebidas por Coari e Coração de Maria correspondem a mais de mil reais por eleitor do município.

As emendas parlamentares são, desde o ano passado, o tema de uma acalorada disputa entre o congresso e o STF, mas tudo indica que após intensas negociações, os poderes independentes e harmônicos chegarão a um consenso que seja bom para todos. Para todos eles, naturalmente, não para nós contribuintes.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UM COMPLEMENTO SOBRE A UCRÂNIA

“Um sinal do nosso tempo é a personalidade dividida dos conservadores. Muitos que estão à direita do centro estão em uma busca esquizofrênica pela liberdade e ao mesmo tempo pelo coletivismo. Os conservadores pedem livre comércio e livre iniciativa, mas também clamam por embargos absolutos ao comércio com as nações comunistas. Eles se esqueceram de que o livre comércio beneficia ambas as partes? Proibir o comércio é um exemplo cruel de política socialista; prejudica os países comunistas, com certeza, e também nos prejudica.

Outro exemplo: os conservadores estão pedindo impostos mais baixos e menos controle do governo, enquanto, por outro lado, estão pedindo uma guerra santa virtual contra a Rússia e a China, com todo o custo, morte e estatismo que tal guerra necessariamente implicaria. Tal guerra santa seria imoral, inconveniente e mal concebida, na melhor das hipóteses – nestes tempos de armas para assassinato em massa, tal apelo é quase insanidade.

Aqui, acho que um ponto deve ser feito e sem rodeios: Algumas pessoas podem preferir a morte ao comunismo, e isso é perfeitamente legítimo para eles. Mas suponha que eles também tentem impor sua vontade a outras pessoas que podem preferir a vida sob o comunismo à morte em um cemitério do “mundo livre”. Forçar alguém a morrer por uma causa alheia não seria um caso puro e simples de assassinato? E o assassinato anticomunista não é tão mau quanto o assassinato cometido pelos comunistas?”

As palavras acima, que parecem feitas sob medida para as circunstâncias do mundo atual, foram escritas por Murray Rothbard em 1954, setenta anos atrás. A guerra a que ele se referia era a Guerra da Coréia, mas basta substituir “Coréia” por “Ucrânia” para perceber que pouca coisa mudou no mundo nestes setenta anos. Já aconteceram “guerras por procuração” na Coréia, Vietnã, Afeganistão, Iraque, Líbia e vários outros países, guerras que nada tinham a ver com os interesses do povo destes países, e eram meros pretextos para manter funcionando o “complexo industrial-militar”. As grandes indústrias forneceram as armas, o povo destes países forneceu os cadáveres.

Em abril de 2022, pouco mais de um mês após o início da guerra, representantes da Ucrânia e da Rússia se reuniram em Istambul, na Turquia, para negociar um acordo.

Recentemente, Victoria Nuland, ex-Subsecretária de Estado para Assuntos Políticos do governo Biden, concedeu uma entrevista. Ela admitiu que os EUA e seus aliados pressionaram a Ucrânia a não fazer um acordo com a Rússia:

“A Ucrânia nos pediu conselhos e pareceu claro para nós, para os britânicos e para outros, que a condição principal de Putin estava escondida em um anexo do documento em que eles estavam trabalhando. Ele definia limites para os tipos de armas que a Ucrânia poderia ter após o acordo. [..] Pessoas dentro da Ucrânia e pessoas fora da Ucrânia começaram a perguntar se era um bom negócio, e neste ponto tudo desmoronou.” (A Rússia não gostaria de ter ao lado um inimigo armado? Onde já vimos isso antes? Ah, “Crise dos Mísseis Cubanos”!)

Em 9 de abril de 2022, Boris Johnson viajou para a Ucrânia e disse a Zelensky que “mesmo que a Ucrânia esteja disposta a assinar um acordo com a Rússia, o ´coletivo ocidental´ não está”. Boris também disse “nós não vamos assinar nada com eles, vamos simplesmente lutar”.

