MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PARTIDOS, ELEIÇÕES E DEMOCRACIA

Na Espanha, o partido que ganhou as últimas eleições não está no governo. Isso acontece porque, embora tenha sido o mais votado, não conseguiu o apoio de nenhum outro partido para formar uma coligação que atingisse a maioria de 50%. O segundo partido mais votado, por outro lado, anunciou que topava qualquer acordo para conseguir a maioria. O resultado foi uma coalizão com partidos nanicos, a maioria deles separatistas, que somam 51% das cadeiras. O partido mais votado ficou na oposição.

Portugal, em maio do ano passado, realizou eleições para o congresso. A AD, de centro-direita, passou de 80 para 91 cadeiras, enquanto o PS, de centro-esquerda, caiu de 78 para 58 cadeiras. No mês passado, houve eleições para presidente. O vencedor, por ampla maioria, foi o candidato do PS – o mesmo que saiu derrotado nas eleições legislativas oito meses antes.

Na Alemanha, o governo entrou em crise no final de 2024. O primeiro-ministro demitiu o ministro das finanças, o que causou o rompimento da coalizão que governava. Foram convocadas novas eleições. Os três partidos mais votados foram exatamente os mesmos da eleição anterior, com resultados parecidos, e o novo governo foi formado com os mesmos três partidos que haviam se desentendido meses antes.

Não é difícil notar que estes casos não se ajustam ao que normalmente se chama “democracia”. Do que se trata, então?

Do jeitinho que aprendemos na escola, eleições funcionam assim: vários candidatos se apresentam, mostram suas idéias e debatem em programas de TV. Os jornalistas fazem perguntas sobre as propostas de cada um para resolver os problemas existentes e sobre o posicionamento em relação às questões mais relevantes. O eleitor escolhe o candidato com as melhores propostas e vota nele.

Hoje em dia, claro, não acontece nada disso. O que acontece é:

– Os políticos se juntam em partidos e cada partido passa a se manifestar de forma única.

– Os eleitores simpatizam com as idéias de um determinado partido e passam a apoiá-lo.

– Os partidos, por vários mecanismos, detectam as preferências dos eleitores e concentram seu discurso nessas preferências.

– Os eleitores, vendo seus interesses pessoais representados por um determinado partido, tornam-se cada vez mais fiéis a ele.

– Os partidos eliminam o debate e a troca de idéias e passam a repetir sem parar aquilo que os marqueteiros determinaram ser o que mais agrada ao eleitor. Assim, os nomes e as propostas originais de cada partido perdem a importância. Os partidos passam a ser, na prática, o Partido dos Taxistas, o Partido dos Professores, o Partido dos Agricultores, o Partidos dos Comerciantes, etc., todos agrupados nas designações genéricas de “esquerda” e “direita”.

– O eleitor deixa de olhar os políticos de forma crítica e se torna um fã (abreviação de fanático) que defende incondicionalmente o “seu” partido e ataca todos os outros, usando como argumentos os clichês e frases prontas elaboradas pelos marqueteiros.

– O debate eleitoral se transforma em um concurso de memorização, onde os candidatos competem para ver quem decorou melhor as respostas elaboradas pelos mesmos marqueteiros. Os fãs de cada partido nem precisam assistir ao debate para ter a certeza de que o “seu” candidato venceu o debate porque é o mais inteligente, o mais preparado, o mais honesto, o mais tudo.

– O noticiário torna-se irrelevante porque o fã, ao ouvir qualquer notícia contrária ao “seu” candidato ou favorável aos “outros”, imediatamente grita “fake news!” e encerra o assunto.

É fácil notar que o processo se realimenta: quanto mais o eleitor se torna fã de um partido, mais ele exige que o partido repita sem parar as frases que ele gosta de ouvir, sobre os assuntos que ele gosta de ouvir. E o partido fica feliz em atender a essa exigência, porque isso o livra da obrigação de ter idéias ou propostas reais sobre qualquer assunto.

O resultado final é que eleições tornam-se inúteis. Não há propostas, não há idéias, há apenas troca de acusações e raiva, muita raiva. O irônico disso tudo é que muitas vezes a eleição acaba sendo decidida por uma minoria que não se interessa por nada e vota em qualquer número que vêm na cabeça.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESCÂNDALOS

“Tirando nossa completa incapacidade de relacionar causa e consequência, tudo vai bem no Brasil”

Já não lembro onde ou quando li a frase acima, mas ela continua verdadeira e tão atual como sempre. A nossa incapacidade de perceber a relação entre as decisões que tomamos e as consequências dessas decisões é tão grande como nosso talento em achar culpados externos para todos os nossos problemas.

Um exemplo dessa dissonância é a sucessão de escândalos que se sucedem desde que D. Pedro deu o grito do Ipiranga, e nossa completa incapacidade de ligar esses escândalos à impunidade que acompanha as autoridades que produzem esses escândalos.

O Banco do Brasil quebrou pela primeira vez em 1829 – faltam só três anos para o bicentenário. Nossa monarquia também produziu escândalos de venda de títulos de nobreza, nepotismo, superfaturamento de obras como a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e muitos outros. Veio a república e com ela o escândalo da Central do Brasil, o atentado a Carlos Lacerda, Delfin, Capemi, Lutfalla, Ferrovia do Aço, Ferrovia Norte-Sul, Casa da Dinda, Anões do Orçamento, Projeto SIVAM, Sede do TRT-SP, Mensalão, Petrolão, Dossiê dos Aloprados, quebra do sigilo do caseiro Francenildo, Erenice Guerra, Rocha Loures correndo com a mala de dinheiro, Fabrício Queiroz e os cheques, e tantos outros.

