CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM NEGÓCIO DA CHINA

Sr. Shin Lau e família

Desde menino que ouço mamãe dizer uma frase singular, quando achava que havia obtido uma solução satisfatória para algum problema ou cujo resultado financeiro lhe fosse favorável:

“Foi um negócio da China!”

Na Boa Vista, bairro do Recife onde vivi períodos da primeira infância, ficou em minha lembrança peculiaridades sobre procedimentos comerciais de uma família asiática.

Algumas vezes que fui com a “Secretária” Minervina à lavandaria de propriedade de uma família chinesa, situada na Rua Barão de São Borja, geralmente me chamava a atenção certos procedimentos deles, que para mim eram muito diferentes dos nossos.

Ali trabalhavam marido, mulher e filhas, geralmente todos calçando tamancos e vestindo roupas costuradas à mão, utilizando um tecido branco chamado “Madapolão”. Vestimentas bastante rudimentares.

Eram conceituados. Tanto no trato com os brasileiros – mesmos com as dificuldades vernaculares – quanto na eficiência dos serviços.

Lembro-me que no final da tarde o chinês aparecia montado numa bicicleta para entregar as roupas lavadas e engomadas, com cabides pendurados numa “arara” fixada no bagageiro.

Não se questionava em nenhuma das conversas que eu ouvia o motivo de sua transferência de um país tão longínquo e de costumes tão diferentes. E muito menos suas ideias políticas, como atualmente. Sentíamo-nos irmãos.

O fato é que os preços cobrados pela “Lavandaria do China” – conforme identificávamos seu estabelecimento – eram mais convidativos e ainda recebíamos à domicílio.

Adulto, procurei saber a causa do “ditado”, e utilizando notas do prof. Por Rainer Gonçalves de Sousa, que é Mestre em História, aqui retransmito, porque data da Antiguidade.

A expressão “Negócio da China” tem origem no contato comercial entre Ocidente e Oriente. Desde anos remotos, as atividades comerciais tiveram grande importância no desenvolvimento de determinadas civilizações e promovia rico intercâmbio entre culturas distantes.

Nos fins da Idade Média, a consolidação da burguesia europeia realizou a integração entre Ocidente e Oriente por meio de longas rotas marítimas que buscavam as cobiçadas especiarias oriundas desta região.

Até que a expansão marítimo-comercial ocorresse no início do período Moderno, a busca pelas sedas, temperos, ervas, óleos e perfumes orientais era o grande “negócio da China” para os mercadores daquela época.

Ainda hoje, a expressão “negócio da China” é usualmente utilizada quando alguém obtém algum tipo de acordo bastante vantajoso.

De fato, a concepção desse termo remonta o grande interesse que os comerciantes da Europa tinham em buscar as mercadorias oferecidas pelos chineses e outros povos asiáticos.

Chegando ao século XIX, essa expressão também ganhou força no momento em que a economia capitalista vivia um período de visível expansão. Nessa época, os britânicos cobiçavam a exploração do vasto mercado consumidor chinês, assim como o uso de suas matérias-primas e a grandiosa força de trabalho disponível.

Mamãe – nos anos 40 – costumava comentava que entregar roupas para lavar e engomar na lavandaria do sr. Chin Lau, era “um negócio da China”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

IMPACTO NO MIOCARDIO

Faço jornalismo há mais de 60 anos. Agora, sob o peso dos 88 anos, fora das ruas, transmito notícias, trocando informações via internet através do Grupo “Correspondentes Unidos” e aos sábados publico crônicas.

Aproveito para entregar aos leitores – a título de ilustração sonora – a excelente manifestação do Coronel Cony sobre o tema desta crônica.

Nunca me preocupei tanto quanto nesta semana em que vivemos, diante da expectativa da conclamação para reunir brasileiros na Av. Paulista, o que se fará para reagir, com um “basta”, destinado às atitudes que a Nação Brasileira vem sofrendo diante das misérias cometidas pelas autoridades contra às leis.

Mantenho no WhatsApp um grupo formado por pessoas inteligentes e de cultura. Na troca de mensagens diárias que ali aparecem, quase todos são unânimes em declarar seríssimas preocupações durante esta semana, dias que antecedem ao pronunciamento do ex-Presidente Bolsonaro.

Se estivéssemos diante de simples adversários políticos era uma coisa. Mas, pelo que temos visto, toda a sorte de ações de baixo calão podem ocorrer porque exemplos já tivemos, em dias anteriores, em que contra o povo pacífico os baderneiros já se manifestaram levando os entusiastas patrióticos à prisão sem culpa.