Em 20 de abril de 2022, o Chanceler da Turquia Mevlüt Çavuşoğlu declarou à CNN local: “Depois das conversas em Istambul, nós pensamos que a guerra não iria durar muito. [..] Depois da reunião dos países da OTAN, tivemos a impressão que … alguns dentro dos países da OTAN querem que a guerra continue. Eles não se preocupam muito com a situação da Ucrânia”

Em 25 de abril de 2022, após visitar Kiev, o Secretário de Defesa Lloyd Austin declarou que “um dos objetivos dos Estados Unidos é enfraquecer a Rússia”.

No início do filme Shrek, após declarar guerra aos ogros, Lord Farquhar disse a seus soldados “alguns de vocês vão morrer, mas é um sacrifício que eu estou disposto a fazer.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS – RON PAUL

Ron Paul foi candidato independente à presidência dos Estados Unidos em 1988 e disputou a indicação pelo partido republicano em 2008 e 2012, ficando em segundo lugar nas primárias em ambas as ocasiões.

Ron é médico, capitão da Força Aérea dos EUA e autor de 17 livros. Foi deputado pelo Texas quatro vezes.

* * *

Na semana passada, o mundo escapou por pouco da provável destruição nuclear, quando o governo Biden recebeu o pedido da Ucrânia para permitir que mísseis dos EUA atingissem o interior do território russo. O presidente russo, Vladimir Putin, alertou, enquanto o pedido estava sendo considerado, que, como esses mísseis não poderiam ser lançados sem a participação ativa dos militares dos EUA e da OTAN, a Rússia se consideraria em estado de guerra com a OTAN e os EUA caso eles fossem lançados. Foi uma “crise dos mísseis cubanos” em grande escala.

Felizmente, Washington não deu permissão para atingir o interior da Rússia, mas ao longo desta guerra, muitas vezes o uso de um sistema de armas foi primeiramente negado e depois concedido aos representantes de Washington em Kiev. Não devemos deixar de nos preocupar, mesmo que a guerra nuclear tenha sido temporariamente evitada.

Os ataques com mísseis dentro da Rússia fariam a Ucrânia vencer a guerra? Nem mesmo o Pentágono acha isso. O próprio secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, disse no início deste mês que conceder permissão à Ucrânia para lançar mísseis na Rússia não seria um “divisor de águas” na guerra de dois anos e meio.

Mesmo os “divisores de águas” mudaram pouco nesta guerra. Quantas vezes a grande mídia pró-guerra nos disse que um sistema de armas seria um “divisor de águas” na Ucrânia? Lembra dos mísseis Javelin? Tanques Leopard? HIMARS? E como nenhum deles conseguiu virar a maré a favor da Ucrânia, os neoconservadores e seus amigos na mídia só exigem mais.

O fato é que a Rússia está vencendo a guerra apesar de centenas de bilhões de dólares e dos melhores sistemas de armas dos EUA e dos países da OTAN. Cada nova remessa de armas cada vez mais sofisticadas não produz vitórias no campo de batalha para a Ucrânia. Só produz mais soldados ucranianos mortos e mais lucros para os fabricantes de armas.

Até mesmo a grande mídia – que apoiou solidamente a guerra na Ucrânia – começou a relatar as enormes perdas e a situação desesperadora da Ucrânia. No entanto, à medida que mais e mais começam a acordar sobre a desastrosa guerra por procuração, Washington só conhece uma direção quando se trata de guerra: para frente. Há pouco mais de uma semana, o Pentágono anunciou outro pacote de armas de US$ 250 milhões para a Ucrânia. Ninguém acredita que isso vá reverter os ganhos constantes obtidos pela Rússia no campo de batalha, mas gerará mais lucros para os fabricantes de armas dos EUA, que são a verdadeira força por trás da política externa americana.

A improvável dupla Robert F. Kennedy Jr. e Donald Trump Jr. disse isso melhor em um editorial recente no The Hill: “Não podemos chegar mais perto do limite do que isso. E para quê? Para ‘enfraquecer a Rússia’? Para controlar os minerais da Ucrânia? Nenhum interesse americano vital está em jogo. Arriscar um conflito nuclear por causa da fantasia neoconservadora de ‘domínio total’ é loucura.”