Em cada um deles, o país vivia um sentimento de “desta vez será o fim do mundo”. Claro que o mundo nunca acabou e todos eles viraram piada em questão de meses ou mesmo semanas. Em nenhum deles alguém lembrou de um fato que está na origem da maior parte, senão de todos os escândalos brasileiros: o fato de que aqui, desde sempre, juiz faz o que quer, deputado faz o que quer, senador faz o que quer, ministro faz o que quer, enfim, quem faz parte da chamada “alta cúpula” sempre teve a plena convicção de que pode fazer o que quiser com total impunidade. Aliás, vamos ser francos: no Brasil até estudante de direito do primeiro ano acha que pode tudo.

Duzentos e três anos de escândalos mensais, semestrais e anuais trouxeram uma certeza a todos que fazem parte desses escândalos: haverá muitos gritos, muito barulho, intensa competição na imprensa pelas manchetes mais escandalosas, intensa competição entre as personalidades públicas para se mostrar mais indignado e mais ofendido que todo mundo. E depois disso, o esquecimento e a impunidade.

No nosso país, vigora a certeza de que todos nossos problemas vêm de fora: somos vítimas do imperialismo, do capitalismo, do comunismo, das multinacionais, dos banqueiros estrangeiros, dos illuminati. Nenhum problema brasileiro é consequência daquilo que fazemos.

Por exemplo, ninguém vê nada de errado ao constatar que praticamente todos os juízes e desembargadores, de todos os setores do judiciário, têm como cônjuge um advogado/advogada. No meu estado, Paraná, tivemos um secretário da fazenda (cuja função básica é cobrar impostos) cuja esposa era dona do maior escritório de advogados tributaristas do estado.

Da mesma forma, ninguém vê nada de errado quando membros do executivo, legislativo, judiciário e ministério público aceitam convites “desinteressados” de grandes corporações e bancos para comparecer a eventos, palestras, seminários e congêneres, sempre em hotéis de luxo ou resorts paradisíacos. Também é normal quando essas mesmas empresas contratam essas mesmas pessoas do alto escalão do governo para proferir palestras em troca de cachês de seis dígitos.

Definir a causa disso é assunto para muito debate sociológico e antropológico, mas vou citar dois palpites: de um lado, a tradição absolutista que herdamos de Portugal no século 18 e que se mantém pelo controle que o poder exerce sobre a educação e a mídia.

De outro lado, existe a eterna esperança dos brasileiros de um dia chegar ao andar de cima. Como dizia um antigo colega meu, quando o brasileiro vê uma manchete de jornal sobre um escândalo e diz “Que absurdo!”; ele não está pensando “que absurdo, isso têm que acabar”, ele está pensando “que absurdo, eu não consigo fazer parte desse esquema”.

Tentativas de explicação à parte, também registro meu palpite para o mais recente escândalo: excetuando o caso de alguém “sair da linha” e ser tomado como bode expiatório, em questão de algumas semanas o caso estará dado como resolvido e ninguém do alto escalão dos três poderes será responsabilizado. E, em breve, um novo escândalo tomará as manchetes.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ACONTECEU EM CURITIBA

No centro de Curitiba, na esquina das ruas Emiliano Perneta e Voluntários da Pátria, encontra-se o majestoso e centenário prédio do Instituto de Educação do Paraná. Nele, minha mãe e minhas duas tias estudaram e se formaram professoras. Após formar-se, minha tia mais velha lecionou lá por vinte e cinco anos.

Naquele tempo, quase todo colégio tinha um coral, e havia até uma certa rivalidade entre os colégios mais importantes. No Instituto de Educação, minha tia acumulava as aulas com o cargo de assistente da maestrina do coral.

Um certo dia, já no final da tarde, minha tia foi procurada pela diretora, que lhe disse, aflita: Morreu o Bento Mossurunga!

Bento Mossurunga era um maestro e compositor paranaense, autor do hino do estado e famoso professor de música. O coral do Instituto devia prestar sua última homenagem, disse a diretora.

Em uma época onde ter telefone em casa era privilégio dos mais ricos, minha tia e a maestrina do coral demoraram algum tempo até localizar seis alunas integrantes do coral e “convocá-las” para a missão. As duas professoras usaram seus automóveis particulares (o da minha tia era um Fuscão vermelho) para apanhar as alunas em casa.

Já era noite quando chegaram às capelas mortuárias do Cemitério Municipal. As alunas vestiram os uniformes do coral e receberam as instruções das duas professoras para portar-se com discrição e respeito. Entraram no recinto do velório, a maestrina na frente, de cara muito séria, cumprimentando os presentes com leves acenos de cabeça, as alunas em fila atrás dela de cabeça baixa. Alinharam-se junto a uma parede e começaram a cantar a música mais triste que encontraram no repertório do coral. O burburinho da sala rapidamente cessou, todos escutando e tentando adivinhar quem eram aquelas moças que chegaram sem falar com ninguém.

Terminada a música, a maestrina virou-se e caminhou lentamente até o caixão no meio da sala, na atitude tradicional dos velórios. Mas ao olhar para o falecido, deu um pulo para trás e fez uma careta de susto. Caminhou até minha tia, que estava junto das alunas, e cochichou em seu ouvido: “O Bento Mossurunga tinha barba?”

“Não tinha barba e não tinha cabelo”, respondeu minha tia.

“Mas esse defunto é barbudo e cabeludo”, disse a maestrina, começando a rir.

