Este texto é um resumo de um artigo de Murray Rothbard, chamado Egalitarianism and the elites. Quem quiser pode ler o original, clique aqui
Uma das grandes glórias da humanidade é que, ao contrário de outras espécies, cada ser humano é único e insubstituível. A diversidade é o atributo mais marcante da humanidade.
A atual veneração da igualdade é uma idéia recente no pensamento humano. Até o século 18, ela só era mencionada como algo ridículo ou indesejável. A natureza anti-humana da igualdade fica clara no mito grego de Procusto: Ele convidava os viajantes a passar a noite em sua casa, e os obrigava a deitar-se em uma cama de ferro. Se o convidado fosse maior que o tamanho exato da cama, Procusto cortava fora as “partes excedentes”. Se fosse menor, ele esticava a vítima até o tamanho desejado.
O que Procusto faz é claramente desumano, e sua única justificativa é um lunático “ideal estético”. Incrivelmente, muitos modernos igualitaristas têm posturas semelhantes. O economista Henry C. Simons escreveu um longo artigo defendendo o imposto de renda progressivo sob o argumento de que a desigualdade de renda é “má e desagradável”. O sociólogo Albert H. Halsey disse ser “incapaz de imaginar outra razão além da maldade” para quem discordasse de suas idéias igualitárias.
Mas vamos examinar o problema com mais atenção: o que exatamente deve ser igualado? A resposta clássica seria “a renda” ou “a riqueza”. Mas qual delas? A renda familiar ou per capita? Como comparar pessoas casadas e solteiras? Casais com mais filhos devem ganhar mais? E o que deve ser igualado é a renda ou a riqueza? Se Pedro gasta tudo que ganha e Paulo poupa e adquire bens, devemos igualar o salário ou o patrimônio deles?
Indo além do aspecto monetário: um morador de Paris que pode tomar café às margens do Sena enquanto olha para a Torre Eiffel deve ser igualado a um morador de Mantamaru no deserto australiano que só enxerga areia para todos os lados? O sujeito que tem uma cobertura em frente à praia de Jatiúca em Maceió deve ser igualado ao dono de uma meia-água na região mais pobre da Baixada Fluminense? E caso a resposta seja sim, como quantificar essas diferenças? Quanto o morador de Paris ou Maceió deve pagar ao morador de Mantamaru ou de Japeri para que haja igualdade?
E quanto à formação de cada pessoa, também deve haver igualdade? Se um casal se esmera em dar cultura e conhecimento a seus filhos enquanto o casal vizinho aconselha os filhos a não estudar e passar o dia empinando pipas, o que fazer? Como sair da situação “injusta” em que uma criança nasce em uma família culta e harmônica e outra nasce em uma família de idiotas irresponsáveis?
Os espíritos estatistas (de todas as vertentes ideológicas) responderão que a criação e a educação das crianças deve ser “nacionalizada”, ou seja, colocada a cargo do estado que se encarregará de uniformizar e desindividualizar os futuros cidadãos igualitários. Mas é inevitável que em alguns colégios existam professores excelentes, do tipo que se destaca da maioria, ou diretores que levem seus colégios como um todo a um nível de qualidade acima da média.
Uma lavagem cerebral adequada (geralmente ministrada nas universidades), a burocratização e o amortecimento do espírito sempre presentes nos estabelecimentos estatais podem ajudar a nivelar por baixo professores e diretores, mas ainda assim o igualitarismo ideal envolveria afastar aqueles que se destacam, para evitar a pavorosa idéia de que alguns jovens possam receber uma educação melhor que a média e assim macular a sagrada “igualdade de oportunidades”.
