CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DICAS DO PROFESSOR PASQUALE

Pasquale Cipro Neto

Nesta crônica aproveito a sugestão e as remessas interessantes que sempre me faz meu colega escritor, Adilson Castello Branco da Cunha, referentes à obra do professor Pasquale Cipro Neto, que considero um verdadeiro benemérito da língua portuguesa, face à divulgação que vem realizando.

Para nós escritores nada como estar sempre revendo os linguajares, pois, além de ditados, adágios e provérbios que são necessários, eles completam frases e pensamentos pitorescos.

Há ditados que geralmente ultrapassam gerações. São peças que costumamos repetir no cotidiano, desde a infância; embora, no geral, sejam ditas ou escritas com pequenas falhas de interpretação.

É sobre estas falhas que passamos a comentar, graças às aulas do professor, que nesta crônica faço homenagem.

Pasquale nasceu em Guaratinguetá, é formado pela Faculdade de Filosofia, de São Paulo e seu principal livro é: “Língua Portuguesa: Inculta e Bela”.

Com o advento da televisão o professor Pasquale, soube aproveitar as mídias, criando um interessantíssimo programa de entrevistas, com pessoas famosas do mundo artístico, pois entendeu que estas chamam mais a atenção.

O programa auxilia os tele ouvintes em suas dúvidas tornando sua imagem de professor conhecida e admirada. Uma dessas notáveis entrevistas foi com o saudoso cantor Belchior.Vejamos algumas de suas dicas.

Hoje é domingo, pé de cachimbo. E eu ficava imaginando como seria um “pé de cachimbo”. Mas o correto é: Hoje é domingo, pede cachimbo… Dia de se fumar um cachimbo. Lembro-me até de um versinho que declamávamos na infância, cujo autor não tenho ideia:

Hoje é domingo, pede cachimbo
Cachimbo é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Bate na gente
A gente é fraco
Cai no buraco.
O buraco é fundo
Acabou-se o mundo.

Pé-de-moleque. Determinada senhora fazia um bolo caramelizado, recheado de amendoins e punha pra esfriar na janela. A molecada vinha e roubava, então ela gritava: Não precisa roubar! Pede, moleque! …

E a gente imagina que repete corretamente os ditos populares. Mas, nem sempre! Exemplo: no popular se diz:

Esse menino não para quieto, parece que tem bicho carpinteiro. Minha grande dúvida na infância: Que bicho seria esse que é carpinteiro? Mas a frase correta é: Esse menino não para quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro.

Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão. Enquanto o correto é: Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão. Se a batata é um caule subterrâneo; ou seja, nasce enterrada, como se esparramaria pelo chão se ela está embaixo dele?

Cor de burro quando foge. O correto é: Corro de burro quando foge, porque certamente é um petista enfurecido.

Quem tem boca vai a Roma. Bom, esse eu entendia; de um modo errado, mas entendia! Pensava que sabendo se comunicar a pessoa vai a qualquer lugar… Mas, correto é: Quem tem boca vaia Roma. Isso mesmo, do verbo vaiar. Mas por quala razão iremos vaiar Roma, não sei. Só os Mestres Antônio Porfírio ou Edson Mendes poderão me dizer.

Entra agora o cronista nessa história. Nas rodas da malandragem juvenil, já ouvi alguém alterar o ditado, que ficou mais pitoresco: “Quem tem boca vai e arruma!”

Quem não tem cão, caça com gato. Mais um famoso! Eu sempre entendia também, embora errado, mas entendia! Porém o certo é: Se não tem o cão para ajudar na caça, o gato ajuda! Porém, o correto é: Quem não tem cão, caça como gato; ou seja, sozinho.

Outro ditado que muitos dizem errado:

Cagado e cuspido – Nossa Senhora!… Quando alguém quer dizer que é muito parecido com outra pessoa ou produto, usa-se este ditado. Mas o correto mesmo é: Em Carrara esculpido. Carrara, como se sabe, é uma região da Itália onde se extrai um dos melhores tipos de mármore conhecidos.

Vai me dizer que não precisamos de uma dica do Professor Pasquale?

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AUTOMÓVEIS – COMO OBRAS DE ARTE

Packard esportivo modelo 1937

A partir do tempo em que nasci – 1936 – começaram a surgir na Europa, Estados Unidos, Alemanha e acanhadamente em nossa cidade, , automóveis de fabricação especial, que eram verdadeiras obras de arte.

Poucos podiam adquiri-los, porque nesse tempo ainda não existiam as Financeiras e os Bancos não financiavam veículos para turismo, somente viaturas para serviços: caminhões, caminhonetes e ônibus.

Comprava carros quem tivesse dinheiro para importá-los.

Das características de alguns, ainda me lembro de um Packard Esportivo, modelo 1937, que pelo Recife apareceu desfilando, cujo dono era um usineiro, que manteve a “relíquia” funcionando por vários anos depois foi vendido a um colecionador do Rio de Janeiro, para onde foi transportado no navio Jaraguá.