O que mais me preocupa é que durante a manifestação pacífica haja um atentado e que a multidão seja atropelada pelo seu próprio “rolo compressor”, pois se trata de aglomerar u’a multidão incalculável.

Só é possível aliviar a pressão psicológica que temos sofrido se cronicar como se fosse pitoresca a situação; ou seja, publicar que estamos diante de um possível “impacto no miocárdio”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PINZON, O DESCOBRIDOR DO BRASIL

Capitão Vicente Iañez Pinzon

Ao me aprofundar no estudo do livro: “Memorial do Mundo Novo”, com 293 páginas, escrito pelo nosso Editor Luiz Berto, produzido pela Editora Bagaço, lançado em 2008, fiquei imaginando quantos fatos da História do Brasil me foram ocultados durante os cursos Primário e Secundário.

Apreciador da historiografia pátria, tenho procurado me assenhorar de detalhes interessantes de alguns fatos, a partir da fase do descobrimento, e de certo modo, sobre Invasão Holandesa e as Revoluções de Pernambuco, notadamente sobre os bastidores desses acontecimentos, fatos até desconhecidos por muitos leitores.

Procuro não deixar no esquecimento tão significativas páginas vividas na terra de Pernambuco, já que as escolas dos meus tempos não tiveram o cuidado de manter vivos tais acontecimentos, que agora, aqui e ali, reaparecem.

Desejo relembrar nestas crônicas os fatos registrados pelos historiadores de então, pois não foi pequeno o esforço de pesquisa de inúmeros outros historiadores, no sentido de gravar para sempre o que aconteceu nos anos que sucederam ao 1500, data oficializada para o nosso descobrimento.

E o nosso Luiz Berto o fez através de seu precioso romance histórico.

Por força do “Tratado de Tordesilhas” uma parte do Brasil foi destinada a Portugal – separada no mapa por uma linha vermelha – e somente o restante poderia ser explorado pela Espanha, na época conhecida como o Reino de Castela.

Vejamos o resumo do pouco conhecido documento:

Trata-se do registro de um acordo firmado entre os dois reinos – de Castela e Portugal – em 1494, que dividiu o mundo entre os dois domínios ibéricos, definindo os limites de exploração entre portugueses e espanhóis na América do Sul.

Lá vem Pinzon voltando à História!

Aquele herói ibérico foi o descobridor, de fato, do Brasil, tendo viajado por águas desconhecidas e cheias de armadilhas, com as ondas batendo forte no casco do seu navio e chegou aqui em primeiríssimo lugar.

Enquanto o Capitão Vicente Iañez Pinzon – segundo Luiz Berto – segurava com tanta força a corda que atravessava o tombadilho de seu navio o que lhe transtornou a face, dando-lhe expressão rude – pois amargava o terrível desconforto de uma inoportuna cólica intestinal; a popularíssima “dor de barriga” e seus “anexos”.

O mal que lhe tirava o humor, indicava convulsão nas tripas. O momento do Capitão Pinzon não era nada inspirador, pois, traques e ventosidades estrepitosas denunciavam os instantes extremos que vivia o Comandante. As dores se espalhavam em ondas por todo o seu abdômen e pelo “cano de escape” ouviam-se inoportunas flautulências.

Num momento de fuga, a passos largos, logo transformados em desabalada carreira, os marinheiros presenciam um acontecimento singular: vê-se o Comandante rumo ao cagador.

Em seguida ouve-se ele agradecer aos maiores do céu o fim do sofrimento; ao livrar-se das bostas e das pontadas que o castigavam seu ventre.

Sente-se vitorioso ao se livrar das bostas e logo retoma o pensamento glorioso de ter sido o primeiro espanhol a cruzar o Equador terrestre. Mas, como se não bastassem as atribulações da viagem, ainda sofria com pequenos relambórios da barriga. O fim de caganeira.

Mas, logo escuta um dos seus homens, do alto da gávea do seu navio, dar o célebre aviso de “Terra à vista!”.

Era a parte do Brasil que não poderia ser anunciada como “descoberta”, face à linha imaginária do “Tratado de Tordesilhas”, que abrangia boa parte do litoral brasileiro.

Era o atual Cabo de Santo Agostinho de onde o “olheiro” divisava a futura terra pernambucana. O fato logo aliviou o reboliço intestinal que fustigava a paciência do descobridor. Teria estufado o peito e gritado:

“Chegamos, felizmente sem traques e sem bostas!”

