MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Nunca se mente tanto quanto antes da eleição, durante a guerra e depois da pescaria. Eu conheço essa expressão desde criança, e ela reflete, por baixo do humor, uma verdade. Enquanto pescarias costumam ser bastante inofensivas, eleições e guerras são coisas que afetam profundamente a vida das pessoas, e é péssimo que elas aconteçam envoltas em mentiras.

A guerra existe desde que o homo sapiens existe. Não deveria existir, claro, mas na antiguidade os líderes ao menos tinham a decência de estar na linha de frente, dando o exemplo e correndo risco junto com os outros. Hoje, as guerras são planejadas, iniciadas e conduzidas por burocratas sentados em poltronas macias, rodeados de assessores puxa-sacos e garçonetes bonitas. Quem morre são só os filhos dos outros, que nem sabem porque estão morrendo: simplesmente receberam ordens.

Como tudo no mundo depende da maneira de dizer, os políticos não mandam as pessoas morrerem por eles; usam uma abstração chamada “pátria”. É o tipo de coisa difícil de explicar: todas as constituições se esmeram em dizer que “o poder emana do povo” e “o povo é soberano”, mas ao mesmo tempo criam uma entidade chamada “governo” que pode mandar no povo, prender o povo, obrigar o povo a morrer em uma guerra. Tudo em nome de uma “pátria” que não tem rosto, não tem endereço, não tem voz própria. Na verdade, os supostos interesses da pátria mudam a cada eleição, e espera-se que a vontade do povo mude junto.

Ao mesmo tempo, existe o conceito de nação, que às vezes (e só às vezes) concorda com o conceito de pátria. Uma nação seria, supostamente, um conjunto de pessoas ligadas por laços sócio-culturais comuns. Estas pessoas teriam (sempre “supostamente”) idéias, preferências e desejos similares, e poderiam tomar decisões coletivas baseadas na vontade da maioria. Pode até fazer algum sentido, mas não anula a realidade: pessoas são indivíduos, e têm direito a ter opinião própria. Ninguém deve ser obrigado a pensar da mesma forma que seu vizinho, mesmo se ambos falam a mesma língua, compartilham a mesma etnia ou nasceram dentro de uma mesma demarcação geográfica. E, repito, ninguém deveria ser obrigado a morrer ou a matar para atender aos desejos de poder dos políticos.

Depois das duas guerras chamadas “mundiais”, os países inventaram uma maneira mais sofisticada de fazer guerra e deixar os prejuízos para os outros. O método costuma ser chamado “guerra por procuração”. Os políticos interessados na guerra escolhem um país pequeno (ou uma parte de um país) e colocam lá um líder alinhado com seus objetivos (os métodos são vários). Aí fornecem armas e dinheiro para que o povo desse lugar entre em guerra contra o povo vizinho, que muitas vezes também é liderado por um fantoche de outro país. Enquanto pessoas matam e morrem sem sequer entender por quê, os políticos de fora se vangloriam por estar ajudando o tal povo a “lutar por sua liberdade”, ou coisa parecida. Os dois casos mais famosos aconteceram na Coréia (1950-1953) e no Vietnã (1955-1975). No momento, está acontecendo na Ucrânia, e para entender a situação é preciso, antes de mais nada, entender o contexto.

A Ucrânia que a escola mostra nas aulas de geografia e a imprensa chama de “país soberano” só existe há três décadas. Partes que hoje aparecem no mapa como “Ucrânia” já fizeram parte da Polônia, da Rússia, da Alemanha, do Império Austríaco e até mesmo da Turquia. A região que tem, há tempos, uma identidade ucraniana fica em torno de Kiev, a capital, na margem ocidental do rio Dnieper. Deveríamos chamar essa região de “nação ucraniana”, mas como somos bombardeados desde bebês com a propaganda estatal, essa idéia geralmente assusta: estamos condicionados a acreditar que nação é aquilo que o governo diz que é, não aquilo que o povo sente que é.

Historicamente, é incontestado que a região próxima ao litoral do Mar Negro e a oeste da foz do Dnieper sempre foi pouco “ucraniana” e muito ligada à Rússia. Pouco depois da Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia passou a fazer parte da União Soviética e as fronteiras passaram a ser meras formalidades administrativas. Quando a União Soviética se desmanchou, em 1989, os políticos de Kiev transformaram essas fronteiras quase fictícias nos limites oficiais dos “seus” domínios, ignorando que a realidade era diferente.

Eu gosto de defender idéias não apenas com afirmações, mas com fatos, e acho que nenhum argumento pode ser tão eloqüente quanto o mapa abaixo. Ele mostra o resultado da eleição presidencial de 2010. Os candidatos eram Viktor Yanukovych, favorável a uma maior aproximação com a Rússia, e Yulia Tymoshenko, que defendia que o país se afastasse da influência russa e se aproximasse da União Européia. No mapa, as províncias onde Yanukovych venceu estão em azul, e aquelas onde Tymoshenko venceu estão em rosa:

É preciso ser muito cínico para negar que esse é o retrato de um país dividido. Mas como também somos condicionados desde criancinhas a acreditar que a democracia resolve todos os problemas, Viktor foi eleito com 12,5 milhões de votos contra 11,6 milhões de Yulia, e todos fizeram de conta que estava tudo certo.

