MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Antigamente havia reis, e os reis mandavam em tudo. Para manter o povo sob controle, os reis usavam a força e o medo. Funcionava, mas dava muito trabalho. Então um sistema mais eficaz foi inventado, e tem sido constantemente aperfeiçoado. Ele mantém o povo quieto e permite que o governo faça o que quiser sem que o povo reclame. O nome foi emprestado de um sistema que existiu na Grécia antiga: Democracia.

A característica básica da democracia é a existência de políticos e de eleições. As eleições servem para dar ao povo a ilusão de ter algum poder ou algum controle sobre suas vidas, enquanto o verdadeiro poder continua mandando e se fortalecendo ainda mais.

A fórmula mais importante para isso dar certo é dividir os políticos em dois campos opostos. Cada um dos lados passa o tempo garantindo que é o lado certo, que o outro partido é o lado errado, e que só ele é capaz de trazer paz, progresso, prosperidade… (a lista de promessas é longa).

As divergências entre os dois partidos devem parecer profundas para o eleitor, embora possam ser na verdade coisas completamente irrelevantes. Coisas do tipo “qual banheiro cada um deve usar” funcionam bem, e cumprem a missão de levar o eleitorado a uma escolha passional e intransigente de um dos lados. O ser humano se empolga mais facilmente pelo ódio do que pela lógica, e assim os integrantes de ambos os lados verão o “outro” lado como algo a ser atacado e se possível destruído. Ao mesmo tempo, a polarização afaga o ego do eleitor com a certeza de que ele está do lado “certo”, do lado “justo”.

Nesse processo, o eleitor passa a acreditar que os políticos do “seu” lado são necessários e indispensáveis para resolver qualquer problema do universo. Tudo passa a ser uma questão política. O eleitor acredita do fundo do seu coração que sua vida e seu futuro dependem do resultado da próxima eleição.

Quando o sistema é bem implantado, as pessoas se dividem entre os dois grupos de forma mais ou menos igual. O ideal é que as eleições sejam vencidas por um lado e por outro, alternadamente, e por uma diferença pequena. A alternância mantém no lado que perdeu a esperança de ganhar na próxima vez, e não deixa o lado que ganhou ficar muito confiante. Relembrando: a chave é manter os dois lados se odiando mutuamente – derrotar o adversário deve ser uma obsessão na vida do eleitor. Dessa forma, o verdadeiro poder pode fazer o que bem entende: o lado que venceu as últimas eleições apoiará tudo que os “seus” políticos decidiram, e o lado perdedor redobrará sua esperança de que na próxima eleição tudo será revertido.

Existem vários métodos para implantar essa democracia. Manter o controle das escolas, por exemplo, é fundamental. Antes de uma criança chegar à idade de tomar decisões, ela já terá passado vários anos ouvindo que o governo é sempre bom, é sempre necessário, é sempre indispensável e nunca deve ser questionado. Também terá passado por anos de treinamento andando em fila, sendo chamada por um número e fazendo aquilo que mandam sem perguntar porquê. Terá aprendido que pensar igual a todo mundo é bom, e que pensar por si mesma é ruim, porque pode levar a pensar diferente da maioria, o que é péssimo.

Também é importante manter o controle dos candidatos. Para isso, organizam-se Partidos Políticos, cuja função é impedir que pessoas que não atendam os interesses do sistema possam chegar às eleições. Como a vitória nas eleições garante bons salários e muitos privilégios, não faltarão candidatos, ainda que todos eles saibam que a vitória não lhes trará nenhum poder real. O candidato ideal ama os holofotes, tem talento para fazer discursos vazios mas cheios de promessas, e sabe ser leal àqueles que financiaram sua entrada no “sistema”.

A chamada “grande mídia” também desempenha um papel importante. Os noticiários devem tratar os políticos como celebridades, noticiar cada passo e cada fala, e tratar cada divergência (real ou fictícia) como um assunto da maior importância. Devem divulgar pesquisas de opinião e prognósticos para a próxima eleição como quem fala de um campeonato de futebol, mantendo ambas as torcidas motivadas na torcida, entupindo as redes sociais de memes, vídeos com declarações bombásticas e impropérios variados contra o lado contrário.

O maravilhoso desse sistema é que ele próprio transforma o defeito em virtude. Frequentemente o poder cria problemas para lucrar com eles. Então os políticos são chamados a mostrar que o problema deve ser enfrentado com “vontade política” e “espírito republicano”, buscando “soluções pactuadas” e “políticas públicas”. Então o governo apresentará uma pretensa solução que não resolve o problema, mas que traz ainda mais lucros. Por mais surreal que possa parecer, o povo ficará feliz, cada lado culpando o outro por tudo e alimentando a ilusão de que o seu lado não deixaria isso acontecer se tivesse o poder absoluto e não houvesse oposição para atrapalhar.

Sim, porque no fundo todo esse sistema se fundamenta nessa faceta da personalidade humana: o desejo de mandar. A idéia de um sistema onde as pessoas possam ser livres para discordar umas das outras é algo impensável para a grande maioria. Como na imagem popular da cenoura pendurada à frente do burro, elas preferem manter a ilusão de que a próxima eleição colocará no poder as pessoas “certas” e todos os males desaparecerão.

3 pensou em “AS DITADURAS DEMOCRÁTICAS

  1. A Grécia inventou a democracia, com ela as eleições e por consequência os políticos. Uma vez bem implantada divide a população em dois grupos iguais em lados opostos. São compostos de pessoas doutrinadas, fanáticas, doentes, incapazes de pensar por conta própria.

    Ah, mas tem um terceiro grupo também (que hoje se denomina a 3ª via); são os “isentos”, composto de pessoas finas, sensatas, equilibradas, inteligentes, analíticas, que não assumem posição alguma, mornos se situam no alto do muro, têm a consistência de uma água de salsicha, não são fiéis a nada, com a convicção de uma ameba.

    Eu sei a minha posição.

    • Realmente as vítimas da política, que você chama de “doutrinadas, fanáticas, doentes, incapazes de pensar por conta própria” não gostam de pessoas “sensatas, equilibradas, inteligentes”.

      Elas preferem acreditar em um mundo maniqueísta, dividido, onde tudo é claramente demarcado como “certo” ou “errado”. É mais fácil reforçar a certeza de ser “dono da razão” quando o outro lado é apenas uma imagem invertida de si mesmo; é um adversário fácil.

      Quando confrontadas com idéias que vão além da sua limitada visão preto-e-branco, essas pessoas “doutrinadas, fanáticas, doentes” costumam ficar irritadas porque os xingamentos que elas estão acostumadas a usar mostram-se inadequados e sem fundamento. É comum, então, que partam para a agressão pessoal ou para xingamentos genéricos e acusações vazias.

      Com isso, estas pessoas mostram como é desconfortável para elas um mundo onde exista algo além de dois grupos antagônicos; não pertencer a um desses grupos, pensar por si mesmo, é para elas um grave defeito. Elas tentam, de todas as maneiras, fazer o mundo se encaixar em seus dois balaios ideológicos: o delas e o outro, o “do bem” e o “do mal”.

      De minha parte, tenho a consciência tranquila de que sempre assumi uma posição clara, não me situo no alto do muro, sou fiel às minhas idéias e não tenho dúvidas quanto à “consistência” ou “convicção”. Se isso abala as certezas de algumas pessoas, fico feliz. Questionar-se sempre é o caminho do crescimento pessoal.

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