Voltamos às palavras do escritor do “Memorial do Mundo Novo”, nosso intrépido romancista, escritor, jornalista e tudo o mais que se refere às letras, Luiz Berto:

Mal sabia o Capitão que estava diante de uma insuperável coleção de “tretas do destino”, mesmo sendo qualificado como notável Comandante, designado por Sua Alteza Fernando III, o Rei de Castela. O pior: não se conforma com a imensa desdita de não poder anunciar ao Mundo Novo sua descoberta.

O fato, para mim mais significativo, foi lembrar que o Capitão espanhol Vicente Iañez Pinzon foi, de fato, o descobridor do Brasil, porque Pedro Álvares Cabral somente pisou na terra brasileira mais de dois meses depois.

Todavia, como no Brasil tudo é diferente, vê-se, na Wikipédia uma nota que afirma ter sido a comemoração do descobrimento há 522 anos, quando Cabral desembarcou em Porto Seguro, litoral da Bahia, em 22 de abril de 1500, tornando a região uma Colônia do Reino de Portugal.

Mas, segundo Luiz Berto, o Capitão Vicente Iañez Pinzon, mesmo se cagando e peidando adoidadamente, descobriu de fato o Brasil, pois dois meses antes aqui desembarcou.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CARNAVAIS DE RUA

Galo da Madrugada, símbolo do carnaval de rua

Felizes daqueles que viveram os carnavais dos anos 50. Eram folias típicas de nossa gente, dos nossos costumes, cujas características não eram importadas de outros estados.

O frevo passava a imperar nas ruas, as orquestras de metais circulavam a pé. As pessoas fantasiadas representavam o espetáculo. Era o Náutico nas ruas!

Os blocos daqueles anos cumprimentavam as famílias fazendo malabarismos com seus estandartes, em honra dos seus habitantes beneméritos. O povão cantava músicas de nossos carnavalescos sob o ritmo alucinante dos frevos-canção gravados por Claudionor Germano, Expedito Baracho, Maves Gama e Mimi Castilho.

Desses inúmeros blocos falo do “Timbu Coroado”, a representação carnavalesca dos apreciadores do Clube Náutico Capibaribe.

Logo às 6h da manhã a sede do clube era tomada por famílias inteiras, vestidas com fantasias onde predominavam as cores do clube. Às 10 h a turma se arrumava no portão do estádio, por onde sairia para tomar as ruas do bairro dos Aflitos. Um mar de gente!

As músicas entoavam o hino do bloco, comemorando mais uma apresentação carnavalesca. E entoava a célebre música de Nelson Ferreira:´

O nosso bloco
É mesmo de verdade
É o timbu, é o timbu coroado
De manhanzinha já está acordado
É o timbu, é o timbu coroado.

Os que nasceram nas décadas distantes dão-se por felizes em ter visto e participado, na sua juventude, dos famosos “carnavais de rua”, os quais eram realmente esplêndidos.

Hoje os cronistas registram alterações profundas. As pessoas são concentradas para ver espetáculos de cantores de vários estados, contratados a peso de ouro, para cantar músicas de diversos ritmos.

Todas apreciando os shows de pé, paradas num só lugar, apenas “remexendo os quartos”. Enquanto isso nosso ritmo típico – o frevo – vai se perdendo no destrambelhamento dos novos modelos “baianados”: os Polos de Carnaval.

Residindo atualmente no Caxangá, proximidades do “Polo Carnavalesco da Várzea”, bairro da cidade do Recife, sinto-me frustrado.

Na semana pré-carnavalesca vejo e escuto “horrores musicais” desde que inventaram a moda do “Carnaval Multicultural”. Vejo-me perplexo e até revoltado pelo que sou forçado a ver e ouvir, de minha varanda.

Músicas de sons e letras estranhos à nossa cultura carnavalesca tradicional. Uma zuadeira infame emitida pelos “carros-de-som” e gritos de pessoas que parecem estar pedindo socorro.

Muitas carretas, adaptadas para serem palcos completos, estacionam atravessadas na rua. Ali se apinham cantores e músicos. O som é infernizante. Estremece até as ruas mais distantes.

Não há respeito a um bairro que é residencial. Não se aplica nenhuma norma disciplinante do silêncio, mesmo estando nas proximidades de hospitais e sendo o local um bairro tipicamente residencial. Além de ser ainda o domingo anterior ao carnaval oficial.

Um pânico geral para quem não está no furdunço! Fechando as ruas pelos longos veículos que transportam as equipagens de som, cantores e orquestra, muitos foliões se comprimem.

Não fazem o passo. Rebolam e cantam em dialetos inaudíveis, misturando o chamado “estilo brega” completado pela “swingueira”, pagode e outras denominações mal inventadas.