Eles estão certos, é uma loucura arriscar o futuro do país e de nossos filhos e netos por guerras que não têm nada a ver conosco e não servem a nenhum interesse nacional dos Estados Unidos. Isso certamente é verdade para a guerra na Ucrânia e também para as guerras que os EUA estão apoiando no Oriente Médio. Quando a loucura vai acabar? Quando o povo se manifestar e exigir uma mudança.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A INSUSTENTÁVEL PIRÂMIDE DA PREVIDÊNCIA

O conceito de uma pessoa reunir um patrimônio que permita que ela passe os últimos anos de sua vida sem trabalhar é relativamente novo. Durante muitos séculos, a produtividade era tão baixa que a grande maioria simplesmente sobrevivia, sem margem para poupar. A revolução industrial e o surgimento da burguesia urbana mudaram esse cenário e a classe média passou a ter a possibilidade de acumular uma poupança.

O primeiro a colocar a aposentadoria sob controle do estado foi o chanceler alemão Otto von Bismarck, que também foi pioneiro na estatização da saúde e do ensino. Uma lei aprovada em 1889 criava um fundo que garantia um salário fixo para pessoas com mais de 70 anos. O fundo era bancado por contribuições obrigatórias das empresas, dos empregados e do estado (esta última, naturalmente, viria de outros impostos). No início do século 20, a idéia foi implantada em vários países da Europa. Nos Estados Unidos, o sistema foi implantado em 1935, durante a grande depressão.

No Brasil, a primeira iniciativa do gênero surgiu em 1923 na forma das CAP – Caixa de Aposentadoria e Pensões. Eram entidades privadas e limitadas a segmentos econômicos específicos, como os portuários, ferroviários, etc. Estas entidades funcionavam no regime de capitalização, mas a tradicional insegurança jurídica brasileira permitia que fraudes ocorressem com frequência.

A ditadura Vargas transformou as CAPs em IAPs, que eram autarquias ligadas ao governo federal. A origem dos recursos continuava a ser repartida entre empregadores, empregados e governo, mas o regime de capitalização foi sendo abandonado, já que a idéia de guardar dinheiro para o futuro é incompatível com o modo de pensar dos políticos. Como na época havia muitos contribuintes e poucos aposentados, havia superavit, que era desviado para outras despesas do governo, incluindo a construção de Brasília. A estatização completa veio na ditadura militar, que unificou todos os IAPs no recém-fundado INPS.

Até 1988, o benefício da aposentadoria era concedido por tempo de contribuição, ou seja, só recebia quem tivesse contribuido. Mesmo assim, o superavit foi se transformando em deficit: havia cada vez mais aposentados, e estes viviam cada vez mais tempo. Do outro lado, as famílias tinham menos filhos, o que significava menos jovens contribuindo. Em resumo, a relação entre os que pagavam e os que recebiam se desequilibrava cada vez mais.

Com a promulgação da catastrófica constituição de 1988, a coisa desandou de vez. Aposentadorias rurais passaram a ser distribuídas aos montes para quem nunca havia contribuído (e para quem nunca havia visto uma enxada na vida). Aposentadorias por idade também foram facilitadas. De forma geral, o sistema já era uma “pirâmide”, termo usado para um tipo de fraude financeira onde um sistema insustentável é mantido artificialmente pela entrada de novos membros.

Em pouco tempo o déficit do sistema chegou à casa das centenas de bilhões. Em 2019 foi feito um remendo (ou “virada de mesa”, para quem preferir) daqueles que os governos gostam de fazer: simplesmente mudaram as regras e disseram para todo mundo que iam ter que trabalhar vários anos a mais antes de se aposentar. É o tipo de coisa que se fosse feita por uma empresa privada, causaria escândalo na imprensa, discursos emocionados de políticos e passeatas de protesto nas ruas, afinal não se pode simplesmente rasgar um contrato em vigor e prejudicar quem é obrigado a fazer parte dele. Mas sendo o governo, tudo foi anunciado como “reforma” e aceito como “necessário”.

Como foi apenas um remendo, o cerne do problema permanece. O déficit do chamado “regime geral” cresceu 17% no ano passado, chegando a 306 bilhões de reais. A ele se somam 50 bilhões para os servidores públicos federais e outros 50 bilhões para os militares. O “rombo”, ou seja, a parte dos impostos arrecadados que é transferida para a previdência, é quase o dobro do orçamento federal da saúde e da educação somadas. E os dados demográficos, que são incontestáveis, mostram que em breve a situação vai começar a piorar cada vez mais rápido.

