CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RASPADINHAS

Jovem índia brasileira exibindo seu colar

O livro “1001 Dicas de Português” que o acadêmico Antônio Porfírio da Silva comprou especialmente para me presentear, representa a complementação do período completo do meu Curso Ginasial.

Mal sabia que algum dia dedicar-me-ia às letras e viria a sentir tanta necessidade de dominar bem o vernáculo pátrio.

Todos os dias deito os olhos nas fabulosas páginas da professora Dad Squarisi e de Paulo Cunha para reaprender nosso idioma, compensando os tempos que perdi no Ginásio, pois nunca me debrucei com afinco à matéria.

Nas páginas desse livro tenho colhido preciosidades literárias que vou aplicando às minhas crônicas semanais. Hoje, estou mandando para minha filha, noras e amigas casadas, um dos ensinamentos mais cativantes dos motivos ali exemplificados. Por exemplo o termo: “Dona de Casa”.

Sempre se pensou, por aqui, que fosse certa espécie de gozação, pois algumas costumam dizer que se trata de uma denominação indicativa de “Escrava do lar”. Mas, na verdade vernacular, é aquela que manda; a mandona, termo que abreviado, termina como: “a dona”.

A palavra dona vem do latim: domina. Portanto, a denominação está correta.

Na terra dos Césares, a dona era a mulher casada. Ela tomava conta da domus – casa. E aqui acrescento: é, em nossos dias, aquela que manda, de fato. Daí vem o nome de dona, a mandona, a Manda-Chuva.

Até na música, onde o poeta Geraldo Azevedo assim se referiu:

A dona da minha cabeça
Ela vem como um carnaval
E toda a paixão recomeça
Ela é bonita, é demais.

Nunca duvidei disso! Maridos inteligentes, sabem perfeitamente quem é que manda em suas casas: a dona.

Mas, com o decorrer dos anos e modos de viver, acabamos por “inventar” essa triste denominação de: “Dona de Casa”, que estão representadas por ricas ou pobres infelizes, que no lar, tomam conta de tudo. Pegam a carga maior de afazeres;

E, de resto, não são donas de nada, pois vivem atreladas aos maridos, sócios desde o conjugo vobis. Quando muito, algumas são na verdade, apenas sócias sem pró-labore.

Na página 95 – das 314, do mesmo livro, divirto os maiores de idade, abordando um tema pouco comum: as “vergonhas”, assunto comentado pelos autores, aliás, com muita elegância: as índias raspadinhas.

Na Idade Média, a depilação era heresia punível com a vida, diz Dad Squarisi. Mas as índias brasileiras não sabiam disso. E se depilavam há tempos por motivo de saúde.

Chamaram, inclusive, a atenção de Pero Vaz de Caminha – o escrivão da frota de Cabral na época do “achamento” do Brasil – por terem as vergonhas bem raspadinhas – como ele disse em sua célebre carta.

Na verdade, a ausência dos pelos pubianos nas índias não era questão de genética, embora haja questionamentos quanto aos rostos e outras partes dos corpos dos índios, onde não afloram pelos.

O escrivão Caminha não sabia, mas nossas índicas – já naqueles tempos – raspavam os pelos das “vergonhas” utilizando peixes-lixa, a fim de evitar a proliferação de carrapatos e pulgas.

Algo plenamente justificado.

Tubarão-lixa, instrumento depilatório das índias

Entretanto, o escrivão de El Rey Dom Manuel não deixou escapar o fato, informando que as índias brasileiras tinham suas “vergonhas” bem raspadinhas.

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PORTO DOS ARRECIFES

Um livro de relembranças

Crônica nunca foi reportagem, mas às vezes se assemelha.

Pela necessidade de transmitir aos jovens de hoje comentários importantes sobre a cidade do Recife, peço licença para me reportar a acontecimentos citados no livro do meu querido amigo Dr. Ferdinando Artur Falcão Novaes, jornalista, escritor, locutor de rádio, desenhista, geógrafo e engenheiro.

O homem não é de brincadeira! É de trabalho!

Temos certas ligações afetivas. Com a cidade, atividades profissionais e com nossos tempos de ontem. Somos oitentões e vivemos quase as mesmas épocas de um Recife que andava devagar e era muito louvado nas crônicas de Mário Sette.

Ferdinando Novais já publicou obras importantes, dentre elas: Olinda, Evolução Urbana, Delmiro Gouveia, precursor da Chesf e Porto dos Arrecifes, que serve de base aos comentários desta crônica.

Nosso encontro ocorreu no lançamento festivo do livro Comendador Capiba, de Luiz Felipe de Moraes Moura e a partir daí estreitamos a distância em que se encontravam nossas almas. Inauguramos uma amizade pra valer!

Dos nossos tempos, aparece em seu livro sobre o porto do Recife, a época em que, muito jovens, fomos ver o Presidente Vargas desembarcar de um hidroplano da Condor Sindikat e ser transportado por pequeno barco que o levou ao Cais de Santa Rita, que hoje não existe mais. Um inacreditável, porque precário, desembarque presidencial!