Minha tia sabia que sua colega, quando ria, não parava mais. Rapidamente abraçou-a como se a consolasse, enquanto tapava sua boca com a mão. Ao mesmo tempo, olhou para as alunas e balançou a cabeça na direção da saída.

As alunas se retiraram em fila, com a mesma atitude séria e circunspecta com que entraram. Atrás, minha tia praticamente agarrando a maestrina que já começava a se sacudir de tanto tentar rir mesmo com a boca tampada.

Já na rua, após o ataque de riso terminar, e constatando que haviam cantado para o defunto errado, o consenso foi que não havia mais clima para outra homenagem. Todas entraram nos automóveis e rumaram para casa.

Bento Mossurunga foi enterrado sem a homenagem.

Por outro lado, em alguma família curitibana existe a história do velório de um antepassado em que, ninguém sabe de onde, umas moças apareceram, cantaram e foram embora sem falar com ninguém.

***

P.S. Em qualquer dicionário de português, consta que o feminino de “maestro” é “maestrina”. Recentemente, porém, a onda politicamente correta decretou que o termo é machista e preconceituoso e deve ser substituído por “maestra”. Eu, naturalmente, recuso-me a endossar tal tolice, e me pergunto: será que o mesmo raciocínio se aplica ao uso de “heroína” como feminino de “herói”? Deveríamos então usar “heroa”?

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

THANKS, TRUMP

“Nenhum governo na história desistiu voluntariamente de seu poder” – Murray Rothbard

Eu não acho que Trump esteja fazendo um bom governo. A enorme confusão com tarifas de importação acabou ficando parecida com tosquia de porco, como diria meu avô: muito grito e bem pouca lã. Trump também não conseguiu nada de positivo nas brigas entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestina. De forma geral, ele parece estar mais preocupado em aparecer na mídia do que em governar seu país. Não é o primeiro nem será o último: Obama passou oito anos fazendo isso.

Este comportamento midiático, porém, acabou gerando um resultado positivo, talvez até involuntário, mas bastante importante. Podemos dizer que é uma mudança de paradigma.

Nos últimos cem anos, o “estado”, que é apenas uma entidade jurídica, tornou-se na cabeça das pessoas algo real, que tem vontades, interesses, direitos e até mesmo “soberania”. Acredita-se que o estado deve ser sempre obedecido e sempre ter a última palavra. E acredita-se também que se isso for seguido por todos, o mundo será um lugar pacífico e justo, e em cada país o tal estado soberano resolverá todos os problemas.

É curioso que as pessoas não percebam a contradição: acreditam que é necessário que em cada lugar exista uma autoridade única, absoluta, com poder ilimitado sobre o resto da sociedade – o estado. E não percebem que o conjunto desses estados convive em completa anarquia, sem nenhuma autoridade única que possa impôr aos demais o cumprimento das regras supostamente em vigor. Sim, existe a ONU e um monte de órgãos vinculados, mas trata-se apenas de um imenso cabide de emprego multi-nacional que não tem nenhum poder prático. Como escrevi há algumas semanas, os países criaram um monte de regras para as guerras, e agora fogem das regras dizendo que as guerras não são guerras.

Quem deveria ser soberano é o povo, não o governo. Mas o discurso corrente fala sempre em soberania do estado ou em soberania do país, o que de certa forma reproduz o feudalismo da Idade Média, quando a maioria das pessoas era chamada de “servo” e era considerada como propriedade de um determinado lugar. O dono do lugar poderia mudar, via guerra, herança ou casamento, mas a servidão dos moradores continuava. Como continuação dessa idéia, as pessoas foram levadas a acreditar que fronteiras desenhadas em mapas são coisas concretas e inquestionáveis, que devem ser respeitadas e veneradas com fervor religioso e que concedem ao governo dentro de cada fronteira o poder absoluto de mandar.

Aí chega Trump, e faz todos relembrarem um antigo conceito: manda quem pode e obedece quem precisa. O mundo sempre foi e sempre será governado pelos mais fortes. O direito de mandar é conquistado, não surge de discursos de “soberania nacional” e “auto-determinação dos povos”, direito que aliás é negado sistematicamente pelos governos: a própria carta da ONU fala no direito de secessão como consequência lógica do princípio da auto-determinação, mas também inventa um “princípio da integridade territorial” que na prática justifica o hábito dos governos de escreverem nas constituições que seus territórios são “indivisíveis”. O resultado é que para o povo a tal auto-determinação é só uma piada.

Recentemente o governo Trump divulgou uma versão atualizada de sua Doutrina de Segurança Nacional, onde é citada a Doutrina Monroe, criada duzentos anos atrás e conhecida pela expressão “A América para os americanos”. No mundo de hoje, o novo documento serviu, de um lado, para memes e piadas nas redes sociais, e de outro, para discursos emocionados dos defensores da soberania nacional mundo afora. Na prática, o que Trump está fazendo é explicando de forma bem didática aquilo que o restante do mundo já deveria saber: que os fortes não negociam com os fracos; os fortes negociam entre si, e aos fracos resta obedecer.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DEMOCRÁTICO

A postagem acima é de 31 de outubro, mas eu só a vi essa semana. A idade não altera o seu significado.

Nos primeiros tempos da internet, no século passado, um escritor americano chamado Mike Godwin criou o que ficou conhecido como a Lei de Godwin: “À medida em que um debate na internet prossegue, a probabilidade de que alguém faça uma comparação envolvendo Hitler ou o nazismo cresce até chegar a 100%.” Em pouco tempo, generalizou-se na internet a idéia de que quem recorre a este tipo de comparação está demonstrando não ter argumentos e deve ser visto como derrotado no debate.