O meu carnaval percorria as ruas do centro da cidade, onde só havia casas de comércio. Só se iniciava nas noites destinadas ao reinado de Momo. Não fazia essa zuadeira de hoje. Cantava lindas músicas.

Hoje avacalharam o carnaval, inventando essa moda esdrúxula de Polos diversificados, estuprando o direito ao silêncio dos moradores.

Foram-se os tempos em que pelo Rádio, semanas antes do carnaval, se ouvia gravações com as vozes de cantores carnavalescos e logo decorávamos algumas músicas, para alegria geral das ruas nos dias exclusivos da festança de rua.

Os blocos familiares tomavam conta das ruas dos bairros, durante o dia.

Participante de tantos anos “balançando meu esqueleto” com a turma alvi-rubra, sou historiador dos fatos.

Logo que saia dos Aflitos, a turma do “Timbu Coroado” ia cumprimentando, com seu estandarte, as casas de diretores e torcedores do Náutico, situadas nas ruas adjacentes.

Depois, a convite de meu tio Sebastião Carvalho, a diretoria do bloco visitava sua casa, na Boa Vista, sendo recebida com “Bate-bate”, (o aperitivo da época) e água para os foliões. Era a hora do repouso e refrigério após uma andada de cinco quilômetros dos Aflitos até aquele bairro.

E haja disposição física! Os participantes acompanhando as orquestras, cantavam animadíssimos, continuando a desfilar pelas ruas da Boa Vista, todos frevando, até chegar à apoteose, na Praça da Independência, onde a multidão de “fanáuticos” se dissipava.

As minhas saudades são justificadas porque saíamos de casa como se para um desfile fosse: já fantasiados. Famílias inteiras participavam dos grupos de colombinas, pierrôs e arlequins, vibrando suas castanholas. De cada casa iam saindo mais foliões para aumentar o fluxo do “Timbu Coroado”.

Nas ruas dos bairros por onde ia o bloco passando, os moradores ficavam sentados em cadeiras nas calçadas para apreciar os desfilantes fantasiados, que pareciam concorrer entre si. As orquestras de metais, se movimentavam a pé, puxando os cordões de foliões. O frevo imperava em todos os momentos!

Não se dava vez às esquisitices de outros lugares, impróprias para nossa cultura. Hoje, porém, me sinto um velho pierrô, ainda apaixonado pela colombina imaginária com quem frevei uma única vez, na Rua Nova.

Mas tudo é apenas saudade dos carnavais de 1950!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ARTES & MANHAS

Ônibus superlotado. Uma artimanha para a fraude

Faço nestas notas rápidos comentários sobre parte do cotidiano externo das pessoas, apenas para assinalar modos de viver e de se aplicar certas artimanhas, pelas prestadoras de serviços públicos, fraudando normas.

Quando em 1944 houve a introdução de ônibus urbanos no Recife, notadamente em serviço regular iniciado pela Pernambuco Autoviária Ltda., os passageiros somente viajavam sentados.

Havia uma placa proibindo que as pessoas viajassem de pé. O próprio motorista cuidava do controle. Respeitava-se uma norma municipal. Todavia, temos que admitir: as pessoas eram mais educadas e a população da cidade era menor.

Tempos depois, diante da necessidade e a introdução de várias empresas para esse tipo de serviço, os próprios usuários passaram a utilizar tal transporte de forma desordenada, permanecendo de pé, sofrendo infame “esfregaço”; burlando-se igualmente à norma que determina a quantidade total de passageiros por viagem.

No caso, não nos parece que houve decidida reclamação nem se “queimou pneus” nas ruas, em protesto, a respeito do preço que deveria ser diferenciado para aos que viajam em pé.

De ambas as formas, atualmente, se paga o mesmo valor. Até hoje as empresas cobram os mesmos preços para ambas as formas de acomodação; aliás, melhor dizendo, de desconforto.

Uma artimanha que se tornou uma coisa comum. Enfim, sentados ou em pé o preço da passagem dos ônibus urbanos é o mesmo. Continuam assim, beneficiadas as próprias empresas. Mas, no caso, utilizando-se um artifício oculto para se faturar mais, durante a mesma distância de viagem.

Mas, há artimanhas dosadas pela inteligência promocional. Outro dia, entrei numa loja, ao acaso, onde na vitrina havia muitas ofertas de produtos. Desejava ver se comprava um presentinho e acabei escolhendo outras bugigangas para minhas netas.

Atendido pela dona do estabelecimento fui indagado, delicadamente, qual o motivo de haver procurado sua loja. Não pude negar: o título me chamou a atenção: “Artes e Manhas!”.