Ferdinando viveu a época em que o Coronel Viriato (Oswaldo Passos Viriato de Medeiros) era o administrador do porto de nossa cidade e tudo era progresso e seriedade. Ainda estudante de engenharia o escritor iniciou-se como profissional, no canteiro de obras da ex-Estação de Passageiros dos hidroaviões, no mesmo cais que se deslumbrara na infância, vendo os aviões chegarem navegando pela bacia do rio Pina, atual Cais José Estelita, originário do grande aterro que começava no Forte das Cinco Pontas, o “Chupa” – que aliás, hoje, só tem quatro baluartes – e termina perto do Cabanga Iate Clube de Pernambuco.

É bom lembrar que foi Duarte Coelho – primeiro donatário da Capitania de Pernambuco – quem escolheu o local que era abrigado das correntes marítimas pela muralha formada pelos arrecifes à sua frente. Assim, aquela ilha se tornou o ancoradouro para o serviço da capitania, daí se desenvolvendo a cidade do Recife.

O naturalista Charles Darwin quando aqui esteve no século XIX, escreveu: “Não creio que haja no mundo inteiro igual formação natural”. E como cita Ferdinando Novaes: Parece na baixa-mar um quebra-mar construído por ciclopes.

As ondas nem de leve o carcomem. É um dos fatos mais curiosos de sua história, sendo devida a um revestimento muito duro de matérias calcárias com algumas polegadas de espessura e inteiramente formadas pelo aparecimento e morte de pequenos tubos de sérpulos, anatifas e malíporas.

São seres insignificantes que prestam os maiores serviços aos habitantes de Pernambuco, consertando-lhes o arrecife e garantindo-lhes o porto.

A partir de 1548 recebeu o nome de “Porto de Olinda”, anos depois passou a ser citado como: Ribeira Marinha dos Arrecifes. Aos poucos o porto foi sendo habitado, surgiram os trapiches, mocambos de pescadores e a Igreja de São Telmo. Anos à frente veio a se tornar o bairro de São Frei Pedro Gonçalves do Recife, padroeiro dos navegantes.

Meninos, nós dois, ficávamos maravilhados vendo a abertura da Ponte Giratória, dando passagem aos grandes barcos à vela e navios de vários portes, que navegavam pelo Capibaribe com destino ao mar. Era um espetáculo encantador!

Escritor Ferdinando Novaes

Lembra Ferdinando em seu magnífico livro: Porto dos Arrecifes que os índios chamavam aquele lugar de Paranã Buco.

Depois outra iniciativa importante para a modernização do bairro-ilha: em 1885, já sob orientação de Alfredo Lisboa, a Prefeitura abriria uma avenida de 24 metros de largura ligando a ponte Buarque de Macedo ao cais, que tomaria o nome de Av. Rio Branco. (homenagem póstuma ao diplomata José Maria Paranhos Jr., Barão do Rio Branco).

E depois outra, em paralelo, saindo da ponte Maurício de Nassau, atual Av. Marques de Olinda (Pedro de Araújo Lima, ex-Presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil).
Dessas modernizações Novaes informa que entre 1923 e 1930 foi construída uma ponte giratória ligando o cais do bairro do Recife ao Cais de Santa Rita, houve a aquisição de equipamentos modernos e eletromecânicos: guindastes, pontes e armazéns frigoríficos e depois o aterro sobre o qual seria construída a Av. José Estelita.

No Pina se fez aterro para o futuro Parque de Inflamáveis, área que foi invadida em 1956 transformando-se em Brasília Teimosa, apelido que deu nome ao bairro invadido porque coincidiu com a mesma época em que o presidente Juscelino Kubtschek construía a nova capital do Brasil.

Outra época importante para o Recife ocorre a partir da década de 30 quando o arquiteto Nestor de Figueiredo apresentou um plano geral para o Recife, dele surgindo a abertura de largas avenidas radiais que incluía praças e a perimetral ao longo do canal Derby-Tacaruna, a atual Av. Agamenon Magalhães (título dado in memorian ao ex-governador de Pernambuco Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães).

O livro Porto dos Arrecifes é um relicário de informações sobre a antiga “Arrecifes dos Navios”, assim denominada por nossa gente. Folhear suas páginas é recordar parte da infância daqueles que já ultrapassaram importante medida de tempo: os 80 anos de vida.

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VIAGENS DE NUMERÁRIO

O artista Charles Bronson

O escritor Fernando de Castro Lobo, (por coincidência pai do grande cantor e compositor Edu Lobo), escreveu notas para um dos meus livros biográficos, uma das quais se tornou, para mim, estrutural. E costumo repeti-la:

Recordar não é querer que o tempo volte. É mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações. Há qualquer coisa no ar do Recife que distribui um tônico maravilhoso que dá de graça uma longevidade alegre aos pernambucanos como o historiador Carlos Eduardo.

Agora mesmo, vivendo os dias dos meus 88 anos, comprovo que o ar do Recife tem mesmo o gás de encantador saudosismo. Vivi tempos que os jovens de hoje mal podem imaginar.

Como os bancários dos anos 50 poderiam enfrentar as estradas e os ares, sendo responsáveis por sacos enormes, abarrotados de dinheiro? Pois é! Não constava nas leis trabalhistas. Mas acontecia.

