Capela Anglicana do Recife, demolida em 1946
A cidade do Recife nos últimos 50 anos sofreu irreparáveis danos em seus antigos imóveis, para ceder espaço à construção de vários prédios e ruas, pois, se disse, ser exigência do progresso.
Entende-se que a modernidade exige diferenças entre o Antigo e o Novo, inclusive abertura de avenidas. Mas, no caso de nossa cidade, estão ocorrendo absurdas derrubadas, como foi o caso da Igreja dos Martírios, no bairro de São José, para surgir a Av. Dantas Barreto, fato, aliás, pouco conhecido das atuais gerações.
No livro biográfico sobre Carlos Emílio Schuler, que assinei em 2013, ouvi do personagem vários comentários sobre o incômodo que viveram as famílias daquele bairro quando ocorreu o quiproquó entre a Prefeitura e o IPHAN. Dr. Schuler comentou a nota de um dos jornais:
Projetada há mais de 30 anos, somente agora poderá ser concluída a Avenida Dantas Barreto, com a derrubada das ruínas da Igreja dos Martírios, que servirá de desafogo ao tráfego no centro da cidade – afirmou na manhã de ontem o prefeito Augusto Lucena ao dar início ao ato público de demolição daquele templo. – Diário da Manhã-24-01-1973.
A historiadora Laura Bastos comentou: Prometeram que iriam reconstruir a igreja em outro local, mantiveram até o frontispício íntegro para colocar no novo templo; só promessa. Assim fizeram com a Igreja do Corpo Santo, o mais belo barroco do País, para construir o Marco Zero; com a Igreja do Paraíso que era perto da paróquia de Santo Antônio, para construir a Avenida Guararapes. Houve também a demolição da capela Anglicana do Recife, também referida como Holy Trinity Church – Igreja da Santíssima Trindade – foi um templo religioso vinculado à Igreja da Inglaterra — e mais tarde à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil — fundada em 31 de maio de 1838 na Rua da Aurora. A desculpa é o Progresso, mas vejo que é para destruir nosso passado.
Depois do desaparecimento do historiador e jornalista Mário Melo – Mário Carneiro do Rego Mello – a cidade passou a sofrer desenfreadas alterações, sem que a mínima providência fosse tomada pela municipalidade, procurando preservar, principalmente, nosso patrimônio colonial.
Não basta apenas que casarões e igrejas sejam tombados. É imprescindível que os técnicos da Prefeitura usem o bom senso, orientando os arquitetos para que não aprovem projetos de novos prédios, mediante a derrubada dos antigos. Sabemos que se trata de interferência difícil. Mas é possível se antecipar o vexame, logo na primeira fase de uma solicitação para construir um edifício ou abrir uma rua.
Cabe aos Comunicadores abrir fogo contra essas derrubadas, para que nosso passado histórico não seja demolido de vez.
E assim, meu passado juvenil foi se apagando. Por isso, a curiosidade pelos fatores históricos aumentou, provocando-me a lembrança de fatos singulares correlatos.
Durante reportagem recente, a fim de recuperar a memória dos imóveis de um cliente, quando circulava com minha equipe, formada pelo cinegrafista Humberto Leonardo, a fotógrafa Bianca Escobar e o motorista Sérgio Nunes, dominaram-me curiosidades históricas, as quais procurei esclarecer.
Observei, na Avenida Rosa e Silva, onde procuramos a casa nº 1389, e também fomos encontrar o prédio da Fundação Nacional de Saúde. Nada mais existia da casa que procurávamos para fotografar, a qual teria sido um belo casarão em estilo colonial.
Novamente surgiu a curiosidade para saber quem teria sido essa suposta “senhora Rosa e Silva”. Era sim, um ilustre homem público, formado em Direito, nada menos que Francisco de Assis Rosa e Silva, que recebeu do Império o título de Conselheiro e tem longa biografia como governante de Pernambuco e eminente político.
O giro continuou e na Rua do Hospício, 223, antiga sede do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, que fazia esquina com a antiga Rua Formosa (atual Av. Conde da Boa Vista) onde surgiu outro prédio, de vários pavimentos, substituindo o velho casarão, onde ocorreu um fato verdadeiramente histórico.
Segundo meu saudoso amigo Milton Persivo Rios Cunha, ali se realizaram os primeiros ensaios da peça “Senhora de Engenho”, de Mário Sette, cuja trilha sonora foi criada por Capiba: a famosa valsa: “Maria Betânia”, encenada pela primeira vez no Teatro do Parque, que depois se tornou sucesso nacional na voz de Nelson Gonçalves. Um casarão que deveria ter sido tombado em favor da memória cultural do Recife.
Surgiu, então, mais uma curiosidade: quem teria sido o Conde da Boa Vista? Foi Francisco do Rego Barros, governador de Pernambuco em várias legislaturas. Mas a homenagem póstuma ficou para o título de Conde. Um fato inexplicável!
Prédio da antiga Alfândega do Recife
No Bairro do Recife (proximidades do Cais do Porto) procuramos o belo prédio nº 50, da Av. Rio Branco, antiga sede da Alfândega do Recife, e encontramos uma edificação inteiramente alterada.
Desta vez, o mesmo edifício, porém, alterado por duas vezes modificando-se suas três fachadas, derrubando-se, inclusive a cúpula, parte característica das edificações dos séculos passados. Agora, ostentando o nome de Edifício Luciano Costa, que tomou o nº 170, com a frente para a Rua D. Maria Cezar. Quem teria sido D. Maria Cezar? Uma ilustre Senhora de Engenho, personagem da História de Pernambuco, filha natural de João Fernandes Vieira e casada com o Capitão-Mor Jerônimo Cezar de Mello.
Fiquei perplexo durante várias paradas por pontos distintos da cidade, onde tantas casas e antigos prédios desapareceram, além de terem suas pêras decorativas. destruídas, mudando, aqui e ali, a paisagem tradicional do Recife, considerada “A Europa dos Trópicos” e “Cartão Postal do Nordeste”.
Todavia, a mais cruel transformação ocorreu com o antigo prédio do Banco do Brasil, na Av. Alfredo Lisboa, 427, que além de ter sua fachada totalmente alterada, modernizou-se, mas quebrou a homogeneidade da Praça Rio Branco. É bom que se diga que ali, nosso compositor maior, Capiba, criou a música: “Cais do Porto”, sucesso de Expedito Baracho.
Nossa circulada mostrou a triste certeza de que o Recife de ontem não mais existe. Ficou para sempre em minha memória. Por isto escrevi esta pequena crônica de fatos singulares.