Quando se olha para o movimento igualitarista, nota-se logo que seus principais defensores não são iguais aos outros: são professores de Harvard ou Oxford, políticos, escritores e outros membros privilegiados da elite social. Para entender essa aparente contradição, basta pensar em Procusto: eles estão menos preocupados com os resultados das políticas de igualdade e mais preocupados em deter o poder de ditar os termos desta igualdade. Sim, porque implantar a igualdade necessariamente exige criar uma elite governante dotada de grande poder de coerção, até mesmo física. Os ideais de Procusto são os mesmos de todos aqueles que fazem parte – ou almejam fazer – do grupo que detém o poder de impor seus padrões ao restante da sociedade. Alguns pensadores políticos admitem isso abertamente. O sociólogo Frank Parkin disse “o igualitarismo exige um sistema político onde o estado seja capaz de controlar aqueles grupos sociais e ocupacionais que, em virtude de suas habilidades, educação ou atributos pessoais, poderiam tentar reivindicar uma parcela desproporcional de recompensas da sociedade. A maneira mais eficaz de controlar estes grupos é negar-lhes o direito de se organizar politicamente ou de minar a igualdade social.”
Como Parkin e sua turma não percebem que essa implantação de “igualdade” necessariamente leva a enormes desigualdades de poder e autoridade, e conseqüentemente de renda e riqueza? Podemos pensar em hipocrisia ou em manipulação deliberada, porque a simples observação da história mostra que em qualquer organização humana (ou pelo menos naquelas que funcionam) é inevitável o surgimento de uma hierarquia e uma desigualdade de tomada de decisões. O consenso, a democracia, a submissão da minoria à vontade da maioria são, quase sempre, sonhos românticos.
O sociólogo alemão Helmut Schoeck apontou que o igualitarismo moderno é basicamente a institucionalização da inveja. Se nas sociedades bem-sucedidas a inveja sempre foi considerada errada e vergonhosa, a sociedade igualitária transfere a culpa para a vítima, acusando-a do crime de provocar a inveja. Qualquer peculiaridade que destaque uma pessoa passa a ser condenada, e a igualdade econômica deixa de ser suficiente; busca-se então a uniformidade obrigatória de inteligência, talento, aparência, comportamento, etc., até chegar ao ponto em que qualquer demonstração de individualidade seja considerada condenável. Schoeck lembra que nos kibutz israelenses até a busca por privacidade era condenada.
O conceito de que o erro não está em invejar, mas em ser motivo de inveja foi implantado na prática através do velho mecanismo da culpa. Ao fazer isso, a busca da igualdade entre indivíduos foi deixada de lado em favor da busca da igualdade entre grupos. Assim, toda pessoa que pertence a um suposto grupo “opressor” é levada a sentir culpa pelo sofrimento dos grupos supostamente “oprimidos”.
A proliferação dos tais grupos oprimidos – também chamados jocosamente de “vítimas credenciadas” – parece não ter fim: mulheres, negros, hispânicos, índios, imigrantes, deficientes, jovens, velhos, altos, baixos, gordos, magros… Praticamente qualquer coisa serve para que alguém se considere oprimido e merecedor de vantagens e privilégios a serem obtidos à custa dos opressores, seja lá quem sejam. Como todo processo mental reflete-se na linguagem, foi dito que o igualitarismo chama de “necessidade” o desejo das pessoas de tomar o que é dos outros, enquanto o desejo de conservar o que é seu passa a ser chamado de “ganância”.
Obviamente, os Procustos modernos enfatizam as vantagens concedidas aos oprimidos para disfarçar as suas próprias vantagens, muito maiores, e fazem de tudo para esconder dos ditos oprimidos o fato de que eles mesmos são os maiores prejudicados pelo processo.
A virtude do igualitarismo de grupo é justamente fornecer um suprimento quase infinito de grupos oprimidos que aderem com entusiasmo ao processo por julgar, inocentemente, que estão se beneficiando. Este comportamento tão tipicamente humano foi descrito por Pareto nestes termos: “Os indivíduos sempre estão empenhados em fugir das desigualdades que não lhes são favoráveis, e criar novas desigualdades que lhes serão vantajosas.”