Assaltos? Só se via nos filmes de Hollywood. Quando Charles Bronson era um implacável agente da lei.

E como as coisas não eram como hoje, quando um simples toque digital se transfere milhões de um lugar para outro, naqueles tempos os funcionários do Banco do Brasil tinham que acompanhar carregamentos de somas enormes armazenadas em precários sacos de juta, de uma Agência para a outra.

Havia também transporte de numerário em moedas, através de navios, cuja carga chegava até a Agência do Recife conduzida por carroças de tração manual.

Lembro-me que certa vez, para acompanhar o transporte de quatro sacos, fui chamado para uma viagem ao Rio de Janeiro, juntamente com os colegas Marcondes Ferraz e Geraldo de Souza.

Fui orientado por meu chefe, Carlos Emílio Schuler, para só usar o armamento que eu iria portar – um revólver calibre 38 – se houvesse extrema necessidade e mesmo assim, atirando para cima. Fui para a casa preocupado. Agora não portaria uma pistola de brinquedo era um revólver de verdade.

Aos 25 anos, já casado e pai de dois filhos, eu que nunca havia sequer pegado numa arma, vi-me diante da transformação em realidade as minhas brincadeiras de criança, quando me passava por caubói e dava tiros sob o som da boca. Agora seria eu um defensor do dinheiro. A coisa ficara séria!

Na Tesouraria do Banco nos esperava João Pires de Menezes, com os documentos para assinar e receber os revólveres, cartucheiras, as chaves dos cadeados e quatro sacos contendo o dinheiro. Senti-me um Charles Bronson de verdade. Um agente da lei. Tudo agora era “de verdade”.

No aeroporto acompanhamos a pé os carregadores, que num carrinho levaram os sacos para o bagageiro do “Constellation” da Panair do Brasil.

Depois que todos os passageiros embarcaram e a porta de bagagens se fechou entramos no avião. Fomos à cabine para entregar as armas ao Comandante Milcíades, atendendo às normas da Panair.

Senti certo alívio ao me livrar daquela máquina de matar. Mas, ao mesmo tempo, desprotegido. Nosso destino era a Capital da República, nessa época, o Rio de Janeiro. Teríamos bom tempo para conversa.

Sentei-me ao lado de Seu Geraldo e pensei em tudo quanto seria ruim. Eu agora era corresponsável por uma porrada de dinheiro, estava desarmado, ali poderiam estar alguns bandidos disfarçados de “gente boa”, mas portando metralhadoras para nos render. E pensei mais: se desse um defeito no avião os mecânicos estavam lá embaixo.

Mas me lembrei do artista de Hollywood que eu representava nas brincadeirinhas da minha infância. Eu tinha que encarnar, naquele instante, o corajoso astro dos filmes que eu assistia no Cine Eldorado.

Notando meu discreto nervosismo, Seu Geraldo começou a conversar para me relaxar e indagou:

– Carlinhos, você já atirou alguma vez?

– Já Seu Geraldo! Mas, eu era criança, representava Charles Bronson, os tiros eram “de boca” e o revólver de madeira.

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EDITOR GERIÁTRICO

Tarcísio Pereira, o notável livreiro e editor

No decorrer dos tempos perdi grandes amigos. Um deles, Tarcísio, que se foi em 2021, com 73 anos, vitimado pela pandemia.

Uma pessoa de quem me afeiçoei desde 1984 quando editei o livro: “Capiba, sua vida e suas canções”.

Um livrinho sem grandes esperanças de vendagem, mas, dias depois do lançamento estava na vitrina da sua Livraria Livro 7, considerada na época a maior do Brasil.

Dias depois fui agradecer a promoção das vendas e dele recebi a sugestão para biografar Claudionor Germano, um dos melhores cantores de frevo de Pernambuco. Foi outro sucesso de vendas.

Pegando o embalo, me dediquei a escrever biografias de pessoas de idades avançadas:

Alcides Rodrigues de Sena, Manuel de Freiras Cavalcanti, Romildo Gláurio da Rocha Leão, Otacílio de Alcântara Venâncio, Carlos Emílio Schuler, Augusto Farias da Silva, Miguel Medeiros Filho e vários outros, também idosos, mas já falecidos.

Tarcísio sempre teve o cuidado de impulsionar os escritores do Recife, oferecendo-lhes oportunidades para divulgar seus livros em exposições e bienais e em sua magnífica livraria. Fui um dos beneficiados em haver participado em exposições e bienais.

Liquidada a Livro 7 transferi minhas atividades para a Editora Livro Rápido, de onde ele se tornou diretor. Permanecemos lá por 40 nos, até que ele fundou sua própria editora.

Tarcísio e este colunista na Bienal Internacional do Livro

Certa feita, numa festa de lançamento de livro, no Clube Internacional do Recife, batíamos um papo com Sérgio Loureiro, quando ele indagou se eu ainda estava dando preferência a figuras de idades avançadas.

