MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

Walter Maciel

Os números não mentem. Há alguns anos, fiz uma previsão que ninguém queria ouvir: as despesas públicas brasileiras ultrapassariam estruturalmente as receitas em 2027 e 2028. Não foi pessimismo — foi matemática. Hoje, com um buraco de R$ 35 bilhões no orçamento de 2026 e uma dívida pública que já ultrapassa R$ 9,4 trilhões, o equivalente a 76,6% do PIB segundo o Banco Central, a conclusão é inescapável, pois não estamos caminhando para o precipício — estamos correndo. O número não é apenas uma estatística em uma planilha, é a confissão de um governo acuado e a prova de que a aritmética sempre vence.

Assim como uma empresa, um país não deveria sobreviver pensando apenas “no próximo trimestre”. Mas o Brasil vive exclusivamente para a próxima eleição. Cada decreto é pensado para o ciclo eleitoral seguinte; cada medida provisória é um remendo tático. A política de Estado foi substituída pela política de governo — imediatista, reversível e destrutiva.

A MP 1303 não é um erro técnico, mas um suicídio econômico deliberado mascarado de justiça social. Ao aumentar a tributação sobre investimentos e eliminar incentivos de longo prazo, o governo age na contramão do que o Tesouro mais precisa: tempo para alongar sua dívida.

O problema não são as isenções estratégicas para infraestrutura e imobiliário — setores que dependem de estímulo porque o próprio governo quebrou. O problema são as renúncias fiscais mantidas para grupos de interesse enquanto se pune quem investe. É uma medida autodestrutiva, movida por cálculo político, reflexo de um governo que pensa no calendário eleitoral, não no país.

Quando a MP começou a fracassar no Congresso, o relator transformou uma questão tributária em guerra eleitoral, responsabilizando governadores de oposição. A mensagem foi clara: quem se opõe é inimigo dos pobres. Não importam os efeitos fiscais — importa a narrativa. Quando a política tributária vira campanha antecipada, o país perde a capacidade de governar.

Após a derrota, o líder do governo anunciou um “arsenal de possibilidades” para recuperar a arrecadação, reeditando medidas rejeitadas e decretos já declarados inconstitucionais. Isso não é firmeza — é desespero. E, para quem investe pensando em décadas, é devastador. As regras podem mudar a qualquer momento; a previsibilidade desapareceu.

A ironia é que o Congresso respondeu com elegância e aprovou a isenção de IR até R$ 5 mil, mas rejeitou todos os aumentos de impostos que a financiariam. O recado foi claro: querem populismo? Ótimo. Mas paguem cortando privilégios do próprio governo.

O fato que ninguém quer confrontar é que o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis eleições presidenciais e, dos últimos 24 anos, ficou 17 no poder — oito de Lula, seis de Dilma e três do atual governo. São 17 anos definindo prioridades, nomeando ministros e moldando políticas. Se uma empresa tem o mesmo CEO por quase duas décadas e vai à falência, ninguém culpa o mercado — culpa-se o gestor. Com o Estado, não é diferente. Se, após todo esse tempo, a dívida explodiu, o sistema tributário se distorceu e a máquina pública inchou, a responsabilidade é de quem governou.

Há algo mais profundo: o sistema aprendeu a sobreviver da própria ineficiência. Quando as coisas funcionam, os políticos se tornam irrelevantes. Se os Correios fossem lucrativos, não precisariam de salvadores políticos; se o Marco das Garantias funcionasse, juízes não decidiriam cada contrato; se a reforma administrativa passasse, o Estado não precisaria de intermediários para operar. A equação é simples e deixa claro que a eficiência torna políticos desnecessários, e para quem vive do poder, ser desnecessário é inaceitável.

Por isso, quando o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, tornou os Correios lucrativos pela primeira vez na história recente, a resposta foi imediata: bloqueio total à privatização. O resultado hoje é um prejuízo projetado de R$ 20 bilhões até 2026. Não se trata de esquerda ou direita, mas de quem lucra com o caos versus quem precisa que o país funcione.

O buraco de R$ 35 bilhões é mais do que uma falha fiscal; é o sinal de que estamos entrando em um regime de dominância fiscal, quando o endividamento se torna tão grande que a política monetária perde poder, a inflação passa a ser o único imposto possível e o Estado, incapaz de se reformar, começa a se financiar destruindo o valor da própria moeda.

Quando o Judiciário declara que nenhuma reforma “contra” passará, a mensagem é clara: o sistema não está protegendo a instituição, está garantindo que nunca se torne irrelevante por ser eficiente.

O contraste é obsceno: reformas que atingem contribuintes andam rápido; as que tocam privilégios são barradas preventivamente. Executivo capturado, Legislativo fragmentado e Judiciário autocentrado — três poderes falhando simultaneamente, todos priorizando a autopreservação em detrimento do interesse público.

O Brasil não tem uma crise fiscal, mas uma crise de complexidade. São mais de 90 tipos de tributos, um sistema que consome 2.600 horas anuais das empresas, contra 200 horas na média global. É um imposto invisível sobre produtividade e inovação. O Estado foi capturado por si mesmo: quase metade do orçamento federal é destinada à folha de pagamento e aposentadorias. Qualquer reforma atinge quem teria de aprová-la — um sistema travado por design. Foi capturado também por setores privados de interesse.

Como lembra o economista Marcos Lisboa, 10% de todo gasto público vem de decisões judiciais, muitas garantindo privilégios e subsídios setoriais. O PERSE, criado na pandemia como medida temporária, virou permanente até 2027, custando mais de R$ 20 bilhões em renúncias fiscais.