As estradas não davam chance a passeios pelo inteior porque estavam sendo estruturadas e quase todas eram de terra batida. E assim os ricos utilizavam automóveis para amostragem de suas fortunas nos passeios dominicais.

Lembro-me de alguns detalhes interessantes os quais servem para comparações com os modelos atuais que pelo Brasil circulam, os quais no trânsito diário de nossas cidades, mais parecem “baratas tontas” face às ruas entupidas deles e a agonia dos automobilistas diante da pressa de chegar aos seus destinos.

Havia particularidades interessantes, dentre as quais a pintura, em sua maioria preta, porque ainda não havia ocorrido a invenção de cores variadas. Mas o Packard era o que chamamos atualmente: um carro-conceito.

Salientava-se a grande quantidade de partes cromadas, que como sabemos se trata de um revestimento metálico utilizado para evitar corrosão. Hoje coisa rara, porque as muitas peças das carrocerias são pintadas.

Outra particularidade interessante eram os pneus-faixa-branca, o desenho das carrocerias, dando-se destaque ao compartimento do motor, que eram enormes, e o emolduramento do radiador, que na maioria dos modelos evidenciava, em destaque, a marca da fábrica, através de símbolos apresentados como estatuetas no capô.

Estatueta de capô

Alguns itens de segurança tinham destaque pela beleza. Os parachoques, por exemplo, todos de metal cromados, havendo dois estepes, cobertos com capas de metal, que ornamentavam o estribo, outra peça que desapareceu nos modelos atuais.

O compartimento de bagagem era enorme e o interior do veículo permitia a acomodação de 6 passageiros folgadamente, com direito a esticar as pernas à vontade. O volante, geralmente era de marfim e o painel de jacarandá.

O material da carroceria era sólido o suficiente para suportar acidentes sem danos aos passageiros. Hoje, o que se vê, são carrocerias quase todas de material plástico, as quais, pelas fotos dos acidentes nas estradas, vê-se que se desmancham completamente.

Faz-me lembrar um carrinho que apareceu por aqui nos anos de 1960, o “Dauphine”, que de tão frágil foi apelidado de “Leite Glória”, pois, sob inspsiração de famosa propaganda de leite-em-pó da época, cujo slogan era: “Leite Glória – Desmancha sem bater”.

Hoje, tristemente, vemos veículos destituidos de segurança e conforto; sem chassis, sem parachoques, causando dificuldades de acomodação aos passageiros adultos, obrigando qualquer humanóide a ficar de pernas encolhidas, sem o menor conforto. Uns “carretes”, como diria tio Moacir.

A partir do final da II Guerra Mundial – 1945 – fabricantes italianos, suecos, russos, ingleses e franceses, para se adequarem à realidade daqueles anos, passaram a reduzir o tamanho dos seus carros, por economia de material, combustível e de preço mais accessível, lançando os minúsculos: Austin, Prefect, Juvaquatre, Mini Morris, Fiat Punto, Skoda, Opel, Volvo, Slavenka, Lada, etcetera.

Atualmente, com tristeza para nós idosos, o que vemos nas ruas são veículos fabricados para se auferir lucro rápido e propiciar ao governo brasileiro forte tributação de 50% sobre o preço final.

São veículos sem chassis, sem parachoques, sem estribo, sem conforto e sem beleza. Só com facilidades para a compra e lotar as avenidas, diariamente engarrafadas. Nada mais. Os notáveis da década de 1930 só podem ser vistos com colecionadores.

Tudo isso faz parte de nossas “Gavetas de Saudades”, cheias de fotografias do tempo em que os automóveis eram verdadeiras obras de arte.

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A IMAGEM DA VITÓRIA

O Salvador ressuscitado

Por meu ranking de descendentes sou um vitorioso, pois a marca registra: 12 netos e 11 bisnetos. Não é moleza! É orgulho para um velhote de quase 88 anos!

Destes, já “exportei”, somente para os Estados Unidos, 4 netos, que resultaram em 10 bisnetos americanos; os demais estão no Brasil.

Quando há 10 anos andei por aquelas distantes terras, estive em Salt Lake City, capital do estado de Utah, a fim de pesquisar sobre genealogia, e minha nora, Eliane, me levou a visitar uma instituição Mórmon, O Temple Square da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias.

Ali encontrei uma linda estátua de Jesus, bem diferente daquelas que representam um dos dogmas da Igreja Católica, onde sempre aparece o Jesus crucificado, sangrando, vencido.

A estátua que vi representa Cristo de pé sob um arco que nos relembra o Salvador ressuscitado e vivo estendendo os braços para receber todos os que se achegarem a Ele, no momento em que está saindo do túmulo no terceiro dia após sua Crucificação.

A imagem me chamou a atenção e veio substituir, em minha memória infantil, aquela assustadora criação dos artistas católicos, que tanto me apavorou na infância e me comoveu nos tampos de juventude.