Tive o cuidado de completar a resposta assinalando alguns nomes e suas idades, ao que, num rasgo de humorismo tipicamente inglês, saiu com esta:

– Então você se transformou num editor-geriátrico!…

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AUTÓGRAFOS E DEDICATÓRIAS

Livro lançado grátis para convidados

Para comparecer ao lançamento festivo do livro “Poesia é amor, crônica é vida”, de autoria do cirurgião-geral e perito da Unimed, Garibaldi Bastos Quirino, recebi em minha residência, o convite com um exemplar, de presente, com atenciosa dedicatória. Fino ato de amizade educação!

Imaginei então, certa discrepância nos autógrafos “agarranchados” que geralmente são escritos durante os lançamentos de livros, quando uma fila de compradores se forma diante da “vítima”, que ao invés de aproveitar a festa para confraternizar com os amigos, se submete à tortura de escrever uma dedicatória longa e cheia de rebuscados.

Publiquei, há pouco tempo, certo livro onde o biografado, por sua idade avançada, tinha a letra tremida. E me pediu para imprimir, na Folha de Guarda uma “dedicatória-padrão”, deixando uma linha para “riscar” aquilo que entender-se-ia ser sua “assinatura”.

Já que se fala em autógrafos será bom lembrar que em anos que já se vão longe, as editoras promoviam um Pré-lançamento em livrarias, oferecendo, a título promocional, os primeiros 1.000 exemplares numerados e assinados pelo autor. Tenho um desses!

Nos atuais lançamentos é diferente. Faz-se uma festa, anuncia-se na Imprensa, é oferecido um coquetel e tudo o mais, semelhante a um baile; inclusive com pessoas de fino trato e em trajes sociais.

Alguns até realizam o evento nos Salões Nobres de Clubes ou “Casas de Festa”, e até com a apresentação de cantores, bailarinos e música-ambiente.

O infeliz convidado, coitado, para não ser descortês, comparece sorridente. Logo na Recepção, se depara com belas moças. Uma vende os livros, a outra anota num papelito, o nome do adquirente, evitando que “a vítima” se esqueça do nome do “convidado-comprador”, e uma terceira, apresenta um Livro de Presenças, a fim de ser conferidos os convidados que comparecerem.

No primeiro ato já se nota alguns convidados, de “exemplares-comprovantes” em punho, que enfrentando a fila indiana se dirigem à mesa onde está “a vítima” trabalhando arduamente; ou seja, exigindo seu autógrafo, o que o leva a ter que escrever uma dedicatória, não simplesmente o autógrafo.

Seria uma festa de confraternização se o autor apenas autografasse o livro em pré-lançamento, e não se cumprisse uma das regras da modernidade: escrever uma dedicatória.

Colaborei durante vários anos com meu amigo – o colunista social João Alberto – desde quando produzimos, com Augusto Costa Boudoux, a edição inaugural, em 1982, do seu anuário: “Sociedade Pernambucana”.

Livro de João Alberto: custo alto e dedicatória garantida

Talvez a primeira festa de pré-lançamento de livro, no Recife, haja sido no Country Club de Pernambuco. Já naquele ano, o autor, no caso a “vítima”, ficava horas escrevendo dedicatórias e assinando.

Ou seja, aquele trabalhão; perdendo o melhor da festa, que ´é a confraternização durante naqueles momentos de glória, dos sorrisos e dos abraços.

Em tempos presentes em que as modernidades predominam. Tornou-se usual, além da assinatura do autor, uma dedicatória.

Nos idos de 1940 era bem diferente. Aparecia nos livros à venda – alguns, fora das vitrinas – um detalhe indicativo de preço mais elevado. Eram as edições especiais, porque estavam numerados e com o autógrafo do autor.

Meu pai, bom colecionador de livros raros e de autores seus conhecidos, costumava adquirir, pelo Correio, da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, exemplares desse tipo.

Não havia ainda a “festa de lançamento” como atualmente acontece. Só que nos dias atuais, tem havido uma diferença que me encabula.

O cidadão compra o livro, entra numa fila enorme e ao chegar ao autor e entregar seu exemplar, recebe uma dedicatória personalizada, como se ele estivesse doando o livro.

Uma coisa meio sem jeito! Mas, brasileiros, costumam criar modelos em tudo. Todavia, não tem sentido o interessado comprar e receber dedicatória como se tivesse sido presenteado. Tem lógica?

Mas, presenciei uma notável exceção. Quando lançamos o livro biográfico: “Otacílio Venâncio – Cidadão do Recife”, em 2008, a festa aconteceu no Salão Nobre do Clube Internacional do Recife e as pessoas que apresentaram os convites receberam um livro gratuitamente.

Magnífico exemplo!

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CLUBES APAIXONANTES

Luiz Carlos dirigente do Jet Clube do Recife

Foi luminosa a ideia de Luiz Carlos Bezerra Cavalcanti ao produzir uma publicação que retrata seus tempos na direção de vários clubes sociais e esportivos de nossa cidade: Jet Clube do Recife, Spot Club do Recife, Clube Internacional do Recife, Clube Português e atualmente AABB.

Poucos, como ele, poderiam retratar com fidelidade uma vivência em agremiações que marcaram seus tempos de atuação, face ao significativo contributo à sociedade pernambucana.

Nos idos de 1950 vários clubes foram surgindo nos bairros do Recife. Talvez se desejando descentralizar esse tipo de divertimento para os arrabaldes da cidade, porque os chamados clubes da alta sociedade não davam acesso às famílias mais modestas.