Com a facilidade das redes sociais, esse tipo de consenso tornou-se impossível, até mesmo porque a grande maioria das pessoas que posta nas redes sociais não está interessada na opinião dos outros. Mas em se tratando de um jornalista com décadas de carreira como Kupfer, o apelo ao Reductio ad Hitlerum, como foi jocosamente batizado o ato descrido por Godwin, traz implicações importantes.

O senso comum predominante é que fascismo e nazismo são ruins. Compreensível, já que Itália e Alemanha perderam a guerra e a tradição diz que são os vencedores que escrevem a história. Menos disseminado é o fato de que Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha, chegaram ao poder de forma legal e democrática. Então, estaria Kupfer dizendo que não acredita na democracia? Ou afirmando que o povo não sabe escolher?

Provavelmente sim. Trata-se de uma “pirueta retórica” muito comum nos dias de hoje: a palavra “democracia” significa, literalmente, “poder do povo”, em contraste com “aristocracia”, que significa “poder dos melhores” ou “burocracia”, que significa “poder dos escritórios”. Mas nos dias de hoje estamos mais interessados em narrativas do que em fatos, e tornou-se trivial “ressignificar” as palavras, substituindo seu significado original por outro, geralmente carregado de influência ideológica.

Assim, a palavra “democrático” deixou de indicar um sistema de governo e transformou-se em um elogio universal, uma característica quase sagrada e que não pode ser questionada. Se algo é democrático, é porque é bom, é justo, é correto, é – repito – inquestionável. Só que esse “democrático” não tem nada a ver com o povo.

O povo não foi consultado sobre um fundo eleitoral de seis bilhões, mas falar mal dele é antidemocrático. O povo também não é a favor dos milhares de salários acima do teto constitucional ou dos milhares de cargos inúteis e bem remunerados distribuídos aos parentes e amigos dos políticos, mas questionar isso também é antidemocrático. E por aí vai. Todo mundo defende a democracia, desde que ela não obedeça à vontade do povo. Afinal, o povo não sabe escolher, não é mesmo?

Ao mesmo tempo, todo governo, por pior que seja, tem seus simpatizantes, que têm se tornado cada vez mais parecidos com torcidas de futebol; para estes simpatizantes-barra-torcedores, tudo que o governo fizer está certo e quem discordar é antidemocrático. A cada dois anos temos eleições e assim a cada dois anos, com a troca de alguns políticos, o que era correto e democrático pode virar errado e antidemocrático. E assim continua a briga entre torcidas adversárias, todas brigando por uma palavra que na verdade ninguém sabe o que significa.

P.S. O tema deste pitaco foi escolhido (também) por uma razão histórico-sentimental. Vinte e tantos anos atrás, quando a internet estava nascendo, havia um portal chamado No Mínimo, onde José Paulo Kupfer era um dos colunistas. Certo dia ele resolveu “abrir um espaço” para os leitores publicarem suas idéias e o primeiro a aparecer foi justamente esse pitaqueiro que vos fala. Foi a primeira vez que alguma coisa que eu escrevi foi publicada na internet.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PENSAMENTO CRÍTICO

“A sociedade desenvolverá um novo tipo de servidão que cobre toda sua superfície com uma rede de regras complicadas que as pessoas não conseguem entender. Esse estado não tiraniza, mas estupidifica um povo até transformá-lo em um rebanho de animais tímidos e obedientes, dos quais o governo é o Pastor” Alexis de Tocqueville (1805-1859)

Quando se fala em educação, uma expressão muito repetida diz “A tarefa do sistema educacional é formar pessoas questionadoras e com pensamento crítico”. A repetição dessa frase é tanta que parece até discurso decorado.

Quando escuto isso, me lembro de um outro comentário feito por uma professora da rede pública: “As aulas foram usadas para fazer cartazes sobre o 7 de setembro, sobre o outubro rosa, sobre o dia da consciência negra e sobre o novembro azul. Terminou o ano, as crianças não sabem nada de português, matemática, história ou geografia, mas sabem fazer cartaz que é uma beleza!”

O problema aí é que, como qualquer um pode constatar, os tais cartazes são justamente o oposto de “pensamento crítico” ou “cidadão questionador”. Em todas as escolas do país, os cartazes são todos iguais, todos repetindo os mesmos clichês, com o mesmo vocabulário, defendendo os mesmos mocinhos e atacando os mesmos vilões.

Isso não acontece por acaso. Para explicar, vou me repetir e citar de novo Aldous Huxley, de quem já falei em outro pitaco: “Em um estado totalitário verdadeiramente eficiente os escravos não precisam ser coagidos, porque amam a escravidão. Fazer o povo amar a escravidão é a tarefa dos ministérios, diretores de jornais e professores.”

Ao transformar a escola em um centro de repetição, onde todos pensam igual e repetem as mesmas idéias, o estado apela para o “espírito de grupo”, um instinto básico que vêm do nosso passado animal, e mostra que ficar sozinho é perigoso mas ficar junto a um grupo traz segurança. Traduzindo: as crianças são ensinadas – talvez fosse melhor dizer “adestradas” – a ter medo de discordar da maioria. Ao levar ao extremo a idéia de uniformidade, criam-se adultos que sentem um medo irracional de serem vistos como diferentes ou divergentes do grupo. Este comportamento irracional se manifesta na repetição quase mecânica de expressões vazias, palavras de ordem e clichês politicamente corretos. Alguém um dia teve a idéia de chamar o dono de cachorro ou gato de “tutor”, e em poucos dias todo mundo se esforçava para usar a nova palavra com ares de quem falava assim desde criancinha.