Enquanto isso, pequenas e médias empresas pagam as maiores alíquotas do mundo. Zona Franca de Manaus, BNDES escolhendo “campeões nacionais”, setores inteiros com isenções e juros subsidiados, enquanto empreendedores reais são sufocados. O resultado é uma economia disfuncional em que o Estado escolhe vencedores, mas não os deixa fracassar. Empresas zumbis sobrevivem com subsídios; inovação morre porque inovar exige liberdade para errar — e o Estado não permite.

A crise de eficiência se reflete também no capital humano. Profissionais qualificados estão saindo, levando décadas de produtividade e impostos futuros. Cada um que vai embora torna mais difícil a vida dos que ficam.

A diferença entre competência e fracasso sistêmico é visível: São Paulo, sob gestão profissional, passou de um déficit de R$ 10 bilhões em 2018 para superávits consecutivos, atingindo R$ 11,5 bilhões em 2023 — o maior da história do estado. Contas equilibradas, investimentos em infraestrutura e credibilidade recuperada. Enquanto isso, em 17 anos de poder federal, o PT entrega rombo, dívida crescente e uma máquina pública inchada. Não é coincidência — é competência versus fracasso sistêmico.

O governo não precisou ser derrubado; derrubou-se sozinho. O que vemos não é apenas a preparação para uma eleição, mas a reorganização completa do tabuleiro político diante do esgotamento de um modelo de governança.

A dúvida não é se haverá mudança em 2026 — ela já começou. A questão é se virá acompanhada de uma reforma real ou se será apenas a troca de rostos que preserva o modelo disfuncional. As medidas necessárias contradizem décadas de narrativa construída pelo PT, que sempre evitou cortar privilégios, reformar a máquina pública e reduzir gastos estruturais. O governo não pode fazer isso sem negar sua própria história. Por isso, não fará — e por isso a crise será enorme.

Quem assumir em 2027 herdará não apenas um país quebrado, mas um Estado em regime de dominância fiscal. Não haverá espaço para gradualismo. Será necessário total apoio do Congresso e medidas duras para dar um choque de credibilidade — algo como o modelo Temer-Meirelles, entre 2016 e 2018, quando a simples demonstração de responsabilidade fiscal devolveu confiança aos mercados e interrompeu a espiral de deterioração.

A diferença é que um candidato ungido pelo Centrão terá condições maiores de implementar reformas estruturais, com apoio automático da base parlamentar para aprovar o que hoje é impossível: reforma administrativa, corte de privilégios e ajuste fiscal real. Mas essa janela será curta, e o custo do fracasso, irreversível. Porque, se apenas trocarmos o governo sem mudar o sistema, estaremos adiando a crise — e o custo de cada adiamento cresce exponencialmente.

Amo este país. Construí empresas e criei empregos aqui. Mas ver pessoas competentes fazendo escolhas destrutivas por sobrevivência política é insuportável. A MP 1303 foi rejeitada, mas nada estrutural mudou. O buraco de R$ 35 bilhões continua, os decretos virão, a dívida crescerá. E quando o colapso finalmente chegar, todos fingirão surpresa. A matemática não mente. As pessoas, sim.

Walter Maciel é CEO da gestora de investimentos AZ Quest desde 2011.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GOVERNO É TÃO BONZINHO

Nos últimos doze meses, o congresso aprovou leis aumentando a pena para:

– falsificação de bebidas alcoólicas
– violência doméstica ou de gênero
– porte de arma de fogo
– adulteração de identificação de armas de fogo
– bullying e bullying digital
– entrega de álcool ou drogas a menores de idade
– exploração sexual de menores de idade
– sequestro ou cárcere privado de menores de idade
– crimes contra idosos ou pessoas com deficiência
– abandono ou maus-tratos a idosos
– atear fogo em vegetação
– danificar florestas
– roubo ou furto de cabos de energia
– crimes cometidos em escolas
– receptação de celulares, eletrônicos e medicamentos controlados
– crimes cometidos contra membros do sistema de justiça
– apologia ao crime
– apologia ao crime pela internet

Eu fico pensando: se nossos nobres deputados e senadores acham que aumentar a pena é a solução para um crime, não seria mais fácil aumentar de uma vez a pena para todos os crimes? Talvez até, se aumentassem bastante, os crimes acabariam.

Claro que isso é só uma brincadeira, porque é óbvio que político nenhum quer o fim dos crimes; pelo contrário, ele quer que os crimes continuem deixando os eleitores com medo, para que ele possa se apresentar como a solução. Da mesma forma, o fim das doenças seria algo horrível para os políticos, porque o povo deixaria de ter medo de ficar sem o SUS. Isso foi bem resumido em um filme de 1995, onde o personagem de Michael Douglas diz “Políticos só querem duas coisas: que vocês tenham medo, e que acreditem que eles são a solução”. (A bem da verdade, a fala exata é “políticos como ele”, se referindo ao adversário republicano, porque Michael Douglas interpretava um político democrata, e nos filmes de Hollywood políticos do partido democrata são santos imaculados, verdadeiros anjos que só pensam no bem do povo.)

Então, essa pantomima toda serve para manter a ilusão de que sem os políticos e suas leis, nossa sociedade se desmoronaria e mergulharíamos no caos. Fazer-se de importante é o pensamento central da política. Vale lembrar que:

– O governo está se vangloriando de ter encontrado e fechado não sei quantas fábricas de bebidas clandestinas, mas só fez isso depois que as pessoas começaram a morrer envenenadas.

– O governo proibiu a Voepass de operar, mas só depois que um acidente matou dezenas de pessoas. Antes disso o governo dizia que estava tudo certo com a Voepass. Aliás, o governo disse que estava tudo certo com a pista de Congonhas no dia do acidente do TAM 3054 e que não havia problemas com o controle de tráfego aéreo no dia do acidente do GOL 1907.