Todavia, dentre estes, já funcionavam instituições que associavam pessoas de alto poder aquisitivo: Aero Clube de Pernambuco, Iate Clube do Recife, Boa Viagem Praia Clube e o Clube Líbano Brasileiro e o Cabanga Iate Clube de Pernambuco.

Havia, ainda, outros mais antigos: Clube Náutico Capibaribe, Sport Clube do Recife, Santa Cruz Futebol Clube, The Britsh Country Club, Caxangá Golf & Country Club de Pernambuco, o Clube Português, o Clube Internacional, o Cabanga Iate Clube e o Deutscher Klub de Pernambuco.

Não obstante já haver sido fundada em julho de 1939, a Associação Atlética Banco do Brasil – AABB – só viria a ser notada entre os melhores da cidade, a partir de 1960, quando construiu sua sede definitiva, nas Graças.

Os bairros, todavia, reagiram fundando o Atlético Clube de Amadores, o Motocolombó Esporte Clube, a Associação Cajueirense de Atletismo, o Clube dos Previdenciário de Pernambuco, o Banorte Atlético Clube, o Clube dos Oficiais da Polícia Militar de Pernambuco, o América Futebol Clube, o Clube Círculo Militar, o Clube Sargento Wolff, o Clube Rodoviário de Pernambuco, o Clube Cisnes do Recife, o Clube Mariscos de Pernambuco, o Yolanda Futebol Clube e o JET – Juventude Esportiva da Torre.

Por este último, Luiz Carlos assinala na citada publicação, que o Jet viveu uma trajetória vigorosa, em seu início, pois ao transferir-se do bairro da Torre para se manter na Ilha do Leite, o clube tomou impulso ainda maior embora substituindo a identidade para Jet Clube do Recife. Hoje é uma agremiação de bom patrimônio e intensa atividade.

Disse-nos Luiz Carlos: Para se ter uma ideia das iniciativas daqueles anos, a Jovem-guarda, que comparecia ao Jet. principalmente aos sábados, se ressentia com a falta de atrativos sociais, umas festinhas que movimentassem o ambiente juvenil, até então restrito às boas prosas e uma cervejinha discreta. A parte esportiva, porém, era intensa e o Jet se notabilizou pelos troféus adquiridos nas modalidades de Vôlei e Basquete.

Quadra coberta do Jet Clube do Recife, na Ilha do Leite

O historiador recorda: Nos primeiros anos, para incrementar a movimentação da moçada, meu pai permitia a remoção de uma radiola – móvel em estilo Chipandelle – grande e pesado, que dispunha de uma discoteca, cheia de discos “Long-playng”. Era a “orquestra” disponível para as grandes noitadas, namoriscos e, às vezes terminavam até em casamentos.

O equipamento era capaz de movimentar as danças até o horário permitido pelas famílias das jovens. Uma improvisação que funcionava, animando as famílias da Ilha do Leite.

Todas estas instituições surgidas nos bairros foram formadas por pessoas que aspiravam servir à sociedade, desenvolver a cultura esportiva e orientar a juventude para as boas práticas sociais. No Jet, por exemplo, predominava a ação de jovens que logo cedo aprendiam a administrar a associação e criar condições para colocar o bairro em posição de relevo.

Sem dispor de recursos para pomposas edificações, como as demais existentes, cotizavam-se para realizar festas que se tornaram emblemas, naquela época.

Era um local atraente, a começar pelo primitivo nome da artéria: Travessa do Jasmim, nome substituído substituído por Rua Jornalista Eduardo Bittencourt.

Por tudo isso eram clubes movidos a juventude e por isso mesmo, apaixonantes.

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OS PÉS EM NOSSA HISTÓRIA

Reflexologia: a ciência da identidade

Os pés sempre representaram um fator de importância em minha vida. Sobretudo porque, não posso ver um pé de mulher bonito e bem arrumadinho, que logo me vem o desejo de dizer à sua dona quão valiosa é aquela parte do seu corpo. E se for um pé de criança, aí é que me derreto todo. Quero logo cheirar e apalpar.

Sobre meus pés, exatamente, tenho muito cuidado por onde ando descalço. Ao higienizá-los sempre me concentro, pensando no quanto eles me permitiram circular pelos caminhos do mundo. Sempre estou agradecendo ao Supremo por sua boa qualidade, após me permitirem andar há quase 88 anos.

Aproveito esta crônica para alguns comentários sobre essa parte tão importante do nosso corpo, auxiliado, na redação, por referências da psicóloga Barbara Ramos Dias.

Segundo os especialistas os pés revelam traços de personalidade. E algumas pessoas sentem-se atraídas a analisar a imagem dos pés de outras como elemento identificador de alguns procedimentos inéditos sobre algumas criaturas.

Nada como pés bonitos para compor um corpo

Desde cedo notei que observar os dedos dos pés de pessoas era algo que foi se acentuando na minha personalidade, ao ponto até de me induzir a certos desejos de alcova. Não posso ver um pezinho feminino bem feito que logo afloram pensamentos que nem sempre consigo descrever.