No método de “pintar cartaz”, o raciocínio é substituído pela reação instintiva a palavras e expressões, exatamente como funciona o adestramento de animais. Palavras como “tolerância”, “empatia”, “bondade”, “justiça”, “democracia” são designadas como positivas. “Preconceito”, “desigualdade”, “ilegal”, “desumano” e muitas outras são designadas como negativas. A reação ao encontrar qualquer palavra deve ser automática, sem jamais questionar se o uso dessa palavra faz sentido ou se é apenas um apelo emocional.

A dedicação da escola pelo método de “pintar cartaz” não é gratuita: serve para formar adultos infantilizados, porque o aluno aprende que o importante não é fazer um cartaz bonito ou bem pintado, mas fazer um cartaz que diga exatamente o que deve ser dito, com as palavras e expressões pré-determinadas. A criança aprende, e o adulto prossegue obedecendo às ordens que ele não sabe quem proferiu, mas que ele recebeu através da mídia e das redes sociais. Se para a criança as ordens são sobre o outubro rosa e o novembro azul, para o adulto serão sobre tudo o que ele enxerga e vive: obedecer às autoridades, acreditar no governo, jamais pensar em mudar qualquer coisa sem que seja pelo caminho “democrático”, acreditar que os seus direitos são favores concedidos pelos políticos, colocar as ordens desses mesmos políticos acima da sua própria noção de moral e ética. Como ironia final, uma das ordens a serem obedecidas é chamar esse comportamento submisso de “pensamento crítico”.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

MÁ EDUCAÇÃO

O Brasil, embora seja um dos países que mais gastam com educação (cerca de 5% do PIB, acima de Suíça e Coréia do Sul), está cada vez pior em tudo que diz respeito ao assunto. Quem quiser pode pegar os números de estudos internacionais como o PISA. Quem preferir, basta assistir à TV ou ler as redes sociais para constatar que o brasileiro médio é incapaz de acertar uma concordância, ignora mais da metade das conjugações verbais e não consegue compreender frases com construção mais complexa que o básico sujeito-verbo-predicado.

Um instituto chamado INAF (https://alfabetismofuncional.org.br/) estima que 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais e outros 36% são semi-analfabetos. Pior que isso: entre os brasileiros com curso superior, analfabetos e semi-analfabetos somam 39%, e apenas 23% são considerados “proficientes”. Então é o caso de se perguntar: escola para quê?

Alguns dos problemas de nosso sistema de ensino são óbvios: gasta-se mais com três milhões de alunos de universidade do que com quarenta milhões de alunos do ensino fundamental; os burocratas de Brasília insistem em controlar e regulamentar cada detalhe das milhares de escolas pelo país; a família é vista como inimiga e não como parceira indispensável do processo de educar uma criança.

Os burocratas da educação brasileira mal disfarçam que no mundo com que eles sonham, crianças só iriam para casa para dormir. O mantra básico de todos eles é “mais verba!”, e entre as justificativas, sobressaem duas: as crianças devem ir para a escola cada vez mais jovens, e ficar lá cada vez mais tempo. Para quê? Para ensinar é que não é: o mundo acadêmico concorda que crianças com menos de sete anos são incapazes de raciocínios abstratos, o que torna impossível ensinar matemática, ciências ou mesmo gramática. Algumas crianças aprendem a ler aos quatro ou cinco anos, mas a capacidade de compreender e interpretar o que lêem demora mais.

Por outro lado, na hora de impôr modelos de comportamento, quanto mais cedo melhor. Frequentando creches desde alguns poucos meses de idade, ao chegar ao ensino fundamental as crianças já estão perfeitamente condicionadas a não ter individualidade, a se comportar como membros de um grupo homogêneo em que todos agem e pensam da mesma forma, e obedecem sem questionar a todos os rituais estabelecidos: fila para entrar, fila para sair, hora para comer, hora para brincar, hora para ir ao banheiro e, principalmente, jamais ser diferente dos outros.

Costuma-se falar da escola contrapondo os conceitos de “educar” e “ensinar”. Na minha opinião, o que a escola brasileira faz é adestrar, de forma muito parecida com o que se faz com cachorros e cavalos. A razão de ser de todo o sistema é impôr a todos um padrão de comportamento que atenda ao politicamente correto, desestimule o pensamento crítico e, acima de tudo, produza pessoas dóceis, obedientes e dependentes do governo. Escolas e universidades não são lugar para pensar: são lugares para repetir incessantemente o comportamento esperado. Aula de história? Decore o nome das batalhas da Guerra do Paraguai. Aula de geografia? Decore o nome dos afluentes do rio Amazonas. Aula de língua portuguesa e literatura brasileira? Decore o nome dos poetas parnasianos. Se decorar tudo direitinho, ganha de presente um diploma.

Já estamos pelo menos na terceira geração formada por esse modelo. O pai que frequentou durante anos uma escola que não ensinou nada, apenas exigiu que ele cumprisse o ritual de ficar X horas sentado na cadeira para acumular N créditos e conseguir um diploma, não vai questionar se seu filho está aprendendo ou não: ele vai aconselhar o filho a seguir o mesmo caminho e não reclamar.

