MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Vivemos em um mundo que é impulsionado cada vez menos por idéias e cada vez mais por palavras de ordem e discursos emocionados. Ao lado da “democracia”, da “igualdade” e da “empatia”, despontou nas últimas semanas a “soberania”. Como de costume, pouca gente se dá ao trabalho de entender do que realmente estamos falando.

O que Trump está fazendo não é nada diferente daquilo que o Brasil têm feito desde que existe: fechar-se ao comércio com outros países a pretexto de “fortalecer a indústria nacional”, o que nos discursos dos políticos se mistura com a tal “soberania”. Aliás, o Brasil em muitas ocasiões já cobrou tarifas de importação bem maiores que os 50% do Trump – sem resultado, claro.

Já escrevi sobre protecionismo comercial aqui. Repito um trecho:

“Quem defende o protecionismo para o seu país fala em “soberania nacional”, “setores estratégicos” e outras expressões ufanistas. Mas quando os outros países fazem o mesmo, aí eles são “imperialistas”, “arrogantes”, “agressivos”. Não é ilógico (e hipócrita) achar que uma coisa é boa quando nós fazemos com os outros mas é ruim quando os outros fazem com a gente?”

Muita gente está protestando por “soberania” simplesmente porque enxerga o mundo girando ao redor do seu umbigo, e portanto acham que o direito de fazer o que quer é apenas nosso, e não dos outros. Ou seja, não conseguem enxergar que o Trump também tem a soberania dele, e ela inclui cobrar impostos de importação quando achar conveniente, e quem têm que gostar ou não são os eleitores dele. Bom notar que muita gente nem sequer entendeu do que se trata e acha que quem vai pagar 50% são os brasileiros.

Os atuais protestos por soberania misturam diversos conceitos: Também há quem se preocupe com antigas noções militares de “independência”, sonhos de um país que seja auto-suficiente e não dependa de ninguém (o Brasil está tão perto dessa independência quanto eu estou perto de vencer a maratona nas próximas olimpíadas). Nunca chegamos a ser um “país industrializado”, no sentido comum do termo. Na Europa do século 19 os países competiam em número de siderúrgicas e em produção de aço, enquanto nós, deitados em berço esplêndido, só fomos ter uma em 1941. Somos totalmente dependentes dos outros países em coisas básicas como medicamentos, computadores e automóveis. Exportamos petróleo bruto mas importamos diesel porque não temos capacidade de refinar tudo que consumimos. Nosso agro negócio cantado em prosa e verso depende não só desse diesel para mover suas máquinas mas também de fertilizantes importados. E por aí afora.

Também está se falando em soberania em outro sentido: a soberania do judiciário. Aí trata-se apenas da nossa secular subserviência, nossa tradicional postura de endeusar a autoridade. Porque, em uma análise mais fria, o judiciário não tem soberania alguma. Alguns poderiam falar em soberania do governo, do qual o judiciário é apenas uma parte, que deveria ser “independente e harmônica” com as demais. Mesmo assim não estaria correto, soberano é o povo, a não ser que o artigo 1º da constituição está lá só para enfeitar. Mas para um país onde já se disse “autonomia não é soberania”, discutir isso parece preciosismo, e não muda o fato de que muita gente acha mesmo que o judiciário está acima da sociedade e pode fazer o que lhe dá na telha. Na verdade, ele até tem mesmo feito o que lhe dá na telha, mas tudo na vida tem consequências, incluindo o campo das relações internacionais.

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