A previdência hoje é uma piada cruel com o cidadão: ele sabe que é obrigado a pagar, mas não sabe quanto nem quando vai receber, se é que vai receber. O mais cruel é que o próprio tamanho do rombo torna impossível pensar em uma alternativa. O sistema virou uma pirâmide que todos sabem que é insustentável, mas para os políticos é apenas algo que deve ser empurrado com a barriga até o fim de cada mandato, quando ela passa a ser problema de outra pessoa.

A alternativa óbvia para essa pirâmide insustentável é o sistema de capitalização individual: cada trabalhador poupa uma parte de seu salário em algum tipo de investimento que corrija o valor de acordo com a inflação e, de preferência, renda algum juro real.

Um exemplo: se apenas a parte paga pela empresa a cada empregado, que é de 20% do salário, for investida com um rendimento de 0,5% ao mês (o Tesouro Direto já oferece hoje taxas um pouco acima disso), isso resultará em um valor equivalente a 200 salários após 30 anos. O empregado poderá se aposentar, e o valor poupado lhe trará um rendimento equivalente ao salário (0,5% de 200 = 1). Atenção: estamos falando de apenas 30 anos de contribuição! Quem começou aos 18, se aposentaria aos 48 com salário integral.

O sistema atual só permite a aposentadoria aos 65 anos. Supondo uma pessoa que começou a trabalhar só aos 25, temos 40 anos de contribuição. Após esse tempo, esse pessoa teria acumulado o valor de 400 salários, o que permitiria um rendimento mensal igual ao dobro do seu salário, sem mexer no capital principal – isso considerando o juro relativamente baixo de 0,5% ao mês.

Essas contas simples deveriam deixar qualquer brasileiro indignado, mas isso não acontece. Primeiro, porque a maioria não tem noção nenhuma de matemática financeira (uma falha de nosso sistema educacional que é difícil de acreditar que não seja intencional). Segundo, porquê foi educado/doutrinado desde criança a achar que todos os problemas devem ser resolvidos pelo governo. Resta esperar o dia em que a pirâmide desmorone de vez.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

REPETITIVO

Quando alguém se propõe a falar sobre economia como eu faço aqui no JBF, depois de algum tempo percebe que fica difícil encontrar assunto sem ser repetitivo.

A teoria econômica em si é simples: partindo dos conceitos de que a maioria dos bens são escassos e que a riqueza deve ser produzida, surge a idéia do comércio e a lei da oferta e procura, fundamental. A partir daí são basicamente deduções lógicas que partem da observação da natureza humana. Dá para achar novos ângulos e novos exemplos para explicar, mas não dá para continuar para sempre. Enquanto isso, políticos e intelectuais continuam repetindo velhos clichês sobre “balança comercial positiva”, “moeda fraca é bom para a economia”, “o governo deve estimular o crédito”, “inflação é melhor que deflação”. Haja paciência para ficar repetindo que tudo isso são bobagens.

Deixando de lado a teoria, pode-se tentar escrever sobre a prática, ou seja, sobre aquilo que está acontecendo no mundo. E aí a coisa fica mais triste ainda, porque as mesmas coisas estão acontecendo há milênios, e parece que não aprendemos nada com isso.

Por exemplo: o país mais poderoso do mundo, os EUA, está em época de eleição. Quando políticos estão em campanha, pode-se ter certeza de que vêm bobagens. Se ao menos fossem bobagens novas, poderia ser interessante, mas não: são as mesmas bobagens que já eram ditas na época do Império Romano.