Risonha, afirmou a senhora: “Foi um artifício que encontrei. Pelo que imaginamos o título chamaria a atenção e concluímos que aqui o cliente vê pela vitrina, muitas coisas diferentes. Por isso valeu a gente registrar como “Artes & Manhas! ”

Esse mundo é mesmo cheio de artimanhas! Burla-se até as leis com artifícios, que o povão vai esquecendo e aceitando placidamente. Até na divisão dessa palavrinha houve subterfúgio, pois se tornou “Artes & Manhas”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

LAVANDO OS PAÍSES BAIXOS

Depois que, devido à avançada idade, me desvinculei de carro próprio e adotei o modelo de usar automóveis alugados, fiquei com o hábito de testar o conhecimento dos motoristas, sobremodo a respeito de fatos ligado a Pernambuco, com destaque para o que realizou, por minha cidade – Recife – o conde Maurício de Nassau, conforme o povão o rebatizou no Brasil, avacalhando seu nome próprio.

Nessas “corridas”, tendo que passar, quase cotidianamente, pela Av. Maurício de Nassau, engatilho as perguntas, como forma de estimular um papo cultural e dotar aquelas pessoas de informações seguras, para que possam ser repassadas aos turistas que nos visitam, visto que com os taxistas os que aqui chegam por via aérea, têm os primeiros contatos com nossos habitantes.

– O senhor sabe me dizer quem foi Maurício de Nassau e onde ele nasceu?

Geralmente ouço uma reposta sem nexo:

– Foi “Gente Grande” e parece que era holandês; não sei bem!

Aproveito para esclarecer que era um conde alemão – e não holandês – Johann Mauritz von Nassau-Siegen, nascido em Dillenburg, Alemanha, que foi contratado pela Cia. das Índias Ocidentais, (W.I.C – West Indische Compagnie) para administrar a “Nova Holanda”, apelido que deram ao nosso país.

Essa empresa, cujos soldados invadiram Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, precisando de um administrador de pulso forte, veio o conde Nassau a ser contratado e se tornaria governador do Brasil holandês, aqui deixando sua marca de grande gestor, após permanecer em nossa terra durante 8 anos.

Por isso vemos seu nome em clubes, edifícios residenciais e comerciais, lojas, praças, estátuas e produtos industrializados, como o famoso “Cimento Nassau”. Ainda mais: o lugar que ele urbanizou, o Recife, passou a se chamar Cidade Maurícia.

O interessante é que nesses papos descontraídos que tenho mantido com gente representativa do povão, se ouve comentários interessantíssimos.

Perguntou-me um taxista: Por que chamam “Países Baixos” as terras de onde vieram aquelas forças invasoras?

Utilizei o que recentemente havia pesquisado em trabalho de Everaldo Moreira Veras, saudoso amigo e renomado historiador pernambucano: “Nassau, feitos e farsas”.

“Países Baixos” é a tradução em português de Nederland, que no original é “neder-landen”, que significa “terras baixas”. Como país, se denomina assim por causa de sua localização geográfica, parcialmente abaixo do nível médio do mar.

A Holanda é formada por 12 províncias cujas capitais: são Groninga, Frísia, Drente, Overissel, Flevolândia, Geldria, Ultreque, Holanda do Norte, Holanda do Sul, Zelândia, Brabante e Lindenburgo.

Poucos sabem que a República das Províncias Unidas dos Países Baixos, criaram a portentosa empresa: Cia. das Índias Ocidentais, com a finalidade de tornar ainda mais milionários muitos cidadãos residentes naquelas plagas, invadindo e tomando terras povoadas, como o nosso país.

Segundo notas de Evaldo Cabral de Melo: Quando em 1640 Portugal se separou da Espanha, após 60 anos de união dinástica, algumas de suas colônias já haviam sido perdidas para os Países Baixos, ou seja, a Holanda.

Mas o fuzuê internacional mesmo, teve início quando, nessa época, ocorreu a expansão colonial da Holanda, pondo em cheque o controle português do comércio mundial do açúcar, do tráfico de mão-de-obra africana e o comércio de especiarias.

Foi um tempo em que a W.I.C. invadiu o Brasil, em 14 de fevereiro de 1639, com terrível esquadra que aportou em Pau Amarelo, com 35 grandes navios, 15 iates e 16 embarcações auxiliares, que acomodavam 3.780 marinheiros, 350 soldados e 1.170 canhões de vários calibres, informações contidas no livro sobre Nassau, que me foi ofertado por seu autor, Everaldo Moreira Veras em outubro de 1997.

Porém, Nassau só chegou em nossa terra 10 anos depois, quando as tropas da Cia. das Índias Ocidentais não conseguiam dominar inteiramente nossa terra e a empresa vinha dando incalculáveis prejuízos e sofrendo intermináveis guerrilhas.

