CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Antiga Fábrica da Macaxeira

Nós, cronistas de Pernambuco, temos o dever de reavivar certos temas que se referem ao progresso e à história de nossa gente. E por isso, registro alguns fatos que interligam duas épocas. O algodão, seus esplendores e a decadência dessa cultura em Pernambuco.

Logo que nasci fui residir com meus pais numa casa situada na Vila da Fábrica, no bairro da Torre. Até os cinco anos me acostumei a ouvir o ruído das máquinas e o apito que controlava os horários dos trabalhadores do Cotonifício da Torre S.A., uma empresa que fabricava tecidos a partir das fibras de algodão. Sempre que vejo um chumaço de algodão ou visto uma roupa fabricada com essa fibra, o pensamento volta à infância.

Menino ainda eu percebia que minha tia Amália, ao confeccionar bonecas de pano, se referia aos tecidos que usava, como sendo “madapolão”, palavra que era a corruptela de “Made in Poland”, marca que aparecia nos tecidos produzidos com fibra de algodão, pela Societé Cotoniere Belge-brasiliense, empresa belga, que funcionava no município de Moreno.

Os tecidos de algodão, além de mais baratos, sempre foram a preferência das costureiras. Na década de 1940, por exemplo, as Lojas Paulista e as Casas José Araújo S.A. praticamente dominavam o comércio desse produto, que anos depois foram sendo substituídos, na comercialização, por aqueles fabricados com subprodutos de petróleo.

Um toque pitoresco e histórico cabe assinalar através de notas de Ete Miguel Batista: O bairro da Macaxeira, situado na zona norte do Recife, recebeu esse nome devido um sítio em que seu dono possuía uma plantação de macaxeira. Por volta de 1895, construiu-se no local do sítio a Fábrica de Tecido de Apipucos, que a princípio era uma pequena produtora de panos de estopa utilizados para ensacar açúcar.

Em 1924, Othon Lynch Bezerra de Melo, comerciante natural de Limoeiro, comprou a pequena empresa e a transformou na Fábrica de Tecidos Bezerra de Melo. Conhecido como Coronel Othon, investidor e visionário, foi buscar fora do Brasil maquinários que modernizaram a fabricação de tecidos em Pernambuco, tornando-se assim um dos maiores empresários do estado.

A partir dos anos de 1970 o algodão perdeu seu esplendor em termos de produção agrícola, sobretudo pelos ataques do inseto bicudo-do-algodoeiro, a principal praga ocorrida nas Américas.

Lembro-me de um tempo em que funcionaram em plena cidade e Região Metropolitana, muitas fábricas de tecidos: Cotonifício Victor de Araújo S. A., Cotonifício Othon Bezerra de Mello S.A., Cotonifício Capibaribe S.A., Fábrica da Macaxeira, Cia. de Tecidos Paulista, Alberto Lundgren Tecidos S.A., Algodoeira Ipojuca Ltda., Algodoeira Lajense S. A., Cotonificio da Torre S.A., Societé Cotonière Belge-Brasiliense, Fábrica de Tecidos Bezerra de Mello S.A. e o Cotonifício Moreno S.A.

Ao surgirem as malhas sintéticas, utilizando tecidos originário de produtos da indústria petroquímica, como o poliéster, o algodão perdeu a concorrência, sobremodo para os produtos importados da China.

O algodão tem ainda em Pernambuco, considerável procura, para a confecção de roupas, sobretudo nos municípios em que predomina o clima tropical. No Brasil a cidade de Sapezal, no Mato Grosso, é a maior produtora, tendo colhido em 2020: 990 mil toneladas da fibra para a exportação.

Segundo notas do Ministério da Agricultura: Outra referência da cotonicultura brasileira é a cidade baiana de São Desiderio, que chegou a ser líder da produção nacional e em 2020 colheu 543 mil toneladas de algodão com valor de 1,64 bilhão de reais, para favorecer a exportação nacional.

No principal cenário, a China e a Índia estão nos primeiros lugares e o Brasil é o quarto maior produtor de algodão do mundo, se aproximando cada vez mais da produção dos Estados Unidos. Os maiores compradores da fibra brasileira são os asiáticos, liderados pela China. Assim temos a considerar que em termos mundiais nosso país continua a exibir seu esplendor em termos de produção algodoeira.

Segundo notas do Instituto Agronômico de Pernambuco a cultura do algodão veio da África Central, da Península Arábica, do Paquistão e das Américas, havendo registros de até 4.500 anos a.C.. A produção industrial começou nos estados da Região Nordeste. O algodão veste 40% da população mundial, sobremodo a partir da utilização das calças jeans.

Coleta do algodão de Pernambuco

Fábio de Albuquerque, pesquisador da Embrapa Algodão nos informa que no caso de Pernambuco, atualmente, há apenas dois polos de produção, sendo um em Serra Talhada e outro em Ouricuri, municípios do Sertão. O Nordeste, mesmo com a seca, é uma das áreas mais propícias para a produção porque trata-se de uma planta que tem boa tolerância à falta de água.

Haverá o dia em que algodão de Pernambuco terá o mesmo esplendor dos tempos de minha infância.

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