– O governo descobriu que a boate em Santa Maria onde um incêndio matou mais de duzentas pessoas tinha várias irregularidades, mas só depois do incêndio. Antes, a boate tinha todos os alvarás e licenças e tinha sido fiscalizada por todos os “órgãos competentes”.

– As instalações da Samarco em Mariana e da Vale em Brumadinho eram também regularmente fiscalizadas pelos “órgãos competentes”, que nunca encontraram nada de errado. Idem para a ciclovia do Rio de Janeiro, o viaduto de Belo Horizonte, as barreiras de contenção de enchentes em Porto Alegre, e tantos outros casos.

Para um cético como eu, nada disso surpreende. Pessoas são movidas por interesses, e essas coisas acontecem porque nossa sociedade caminhou, passo a passo, nessa direção, com a participação (ou omissão) de todos. Repetindo o que eu já disse várias vezes aqui no JBF, a cada dia fica mais difícil mudar essa realidade, porque o poder controla dois aliados de peso que executam a tarefa de introduzir as idéias de submissão na cabeça das pessoas: o sistema educacional e a mídia.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

UMA DATA PARA PRESTAR ATENÇÃO

No dia 4 de novembro haverá eleições para a prefeitura de Nova Iorque, maior cidade dos Estados Unidos e tradicionalmente favorável ao Partido Democrata. Nas primárias, o escolhido dos democratas foi o deputado Zohran Mamdani. O pré-candidato derrotado, o ex-governador Andrew Cuomo, lançou uma candidatura independente. Em uma pesquisa do mês passado, Mamdani tinha 47% das intenções de voto, Cuomo tinha 29% e o candidato republicano, Curtis Sliwa, 11%. A maioria dos analistas considera a vitória de Mamdani altamente provável, se não surgir alguma surpresa de última hora.

Sendo uma cidade tão famosa e rica, é natural pensar que a escolha de seus eleitores seja racional e inteligente, mas nesse caso essa afirmação parece duvidosa. Os pontos principais da plataforma de Mamdani são:

– Congelar os aluguéis e modificar as leis para aumentar os direitos dos inquilinos.
– Usar o dinheiro público para construir 200.000 moradias que serão alugadas a preços congelados.
– Aumentar as exigências e a fiscalização sobre proprietários de imóveis e confiscar as propriedades daqueles que “demonstrarem consistente negligência para seus inquilinos”.
– Criar o Departamento de Segurança Comunitária e aumentar a verba para programas de prevenção de “violência de ódio” em 800%.
– Criar uma rede de mercearias estatais para vender produtos básicos mais baratos.
– Tornar gratuitos todos os ônibus da cidade.
– Creches gratuitas para todas as crianças entre seis semanas e cinco anos de idade.
– Cesta básica gratuita para todo bebê nascido na cidade, com itens como fraldas, toalhas, roupas e livros.
– Implantar estrutura de energia renovável em 500 escolas e substituir pátios escolares cimentados por “vibrantes espaços verdes”.
– Criar o Escritório de Assuntos LGBTQIA+.
– Melhorar o sistema de saúde, com ênfase em “ajudar os trabalhadores e sindicatos a subsituir o sistema baseado em lucros”.
– Aumentar o salário mínimo em 100% até 2030.
– Criar regulamentações e exigências para o serviços de entrega como o iFood para “proteger os trabalhadores negros, marrons e imigrantes”.
– Transformar NY em uma cidade “a prova de Trump” (sério, está literalmente no site dele: “Trump-proof NYC”)

Para pagar isso tudo, o programa prevê arrecadar:

– 5 bilhões por ano de um aumento no imposto municipal sobre empresas.
– 4 bilhões por ano cobrando imposto de renda municipal dos “muito ricos”.
– 300 milhões por ano “melhorando os gastos públicos e reduzindo desperdícios”.
– 700 milhões por ano contratando mais fiscais de impostos e cobrando mais multas de “proprietários corruptos”.

Depois de ler o “programa de governo”, o leitor provavelmente estará imaginando que a candidatura de Mamdani se baseia em usar populismo e demagogia para conquistar o voto dos eleitores mais pobres e ignorantes. Mas não. Nas primárias democratas, onde ele concorreu com Cuomo, Mamdani:

– Venceu com ampla margem entre os eleitores com menos de 50 anos, e perdeu entre os eleitores acima dos 50.
– Perdeu para Cuomo entre os hispânicos e os negros, e venceu Cuomo no eleitorado branco e asiático.
– Perdeu para Cuomo entre os eleitores sem curso superior, e venceu Cuomo entre os eleitores com diploma universitário.
– Mamdani venceu por pouco entre os homens e perdeu, também por pouco, entre as mulheres.

Como era de se esperar, Mamdani está sendo duramente atacado pelo presidente Trump, com as usuais ameaças vagas de “salvar a cidade de Nova Iorque”. Trump não fez nada para apoiar o candidato republicano Curtis Sliwa, e ser xingado por Trump provavelmente mais ajuda do que atrapalha Mamdani junto ao eleitorado democrata.

Se Mamdani ganha, como parece provável, o que aconterá? Obviamente ele não conseguirá fazer tudo que está prometendo. Seus aumentos de impostos certamente irão afugentar empresas e moradores para outros lugares – lembrando que em NY basta atravessar uma ponte para estar em outro estado, Nova Jersey. Quando isso acontecer, os seus simpatizantes dirão que ele está sendo sabotado pela ganância dos milionários, enquanto seus adversários verão uma prova de que as suas idéias não funcionam. Se conseguir algum sucesso e agradar o eleitorado, isso certamente afetará a próxima eleição presidencial nos EUA, e se fracassar de forma retumbante, também.