Nassau chegou, administrou e voltou. Foi quando os luso-brasileiros, aqui residentes, efetivaram a Restauração Pernambucana, vencendo e expulsando as tropas holandesas definitivamente, dando, assim, uma “lavagem” nos Países Baixos, como se diz no futebol.

Depois que o taxista ouviu minha breve explicação soltou-me uma historieta engraçada, informando que durante vários anos de sua infância ouviu sua genitora lhe empulhar com esta enganação:

Quando minha mãe ia ao banho, costumava dizer uma frase que jamais entendi. Falava, sempre sorrindo, que lavaria bem direitinho seus “países baixos”!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

OPA, PERAÍ!…

Em janeiro de 2024, este colunista ao lado do busto do amigo Joaquim Francisco

Opa é a interjeição que geralmente é utilizada para reagir a algo que foi dito ou feito, seja de forma positiva ou negativa, mas sempre para expressar a ideia de surpresa ou espanto, segundo o dicionário “Aurelião”.

Opa, “peraí”!!!… é expressão costumeira para se solicitar uma parada na conversa. Quem, em alguma oportunidade, já não pronunciou esta frase?

Quando bancário ouvi essa expressão, mas se referia a uma atitude do “patrão”, ao criar, nos idos de 1962, um modelo que oferecia aposentadoria antes dos 30 anos de serviço, a fim de aliviar o Quadro de Funcionários.

A moçada, porém, titulou a Portaria (CIC 2316) de maneira pitoresca, como: “OPA – Operação Para Aposentadoria”.

Muitos aproveitaram e encheram suas contas/correntes de dinheiro e “caíram fora” admitindo que passariam de empregados a empregadores. Mas, poucos aproveitaram a oportunidade, aplicando os valores da indenização de forma adequada. Alguns “quebraram a cara”.

O fato é que a grande divulgação daquela oportunidade de pegar numa “grana preta”, se ampliou em termos de Comunicação Social, face à sigla: OPA.

Mas, o fato é que os funcionários que já haviam chegado aos 20 anos de serviço, em sua maioria, se acautelaram e permaneceram até os 30 anos – como este cronista – para se guarnecer das “intempéries econômicas” que poderiam vir a enfrentar. Motivos havia.

Foram precavidos, pois já naqueles anos os Bancos vinham sofrendo com os resultados da Reforma Bancária.

O Banco do Brasil perdeu a “Conta Movimento” para o Banco Central, formaram-se os “Conglomerados de Bancos” e muitas instituições se agruparam, de forma que os as Cooperativas e os Bancos menores foram sendo engolidos pelos chamados “Grupos Financeiros.”

No meu caso particular, ao lembrar-me da sigla, foi um pouco diferente.

Estive no Parque da Jaqueira, no Recife, este mês, em missão profissional, para fotografar o busto do saudoso amigo Dr. Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti, ex-Prefeito, ex-ministro e ex-Governador de Pernambuco, quando o fotógrafo aproveitou para uma gentileza e me clicou.

Fiquei, respeitosamente, ao lado do falecido, como quem está desejando ser estátua. Parece que convoquei meus amigos que estão “no andar de cima” para virem me buscar, pois, aos 88 anos estou habilitado à transferência para um novo mundo.

Em função disso, no dia 12 deste ano, já comecei “fazendo turismo” num hotel-hospital português, durante seis dias, tempo em que os médicos, através de exames rigorosos, procuraram saber porque havia ocorrido um segundo curto-circuito na minha cuca, que a ciência chama de “Isquemia Cerebral Transitória.”

Meu amigo Dr. Garibaldi Quirino me disse que essa ocorrência era um termo médico que designa a presença de um fluxo de sangue e oxigênio inadequado a uma parte específica do organismo, podendo ocorrer em qualquer lugar como o coração, cérebro, membros, intestinos, olhos e habitualmente de um estreitamento ou bloqueio das artérias que alimentam a área afetada.Em meu caso, o cérebro.

Por conta disso, os médicos me detiveram no Hospital Português, durante uma semana e quando fui liberado me lembrei da interjeição que se usa para expressar surpresa ou espanto:

Êpa não chegou meu tempo ainda não!… Peraí!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RECIFE DE PONTES EM PONTES

Rio Capibaribe, o principal do Recife, a Veneza Americana – Foto de Lilian Chaves

Venho do tempo em que a cidade onde nasci era bem colonial. Tinha seus casarões ornados por peras de porcelana, portões com grades de ferro bem trabalhadas e a calma de ruas tranquilas, onde se podia andar despreocupadamente.