Os pés revelam traços de personalidade, e têm a sua própria linguagem. O formato e características dos dedos, posição e forma, revelam a personalidade de cada indivíduo.

A ciência avançou, através dos séculos e nos oferece a Reflexologia, como forma de avaliação, diagnóstico e terapia. Consiste na pressão específica e suave de pontos reflexos dos pés. Ali estão representadas todas as zonas, dentre elas as glândulas, sistemas, estruturas músculo-esqueléticas, emoções e estrutura da personalidade. Devemos o desenvolvimento desses estudos aos povos do Oriente.

“Diz-nos Barbara: Como Psicóloga Clínica, debruço-me mais sobre as patologias da mente, tais como estados de tensão e ansiedade, depressão, desbloqueio do stress, restauro do sono. E foi nesta altura, que comecei a perceber que os pés “dizem” aquilo que os pacientes por vezes não conseguem verbalizar.

Este comentário reflete seu trabalho nas sessões de Reflexologia com Leitura da Dinâmica da Personalidade, através dos pés, resultando nas mais variadas vantagens:

Segundo estudo publicado na revista Nature, nossos pés podem gerar um número de forças tão grande que é impossível separar a função desempenhada por cada um dos seus 26 ossos, 33 articulações e cerca de 100 músculos, ligamentos e tendões. Para se ter uma ideia, só a curvatura do arco é responsável por 40% da sua firmeza.

Assim, nossos pés são de importância vital em nossas vidas.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CRÔNICA DE FATOS SINGULARES

Capela Anglicana do Recife, demolida em 1946

A cidade do Recife nos últimos 50 anos sofreu irreparáveis danos em seus antigos imóveis, para ceder espaço à construção de vários prédios e ruas, pois, se disse, ser exigência do progresso.

Entende-se que a modernidade exige diferenças entre o Antigo e o Novo, inclusive abertura de avenidas. Mas, no caso de nossa cidade, estão ocorrendo absurdas derrubadas, como foi o caso da Igreja dos Martírios, no bairro de São José, para surgir a Av. Dantas Barreto, fato, aliás, pouco conhecido das atuais gerações.

No livro biográfico sobre Carlos Emílio Schuler, que assinei em 2013, ouvi do personagem vários comentários sobre o incômodo que viveram as famílias daquele bairro quando ocorreu o quiproquó entre a Prefeitura e o IPHAN. Dr. Schuler comentou a nota de um dos jornais:

Projetada há mais de 30 anos, somente agora poderá ser concluída a Avenida Dantas Barreto, com a derrubada das ruínas da Igreja dos Martírios, que servirá de desafogo ao tráfego no centro da cidade – afirmou na manhã de ontem o prefeito Augusto Lucena ao dar início ao ato público de demolição daquele templo. – Diário da Manhã-24-01-1973.

A historiadora Laura Bastos comentou: Prometeram que iriam reconstruir a igreja em outro local, mantiveram até o frontispício íntegro para colocar no novo templo; só promessa. Assim fizeram com a Igreja do Corpo Santo, o mais belo barroco do País, para construir o Marco Zero; com a Igreja do Paraíso que era perto da paróquia de Santo Antônio, para construir a Avenida Guararapes. Houve também a demolição da capela Anglicana do Recife, também referida como Holy Trinity Church – Igreja da Santíssima Trindade – foi um templo religioso vinculado à Igreja da Inglaterra — e mais tarde à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil — fundada em 31 de maio de 1838 na Rua da Aurora. A desculpa é o Progresso, mas vejo que é para destruir nosso passado.

Depois do desaparecimento do historiador e jornalista Mário Melo – Mário Carneiro do Rego Mello – a cidade passou a sofrer desenfreadas alterações, sem que a mínima providência fosse tomada pela municipalidade, procurando preservar, principalmente, nosso patrimônio colonial.

Não basta apenas que casarões e igrejas sejam tombados. É imprescindível que os técnicos da Prefeitura usem o bom senso, orientando os arquitetos para que não aprovem projetos de novos prédios, mediante a derrubada dos antigos. Sabemos que se trata de interferência difícil. Mas é possível se antecipar o vexame, logo na primeira fase de uma solicitação para construir um edifício ou abrir uma rua.

Cabe aos Comunicadores abrir fogo contra essas derrubadas, para que nosso passado histórico não seja demolido de vez.

E assim, meu passado juvenil foi se apagando. Por isso, a curiosidade pelos fatores históricos aumentou, provocando-me a lembrança de fatos singulares correlatos.

Durante reportagem recente, a fim de recuperar a memória dos imóveis de um cliente, quando circulava com minha equipe, formada pelo cinegrafista Humberto Leonardo, a fotógrafa Bianca Escobar e o motorista Sérgio Nunes, dominaram-me curiosidades históricas, as quais procurei esclarecer.

Observei, na Avenida Rosa e Silva, onde procuramos a casa nº 1389, e também fomos encontrar o prédio da Fundação Nacional de Saúde. Nada mais existia da casa que procurávamos para fotografar, a qual teria sido um belo casarão em estilo colonial.

