Um livro de relembranças
Crônica nunca foi reportagem, mas às vezes se assemelha.
Pela necessidade de transmitir aos jovens de hoje comentários importantes sobre a cidade do Recife, peço licença para me reportar a acontecimentos citados no livro do meu querido amigo Dr. Ferdinando Artur Falcão Novaes, jornalista, escritor, locutor de rádio, desenhista, geógrafo e engenheiro.
O homem não é de brincadeira! É de trabalho!
Temos certas ligações afetivas. Com a cidade, atividades profissionais e com nossos tempos de ontem. Somos oitentões e vivemos quase as mesmas épocas de um Recife que andava devagar e era muito louvado nas crônicas de Mário Sette.
Ferdinando Novais já publicou obras importantes, dentre elas: Olinda, Evolução Urbana, Delmiro Gouveia, precursor da Chesf e Porto dos Arrecifes, que serve de base aos comentários desta crônica.
Nosso encontro ocorreu no lançamento festivo do livro Comendador Capiba, de Luiz Felipe de Moraes Moura e a partir daí estreitamos a distância em que se encontravam nossas almas. Inauguramos uma amizade pra valer!
Dos nossos tempos, aparece em seu livro sobre o porto do Recife, a época em que, muito jovens, fomos ver o Presidente Vargas desembarcar de um hidroplano da Condor Sindikat e ser transportado por pequeno barco que o levou ao Cais de Santa Rita, que hoje não existe mais. Um inacreditável, porque precário, desembarque presidencial!
Ferdinando viveu a época em que o Coronel Viriato (Oswaldo Passos Viriato de Medeiros) era o administrador do porto de nossa cidade e tudo era progresso e seriedade. Ainda estudante de engenharia o escritor iniciou-se como profissional, no canteiro de obras da ex-Estação de Passageiros dos hidroaviões, no mesmo cais que se deslumbrara na infância, vendo os aviões chegarem navegando pela bacia do rio Pina, atual Cais José Estelita, originário do grande aterro que começava no Forte das Cinco Pontas, o “Chupa” – que aliás, hoje, só tem quatro baluartes – e termina perto do Cabanga Iate Clube de Pernambuco.
É bom lembrar que foi Duarte Coelho – primeiro donatário da Capitania de Pernambuco – quem escolheu o local que era abrigado das correntes marítimas pela muralha formada pelos arrecifes à sua frente. Assim, aquela ilha se tornou o ancoradouro para o serviço da capitania, daí se desenvolvendo a cidade do Recife.
O naturalista Charles Darwin quando aqui esteve no século XIX, escreveu: “Não creio que haja no mundo inteiro igual formação natural”. E como cita Ferdinando Novaes: Parece na baixa-mar um quebra-mar construído por ciclopes.
As ondas nem de leve o carcomem. É um dos fatos mais curiosos de sua história, sendo devida a um revestimento muito duro de matérias calcárias com algumas polegadas de espessura e inteiramente formadas pelo aparecimento e morte de pequenos tubos de sérpulos, anatifas e malíporas.
São seres insignificantes que prestam os maiores serviços aos habitantes de Pernambuco, consertando-lhes o arrecife e garantindo-lhes o porto.
A partir de 1548 recebeu o nome de “Porto de Olinda”, anos depois passou a ser citado como: Ribeira Marinha dos Arrecifes. Aos poucos o porto foi sendo habitado, surgiram os trapiches, mocambos de pescadores e a Igreja de São Telmo. Anos à frente veio a se tornar o bairro de São Frei Pedro Gonçalves do Recife, padroeiro dos navegantes.
Meninos, nós dois, ficávamos maravilhados vendo a abertura da Ponte Giratória, dando passagem aos grandes barcos à vela e navios de vários portes, que navegavam pelo Capibaribe com destino ao mar. Era um espetáculo encantador!
Escritor Ferdinando Novaes
Lembra Ferdinando em seu magnífico livro: Porto dos Arrecifes que os índios chamavam aquele lugar de Paranã Buco.
Depois outra iniciativa importante para a modernização do bairro-ilha: em 1885, já sob orientação de Alfredo Lisboa, a Prefeitura abriria uma avenida de 24 metros de largura ligando a ponte Buarque de Macedo ao cais, que tomaria o nome de Av. Rio Branco. (homenagem póstuma ao diplomata José Maria Paranhos Jr., Barão do Rio Branco).
E depois outra, em paralelo, saindo da ponte Maurício de Nassau, atual Av. Marques de Olinda (Pedro de Araújo Lima, ex-Presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil).
Dessas modernizações Novaes informa que entre 1923 e 1930 foi construída uma ponte giratória ligando o cais do bairro do Recife ao Cais de Santa Rita, houve a aquisição de equipamentos modernos e eletromecânicos: guindastes, pontes e armazéns frigoríficos e depois o aterro sobre o qual seria construída a Av. José Estelita.
No Pina se fez aterro para o futuro Parque de Inflamáveis, área que foi invadida em 1956 transformando-se em Brasília Teimosa, apelido que deu nome ao bairro invadido porque coincidiu com a mesma época em que o presidente Juscelino Kubtschek construía a nova capital do Brasil.
Outra época importante para o Recife ocorre a partir da década de 30 quando o arquiteto Nestor de Figueiredo apresentou um plano geral para o Recife, dele surgindo a abertura de largas avenidas radiais que incluía praças e a perimetral ao longo do canal Derby-Tacaruna, a atual Av. Agamenon Magalhães (título dado in memorian ao ex-governador de Pernambuco Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães).
O livro Porto dos Arrecifes é um relicário de informações sobre a antiga “Arrecifes dos Navios”, assim denominada por nossa gente. Folhear suas páginas é recordar parte da infância daqueles que já ultrapassaram importante medida de tempo: os 80 anos de vida.