Em resumo, haverá muitos discursos, muitas promessas, muitas acusações, muitas narrativas. Muita gente usará os fatos, ou uma parte cuidadosamente escolhida dos fatos, para provar para si mesma e para os outros que está certa. Como no resto do mundo, grupos a favor e contra brigarão entre si como torcidas de futebol. Quando tudo se acalmar, continuará existindo a famosa frase de Shakespeare em “Macbeth”: A vida é uma história contada por um idiota, cheia de barulho e fúria, significando nada.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A GUERRA QUE NÃO É GUERRA

Trump anunciou que vai mudar o nome do Departamento de Defesa dos EUA para Departamento da Guerra, como era até 1947. Guerra nunca é boa notícia, mas pelo menos é uma hipocrisia que deixa de existir.

Guerras sempre existiram, parece ser uma “falha de projeto” do ser humano. Ao longo do tempo, a guerra tornou-se algo burocratizado, como tudo que envolve o governo. Exige uma declaração formal e é sujeita a regras e convenções. Mas o desejo humano de brigar fala mais forte, e então o mundo moderno inventou uma novidade: fazer guerra sem dizer que é guerra. De preferência, no país dos outros.

Isso é muito vantajoso para os políticos, especialmente quando se trata de controlar um fator cada vez mais importante: a opinião pública. Governo e mídia convencem o telespectador a acreditar na sua narrativa, e consequentemente acreditar que o governo está sempre do lado da verdade, da justiça, da paz, das criancinhas e dos ursinhos carinhosos. Na prática, a propaganda de guerra consegue eliminar dos telespectadores os princípios éticos, e transformá-los em criaturas animalescas que comemoram a morte de seres humanos como quem comemora um gol do seu time. E não é preciso dizer que essa irracionalidade continuará na hora de votar.

Vamos pegar apenas um exemplo: Estados Unidos, o país mais poderoso e influente do mundo moderno. Desde a Segunda Guerra Mundial, que foi uma guerra devidamente formalizada com todos os carimbos e assinaturas necessárias, não houve um único ano na história em que os EUA não estivessem envolvidos em algum conflito em algum lugar do mundo. Mas nenhum desses conflitos foi formalizado como “guerra”. Falamos em “Guerra da Coréia”, “Guerra do Vietnam”, “Guerra do Golfo” e “Guerra da Ucrânia”, mas em nenhuma delas a burocracia foi cumprida. Houve apenas o discurso apontando alguém como “inimigo”, e pronto: mais uma guerra que não é guerra.

O mais antigo dos “inimigos” provavelmente é o Irã. Entrou para a lista em 1951 com a eleição de Mohammad Mossadegh para primeiro-ministro. Mossadegh prejudicou os interesses das empresas de petróleo e por isso foi derrubado em 1953, em um golpe organizado e pago pela CIA (os arquivos secretos da época já foram liberados para o público após o prazo de sigilo). O golpe transformou o rei Reza Pahlevi, aliado dos EUA, em ditador absoluto, situação que perdurou até 1979 quando Pahlevi, muito doente, abandonou o país. O Irã transformou-se em uma ditadura islâmica, cujo primeiro líder foi o Aiatolah Khomeini. Disposto a não permitir o fortalecimento do Irã, os EUA incitaram uma guerra com o Iraque, então governado por Saddam Hussein. A guerra durou quase toda a década de 1980 e terminou sem vencedor, mas com altos lucros para as indústrias bélicas dos Estados Unidos.

Desde o fim da guerra com o Iraque, o Irã nunca mais atacou ninguém, o que não o salvou de ser atacado várias vezes por EUA e Israel. A alegação tende a ser sempre a mesma: o país estaria a “poucas semanas” ou “poucos dias” de enriquecer urânio em quantidade suficiente para construir bombas atômicas. Sob essa alegação, instalações de pesquisa, laboratórios e prédios do governo foram bombardeados, e pessoas, muitas delas civis, foram mortas.

Uma informação curiosa para os telespectadores que recebem e aceitam sem questionar a questão do urânio enriquecido: nenhum país constrói bombas atômicas com urânio desde os anos 1950. Embora tenha sido usada em Hiroshima, bombas de urânio são consideradas primitivas em comparação com as de plutônio, como a usada em Nagasaki. Um dos motivos é justamente o enriquecimento do urânio, que é caro e demorado. Bombas de plutônio não necessitam de processos de enriquecimento. Então, ou os cientistas iranianos são tão burros que decidiram construir bombas atômicas de pior qualidade e mais difíceis de produzir, ou todo o argumento justificando os ataques ao Irã é falso.

Outro exemplo é o Afeganistão. O país foi ocupado pela União Soviética em 1980, e os EUA forneceram armas para grupos de oposição, como mostrado no filme Rambo III. Houve mais de um milhão de mortes nesta década. Após o fim da URSS, estes grupos tomaram o poder sob o nome Taliban. Após o 11 de setembro, os Estados Unidos ocuparam o Afeganistão e lá permaneceram por vinte anos. Depois de outro milhão de mortes e mais de um trilhão de dólares de gasto, os EUA e a OTAN se retiraram completamente em 2021. Quem passou a mandar no Afeganistão? O Taliban.

Após o 11 de setembro, os EUA também atacaram o Iraque sob a alegação de que o país protegia a Al-Qaeda, embora até os camelos soubessem que isso era mentira. Em 2003 Saddam foi deposto e o Iraque mergulhou na anarquia, o que permitiu à Al-Qaeda se instalar no norte do país e criar o Estado Islâmico em 2013, que durante cinco anos assassinou e destruiu tudo que pôde dentro de seus domínios.