Tempos em que a juventude achava “um barato” ver os joelhos – apenas os joelhos – das moças de classe, e os decotes eram quase à altura do pescoço.

Eu tinha um primo, Luiz Fernando, que era muito “saliente” e repetia sempre: Ver um joelho de mulher me dá uma secura!…

Nos anos de 1950 os vestidos eram compridos e as jovens se apresentavam com blusas que mais pareciam ser feitas para o uso de gravatas, pois tinham uma espécie de colarinho.

Dos encantos daquela época pouca coisa restou em termos de geografia urbana. Os rios, por exemplo: o Capibaribe e o Beberibe, que serpenteiam a cidade desde os arrabaldes até o cais do porto, abraçando-se em vários pontos e formando um outro, ainda mais largo, derramando-se os dois para formar um só – o Rio dos Cedros – ligando a Ilha de Antônio Vaz à antiga península, até se projetar no mar.

Cada um dos nossos rios exigiu a construção de uma ou mais pontes para ligar nossas ilhas citadinas, bairros e arrabaldes.

Aldemar Paiva, saudoso radialista, em seu programa diário na Rádio Clube de Pernambuco, lançou uma enquete para que os ouvintes dissessem quantas pontes havia no Recife. Um deles acertou, informando que haviam 63 pontes na cidade.

Recebeu o prêmio, na hora, mas Aldemar acrescentou que o ouvinte havia esquecido as 3 Pontes de Safena que haviam no peito do compositor Capiba, devido a uma cirurgia recente. O famoso radialista tinha uma abertura quemais parecia um poema, com a qual iniciava seu famoso programa: Pernambuco Você é Meu:

E nesta manhã graciosa abro meu programa com alegria. De pontes em pontes; costumo vir andando para aspirar o cheiro dos seus rios e desfrutar a beleza da cidade, até chegar ao microfone da gloriosa PRA- 8, trazendo cultura e entretenimento aos ouvintes. BomDia!

Mas, com o correr dos anos as pessoas mudaram seus hábitos e o Recife se transformou. Não vemos mais as regatas que superlotavam as margens das ruas da Aurora, do Sol e a sacada das pontes, a fim de ver as disputas de remo, entre as equipes do Barroso, do Náutico e do Sport.

Hoje o que vemos são os veículos e as pessoas passando apressadas, sem tempo de fazer o que faz a fotógrafa Lilian Chaves, que tem captado imagens memoráveis de nossas pontes e rios. E ao ser indagada sobre seu ofício, nos respondeu:

Procuro, de pontes em pontes, captar a beleza dos nossos rios, para que não se perca, de todo, o que tem a cidade de mais belo: suas águas serpenteando vários lugares de um Recife bucólico que ficou na miragem dos tempos.

E assim, a artista vai andando de pontes em pontes para fotografar a cidade de hoje. Quem poderia imaginar um Recife sem seus rios, sem suas pontes? Sem esse conjunto de rios e pontes a cidade jamais seria a Veneza Americana.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A VIDA E O TEOREMA DE PITÁGORAS

Teorema do Mestre Pitágoras

Contabilista que sou nunca poderei esquecer que dezembro e janeiro são meses de verificação dos resultados financeiros das empresas, de aferição dos novos modos de procedimento junto à clientela, etc.

No começo do meu Curso Ginasial, equivalente hoje ao 2º grau, ainda com 12 anos, eu “corria” de Latim e da Matemática, notadamente do teorema, da hipotenusa e da raiz quadrada.

Para mim e outros coleguinhas, era verdadeiro inferno quando víamos o professor Deoclécio Ferreira demonstrar tais problemas na lousa.

Ninguém entendia bulhufas!

Se o Teorema de Pitágoras determinava que o quadrado da medida da hipotenusa (c2) é igual à soma dos quadrados das medidas dos catetos (a2+b2), lá vinha outra infame questão:

Uma tal de Hipotenusa: que é o cateto oposto àquele em frente a um determinado ângulo e um cateto adjacente, é aquele ao lado de um determinado ângulo.

E para complicar ainda mais nossas cabecinhas juvenis, os livros de Matemática descreviam a Hipotenusa.

Tratava-se de um caso particular de radiciação, no qual o índice do radical é igual a 2, ou seja, é a operação inversa das potências de expoente igual a 2.

Para completar vinha a miserável da Raiz Quadrada:

“Trata-se de um caso particular de radicação, no qual o índice do radical é igual a 2, ou seja, é a operação inversa das potências de expoente igual a 2”, tudo isto afirmado nos livros.