E como o “dinheiro da educação” no Brasil é coisa de centenas de bilhões de reais por ano, há muita gente que tem todo o interesse do mundo em manter a coisa desse jeito. Já imaginaram se as pessoas descobrem que um jovem motivado pode aprender mais com um tablet ligado à internet do que com o professor funcionário público que dá a mesma aula faz vinte anos? Então aparece todo tipo de apelação e mentira para manter a farsa do jeito que está.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

E DAQUI PARA FRENTE?

1971, EUA : Em Washington, vários governadores estão reunidos com o presidente Nixon para discutir o aumento do consumo de drogas, especialmente maconha. O presidente apresenta um relatório preparado pelo governo federal que recomenda tratar a questão como um problema de saúde pública. Silêncio na sala, rostos constrangidos, até que um governador se anima e diz: “Presidente, esse seu relatório é muito bonito, mas o problema na prática é que se eu não prender ninguém eu não me reelejo!”. Todos os demais governadores se apressam em apoiar o colega. A reunião acaba com a seguinte conclusão: o problema das drogas será tratado como caso de polícia.

2025, Brasil : A Guerra às Drogas já dura mais de meio século; o consumo de drogas nunca parou de crescer, e propiciou o surgimento de grupos organizados que começam a desafiar o poder do governo. A luta contra o tráfico de drogas confunde-se com a luta pelo controle das favelas, em especial no Rio de Janeiro. As tradicionais operações policiais, conhecidas como “subir o morro”, já não convencem a opinião pública. Sentindo a necessidade de algo novo, e de olho, como todo político, na próxima eleição, o governo estadual parte para algo maior, instantaneamente batizado de “megaoperação”. Com um saldo de 121 mortos, a operação foi declarada um sucesso e aprovada com entusiasmo pela maior parte da população.

Baixada a poeira, porém, algumas dúvidas surgem sobre o que vai acontecer daqui para frente:

Algum “chefe do tráfico” ou “líder de facção” foi preso ou morto? Não, até porque é notório que os membros do primeiro escalão não moram nas favelas, moram nos bairros nobres da cidade.

Algum membro do segundo ou terceiro escalão foi preso ou morto? Não, parece pouco provável que algum deles vá para as ruas enfrentar a polícia.

Então quem morreu? Os funcionários de último escalão, facilmente substituíveis.

Então a tal “megaoperação” fez algo para acabar com o crime organizado e com o tráfico de drogas? Não, porque não existe a menor intenção de fazer isso.

A atual política dos governos pelo mundo segue uma lógica simples: Criar algo que deixe a população com medo, e apresentar-se como a solução para esse medo. Isso funciona melhor com uma combinação entre “medos permanentes” e “medos temporários”. Por exemplo, a crise do COVID-19 foi um medo temporário que levou muita gente à beira da paranóia. Já a ameaça da “saúde cara” é um medo permanente onde o governo mantém os hospitais e os planos de saúde particulares próximos da inviabilidade para que a população tenha medo de ficar sem o SUS. Da mesma forma, o governo mantém a criminalidade como um medo permanente e complementa o sentimento com crises periódicas que elevam a retórica a níveis de “o mundo vai acabar”, novamente levando a população à beira da paranóia.

O salário de muita gente no governo depende da existência da Guerra às Drogas. Alguns são empregos fixos, na polícia, ministério público, justiça e diversos departamentos federais, estaduais e municipais. Outros são cargos eletivos, ocupados por políticos que fazem da retórica da guerra sua eterna plataforma de campanha.

Também há gente cujos rendimentos vêm do outro lado: são todos os que fazem parte da estrutura dos tão falados cartéis.

E é óbvio que existe gente que recebe dos dois lados, ou seja, combinam o salário recebido do governo com a propina recebida dos criminosos, em troca de conivência e ajuda nos mais diversos graus.

Por isso, é extremamente ingênuo acreditar que existe, em algum governo, a intenção de acabar com o tráfico de drogas, simplesmente porque, acabando o tráfico, acaba a guerra, e nenhum dos interessados quer acabar com algo tão conveniente e tão lucrativo.

Se os governadores que participaram da reunião com Nixon estivessem aqui, iriam sorrir satisfeitos: se a questão é manter a Guerra às Drogas, a reeleição de todos eles está garantida.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

Walter Maciel

Os números não mentem. Há alguns anos, fiz uma previsão que ninguém queria ouvir: as despesas públicas brasileiras ultrapassariam estruturalmente as receitas em 2027 e 2028. Não foi pessimismo — foi matemática. Hoje, com um buraco de R$ 35 bilhões no orçamento de 2026 e uma dívida pública que já ultrapassa R$ 9,4 trilhões, o equivalente a 76,6% do PIB segundo o Banco Central, a conclusão é inescapável, pois não estamos caminhando para o precipício — estamos correndo. O número não é apenas uma estatística em uma planilha, é a confissão de um governo acuado e a prova de que a aritmética sempre vence.

Assim como uma empresa, um país não deveria sobreviver pensando apenas “no próximo trimestre”. Mas o Brasil vive exclusivamente para a próxima eleição. Cada decreto é pensado para o ciclo eleitoral seguinte; cada medida provisória é um remendo tático. A política de Estado foi substituída pela política de governo — imediatista, reversível e destrutiva.

A MP 1303 não é um erro técnico, mas um suicídio econômico deliberado mascarado de justiça social. Ao aumentar a tributação sobre investimentos e eliminar incentivos de longo prazo, o governo age na contramão do que o Tesouro mais precisa: tempo para alongar sua dívida.