Também há a Síria. Suas fronteiras foram desenhadas pelas empresas de petróleo depois da Primeira Guerra Mundial e do fim do Império Otomano. Formalmente independente desde 1936, viveu em tumulto até 1970, quando os militares liderados por Hafez Al-Assad impuseram um regime ditatorial que aos poucos pacificou o país. Hafez foi sucedido por seu filho Bashar, e no início deste século a situação parecia estar se normalizando, especialmente porque Bashar Al-Assad havia conseguido diminuir a influência do radicalismo religioso muçulmano, em especial a Al-Qaeda.

Mas, por algum motivo, o ocidente decidiu que era necessário derrubar Assad. Por anos, os noticiários ocidentais falaram em “grupos moderados” que se “opunham” ao regime. Na verdade, os tais moderados eram radicais sunitas da Al-Qaeda e sua derivada Al-Nusra, que recebiam dinheiro e armas do ocidente em grande quantidade. A guerra ficou um tempo em banho-maria até que, aproveitando que os telespectadores estavam prestando atenção na Ucrânia, um golpe final derrubou Assad. Abu Mohammad al-Jolani, conhecido líder da Al-Nusra, de um dia para outro trocou a roupa de guerrilheiro por um elegante terno, cortou a barba, colocou no pulso um relógio Patek Philippe de US$ 90.000 e se declarou presidente.

O nome de Al-Jolani ainda estava em várias listas de terroristas procurados pelo mundo (até mesmo na embaixada dos EUA em Damasco) quando o presidente Trump o chamou de “um cara durão, um lutador, com um histórico muito forte. Ele tem muito potencial, ele é um verdadeiro líder.” Ou seja, o governo da Síria, que era inimigo da Al-Qaeda, foi derrubado com o pretexto de combater a Al-Qaeda, e substituído por um aliado da Al-Qaeda. Os jornalistas e os telespectadores ocidentais se emocionaram com a volta à Síria da “democracia”. O número de mortos é estimado em meio milhão nos últimos quinze anos, e as perseguições religiosas têm aumentado.

Para contar a história completa do Oriente Médio, seria necessário falar do aliado local dos EUA, Israel, outro especialista em atacar os outros sem declarar guerra. Mas o pitaco já está bastante longo, então fica para outro dia. Boa noite aos telespectadores.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

RON PAUL E O BANCO CENTRAL

Essa é uma entrevista com o senador e ex-candidato à presidência dos EUA, Ron Paul, realizada em 2012:

Qual o problema com o Banco Central?

Um banco central tenta fazer algo que é impossível de ser feito. Portanto, não se trata de culpar uma única pessoa. O culpado não é apenas o atual presidente ou o presidente anterior. O principal problema é a suposição de que os burocratas podem saber exatamente qual deve ser a taxa de juros do momento e qual deve ser a oferta monetária, ou a suposição de que é possível ter preços estáveis ao mesmo tempo em que se imprime dinheiro. Há ainda o grande problema de se imaginar que o desemprego pode ser solucionado pela simples manipulação da oferta monetária.

O país estaria melhor sem um Banco Central?

É claro. É melhor que não tenhamos depressões, inflação, caos econômico e todos os outros problemas por que passamos. Não teríamos esse sistema furtivo de financiamento de programas de um estado gigante. Seria impossível o estado financiar suas guerras e seus vários programas assistencialistas, coisas que apenas fazem com que o estado cresça ainda mais e torne as pessoas – ricos e pobres – dependentes do assistencialismo. Nada disso pode acontecer sem um banco central.

O que o senhor acha da medida do Fed de injetar US$ 600 bilhões de dólares na economia americana na esperança de estimular a recuperação por meio da compra de títulos de longo prazo em posse dos bancos?

É terrível. Eles nos jogaram nessa encrenca porque houve um afrouxamento monetário excessivo. Foi a contínua inflação da oferta monetária e taxas de juros artificialmente baixas que levaram os EUA à sua atual situação econômica – isso nos deu todas as bolhas por que passamos e você não pode resolver todos os problemas causados pela inflação simplesmente gerando mais inflação. Já tivemos a primeira rodada de afrouxamento monetário; estamos agora na segunda. Porém, dessa vez será sob a orquestra de Bernanke. Eles não falaram que houve afrouxamento monetário sob o comando de Greenspan, mas essencialmente houve a mesma coisa – uma maciça inflação da oferta monetária, com taxas de juros muito abaixo das que prevaleceriam no livre mercado.

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MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SOBERANIA

Vivemos em um mundo que é impulsionado cada vez menos por idéias e cada vez mais por palavras de ordem e discursos emocionados. Ao lado da “democracia”, da “igualdade” e da “empatia”, despontou nas últimas semanas a “soberania”. Como de costume, pouca gente se dá ao trabalho de entender do que realmente estamos falando.

O que Trump está fazendo não é nada diferente daquilo que o Brasil têm feito desde que existe: fechar-se ao comércio com outros países a pretexto de “fortalecer a indústria nacional”, o que nos discursos dos políticos se mistura com a tal “soberania”. Aliás, o Brasil em muitas ocasiões já cobrou tarifas de importação bem maiores que os 50% do Trump – sem resultado, claro.

Já escrevi sobre protecionismo comercial aqui. Repito um trecho:

“Quem defende o protecionismo para o seu país fala em “soberania nacional”, “setores estratégicos” e outras expressões ufanistas. Mas quando os outros países fazem o mesmo, aí eles são “imperialistas”, “arrogantes”, “agressivos”. Não é ilógico (e hipócrita) achar que uma coisa é boa quando nós fazemos com os outros mas é ruim quando os outros fazem com a gente?”