A imagem católica deixou-me questões sem respostas lógicas, dentre elas, o que teria feito aquele pobre homem para ser tão torturado? Por qual razão o catolicismo continua a manter a imagem de um Cristo vencido?

Em viagem posterior, visitei, no Arizona, levado por minha neta Maria Eduarda, uma outra instituição Mórmon, perto de Phoenix, onde fui presenteado com a foto que ilustra esta página, consolidando minhas convicções de que o Jesus verdadeiro, para mim, é aquele que se divulga na religião de Mórmon, de acordo com o relato descrito à mão nas placas de Néfi.

Anos depois, recebi a visita de Jack Lawrence, que me presenteou com um exemplar do “Livro de Mórmon”, que diz representar o registro da comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas, compêndio que contem a plenitude do evangelho eterno.

Essa é a imagem que resolvi adotar ao concentrar minhas orações em Jesus, pois é a imagem da vitória.

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RECIFE – PECULIARIDADES URBANAS

Teatro Santa Isabel, prédio sem numeração. Foto de Chico Porto

Tive, em 1955, aos 18 anos de idade, o privilégio de poucos iniciantes: assinar reportagem em páginas da “Folha da Manhã”, jornal fundado por Dr. Agamenon Magalhães, onde mantinham colunas os melhores jornalistas do Recife, na época, dentre eles Mário Mello (Mário Carneiro do Rego Mello), ferrenho defensor do Recife, suas tradições e peculiaridades urbanas.

Há alguns anos compareci ao Instituto Arqueológico, Histórico, e Geográfico Pernambucano em busca de informações sobre a motivação de se homenagear meu avô paterno – João Pacífico Ferreira dos Santos – com um nome de rua, no bairro do Paissandu.

Fiquei sabendo, através de documento, que a homenagem teria sido em rua próxima ao Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção, instituição que a voz do povo simplificou para: Cemitério de Santo Amaro. No caso, por iniciativa do seu genro, Dr. Alfredo Evangelista Vieira, a placa com o nome do meu avô foi designada, então, para o bairro do Paissandu, ao lado da principal entrada do Hospital Português. Uma troca que beneficiou o pedido da família e Mário Melo concordou.

E proseando com dedicado funcionário do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, fiquei sabendo que Mário Mello havia sido o Secretário Perpétuo daquele instituto até seus dias finais. Aliás, se hoje estivesse vivo ele não teria deixado de esbravejar diante das aberrações que temos visto se repetirem nesta cidade e que aqui denominamos: peculiaridades, pra não dizer: aberrações.

Obtive a informação de que tal indicação para uma homenagem póstuma ao meu avô partiu de um vereador, levando em conta toda a atividade que ele exerceu como jornalista, Juiz de Direito e colaborador de Joaquim Nabuco na campanha contra a escravidão.

Jovem jornalista recifense escreveu: Devemos hoje a permanência da Torre Malakov, monumento situado na Praça Arthur Oscar, à campanha por ele empreendida, que evitou sua demolição. O jurista Mário Melo se tornou também um jornalista devotado às manifestações culturais populares e pelo seu grande desejo em vê-las preservadas em sua autenticidade e tradicionalismo, livres das influências políticas e culturais trazidas pelo estrangeirismo e modernidade, segundo nossa colega Letícia Lira, do Jornal do Commercio.

Mário Melo

Há poucos dias precisei de outra informação semelhante, a respeito da Rua Aluízio Periquito e fiquei sabendo que fora a antiga Travessa do Amorim, no bairro do Rio Branco, zona portuária do Recife. Logo, outra rua que trocou de nome. Outra peculiaridade do Recife.

Segundo informações de Lara Torres, do Jornal do Commercio, As mudanças de nomes dos logradouros no Recife são constantes, situação também confirmada pelo leitor Gilson Murilo de Guimarães afirmando que, além disso, temos o problema de que 1.000 ruas não possuem nomes, entre as 8.748 existentes na Capital e alguns prédios importantes não têm numeração. Um exemplo disso é o Teatro Santa Isabel.

O Instituto Arqueológico vai fazendo o que pode, para impedir mudanças em nomes de ruas tradicionais. Além disso, começou a colocar placas indicativas de azulejos, com o objetivo não só de ratificar os nomes de ruas, como também de resgatar sua história. E assim, preservar a memória da Cidade.

Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, questiona mudanças de nomes nas vias do Recife. Por Lei, o órgão deve ser consultado sobre possível mudança na nomenclatura das ruas, mas nem sempre se obedece.

Recentemente se alterou a denominação de uma das principais avenidas do Recife, a tradicional Avenida Norte, que passou a ser: Avenida Norte Miguel Arraes, e circulou pela Câmara Municipal a proposta de se substituir outro nome de avenida: A votação do projeto de lei do vereador Alexandre Lacerda denominando Avenida Sul Governador Cid Sampaio, a atual Avenida Sul, foi adiada devendo voltar ao plenário para nova votação.