Não estava. No início de 2014 surgiram protestos contra o governo que rapidamente se transformaram em violência e culminaram na deposição do presidente Yanukovych. O que aconteceu pode ser chamado de “golpe contra um governo democraticamente eleito” ou “o povo heróico salvando seu país”, conforme a simpatia e a torcida de cada um. O fato é que após o governo pró-Rússia de Yanukovych vieram os pró-ocidente Petro Poroshenko e Volodimyr Zelenskyy, a população pró-Rússia do leste da Ucrânia começou a se queixar, e as tensões entre Kiev e Moscou foram aumentando até chegar à guerra que já está quase completando um ano.

O restante da história também pode ser contado de duas maneiras dependendo do lado que se escolhe como certo, mas a realidade permanece: cidades inteiras estão sendo reduzidas a escombros e pessoas estão morrendo. O que mais me entristece: gente que acha que na guerra um dos lados é bonzinho e que uma parte dessas pessoas “merece morrer”. Aliás, algum tempo atrás eu estava acompanhando um debate em um site onde se falava das denúncias sobre milícias ucranianas massacrando civis por serem considerados “pró-Rússia”, e tive o desprazer de ver um indivíduo, brasileiro como eu, dizer “Tá certo, tem que matar mesmo! Traidor da pátria tem que ser eliminado o quanto antes!”

Me entristece pensar que uma pessoa possa passar da condição de “patriota” para “traidor” apenas porque uma eleição trocou um político por outro. Me entristece pensar que um político possa condenar pessoas à morte simplesmente apontando linhas desenhadas em um pedaço de papel desenhado e dizendo “quem manda aqui sou eu”. Ninguém deveria morrer por causa de um mapa.

4 pensou em “NINGUÉM DEVERIA MORRER POR UM MAPA

  1. Caro Marcelo,

    Parabéns por mais esta brilhante análise.

    Durante a derrubada de Yanuchenço, em 2014, eu estava em Kiev. Acompanhei cada passo da invasão da Crimeia. Fugi da iminente invasão russa através da Bielorrússia. Fui preso na fronteira… É uma longa história que já contei aqui em detalhes.

    Durante este período, fiz uma quantidade imensa de amigos e amigas. Todos eles me relatavam uma profunda versão a se ver de novo sob o jugo russo, O mais interessante é que uma grande parte falava russo e tinha raízes no país vizinho. É algo assim como os estados do Nordeste. As famílias estão espalhadas por diferentes localidades.e em diversos estados.

    A minha solução é a mesma que recomendo para o Brasil: Ah! O Nordeste quer o PT? Pois fique com ele, juntamente com toda a politicalhada que os apoia. Separem-se do Brasil, transformem-se na NOVA CUBA DO SUL e parem de desgraçar o restante do país.

    • Sua solução me agrada muito, Adônis. Pena que, tanto lá como cá, as mesmas leis que fingem dizer “o poder emana do povo” dizem, sem fingimento, que o povo é propriedade do estado.

  2. Que fique claro que não tenho nada contra o Zelenskyy, pelo menos não mais do que tenho contra qualquer outro político. Mas já que estamos no assunto, é interessante notar o que ele tem feito enquanto os outros ucraínos estão morrendo na guerra:

    – Participou da cerimônia dos Golden Globes
    – Participou da cerimônia do Grammy
    – Participou da abertura do Festival de Cannes
    – Participou da abertura do Festival de Glastonbury
    – Participou do Founders Forum (um encontro de empreendedores de tecnologia na Inglaterra)
    – Discursou no Fórum Econômico Mundial em Davos
    – Discursou no Congresso dos EUA
    – Apareceu em um encontro com o ator Ben Stiller
    – Apareceu em um encontro com o ator Sean Penn (que lhe deu de presente sua estatueta do Oscar)
    – Participou do programa de David Letterman
    – Posou com sua esposa para um ensaio na revista Vogue

    A cereja do bolo provavelmente foi um evento chique da embaixada da Ucrânia em Washington, cujo convite orgulhosamente mostrava como “apoiadores” Northrop Grumman, Raytheon e Lockheed Martin – exatamente as mesmas empresas que estão recebendo bilhões do governo americano para fabricar os equipamentos militares que estão sendo doados à Ucrânia.

  3. Caro Marcelo,

    De novo, tuas colocações e argumentos são inquestionáveis.

    Eu também não morro de amores por nenhum “Paladino da Justiça” mas, o que temos, pelo menos por enquanto, é Zelenski.

    É o mesmo caso de Bolsonaro.

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