Muita gente está protestando por “soberania” simplesmente porque enxerga o mundo girando ao redor do seu umbigo, e portanto acham que o direito de fazer o que quer é apenas nosso, e não dos outros. Ou seja, não conseguem enxergar que o Trump também tem a soberania dele, e ela inclui cobrar impostos de importação quando achar conveniente, e quem têm que gostar ou não são os eleitores dele. Bom notar que muita gente nem sequer entendeu do que se trata e acha que quem vai pagar 50% são os brasileiros.

Os atuais protestos por soberania misturam diversos conceitos: Também há quem se preocupe com antigas noções militares de “independência”, sonhos de um país que seja auto-suficiente e não dependa de ninguém (o Brasil está tão perto dessa independência quanto eu estou perto de vencer a maratona nas próximas olimpíadas). Nunca chegamos a ser um “país industrializado”, no sentido comum do termo. Na Europa do século 19 os países competiam em número de siderúrgicas e em produção de aço, enquanto nós, deitados em berço esplêndido, só fomos ter uma em 1941. Somos totalmente dependentes dos outros países em coisas básicas como medicamentos, computadores e automóveis. Exportamos petróleo bruto mas importamos diesel porque não temos capacidade de refinar tudo que consumimos. Nosso agro negócio cantado em prosa e verso depende não só desse diesel para mover suas máquinas mas também de fertilizantes importados. E por aí afora.

Também está se falando em soberania em outro sentido: a soberania do judiciário. Aí trata-se apenas da nossa secular subserviência, nossa tradicional postura de endeusar a autoridade. Porque, em uma análise mais fria, o judiciário não tem soberania alguma. Alguns poderiam falar em soberania do governo, do qual o judiciário é apenas uma parte, que deveria ser “independente e harmônica” com as demais. Mesmo assim não estaria correto, soberano é o povo, a não ser que o artigo 1º da constituição está lá só para enfeitar. Mas para um país onde já se disse “autonomia não é soberania”, discutir isso parece preciosismo, e não muda o fato de que muita gente acha mesmo que o judiciário está acima da sociedade e pode fazer o que lhe dá na telha. Na verdade, ele até tem mesmo feito o que lhe dá na telha, mas tudo na vida tem consequências, incluindo o campo das relações internacionais.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GUERRAS

A guerra do passado era uma questão de poder e ego: os poderosos brigavam entre si e obrigavam o povo a participar. Eles, os poderosos, iam para as batalhas junto com seus comandados, então pelo menos podemos dizer que eles “colocavam o deles na reta”.

Hoje, a guerra é uma questão de economia e política. É feita para dar lucro e criar oportunidades, como disse um assessor do ex-presidente Obama: “Nunca devemos desperdiçar uma crise. Na crise, podemos fazer aquilo que normalmente não poderíamos”. E como Orwell ensinou em “1984”, não há crise melhor e mais eficiente do que uma guerra contra um inimigo externo a quem podem ser atribuídos todos os males do mundo.

Se o objetivo das pessoas comuns, no mundo todo, é construir coisas, o objetivo dos senhores da guerra é gastar dinheiro em uma coisa que vai se auto-destruir destruindo outras coisas junto com ela. Nos dias de hoje, quanto mais riqueza destruída melhor. Generais, políticos e empresas de defesa adoram brinquedos caros de alta tecnologia.

Uma comparação rápida: o P-51, o caça mais eficaz da 2ª Guerra Mundial, foi de um papel em branco para a linha de produção em seis meses, e cada um custava cinquenta mil dólares. Hoje, os mesmos EUA têm o caça F-35 que ficou sendo projetado durante 10 anos e custa algo entre cem e duzentos milhões de dólares, dependendo de como se olhe uma contabilidade feita para não ser entendida e para ocultar os desvios, desperdícios e propinas que fazem parte do custo. Já foram fabricados 1200 deles, e após esse gasto de mais de um trilhão, eles não servem para nada porque hoje se usam drones, e um caça de cem milhões é inútil contra um drone de dez mil. (vale lembrar que isso ocorre em praticamente todo o mundo: o Brasil, por exemplo, também está gastando bilhões em caças suecos para se defender sabe-se lá de quem ou do quê)

Então, nos últimos sessenta ou setenta anos, as guerras existem para justificar o gasto de enormes quantias de dinheiro. Um exemplo mais recente: No mês passado, depois que Israel atacou o Irã, este respondeu lançando montes de foguetes em direção a Israel. Para interceptá-los, foram usados entre 60 e 80 mísseis THAAD, cada um custando quinze milhões de dólares. Em uma única noite, um bilhão de dólares virou fumaça. Os políticos adoraram. Um deputado não pensa em termos de eficácia das armas, ele pensa apenas em quantos dólares serão gastos e quantos empregos serão criados na região que é sua base eleitoral se uma indústria de equipamentos militares se instalar lá.

O mais irônico é que os trilhões gastos em equipamentos sofisticados não se destinam a enfrentar países que usam equipamentos similares. A arma preferida dos supostos inimigos é um estoque inesgotável de adolescentes semi-analfabetos e fanáticos o suficiente para sacrificar a própria vida em atentados terroristas. São “armas” baratas e muito mais eficazes do que mísseis e aviões bilionários. Se realmente os tais “inimigos da democracia e da liberdade” quisessem atacar os EUA ou os países da OTAN, estas armas, isto é, estes adolescentes, já estão instalados aos milhares dentro dos países-alvo, apenas aguardando uma ordem de agir. E as modalidades de ataque são inúmeras, além das primitivas (mas ainda assim eficientes) bombas: ataques químicos, biológicos, cibernéticos, destruição de infra-estrutura.