Finalizo estas notas lembrando, digamos, um “exagero de entusiasmo”. Entre os bairros de Afogados e Imbiribeira existe uma ponte com o nome de Gilberto Freire e neste mesmo bairro, se completou o nome de um prédio público, que passou a se chamar: Aeroporto Internacional Recife Guararapes Gilberto Freire. Uma denominação deveras exagerada, conforme comentei em meu livro: “Imbiribeira- Passo dos Tocos dos Afogados”.

As homenagens póstumas são devidas, mas as substituições dos nomes já tradicionais nem sempre são próprias e, assim, representam uma das peculiaridades urbanas do Recife.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

VENEZA AMERICANA

Recife, a Veneza Americana

Inspirado em notas de Fernando Novais, quando se referiu à minha cidade como “Porto dos Arrecifes”, informo que ao me dedicar a estudos sobre a obra de Francisco Augusto Pereira da Costa – Anais Pernambucanos – observei que a capital do meu estado já foi conhecida – inclusive em documentos antigos e por vozes populares – por vários topônimos, o que me chamou a atenção para o tema desta crônica historiográfica.

Ouvi falar em várias denominações da cidade, desde as populares às documentadas. E falarei um pouco sobre o tema.

Inicialmente conhecida como “Porto de Olinda”, (atual Bairro do Rio Branco) porque ali se instalou a zona de atracação de navios. Em seguida, foram construídos os armazéns, uma balança para pesar caixas de açúcar e pau-brasil; depois, face ao progresso, surgiram algumas casas de moradia.

Séculos a seguir, veio um traçado de metrópole, com as duas avenidas principais – Rio Branco e Marquês de Olinda, prédios em estilo neoclássico e uma moderníssima ponte-giratória. Até o início dessas reformas era chamada: “Ribeira Marinha dos Arrecifes”.

Mais adiante, desejando Nassau planejar a “Metrópole Brasileira”, focou um novo traçado para ruas e casas, na parte que era conhecida como “Ilha de Antônio Vaz”, ficando a região do porto referida como “Rio Branco” e “Bairro do Recife Antigo”, passando a atual área de Santo Antônio a ser conhecida como “Cidade Baixa”, dado à relação com Olinda, que era a Cidade Alta.

O Recife deixou, em passados anos, de ser “Aldeia do Recife” e começou a disputar com Olinda – que era a “Cidade Alta” – o privilégio de ser uma cidade que cresceu e se tornou capital de Pernambuco. A denominação de “Cidade Baixa” foi criada pelo pirata inglês James Lancaster, que passou pelo Recife em 1594, para fins de saque.

“Aldeia do Recife” e “Povoamento do Recife” foram dois topônimos que seus habitantes ouviram falar, com certa insistência, a partir de 1630. É interessante assinalar que o principal bairro do Recife – que viria a se chamar oficialmente: Bairro de Santo Antônio e contava apenas com 130 casas sendo os sobrados de um e dois andares, além de lojas.

Fico imaginando como essa cidade conseguiu acomodar tantos soldados que vieram da Holanda para tomar o Brasil de assalto, aqui permanecendo durante o período de 1630 a 1654.

Quando o Príncipe Maurício de Nassau aqui chegou e começou a traçar as linhas de uma urbe moderna, concentrou na Ilha de Antônio Vaz a sede do Governo, instalando os tribunais, a Casa da Moeda, a alfândega, as repartições públicas e o empório comercial. Recife tomou corpo. Seria nos anos 1950, com o advento das iniciativas da Sudene, a “Metrópole do Nordeste”.

Com o passar do tempo outras denominações foram aparecendo em jornais: “Cidade dos Rios e das Pontes”, “Cidade dos Arrecifes”.

Uma das mais importantes denominações foi “Cidade Maurícia”, em homenagem popular ao alemão Johann Moritz von Nassau-Siegen, nascido em Dillenburg, que aqui chegou contratado pela Cia. das Índias Ocidentais, no período da invasão holandesa, para ser o Administrador de Pernambuco, pessoa que deu ao lugar foros de “Capital do Brasil holandês”, outro título importante do Recife.

Uma curiosidade! Há vozes correntes e títulos de livros que costumam citar o nome abrasileirado – Maurício de Nassau – como nascido na Holanda, quando, na verdade, era um príncipe alemão e cujo registro de nascimento consta da forma como se escreve no idioma germânico: Johann Moritz.