O problema não são as isenções estratégicas para infraestrutura e imobiliário — setores que dependem de estímulo porque o próprio governo quebrou. O problema são as renúncias fiscais mantidas para grupos de interesse enquanto se pune quem investe. É uma medida autodestrutiva, movida por cálculo político, reflexo de um governo que pensa no calendário eleitoral, não no país.

Quando a MP começou a fracassar no Congresso, o relator transformou uma questão tributária em guerra eleitoral, responsabilizando governadores de oposição. A mensagem foi clara: quem se opõe é inimigo dos pobres. Não importam os efeitos fiscais — importa a narrativa. Quando a política tributária vira campanha antecipada, o país perde a capacidade de governar.

Após a derrota, o líder do governo anunciou um “arsenal de possibilidades” para recuperar a arrecadação, reeditando medidas rejeitadas e decretos já declarados inconstitucionais. Isso não é firmeza — é desespero. E, para quem investe pensando em décadas, é devastador. As regras podem mudar a qualquer momento; a previsibilidade desapareceu.

A ironia é que o Congresso respondeu com elegância e aprovou a isenção de IR até R$ 5 mil, mas rejeitou todos os aumentos de impostos que a financiariam. O recado foi claro: querem populismo? Ótimo. Mas paguem cortando privilégios do próprio governo.

O fato que ninguém quer confrontar é que o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis eleições presidenciais e, dos últimos 24 anos, ficou 17 no poder — oito de Lula, seis de Dilma e três do atual governo. São 17 anos definindo prioridades, nomeando ministros e moldando políticas. Se uma empresa tem o mesmo CEO por quase duas décadas e vai à falência, ninguém culpa o mercado — culpa-se o gestor. Com o Estado, não é diferente. Se, após todo esse tempo, a dívida explodiu, o sistema tributário se distorceu e a máquina pública inchou, a responsabilidade é de quem governou.

Há algo mais profundo: o sistema aprendeu a sobreviver da própria ineficiência. Quando as coisas funcionam, os políticos se tornam irrelevantes. Se os Correios fossem lucrativos, não precisariam de salvadores políticos; se o Marco das Garantias funcionasse, juízes não decidiriam cada contrato; se a reforma administrativa passasse, o Estado não precisaria de intermediários para operar. A equação é simples e deixa claro que a eficiência torna políticos desnecessários, e para quem vive do poder, ser desnecessário é inaceitável.

Por isso, quando o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, tornou os Correios lucrativos pela primeira vez na história recente, a resposta foi imediata: bloqueio total à privatização. O resultado hoje é um prejuízo projetado de R$ 20 bilhões até 2026. Não se trata de esquerda ou direita, mas de quem lucra com o caos versus quem precisa que o país funcione.

O buraco de R$ 35 bilhões é mais do que uma falha fiscal; é o sinal de que estamos entrando em um regime de dominância fiscal, quando o endividamento se torna tão grande que a política monetária perde poder, a inflação passa a ser o único imposto possível e o Estado, incapaz de se reformar, começa a se financiar destruindo o valor da própria moeda.

Quando o Judiciário declara que nenhuma reforma “contra” passará, a mensagem é clara: o sistema não está protegendo a instituição, está garantindo que nunca se torne irrelevante por ser eficiente.

O contraste é obsceno: reformas que atingem contribuintes andam rápido; as que tocam privilégios são barradas preventivamente. Executivo capturado, Legislativo fragmentado e Judiciário autocentrado — três poderes falhando simultaneamente, todos priorizando a autopreservação em detrimento do interesse público.

O Brasil não tem uma crise fiscal, mas uma crise de complexidade. São mais de 90 tipos de tributos, um sistema que consome 2.600 horas anuais das empresas, contra 200 horas na média global. É um imposto invisível sobre produtividade e inovação. O Estado foi capturado por si mesmo: quase metade do orçamento federal é destinada à folha de pagamento e aposentadorias. Qualquer reforma atinge quem teria de aprová-la — um sistema travado por design. Foi capturado também por setores privados de interesse.

Como lembra o economista Marcos Lisboa, 10% de todo gasto público vem de decisões judiciais, muitas garantindo privilégios e subsídios setoriais. O PERSE, criado na pandemia como medida temporária, virou permanente até 2027, custando mais de R$ 20 bilhões em renúncias fiscais.

Enquanto isso, pequenas e médias empresas pagam as maiores alíquotas do mundo. Zona Franca de Manaus, BNDES escolhendo “campeões nacionais”, setores inteiros com isenções e juros subsidiados, enquanto empreendedores reais são sufocados. O resultado é uma economia disfuncional em que o Estado escolhe vencedores, mas não os deixa fracassar. Empresas zumbis sobrevivem com subsídios; inovação morre porque inovar exige liberdade para errar — e o Estado não permite.

A crise de eficiência se reflete também no capital humano. Profissionais qualificados estão saindo, levando décadas de produtividade e impostos futuros. Cada um que vai embora torna mais difícil a vida dos que ficam.

A diferença entre competência e fracasso sistêmico é visível: São Paulo, sob gestão profissional, passou de um déficit de R$ 10 bilhões em 2018 para superávits consecutivos, atingindo R$ 11,5 bilhões em 2023 — o maior da história do estado. Contas equilibradas, investimentos em infraestrutura e credibilidade recuperada. Enquanto isso, em 17 anos de poder federal, o PT entrega rombo, dívida crescente e uma máquina pública inchada. Não é coincidência — é competência versus fracasso sistêmico.

O governo não precisou ser derrubado; derrubou-se sozinho. O que vemos não é apenas a preparação para uma eleição, mas a reorganização completa do tabuleiro político diante do esgotamento de um modelo de governança.