Novamente surgiu a curiosidade para saber quem teria sido essa suposta “senhora Rosa e Silva”. Era sim, um ilustre homem público, formado em Direito, nada menos que Francisco de Assis Rosa e Silva, que recebeu do Império o título de Conselheiro e tem longa biografia como governante de Pernambuco e eminente político.

O giro continuou e na Rua do Hospício, 223, antiga sede do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, que fazia esquina com a antiga Rua Formosa (atual Av. Conde da Boa Vista) onde surgiu outro prédio, de vários pavimentos, substituindo o velho casarão, onde ocorreu um fato verdadeiramente histórico.

Segundo meu saudoso amigo Milton Persivo Rios Cunha, ali se realizaram os primeiros ensaios da peça “Senhora de Engenho”, de Mário Sette, cuja trilha sonora foi criada por Capiba: a famosa valsa: “Maria Betânia”, encenada pela primeira vez no Teatro do Parque, que depois se tornou sucesso nacional na voz de Nelson Gonçalves. Um casarão que deveria ter sido tombado em favor da memória cultural do Recife.

Surgiu, então, mais uma curiosidade: quem teria sido o Conde da Boa Vista? Foi Francisco do Rego Barros, governador de Pernambuco em várias legislaturas. Mas a homenagem póstuma ficou para o título de Conde. Um fato inexplicável!

Prédio da antiga Alfândega do Recife

No Bairro do Recife (proximidades do Cais do Porto) procuramos o belo prédio nº 50, da Av. Rio Branco, antiga sede da Alfândega do Recife, e encontramos uma edificação inteiramente alterada.

Desta vez, o mesmo edifício, porém, alterado por duas vezes modificando-se suas três fachadas, derrubando-se, inclusive a cúpula, parte característica das edificações dos séculos passados. Agora, ostentando o nome de Edifício Luciano Costa, que tomou o nº 170, com a frente para a Rua D. Maria Cezar. Quem teria sido D. Maria Cezar? Uma ilustre Senhora de Engenho, personagem da História de Pernambuco, filha natural de João Fernandes Vieira e casada com o Capitão-Mor Jerônimo Cezar de Mello.

Fiquei perplexo durante várias paradas por pontos distintos da cidade, onde tantas casas e antigos prédios desapareceram, além de terem suas pêras decorativas. destruídas, mudando, aqui e ali, a paisagem tradicional do Recife, considerada “A Europa dos Trópicos” e “Cartão Postal do Nordeste”.

Todavia, a mais cruel transformação ocorreu com o antigo prédio do Banco do Brasil, na Av. Alfredo Lisboa, 427, que além de ter sua fachada totalmente alterada, modernizou-se, mas quebrou a homogeneidade da Praça Rio Branco. É bom que se diga que ali, nosso compositor maior, Capiba, criou a música: “Cais do Porto”, sucesso de Expedito Baracho.

Nossa circulada mostrou a triste certeza de que o Recife de ontem não mais existe. Ficou para sempre em minha memória. Por isto escrevi esta pequena crônica de fatos singulares.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM PAI PROFESSOR

Jeanine, Ângela Maria, Maria Tereza e Carlos Eduardo, ao lado de um Teco-teco. Recife, 1965

Os pais são, durante toda a vida dos filhos, seus constantes professores. Mais adiante até vão aprender com eles.

Preparei os meus filhos, levando-os a muitos passeios, notadamente os educativos. Hoje eles repetem com a sua turminha esses mesmos procedimentos.

Procurei passear com eles aproveitando para mostrar coisas pouco comuns, que eles nem tinham ouvido falar e que certamente conheceriam mais amiúde quando ficassem adultos.

Numa visita ao Aero Clube de Pernambuco, em 1965, ao levar meus dois filhos – Jeanine e Carlos Eduardo – apanhei suas priminhas Ângela Maria e a irmã Maria Tereza, para nos acompanhar.

No campo de pouso do Encanta Moça, no bairro do Pina, descrevi, em linhas gerais, o que era um avião, como voava e a forma de pousar. Anunciei que anos à frente eles poderiam voar num deles, até em alguns bem maiores.

Jeanine e Carlos Eduardo, meus filhos, formaram o grupo em que estiveram as priminhas Ângela Maria e Maria Tereza. Expliquei a todos que aquelas máquinas tinham asas para voar muito alto.

“Tetê”, inteligente, ficou procurando as azas de penas e tive que detalhar. “Eduardinho” observou que um deles não tinha o volante, como nos automóveis. Disse-lhe que era dotado de uma alavanca chamada manche, que fazia a mesma função.

Tive que professorar! Expliquei tudo direitinho, dando breves exemplos, para que eles ficassem satisfeitos.

Imaginemos se aquela visita fosse hoje e eles notassem que os Boeng não tinham manches nem volantes, só computadores?!…Teria sido um “arrazo”!…

Mas, naquele instante, ainda completei, informando que aviões maiores poderiam voar acima das nuvens, desaparecendo de nossas vistas, levando muitas pessoas, porque possuíam vários motores e todos muito potentes.

Jeanine ainda me perguntou se não poderia ganhar um pequenininho, de brinquedo, para fazê-lo voar em sua casa, levando suas bonecas. Pergunta de criança de quatro anos!