Em dias recentes eufemisticamente denominnaram minha cidade como: “Recife – Capital do Frevo e do Maracatu”. É mesmo! Para confirmar bastaria se ouvir Cristina Amaral cantando “Recife Manhã de Sol”, notável peça de Jota Michiles, e por esse motivo já poderemos batizá-la com nova denominação: “Recife – Primavera dos Amores”. Vejamos:

Recife Manhã de Sol – De Jota Michiles e interpretação de Cristina Amaral

Todavia, teremos que considerar que em 1938, o radialista Luiz Campos – mais conhecido como Ziul Matos, escreveu os versos e o maestro Nelson Ferreira musicou o frevo-hino que tem atravessado os tempos, tornando nossa cidade a encantadora:

“Recife – Veneza Americana”. Autores: Ziul Matos e Nelson Ferreira

Com o coral misto da Fábrica de Discos Mocambo

“És Veneza Americana
Do mais lindo céu de anil
Minha terra hospitaleira
Namorada do Brasil”.

E assim, considero o Recife não apenas “A Namorada do Brasil”, mas a cidade que é a “Veneza da América do Sul”, portanto, a “Veneza Americana”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MEMÓRIAS PERMANECEM

Pedro Victor dirigindo em Petrolândia

Antes de envelhecer de vez e me tornar inútil tenho procurado rever e registrar memórias das épocas em que nossas cidades eram quase províncias, os hábitos bem diferentes e as dificuldades maiores.

Na década de 1940, meu pai, por ser Propagandista-viajante, se ausentava de casa durante 25 dias de cada mês. Isto me levava à inquietação, por ter que ficar tanto tempo sem aquela garantia que ele representava para a família.

Longos anos vivemos quando ele desempenhou a função de Representante Comercial de produtos farmacêuticos. Viajava pelo interior de vários estados, utilizando trens, ônibus e até caminhões.

Levava malas cheias de amostras de produtos farmacêuticos, a fim de distribui-las ao visitar médicos e farmácias, para divulgar seus produtos. Naqueles tempos de 1950, um trabalho difícil!

Mamãe tinha pulso, mas a imagem de meu velho era a garantia máxima de todos nós. Daqueles anos até hoje ainda sinto tristeza do tempo perdido; com os momentos que deixei de usufruir com ele.

Felizmente compensei-me, muitos anos depois, com meu neto, Pedro Victor, hoje médico, quando, aos domingos, íamos ao Parque da Jaqueira e ele se esbaldava nos brinquedos. Em outro momento, já adulto, me lembro da emoção expressada em seus olhos, quando o coloquei, pela primeira vez, sozinho, ao volante de um automóvel, numa fazenda em Petrolândia.

Recuperei, naqueles instantes, o tempo que não pude contar com a presença de meu velho. Os anos de minha primeira infância foram marcados por essas ausências. E eu culpava os remédios.

Ainda hoje, quase velhote, sou obrigado – por prevenção – a ir com certa regularidade a consultórios médicos. Percebo rapazes e moças – Propagandistas – esperando, com suas malas modernas e bem menores, dotadas de rodinhas, cheias de amostras de remédios. Nessas horas surge a memória daquele difícil trabalho de meu pai.

Ainda hoje, de remédios quero distância! Mas, felizmente, outro dia, melhorei esse conceito, quando ocorreu uma cena singular. Conversando com um amigo escritor, o médico Garibaldi Bastos Quirino, durante almoço em sua residência, observei que ele abriu uma caixinha de plástico que estava na mesa, onde havia comprimidos que teria que ingerir após cada refeição.

E diante de minha história de vida, temporariamente sem meu pai, ele me alertou que os remédios eram nossos melhores amigos. Saí convencido pela autoridade de ser ele, um médico. Mas nunca esqueci de que, por conta dos medicamentos, fiquei com u’a marca psicológica inapagável, porque eles me roubaram, por muito tempo, o pai que era meu melhor amigo.

Por isso confirmo que as memórias permanecem.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CLUBE DE RADIÓFILOS

Palácio do Rádio antiga sede da Rádio Clube de Pernambuco

O progresso exige reflexões porque em algumas ocasiões atribulam aqueles que se apegam às tradições de suas glebas. É de o caso das empresas de comunicação, notadamente jornais e rádios, quando desaparecem do nosso cotidiano, porque deixam marcas indeléveis em nossas melhores lembranças.

Mesmo mudando apenas de formato.

Há poucos meses desapareceu, em papel impresso, o tradicional Jornal do Commercio, do Recife, limitando-se às publicações por vias eletrônicas, atendendo à modernidade do mercado publicitário, pela pressãodos custos dos insumos e do estilo mais refinado dos leitores.

O Diário de Pernambuco, atualmente completando 180 anos de atividade ininterrupta, é considerado o mais antigo jornal em circulação na América Latina, entretanto, permanece com vendas em bancas e assinaturas; apenas alterando o formato, agora em estilo de tabloide.

Voltam-me algumas lembranças. Até poucos anos, quando participei do Departamento de Produtos Especiais, como repórter da equipe de Arijaldo Carvalho, o Diário publicava todas as semanas um Suplemento sob a forma de tablóide, dedicando-se a temas do interior de Pernambuco.

O novo formato lhe permitiu resistir e parece que seus atuais gestores se empenham para que o periódico chegue aos 200 anos de atividade. Diminuiu de tamanho mas continua sendo impresso em papel.