Mas nada disso interessa muito aos senhores da guerra. O que importa é manter a máquina funcionando, manter o dinheiro fluindo, e manter o cidadão comum quieto e confiante de que o governo está zelando por ele.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SEM NOVIDADE NO FRONT

No Ranking Mundial de Competitividade 2025, recentemente divulgado, o Brasil ficou em 58º lugar entre 69 países, logo acima de Botswana e atrás de Quênia e Bulgária. Conseguimos a proeza de ficar em penúltimo no item Eficiência Governamental e em último no sub-item Finanças Públicas. Na área de educação, ficamos em último em Habilidades Linguísticas, penúltimo em Educação Primária e Secundária e antepenúltimo em Educação em Gestão. Para quem ficou curioso, os primeiros do ranking são os de sempre: Suíça, Cingapura e Hong-Kong.

Nosso judiciário continua sendo um dos mais caros do mundo. Provavelmente é um dos mais morosos também, mas não se pode ter certeza porque isso não é considerado importante para ser medido ou divulgado.

Nosso ministério público também continua sendo um dos mais caros do mundo. E também continua sendo um caso único de um órgão cuja função é “representar o povo” não ter um único integrante escolhido pelo povo e não ter absolutamente nenhum mecanismo onde o povo possa opinar se está sendo bem representado ou não.

Nossa educação pública custa mais caro (5,5% do PIB) do que as da Suíça (5,0%), Coréia do Sul (4,9%), Canadá (4,7%), China (4%) e Japão (3,3%), e praticamente empata com Holanda, Estados Unidos e França. Não é preciso dizer que nossos resultados são absurdamente piores do que os destes países. Mesmo assim, tudo que sabemos dizer sobre os problemas da educação é “o governo precisa investir mais”.

29% dos brasileiros acima de 15 anos são considerados analfabetos funcionais, e mais 61% estão no nível “elementar” ou “intermediário”. Apenas 10% da população é considerada “proficiente”. Além disso, entre os brasileiros com curso superior completo, 12% são analfabetos funcionais e mais 27% têm alfabetização elementar. O paradoxo de existirem analfabetos portadores de diploma universitário não parece ser algo que preocupe a sociedade brasileira.

A dívida pública total (federal e estadual) acaba de atingir dez trilhões de reais. Isso significa que cada bebê brasileiro já nasce devendo cinquenta mil reais. Claro que essa dívida também é uma das mais caras do mundo, com taxas de juro reais acima de 10% ao ano. Como o sistema educacional, comentado acima, produz cidadãos absolutamente ignorantes em economia e também em matemática, o povo em geral acredita que isso é uma questão política e que é o governo (ou o banco central) quem decide quanto pagar de juros.

Todos estes fatos são coisa de décadas, mas os brasileiros, a imprensa e as redes sociais estão divididos entre os fãs de um grupo político e os fãs de outro grupo político, ambos plenamente convencidos de que todos os problemas acima são culpa do grupo adversário.

Enquanto tudo isso persiste, os brasileiros acompanham a mais recente briga entre o ministro e o deputado, torcem, como se estivessem em um jogo de futebol, pela vitória do partido X ou do partido Y em cada “disputa” inventada pela mídia, e debatem diariamente (como nas mesas-redondas do futebol) os prognósticos da próxima eleição, onde finalmente um Salvador da Pátria fará aquilo que os dez ou doze Salvadores da Pátria anteriores não fizeram.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AS DITADURAS DEMOCRÁTICAS

Antigamente havia reis, e os reis mandavam em tudo. Para manter o povo sob controle, os reis usavam a força e o medo. Funcionava, mas dava muito trabalho. Então um sistema mais eficaz foi inventado, e tem sido constantemente aperfeiçoado. Ele mantém o povo quieto e permite que o governo faça o que quiser sem que o povo reclame. O nome foi emprestado de um sistema que existiu na Grécia antiga: Democracia.

A característica básica da democracia é a existência de políticos e de eleições. As eleições servem para dar ao povo a ilusão de ter algum poder ou algum controle sobre suas vidas, enquanto o verdadeiro poder continua mandando e se fortalecendo ainda mais.

A fórmula mais importante para isso dar certo é dividir os políticos em dois campos opostos. Cada um dos lados passa o tempo garantindo que é o lado certo, que o outro partido é o lado errado, e que só ele é capaz de trazer paz, progresso, prosperidade… (a lista de promessas é longa).

As divergências entre os dois partidos devem parecer profundas para o eleitor, embora possam ser na verdade coisas completamente irrelevantes. Coisas do tipo “qual banheiro cada um deve usar” funcionam bem, e cumprem a missão de levar o eleitorado a uma escolha passional e intransigente de um dos lados. O ser humano se empolga mais facilmente pelo ódio do que pela lógica, e assim os integrantes de ambos os lados verão o “outro” lado como algo a ser atacado e se possível destruído. Ao mesmo tempo, a polarização afaga o ego do eleitor com a certeza de que ele está do lado “certo”, do lado “justo”.

Nesse processo, o eleitor passa a acreditar que os políticos do “seu” lado são necessários e indispensáveis para resolver qualquer problema do universo. Tudo passa a ser uma questão política. O eleitor acredita do fundo do seu coração que sua vida e seu futuro dependem do resultado da próxima eleição.

Quando o sistema é bem implantado, as pessoas se dividem entre os dois grupos de forma mais ou menos igual. O ideal é que as eleições sejam vencidas por um lado e por outro, alternadamente, e por uma diferença pequena. A alternância mantém no lado que perdeu a esperança de ganhar na próxima vez, e não deixa o lado que ganhou ficar muito confiante. Relembrando: a chave é manter os dois lados se odiando mutuamente – derrotar o adversário deve ser uma obsessão na vida do eleitor. Dessa forma, o verdadeiro poder pode fazer o que bem entende: o lado que venceu as últimas eleições apoiará tudo que os “seus” políticos decidiram, e o lado perdedor redobrará sua esperança de que na próxima eleição tudo será revertido.