A candidata democrata, Kamala Harris, está falando em implantar “controles de preços”. Seus discursos dizem que a culpa da inflação é da ganância dos empresários e dos lucros excessivos, que devem ser limitados pelo governo. A resposta, óbvia, é que a culpa dos aumentos de preços é do governo que gasta mais do que arrecada e tenta fechar a conta fabricando mais dinheiro. O dinheiro está tão sujeito à lei da oferta e procura quanto qualquer outra coisa, e se a oferta aumenta, o valor cai. Como explicar isso de novo e de novo e de novo cada vez que um político diz a mesma coisa, sem cair na repetição? Eu já tentei ilustrar isso dizendo, por exemplo, que se todo o dinheiro que o governo dos EUA criou durante a pandemia fosse impresso em notas de cem, seria o suficiente para encher duas mil carretas, que formariam uma fila de quarenta quilômetros. É por causa desse aumento absurdo da quantidade de dinheiro que os preços estão subindo. Para ser exato, aliás, na inflação não são os preços que sobem: é o dinheiro que vale menos. Mas eu já perdi a conta de quantas vezes escrevi isso aqui nos meus pitacos.

Já o outro candidato, Donald Trump, disse que acha que como presidente ele deveria ter o poder de opinar sobre a taxa básica dos juros, que são fixados pelo FED (o Banco Central deles). O argumento de Trump é que ele é um empresário bem sucedido e portanto ele entende bastante de economia. Se entendesse mesmo, saberia que quem determina a taxa de juros é a realidade (que neste caso específico costuma ser chamada de “mercado”) e o que o FED faz é apenas divulgar um valor oficial para dar a impressão de que é o governo, e não a realidade, quem comanda a economia. Trump também não falou que a taxa de juros só existe porque o governo gasta mais do que tem e precisa pegar dinheiro emprestado para cobrir a diferença; se não fosse por isso, a taxa de juros seria zero. E, de novo, isso já é conhecido há séculos.

Este pitaco fica por aqui. Voltaremos a qualquer momento com as mesmas velhas notícias de sempre.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O DINHEIRO DOS OUTROS

Nos Estados Unidos existe um “causo” e um nome que quase todo mundo conhece, embora os detalhes exatos já tenham sido perdidos no tempo. O nome é Davy Crockett, e o causo aconteceu enquanto ele era deputado. Estava em votação uma lei que concedia uma pensão para uma viúva de um almirante, e já haviam sido feitos vários discursos elogiando o falecido e apoiando o projeto. Então Crockett se levantou e fez um curto pronunciamento declarando-se contrário ao projeto, porque a função do congresso é fazer leis para todos e não conceder favores individuais com o dinheiro alheio. O discurso de Crockett costuma ser resumido na frase “O dinheiro não é de vocês para dar”.

Naturalmente, aqui no Brasil não passaria pela cabeça de ninguém dizer a um político que o dinheiro dos impostos não é dele. Qualquer criança sabe que é. É deles, e eles fazem o que bem entendem com ele. Os pobres simplesmente dão de ombros e seguem com sua vida, enquanto os jovens mais entusiasmados fazem longos discursos sobre a social-democracia, a importância do estado para promover o bem-estar social, a suposta sabedoria do governo em fazer as coisas de forma justa e correta, e por aí adiante. Muitos gostam de afirmar que dar dinheiro para o governo é uma obrigação advinda de um certo Contrato Social, que eu particularmente não lembro de ter lido e muito menos assinado.

Embora todo político goste de afirmar que no regime em que vivemos (chamado “democracia”) o poder “emana do povo”, a verdade é que o povo não costuma ser consultado sobre o destino de seu dinheiro. Os representantes do povo não sentem o mais leve constrangimento ao assinar leis e decretos destinando o dinheiro público para construir uma nova capital, abastecer as despensas e adegas dos palácios oficiais ou criar generosos planos de aposentadoria para eles mesmos. Aliás, a expressão dinheiro público deveria estar entre aspas, porque na verdade trata-se do nosso dinheiro, extorquido pelo que se costuma chamar “máquina de arrecadação”.

No momento, nossos deputados acreditam que o país não tem problemas importantes em segurança, saúde, economia, educação ou infra-estrutura; o problema que está sendo discutido com urgência é a cobrança de imposto sobre os prêmios que nossos atletas medalhados* vão ganhar. É curioso: muitos brasileiros não têm casa para morar. Ao invés de medidas para baratear o acesso a uma, o governo exige um sem-fim de impostos, taxas, certidões e burocracias. Literalmente paga-se imposto ao ganhar dinheiro para comprar uma casa, ao comprar a casa, ao morar na casa e ao vender a casa. Mas quando um atleta ganha uma medalha (e não vai aqui nenhuma dúvida sobre o mérito da conquista) e junto com a medalha vêm um prêmio que soma mais do que um brasileiro salário-mínimo vai ganhar em toda sua vida, subitamente torna-se importante discutir que esse prêmio deve ser isento de imposto.