Mas, uma espécie de tsunami vem tirando de circulação tradicionais veículos de comunicação e vão levando também as emissoras de rádio. Já se prevê que brevemente, ao que parece, desaparecerão também as emissoras de televisão.

Esse triste final tem, acima de tudo, um motivo: a fragilidade do comércio e da indústria. As agências de propaganda tiveram que redirecionar seus planos, pois, diante das chamadas Redes Sociais, a captação de propaganda se tornou muito difícil.

Esses milhares de canais de comunicação que vemos na internet vão atraindo milhares de pequenos anúncios e confirmando que sua penetração deu novas formas às antigas maneiras de divulgar propagandas e programas.

Se em anos outros já se dizia que a Televisão diminuiria em 50% a conquista de anúncios das Rádios, agora quem está liquidando com ambos são os canais individuais, pois, face à internet, qualquer pessoa pode montar um estúdio e botar no ar reportagens, notícias e interessantes programas, apenas usando um smarthphone.

Todavia corta nosso coração saber que mais uma antena sai do ar. O antigo clube de radiófilos que funcionava na Escola Superior de Eletricidade, do Recife – transformada depois em Rádio Clube de Pernambuco – foi inaugurada em 6 de abril de 1919 e funcionava sob o prefixo de PRA-8, anunciou que no próximo mês encerrará suas atividades.

A Rádio Clube não somente divulgava assuntos gerais. Criou hábitos e promoveu benefícios às famílias. Na década de 1930 fui ouvinte de programas notáveis. Todos os dias, às 18 horas, minha mãe se concentrava para ouvir a Ave Maria, escrita por Mário Libânio e apresentada sob a locução de Abílio de Castro.

Acostumei-me a fazer exercícios no lar, com meu pai, às 6h da manhã, ouvindo um fizicultor orientar os ouvintes e receber instruções compassadas de Ginástica Canadense.

Aos domingos se postavam diante dos receptores muitos desportistas para ouvir as locuções esportivas de Antônio Maria. A “Hora Azul das Senhorinhas”, sob o comando do maestro Nelson Ferreira, era programa que concentrava a juventude feminina ao pé do receptor.

Pelo rádio escutávamos os seriados de “O Sombra”, as rádio-novelas e notáveis programas de auditório, no Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, sede da Rádio Clube.

Agora, com a triste notícia do seu desaparecimento, só nos resta lamentar pelo muito que a PRA-8 nos ofereceu gratuitamente. Agora, com a triste notícia do seu desaparecimento, só nos resta lamentar pelo muito que a PRA-8 nos ofereceu gratuitamente. Felizmente vivi a época em que suas instalações eram o Palácio do Rádio.

Já fui “macaco de auditório!” Pulava de emoções!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ALGODÃO – ESPLENDOR E DECADÊNCIA

Antiga Fábrica da Macaxeira

Nós, cronistas de Pernambuco, temos o dever de reavivar certos temas que se referem ao progresso e à história de nossa gente. E por isso, registro alguns fatos que interligam duas épocas. O algodão, seus esplendores e a decadência dessa cultura em Pernambuco.

Logo que nasci fui residir com meus pais numa casa situada na Vila da Fábrica, no bairro da Torre. Até os cinco anos me acostumei a ouvir o ruído das máquinas e o apito que controlava os horários dos trabalhadores do Cotonifício da Torre S.A., uma empresa que fabricava tecidos a partir das fibras de algodão. Sempre que vejo um chumaço de algodão ou visto uma roupa fabricada com essa fibra, o pensamento volta à infância.

Menino ainda eu percebia que minha tia Amália, ao confeccionar bonecas de pano, se referia aos tecidos que usava, como sendo “madapolão”, palavra que era a corruptela de “Made in Poland”, marca que aparecia nos tecidos produzidos com fibra de algodão, pela Societé Cotoniere Belge-brasiliense, empresa belga, que funcionava no município de Moreno.

Os tecidos de algodão, além de mais baratos, sempre foram a preferência das costureiras. Na década de 1940, por exemplo, as Lojas Paulista e as Casas José Araújo S.A. praticamente dominavam o comércio desse produto, que anos depois foram sendo substituídos, na comercialização, por aqueles fabricados com subprodutos de petróleo.

Um toque pitoresco e histórico cabe assinalar através de notas de Ete Miguel Batista: O bairro da Macaxeira, situado na zona norte do Recife, recebeu esse nome devido um sítio em que seu dono possuía uma plantação de macaxeira. Por volta de 1895, construiu-se no local do sítio a Fábrica de Tecido de Apipucos, que a princípio era uma pequena produtora de panos de estopa utilizados para ensacar açúcar.

Em 1924, Othon Lynch Bezerra de Melo, comerciante natural de Limoeiro, comprou a pequena empresa e a transformou na Fábrica de Tecidos Bezerra de Melo. Conhecido como Coronel Othon, investidor e visionário, foi buscar fora do Brasil maquinários que modernizaram a fabricação de tecidos em Pernambuco, tornando-se assim um dos maiores empresários do estado.