E, por fim, o Latim, matéria que formava a completa infernização de minha vida ginasial, matéria que me impediu de não optar pelo curso de Direito.

Não desejando seguir Engenharia nem Direito, pra que fundir minha cuca com tais complicações?!

E pra nós, alunos, que pouco entendíamos sobre aquelas aulas, era melhor procurar saber se nossos destinos estariam condicionados a essas fórmulas matemáticas.

Depois de tantos anos e inúmeras vivências, quando chego perto dos 88 anos de “sobrevivência”, concluo que jamais tive necessidade de aplicar tais teoremas no meu cotidiano.

O que vi foram os anos correm céleres, os fatos acontecerem e ainda estou por aqui contando histórias nada matemáticas, nada teorêmicas.

De uma coisa fiquei sabendo, nenhum professor me disse que deve existir, para cada um de nós, um plano traçado por Deus e desse esquema ninguém escapa.

O teorema serve muito nos cálculos de Engenharia.

Mas se trata de algo que também se aplicaria – se fosse o caso – para provar, nos dias atuais, que determinada informação seria a correta e não as mentiras que costumam circular pelas mídias e bocas, que nem sempre podem ser comprovadas.

Pouco sabemos, mas acreditamos que Jesus nos deixou, em palavras, vários teoremas que ainda não entendemos no todo.

Dentre eles, que a vida necessita que aprendamos a nos acercar do Teorema de Pitágoras, confirmando tudo que deveremos dizer e fazer corretamente.

Afinal, Pitágoras não foi um qualquer, e pensou bonito, estabelecendo regras numéricas, para que se confirme tudo quanto for necessário ser comprovado matematicamente, sobremodo na “engenharia da vida”.

E assim, creio que deveremos pautar nossas vidas pelo célebre Teorema do Mestre Pitágoras.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DE TEMPOS EM TEMPOS

De tempos em tempos é importante abrir as gavetas dos arquivos, contendo minhas lembranças impressas, sem que isto se destine à procura específica de determinado fato.

Nessas remexidas vou desencavando o que guardei para utilizar quando ficasse velho.

E agora, que o tempo previsto está chegando, me surpreendo com certas atitudes e hábitos do passado, ao examinar quanto os hábitos da vida social mudaram.

Nas épocas de dezembro, a exemplo, eu me dedicava a entrar em ação, verificando minha lista de quase 100 amigos, para lhes cumprimentar com um cartão especialmente preparado para a época, os quais eram remetidos assinados.

Com boa antecedência mandava imprimir cartões com o texto:

Com os melhores desejos de Feliz Natal e um Ano Novo cheio de felicidades, Carlos Eduardo Carvalho dos Santos e Família.

Depois de subscritar os envelopes, levava-os ao antigo Departamento dos Correios e Telégrafos, para serem postados. Comprava os selos e ainda tinha um trabalhão para ser desenvolvido em casa, a fim de colar nos envelopes.

Mesmo assim procedíamos, todos, com uma satisfação incomum. Era como se presenteássemos cada uma das famílias daqueles amigos com u’a mensagem escrita.

Não possuindo máquina de escrever, eu chegava uma hora antes, ao Banco, para datilografar tudo, com o maior esmero. A tarefa se prolongava por muitos dias. E que satisfação me envolvia tal trabalho!

O curioso da iniciativa era que cretinamente a maior quantidade de colegas da tal lista eram meus colegas de trabalho diário no Banco do Brasil.

Mas, mesmo nos vendo quase diariamente, eu achava que o cartão representava algo mais do que uma simples renovação de amizade: era uma prova de profundo respeito e afeto.

Os tempos mudaram tanto que de tais atitudes só restou a remessa, obedecendo a mesma lista – agora muito reduzida porque grande parte dos amigos já se foi, e ainda mais, essas mensagens, sendo por via eletrônica, não provocam a emoção que um envelope fechado conseguia despertar.

Felizmente, nos dias atuais, há algo mais belo: as mensagens são ilustradas e coloridas, o que ao meu entender, jamais terão a mesma força para a exprimir meu profundo afeto e a demonstração de sentimentos embevecedores.

Hoje, olhei para a lista, datilografada em ordem alfabética e fiquei saudoso daquela fase em que eu tinha tantos amigos.

Aproveito este momento para fazer uma oração, e tendo à mão a velha lista de amigos que receberam meus cartões, em 1960, elevo a Deus meu pensamento desejando momentos felizes para os que se foram e os poucos que ainda estão por perto.

É uma forma espiritual de chegar a todos. Por isso se costuma dizer que tudo se renova incontrolavelmente, de tempos em tempos.