CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Depois que, devido à avançada idade, me desvinculei de carro próprio e adotei o modelo de usar automóveis alugados, fiquei com o hábito de testar o conhecimento dos motoristas, sobremodo a respeito de fatos ligado a Pernambuco, com destaque para o que realizou, por minha cidade – Recife – o conde Maurício de Nassau, conforme o povão o rebatizou no Brasil, avacalhando seu nome próprio.

Nessas “corridas”, tendo que passar, quase cotidianamente, pela Av. Maurício de Nassau, engatilho as perguntas, como forma de estimular um papo cultural e dotar aquelas pessoas de informações seguras, para que possam ser repassadas aos turistas que nos visitam, visto que com os taxistas os que aqui chegam por via aérea, têm os primeiros contatos com nossos habitantes.

– O senhor sabe me dizer quem foi Maurício de Nassau e onde ele nasceu?

Geralmente ouço uma reposta sem nexo:

– Foi “Gente Grande” e parece que era holandês; não sei bem!

Aproveito para esclarecer que era um conde alemão – e não holandês – Johann Mauritz von Nassau-Siegen, nascido em Dillenburg, Alemanha, que foi contratado pela Cia. das Índias Ocidentais, (W.I.C – West Indische Compagnie) para administrar a “Nova Holanda”, apelido que deram ao nosso país.

Essa empresa, cujos soldados invadiram Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, precisando de um administrador de pulso forte, veio o conde Nassau a ser contratado e se tornaria governador do Brasil holandês, aqui deixando sua marca de grande gestor, após permanecer em nossa terra durante 8 anos.

Por isso vemos seu nome em clubes, edifícios residenciais e comerciais, lojas, praças, estátuas e produtos industrializados, como o famoso “Cimento Nassau”. Ainda mais: o lugar que ele urbanizou, o Recife, passou a se chamar Cidade Maurícia.

O interessante é que nesses papos descontraídos que tenho mantido com gente representativa do povão, se ouve comentários interessantíssimos.

Perguntou-me um taxista: Por que chamam “Países Baixos” as terras de onde vieram aquelas forças invasoras?

Utilizei o que recentemente havia pesquisado em trabalho de Everaldo Moreira Veras, saudoso amigo e renomado historiador pernambucano: “Nassau, feitos e farsas”.

“Países Baixos” é a tradução em português de Nederland, que no original é “neder-landen”, que significa “terras baixas”. Como país, se denomina assim por causa de sua localização geográfica, parcialmente abaixo do nível médio do mar.

A Holanda é formada por 12 províncias cujas capitais: são Groninga, Frísia, Drente, Overissel, Flevolândia, Geldria, Ultreque, Holanda do Norte, Holanda do Sul, Zelândia, Brabante e Lindenburgo.

Poucos sabem que a República das Províncias Unidas dos Países Baixos, criaram a portentosa empresa: Cia. das Índias Ocidentais, com a finalidade de tornar ainda mais milionários muitos cidadãos residentes naquelas plagas, invadindo e tomando terras povoadas, como o nosso país.

Segundo notas de Evaldo Cabral de Melo: Quando em 1640 Portugal se separou da Espanha, após 60 anos de união dinástica, algumas de suas colônias já haviam sido perdidas para os Países Baixos, ou seja, a Holanda.

Mas o fuzuê internacional mesmo, teve início quando, nessa época, ocorreu a expansão colonial da Holanda, pondo em cheque o controle português do comércio mundial do açúcar, do tráfico de mão-de-obra africana e o comércio de especiarias.

Foi um tempo em que a W.I.C. invadiu o Brasil, em 14 de fevereiro de 1639, com terrível esquadra que aportou em Pau Amarelo, com 35 grandes navios, 15 iates e 16 embarcações auxiliares, que acomodavam 3.780 marinheiros, 350 soldados e 1.170 canhões de vários calibres, informações contidas no livro sobre Nassau, que me foi ofertado por seu autor, Everaldo Moreira Veras em outubro de 1997.

Porém, Nassau só chegou em nossa terra 10 anos depois, quando as tropas da Cia. das Índias Ocidentais não conseguiam dominar inteiramente nossa terra e a empresa vinha dando incalculáveis prejuízos e sofrendo intermináveis guerrilhas.

Nassau chegou, administrou e voltou. Foi quando os luso-brasileiros, aqui residentes, efetivaram a Restauração Pernambucana, vencendo e expulsando as tropas holandesas definitivamente, dando, assim, uma “lavagem” nos Países Baixos, como se diz no futebol.

Depois que o taxista ouviu minha breve explicação soltou-me uma historieta engraçada, informando que durante vários anos de sua infância ouviu sua genitora lhe empulhar com esta enganação:

Quando minha mãe ia ao banho, costumava dizer uma frase que jamais entendi. Falava, sempre sorrindo, que lavaria bem direitinho seus “países baixos”!

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