A partir dos anos de 1970 o algodão perdeu seu esplendor em termos de produção agrícola, sobretudo pelos ataques do inseto bicudo-do-algodoeiro, a principal praga ocorrida nas Américas.

Lembro-me de um tempo em que funcionaram em plena cidade e Região Metropolitana, muitas fábricas de tecidos: Cotonifício Victor de Araújo S. A., Cotonifício Othon Bezerra de Mello S.A., Cotonifício Capibaribe S.A., Fábrica da Macaxeira, Cia. de Tecidos Paulista, Alberto Lundgren Tecidos S.A., Algodoeira Ipojuca Ltda., Algodoeira Lajense S. A., Cotonificio da Torre S.A., Societé Cotonière Belge-Brasiliense, Fábrica de Tecidos Bezerra de Mello S.A. e o Cotonifício Moreno S.A.

Ao surgirem as malhas sintéticas, utilizando tecidos originário de produtos da indústria petroquímica, como o poliéster, o algodão perdeu a concorrência, sobremodo para os produtos importados da China.

O algodão tem ainda em Pernambuco, considerável procura, para a confecção de roupas, sobretudo nos municípios em que predomina o clima tropical. No Brasil a cidade de Sapezal, no Mato Grosso, é a maior produtora, tendo colhido em 2020: 990 mil toneladas da fibra para a exportação.

Segundo notas do Ministério da Agricultura: Outra referência da cotonicultura brasileira é a cidade baiana de São Desiderio, que chegou a ser líder da produção nacional e em 2020 colheu 543 mil toneladas de algodão com valor de 1,64 bilhão de reais, para favorecer a exportação nacional.

No principal cenário, a China e a Índia estão nos primeiros lugares e o Brasil é o quarto maior produtor de algodão do mundo, se aproximando cada vez mais da produção dos Estados Unidos. Os maiores compradores da fibra brasileira são os asiáticos, liderados pela China. Assim temos a considerar que em termos mundiais nosso país continua a exibir seu esplendor em termos de produção algodoeira.

Segundo notas do Instituto Agronômico de Pernambuco a cultura do algodão veio da África Central, da Península Arábica, do Paquistão e das Américas, havendo registros de até 4.500 anos a.C.. A produção industrial começou nos estados da Região Nordeste. O algodão veste 40% da população mundial, sobremodo a partir da utilização das calças jeans.

Coleta do algodão de Pernambuco

Fábio de Albuquerque, pesquisador da Embrapa Algodão nos informa que no caso de Pernambuco, atualmente, há apenas dois polos de produção, sendo um em Serra Talhada e outro em Ouricuri, municípios do Sertão. O Nordeste, mesmo com a seca, é uma das áreas mais propícias para a produção porque trata-se de uma planta que tem boa tolerância à falta de água.

Haverá o dia em que algodão de Pernambuco terá o mesmo esplendor dos tempos de minha infância.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RECIFE CIDADE-ESTADO

Banco de Londres, majestosa sede no Recife

Depois de publicar três títulos sobre assuntos bancários e ter sido profissional dessa categoria durante 30 anos, sinto-me na obrigação de reavivar alguns assuntos sobre esse mister, para que a geração atual possa vir a entender alguns modos de funcionamento dessas instituições e seus derivados, em eras passadas.

No livro Recife – da moeda ao crédito, que entreguei à CEPE para publicação, documentei parte da História econômica que se vai tornando esquecida nas estantes. Para isso serve a crônica. Trazer fatos de algumas épocas e comentá-los, comparando-se os períodos, a fim de se observar os contrastes.

Na época em que a moeda se transforma em apenas um sinal de voz, através de um smartphone – modelo de aplicativo que já começa a superar o QRcode – é oportuno evidenciar o papel do dinheiro e das empresas intermediadoras das operações financeiras.

É importante afirmar, que o Recife já assumiu, de fato, todos os poderes de cidade-estado, quando aqui, inclusive, foram cunhadas as primeiras moedas brasileiras, que eram de ouro.

Não se deve esquecer que nossa cidade foi representação internacional de estado e país, pois, era a capital do Brasil holandês, quando tomou a denominação de “Cidade Maurícia”.

As nações da Europa, notadamente a Espanha, Portugal, Alemanha e a Holanda – justamente aquelas que dominavam o comércio mundial – olhavam para o nosso torrão avaliando bem sua posição econômica e a capacidade de produzir bens.

Daí veio a necessidade de produzir estas páginas.

Muitas delas foram escritas em latim e não ficaram esquecidas, pois foram cuidadosamente guardadas na Holanda e na Alemanha, como relíquias que verdadeiramente são.

Éramos representantes de uma nação que já misturava as raças tão harmonicamente, criando a identidade diversificada, capaz de mostrar-se com estrutura emergente, como nação nova e gente audaz.