Sei que muitos me consideram pessimista. Eu também me considero pessimista, principalmente no que diz respeito ao meu país. Quem sabe isso possa mudar se um dia, quando a imprensa anunciar mais alguma travessura dos políticos com nosso dinheiro, algumas pessoas se levantem e digam “Senhores deputados, o dinheiro não é de vocês para dar!”.

* observação: quem faz projetos é projetista e quem faz desenhos é desenhista, então medalhista poderia ser alguém que faz medalhas. Mas quem ganha diploma é diplomado, quem ganha prêmio é premiado e portanto quem ganha medalha é medalhado.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

OLÍMPICOS

Três constatações após a abertura das Olimpíadas:

1. Na antiga Grécia, as guerras paravam para a realização dos jogos, que eram considerados sagrados. Nos jogos de hoje, as guerras prosseguem normalmente. Um dos países que está em uma das guerras está excluído dos jogos, porque foi considerado (por quem?) “do mal”. Na outra guerra, os dois países envolvidos participam porque foi decidido (por quem?) que é um caso diferente, e ambos são bonzinhos, apesar de estarem se matando mutuamente.

2. Paris demonstrou ter vergonha de ser francesa e européia e decidiu enfatizar, a cada minuto, a “diversidade” e a “inclusão”. Mas essa diversidade só incluiu a África sub-saariana. Não vi rostos que representassem etnias das Américas, ou da Ásia, ou mesmo do norte da África (com exceção de Zidane). Se a intenção foi se penitenciar pela época do colonialismo, poderia ter trazido alguém do Quebec, ou da Louisiana, ou do Líbano, ou do Vietnam, ou da Índia, ou do Caribe.

3. Poucas coisas simbolizam tão bem os tempos em que vivemos como ver uma delegação de atletas olímpicos, fazendo parte de uma elite que abrange 0,0001% da população do mundo, desfilando pelo Sena, sendo vistos por mais de 300.000 pessoas ao vivo e mais de um bilhão pela TV no mundo inteiro, e constatar que muitos desses atletas, ao invés de olhar para este momento único com seus olhos, prefere filmar ou fotografar com seu smartphone.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

EXCLUSÃO

Discutir, debater e argumentar são sinônimos. Estão relacionados com a arte da Retórica, que para os antigos gregos era um dos campos básicos do conhecimento, ao lado da música, da gramática e da lógica.

Uma consequência inevitável de qualquer debate produtivo é a exclusão ou discriminação: Um debate busca atingir um conhecimento comparando várias idéias, ou teorias, ou teses. O processo do debate vai descartando, isto é, excluindo, as idéias que não funcionam ou não contribuem para a solução daquilo que está sendo discutido.

É um processo óbvio e instintivo para qualquer pessoa. Quem escolhe comer uma maçã está excluindo as bananas, as pêras e as ameixas. Quem pega um livro na estante está excluindo todos os outros livros da estante.

Por que então no mundo de hoje palavras como exclusão ou discriminação são consideradas palavrões, coisas horríveis e nojentas que toda pessoa deve fazer força para evitar?

Porque são consequências do pensamento e da liberdade, e estas são as coisas que certas pessoas consideram realmente ofensivas. Ao decretar que excluir é feio, estas pessoas automaticamente tornam feio o ato de escolher. Ao impedir o ato de escolher, elas retiram das demais pessoas a liberdade de pensar por si próprias.

E como estas mesmas pessoas mantêm seu direito (monopólio) de pensar, decidir e excluir? Decretando que a única exceção possível é “excluir a exclusão”, como na famosa expressão “não podemos tolerar a intolerância”. Ao dizer que o outro errou primeiro, ela se isenta de culpa ao cometer o mesmo erro.

Moral da história: Quem controla as palavras, controla o pensamento.