Anos mais tarde eu proporcionaria aos meus pequeninos sua primeira viagem, num avião turboélice, Visconunt, da VASP – Viação Aérea São Paulo. Fomos ao Rio de Janeiro, passeio que permanece na memória deles e sempre fazem referências a esses passeios.

Hoje, depois de voar com a família muitas vezes, Jeanine me disse haver recordado aquele primeiro momento em que ela entrou num Teco-teco, bem pequeno, onde só cabiam três pessoas, sendo ela, no colo do pai.

O Destino não me permitiria imaginar na época, o futuro daqueles pequeninos. Jeanine, casou-se e me deu dois netos e quatro bisnetos. Pela ordem de nascimentos: Chiquinho e Patrícia; Isabela Thelga, James, Geovana e Luana.

Carlos Eduardo: enriqueceu o pódio com os netos: Gabriela, Maria Eduarda, Eduardo, Pedro Victor, Beatriz, João e Carolina, netos que que me deram os bisnetos: Lucas, Logan, Allie, Paige, Sedona, Tucker, Eloise e Everleigh.

Hoje observo que valeu ser um pai-professor!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DOIS ALUADOS

Lua cheia

O jornalismo nos impulsiona às aventuras e desperta vontades inexplicáveis. Tudo por um furo, uma novidade. Nos tornamos perdigueiros sem que percebamos. E nessa busca, abandonamos o bom senso, os cuidados básicos com a vida e buscamos freneticamente as reportagens mais empolgantes.

Em 1968, ocupando cargo que ainda não existia no Banco do Brasil – Assessor de Imprensa – eu costumava cobrir inaugurações de agências pelo interior de Pernambuco, compensando meus custos com patrocínios da clientela local. Algumas vezes ultrapassava os limites e enfrentava distâncias maiores, no afã de reportar para o Diário de Pernambuco, acontecimentos que julgava importantes. No fundo, porém, estava também as perspectivas de contratar publicidade.

Os patrocínios eram o suporte para as despesas e o lucro de cada empreitada. Não raro era possível enfrentar distâncias maiores para exercer as duas atividades extra-bancárias: o jornalismo e a publicidade. Naquela vez acertei que cobriríamos a inauguração do novo prédio do Banco do Brasil em Aracaju e meti-me na estrada. Nada menos que 500 quilômetros de chão, partindo do Recife.

O momento da solenidade seria às 11 horas e partimos, no meu Fusca, ao amanhecer. O companheiro era o primo Roberto, também foca de jornalismo, membro de minha equipe. Gravamos os discursos, fotografamos os personagens e acertamos a publicidade. Às 17 horas fomos almoçar, e “pé na estrada” novamente, satisfeitos por estar finda a missão e com êxito.

Mal repousamos e já começamos a retornar. Nosso desejo era chegar no Dia dos Pais. Lá pelas 19 horas jantamos em Arapiraca e tocamos novamente. Aí começa o fuzuê.

Roberto pede o volante para que eu repousasse um pouco. No “retão” da estrada, em noite clara, vejo uma lua-cheia do meu lado. Ficou “paradona” um bocado de tempo. Mostrei ao motorista. Ficou admirado. Tempo depois, sem dar uma única curva, a lua aparece do lado esquerdo. Pensei que tivesse ficando maluco, ou como dizem os matutos quando o cidadão perde o juízo: fiquei aluado; ou seja, sob influência da lua.

Ambos ficamos, de fato, meio surpresos. Depois a lua desapareceu e pelo retrovisor notei que ela estava “paradona”, aparecendo novamente, desta vez no vidro posterior do carro. Bem, aí ficamos seriamente preocupados. Logo surgiu o pensamento que seria um Disco Voador. Pensamos simultaneamente na mesma coisa

Aí já veio o arrepio. A coisa estava ficando preta.

No exato momento em que eu estava dando um cochilo, fui acordado por um clarão ofuscante. Logo veio um terrível sopapo. Senti o corpo embolar e acordei fora da estrada. O carro havia capotado.

Depois do susto, notamos que a capota estava quase nos espremendo. Toda amassada. Suspiramos e saímos para ver o estrago. Roberto, ainda tremendo e todo urinado. disse:

– Fomos encandeados por algum caminhão!

Nosso carro após o acidente

Saímos para ver o estrago. Um carro novo seriamente danificado. Abri o motor e estava intacto. Passei uma flanela no carburador para verificar possível vazamento de combustível e nada. Uma das rodas da frente estava presa pelo paralamas. Tirei a mão-de-força do capô e soltei o pneu. Liguei e o motor funcionou normalmente.

Roberto acocorado chorava tremendo muito e todo urinado.

– Acabei com seu carro, primo!

Nisso surge um senhor, morador de um morro das proximidades e se ofereceu para nos ajudar. Fumava em seu terraço quando viu o clarão e o carro embolou duas vezes pela estrada. Nos disse que não viu caminhão nenhum nos ofuscando.

Saímos sem um arranhão sangrante. Apenas algumas pancadas, mas sem fraturas. Ficamos pensando: se não foi um veículo grande que causou o acidente, foi mesmo um Disco Voador, ou estamos mesmo amalucados. Certamente nos sentimos dois aluados.