Essa audácia ficaria comprovada pelo modelo de ações de progresso que inspiraram o slogan de sua bandeira.

Os recifenses se apresentavam nos embates encarniçados de Guararapes, Tabocas e Tejucupapo, como uma gente brava e altaneira, capaz de defender-se do invasor e de preservar seu direito patrimonial ao custo do sangue de seus semelhantes.

Noutras oportunidades, como pessoas inteligentes e hábeis, apresentando ao mundo suas ideias, artes e letras, capazes de se harmonizar com o Governo Holandês, para promover o progresso da cidade-estado.

Agora, depois de mais de 400 anos, balizando o Período Holandês – notadamente a fase do Governo de Nassau – temos estudado esses momentos, levantando outros fatos empoeirados e quase escondidos nas gavetas da memória histórica que se encontra além de nossas fronteiras, para se reavaliar os costumes de hoje.

Os Bancos, banqueiros e bancários não estão separados ou a margem dessa História. São partes integrantes delas.

Pretendemos realçar alguns desses momentos e pessoas, fatos quase anônimos, para que não fiquem imóveis na distante época do 1500, ainda tão pouco focados, para que se releve o mérito dos seus atores, aqueles que laboraram de sol a sol, pacientemente, em suas escrivaninhas.

Os comerciantes, industriais e banqueiros arriscaram seus capitais. Os bancários e demais trabalhadores mourejaram dia a dia, dando muito de si para que a sociedade galgasse patamares importantes em termos de concorrência mundial.

Mas não posso desconsiderar, entretanto, os muitos movimentos armados que nossos livros registraram, como notáveis demonstrações de civismo.

Mas a História não se monta apenas com fatos relevantes, sob a ação de armas, com generais e soldados.

A periferia dos acontecimentos, às vezes pode parecer insignificantes, mas dá-nos mostra legítima e clara de muita coisa que não se sabia, oferecendo aos sociólogos detalhes indicativos para se entender os dias que ficaram nas estradas do tempo.

Colar de pérolas com um grande W entrelaçado que são as iniciais da GEOCTROYEERDE WEST-INDISCHE COMPAGNIE (Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais), o respectivo valor expresso em algarismos romanos

Pelo fato de se haver cunhado no Recife as moedas de ouro, que por si só representavam o lastro do seu valor, as quais circulavam no Brasil holandês, ganhamos uma artéria com nome incomum: Rua da Moeda.

E saiba-se que em Pernambuco funcionou, em 1540, a primeira instituição bancária do Brasil: a Casa Bancária dos Fugger (atual Fugger Privat Bank KG).

Em 1637 o “Recife de Pernambuco” era o Brasil. A placa que se vê na Rua da Moeda talvez tenha sido ali fixada a fim de perpetuar o fato de que fomos a única cidade-estado brasileira.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

JOÃO DE BELLI

Um dos homens mais engraçados que eu já conheci se chamava simplesmente João de Belli. Escrevia para jornais e dele publiquei dois livros. Foi meu colega no Banco do Brasil.

Como homenagem póstuma àquele amigo vou reproduzir seus “feitos literários”, como ele costumava definir seu besteirol.

Outro dia, revendo meus arquivos fui encontrar algumas preciosidades de suas “filosofias”, consideradas um tipo de humor simples e de efeito rápido. “Era tiro e queda”. Leu, gostou.

Era um menino tão danado que ao tomar um banho de rio mordeu até as piranhas.

Circulava andando de binóculo porque seu psiquiatra recomendou que ele se aproximasse mais das pessoas.

Silêncio é um ruído que ninguém ouve.

Havia um anão tão pequenino que só podia ser fotografado em 3 x 4.

Quem não tem papel-higiênico não deve tomar laxativo.

Quem não deseja pagar Imposto de Renda não deve arranjar emprego.

Como detestava discutir com mulher resolveu casar-se com u’a muda.

Roncava tão alto que se acordava com o ruído que ele mesmo provocava.

Era um ladrão tão preguiçoso que depois de assaltar um Banco esperou o noticiário dos jornais para saber a quantia roubada.

Em certa família havia tantos matemáticos que alguns eram “primos entre si”.

Era um bombeiro tão concentrado que até sua música preferida era “A dança do fogo”.

Fez uma cirurgia de catarata que lhe custou “os olhos da cara”.

Chamo-me João de Belli, mas sou também o João de minha esposa e dos meus filhos.

Pesquisando sobre a família encontrei que os Belli vieram da região do Tyrol, na Itália e chegaram ao Brasil com Felice de Belli, que se radicou na Paraíba, enriqueceu e tornou-se Cônsul de seu país. Dessa família são os escritores Osiris e João de Belli, que juntamente com seu irmão Ariosto, foram altos funcionários do Banco do Brasil.

• Na falta de foto daquele pranteado amigo – João – faço homenagem à família, publicando um retratinho de Célia e Célio de Belli, seus bisnetos.