Existem vários métodos para implantar essa democracia. Manter o controle das escolas, por exemplo, é fundamental. Antes de uma criança chegar à idade de tomar decisões, ela já terá passado vários anos ouvindo que o governo é sempre bom, é sempre necessário, é sempre indispensável e nunca deve ser questionado. Também terá passado por anos de treinamento andando em fila, sendo chamada por um número e fazendo aquilo que mandam sem perguntar porquê. Terá aprendido que pensar igual a todo mundo é bom, e que pensar por si mesma é ruim, porque pode levar a pensar diferente da maioria, o que é péssimo.

Também é importante manter o controle dos candidatos. Para isso, organizam-se Partidos Políticos, cuja função é impedir que pessoas que não atendam os interesses do sistema possam chegar às eleições. Como a vitória nas eleições garante bons salários e muitos privilégios, não faltarão candidatos, ainda que todos eles saibam que a vitória não lhes trará nenhum poder real. O candidato ideal ama os holofotes, tem talento para fazer discursos vazios mas cheios de promessas, e sabe ser leal àqueles que financiaram sua entrada no “sistema”.

A chamada “grande mídia” também desempenha um papel importante. Os noticiários devem tratar os políticos como celebridades, noticiar cada passo e cada fala, e tratar cada divergência (real ou fictícia) como um assunto da maior importância. Devem divulgar pesquisas de opinião e prognósticos para a próxima eleição como quem fala de um campeonato de futebol, mantendo ambas as torcidas motivadas na torcida, entupindo as redes sociais de memes, vídeos com declarações bombásticas e impropérios variados contra o lado contrário.

O maravilhoso desse sistema é que ele próprio transforma o defeito em virtude. Frequentemente o poder cria problemas para lucrar com eles. Então os políticos são chamados a mostrar que o problema deve ser enfrentado com “vontade política” e “espírito republicano”, buscando “soluções pactuadas” e “políticas públicas”. Então o governo apresentará uma pretensa solução que não resolve o problema, mas que traz ainda mais lucros. Por mais surreal que possa parecer, o povo ficará feliz, cada lado culpando o outro por tudo e alimentando a ilusão de que o seu lado não deixaria isso acontecer se tivesse o poder absoluto e não houvesse oposição para atrapalhar.

Sim, porque no fundo todo esse sistema se fundamenta nessa faceta da personalidade humana: o desejo de mandar. A idéia de um sistema onde as pessoas possam ser livres para discordar umas das outras é algo impensável para a grande maioria. Como na imagem popular da cenoura pendurada à frente do burro, elas preferem manter a ilusão de que a próxima eleição colocará no poder as pessoas “certas” e todos os males desaparecerão.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GUERRA

Alaa al-Najjar é uma pediatra que trabalha no hospital al-Tahrir, em Gaza. Na semana passada, ela estava trabalhando enquanto seu marido, também médico, e seus dez filhos, com idades entre um e doze anos, estavam em casa. Então ela recebeu a notícia de que sua casa havia sido atingida por uma bomba incendiária durante um ataque israelense. Logo depois, chegaram ao hospital os corpos carbonizados de nove de seus filhos. Apenas seu marido e um de seus filhos sobreviveram, gravemente feridos. (Clique aqui para ler a matéria)

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Eu não me espanto com a existência de políticos que fomemtam guerras. Como diz um velho bordão, todo poder corrompe e o poder absoluto corrompe de forma absoluta. Políticos são famintos por poder e dinheiro, e guerras são uma forma excelente de conseguir os dois.

Mas ainda me espanto em constatar como tantas pessoas podem ser convencidas, e com facilidade, de que uma guerra pode ser “justa” e que um dos lados é bonzinho e coberto de razão. Me espanto em constatar como jornalistas, geralmente tão ciosos de sua responsabilidade e de sua sagrada missão de informar, aceitam o papel de meninos de recado dos políticos da vez. Me espanto em constatar como pessoas inteligentes, chamadas de “intelectuais”, transformam-se em torcida organizada destes mesmos políticos.

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Sobre isso, eu acabei de ler um artigo da jornalista e escritora Caitlin Johnstone, com uma idéia interessante sobre o assunto. (tradução não-literal minha):

“Se você é de esquerda e se considera humanitário e progressista, existe uma narrativa falando como os judeus foram perseguidos e discriminados ao longo da história e porque você deve sentir pena deles e apoiá-los em tudo que fizerem.

Se você é de direita e se considera conservador, existe uma narrativa falando como todos os muçulmanos são terroristas perigosos e porque você deve apoiar os esforços de Israel em defender a civilização ocidental desta terrível ameaça.

Se você é um religioso fundamentalista, existe uma narrativa falando como Israel tem o direito de expulsar os palestinos da maneira que quiser porque essa é a vontade de Deus.

Se você é um fascista/nazista/racista ou simplesmente não gosta de árabes, existe uma narrativa feita sob medida para você.

E se por acaso você simpatiza com os palestinos e não acha justo o que está acontecendo, existem narrativas, políticas e planos de ação para que opiniões como a sua sejam caladas, estigmatizadas, ridicularizadas, odiadas e marginalizadas.”

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Naturalmente, pode-se construir frases semelhantes às da Caitlin defendendo o lado oposto. E é aí que mora o problema: transformar o que deveria ser uma questão ética em uma mera disputa de narrativas, uma competição de argumentos.

Minha opinião pode ser completamente irrelevante para o mundo, mas ainda é a minha opinião e eu não me envergonho de expô-la: Toda guerra é uma vergonha, não existe “guerra justa” e a única coisa que se deve desejar a respeito de qualquer guerra é que ela acabe o mais rápido possível.