A dúvida não é se haverá mudança em 2026 — ela já começou. A questão é se virá acompanhada de uma reforma real ou se será apenas a troca de rostos que preserva o modelo disfuncional. As medidas necessárias contradizem décadas de narrativa construída pelo PT, que sempre evitou cortar privilégios, reformar a máquina pública e reduzir gastos estruturais. O governo não pode fazer isso sem negar sua própria história. Por isso, não fará — e por isso a crise será enorme.

Quem assumir em 2027 herdará não apenas um país quebrado, mas um Estado em regime de dominância fiscal. Não haverá espaço para gradualismo. Será necessário total apoio do Congresso e medidas duras para dar um choque de credibilidade — algo como o modelo Temer-Meirelles, entre 2016 e 2018, quando a simples demonstração de responsabilidade fiscal devolveu confiança aos mercados e interrompeu a espiral de deterioração.

A diferença é que um candidato ungido pelo Centrão terá condições maiores de implementar reformas estruturais, com apoio automático da base parlamentar para aprovar o que hoje é impossível: reforma administrativa, corte de privilégios e ajuste fiscal real. Mas essa janela será curta, e o custo do fracasso, irreversível. Porque, se apenas trocarmos o governo sem mudar o sistema, estaremos adiando a crise — e o custo de cada adiamento cresce exponencialmente.

Amo este país. Construí empresas e criei empregos aqui. Mas ver pessoas competentes fazendo escolhas destrutivas por sobrevivência política é insuportável. A MP 1303 foi rejeitada, mas nada estrutural mudou. O buraco de R$ 35 bilhões continua, os decretos virão, a dívida crescerá. E quando o colapso finalmente chegar, todos fingirão surpresa. A matemática não mente. As pessoas, sim.

Walter Maciel é CEO da gestora de investimentos AZ Quest desde 2011.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GOVERNO É TÃO BONZINHO

Nos últimos doze meses, o congresso aprovou leis aumentando a pena para:

– falsificação de bebidas alcoólicas
– violência doméstica ou de gênero
– porte de arma de fogo
– adulteração de identificação de armas de fogo
– bullying e bullying digital
– entrega de álcool ou drogas a menores de idade
– exploração sexual de menores de idade
– sequestro ou cárcere privado de menores de idade
– crimes contra idosos ou pessoas com deficiência
– abandono ou maus-tratos a idosos
– atear fogo em vegetação
– danificar florestas
– roubo ou furto de cabos de energia
– crimes cometidos em escolas
– receptação de celulares, eletrônicos e medicamentos controlados
– crimes cometidos contra membros do sistema de justiça
– apologia ao crime
– apologia ao crime pela internet

Eu fico pensando: se nossos nobres deputados e senadores acham que aumentar a pena é a solução para um crime, não seria mais fácil aumentar de uma vez a pena para todos os crimes? Talvez até, se aumentassem bastante, os crimes acabariam.

Claro que isso é só uma brincadeira, porque é óbvio que político nenhum quer o fim dos crimes; pelo contrário, ele quer que os crimes continuem deixando os eleitores com medo, para que ele possa se apresentar como a solução. Da mesma forma, o fim das doenças seria algo horrível para os políticos, porque o povo deixaria de ter medo de ficar sem o SUS. Isso foi bem resumido em um filme de 1995, onde o personagem de Michael Douglas diz “Políticos só querem duas coisas: que vocês tenham medo, e que acreditem que eles são a solução”. (A bem da verdade, a fala exata é “políticos como ele”, se referindo ao adversário republicano, porque Michael Douglas interpretava um político democrata, e nos filmes de Hollywood políticos do partido democrata são santos imaculados, verdadeiros anjos que só pensam no bem do povo.)

Então, essa pantomima toda serve para manter a ilusão de que sem os políticos e suas leis, nossa sociedade se desmoronaria e mergulharíamos no caos. Fazer-se de importante é o pensamento central da política. Vale lembrar que:

– O governo está se vangloriando de ter encontrado e fechado não sei quantas fábricas de bebidas clandestinas, mas só fez isso depois que as pessoas começaram a morrer envenenadas.

– O governo proibiu a Voepass de operar, mas só depois que um acidente matou dezenas de pessoas. Antes disso o governo dizia que estava tudo certo com a Voepass. Aliás, o governo disse que estava tudo certo com a pista de Congonhas no dia do acidente do TAM 3054 e que não havia problemas com o controle de tráfego aéreo no dia do acidente do GOL 1907.

– O governo descobriu que a boate em Santa Maria onde um incêndio matou mais de duzentas pessoas tinha várias irregularidades, mas só depois do incêndio. Antes, a boate tinha todos os alvarás e licenças e tinha sido fiscalizada por todos os “órgãos competentes”.

– As instalações da Samarco em Mariana e da Vale em Brumadinho eram também regularmente fiscalizadas pelos “órgãos competentes”, que nunca encontraram nada de errado. Idem para a ciclovia do Rio de Janeiro, o viaduto de Belo Horizonte, as barreiras de contenção de enchentes em Porto Alegre, e tantos outros casos.

Para um cético como eu, nada disso surpreende. Pessoas são movidas por interesses, e essas coisas acontecem porque nossa sociedade caminhou, passo a passo, nessa direção, com a participação (ou omissão) de todos. Repetindo o que eu já disse várias vezes aqui no JBF, a cada dia fica mais difícil mudar essa realidade, porque o poder controla dois aliados de peso que executam a tarefa de introduzir as idéias de submissão na cabeça das pessoas: o sistema educacional e a mídia.