CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CAPIBA – SÍMBOLO DE ETERNIDADE

Outro dia, minha leitora, sra. Eliane Buarque Lawrence, que reside em Las Vegas, nos Estados Unidos, me perguntou como se explicaria o sucesso de Capiba até depois do falecimento. E disse conhecer as obras de Nelson Ferreira, José Menezes, Edgard Moraes, Luiz Bandeira, Carnera, Zumba, J. Michiles. e Luiz Guimarães.

Como pernambucana do Recife, mas residindo há anos na América do Norte, colecionara vários frevos de rua, de bloco e frevos-canção e conhecia um pouco de suas biografias.

Respondi-lhe que a força daquele homem estava, principalmente, em sua simpatia pessoal, pois tinha um jeito de ser incomum. Dominava as rodas de conversa ou as grandes plateias, logo que chegava.

Era a alegria personificada. Sempre irreverente, gostava de contar piadas e em seu livro: “Histórias que a vida me contou”, editado em 1992, deu um show de cenas engraçadas.

O café que lhe era servido no trabalho era muito ralo e choco; por isso o apelidou de “chafé”. Gostava de botar apelido nos colegas e até lhes pregar peças.

No último andar do velho prédio do Banco do Brasil, no cais do porto do Recife, um pouco abaixo da cúpula, havia uma lanchonete, cujo nome foi batizado de “Bar Querubim”, embora fosse uma lanchonete.

Às caladas da noite, com a molequice de sempre, Capiba mandou fazer uma placa de papelão e pregou na porta, com o nome invertido, a fim de provocar boa pornofonia:

“Querubim Bar”. Os da Velha Guarda sabem o que ele bem desejava dizer.

Capa da revista “Continente”, editada pela Cia. Editora de Pernambuco

Sabia, como poucos, alimentar as boas amizades. Iniciei com ele e sua Zezita boa aproximação, a partir do período anterior às comemorações dos seus 80 anos, quando fui convidado por Sérgio Loureiro a produzir o livro: “Capiba, sua vida e suas canções”.

Anos depois, ao publicar seu segundo livro, mandou entregar em minha casa um exemplar, com esta notável dedicatória:

Ao amigão jornalista e camarada bom, Carlos Eduardo, com um abraço e um “queijo”. – Capiba, Recife, 29.05.1993.

E na página 200 do capítulo: Roteiro Sentimental mais ou menos cronológico, a partir de 1904, me agraciou com elogiosa referência:

1984 – O jornalista e escritor Carlos Eduardo Carvalho dos Santos lança o livro “Capiba sua vida e suas canções”, com grande aceitação.

Com certo companheiro de trabalho, costumava ouvir e responder sua saudação, quando se encontravam em quaisquer situações:

– Colega Capiba!…

– Colega, não, pois não sou “veado”!

Os últimos momentos em que o vi andando foi quando estava se exercitando, por recomendação médica, segurado pelo braço de Zezita, dando voltas no Salão Nobre da AABB, espaço que viria a ter seu nome, por iniciativa do então Presidente Mário Celestino.

Meses depois fui assisti-lo durante alguns plantões, no Hospital São Lucas, quando já nos dias finais, quando fustigado pela terrível enfermidade que o consumiu durante vários anos.

Tive o prazer de editar e ser o Promotor Cultural desse livro magnífico de Luiz Felipe, pois sempre estamos espiritualmente juntos produzindo história.

Este mesmo colega bancário, o Luiz Felipe de Moraes Moura, agora, lança um interessante livro-documentário, reunindo expressiva documentação sobre o passado desse compositor e as referências jornalísticas atuais, ilustrado com fotografias e enriquecido com artigos e crônicas de vários escritores.

E com esse modelo de comportamento, sempre sorrindo e provocando o riso em seus interlocutores, foi deixando sua marca. E assim tornou-se um símbolo de eternidade.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

APELO SANTIFICADO

Aqui Ariando Suassuna sofreu com a enchente do Capibaribe. Foto de Rogério Maranhão

Inspirado na crônica de Jesus de Ritinha de Miúdo, excelente colunista deste JBF, lembrei-me de uma pesquisa sociológica que andei publicando há algum tempo, quando focalizei nomes incríveis de pessoas de várias classes sociais.

O assunto me despertou para complementos sobre o tema, e portanto, inspirei-me para dar continuidade aos nomes estranhos; todavia, justificando as razões das escolhas.

Poderei até repetir os nomes que já publiquei, porém, acrescentando as razões da adoção de tais aparentes destrambelhamentos.

ARIANO – Durante uma entrevista com o ilustre homem da cultura pernambucana – Ariano Vilar Suassuna – quando precisei um depoimento dele sobre Capiba – poeticamente me recebeu no terraço de seu belo casarão, na Rua do Chacon, em Casa Forte, um bairro nobre do Recife, onde proseamos.

E conversa vai conversa vem, indaguei e ouvi que a razão do seu nome havia sido escolha por seus pais, que eram muito católicos – Dr. João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna e de sua esposa d. Rita de Cássia Dantas Villar – que desejaram botar um nome de santo no 8º dos nove filhos que o casal teve.

Segundo uma de suas aulas-espetáculo Ariano falou que costumava repetir essa história e todos os espectadores achavam muita graça.

Os Suassuna sofreram com várias enchentes em sua residência porque a casa fica situada na beira do Rio Capibaribe. Numa delas, ao sentir que a coisa estava ficando perigosa para a família, transferiu todos para a residência de um parente e ficou tomando conta da casa, a fim de garantir-se contra vândalos.

Apavorado, ao notar que a água já estava começando a inundar o quintal, os oitões e o jardim, apelou para seu patrono, São Ariano. E deu certo. Foi atendido em sua súplica.

O rio começou a baixar e nada de pior aconteceu. Dias depois, pesquisando sobre a biografia do santo, veio a descobrir que ele falecera por afogamento.

Aí tá danado!…

Sem perder a compostura de sempre saiu com esta:

– Ainda bem que ele entendia o que era a angústia de se morrer afogado!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM FUTURO DEFUNTÁVEL

Tórax de um paciente defuntável

Um cidadãozinho magricela, todo ligeirinho, gênio da escultura brasileira, me recebe, nos idos de 90, na Rua do Pombal, um conservadíssimo casarão do Recife. Abre a porta de duas folhas verticais, tipo holandesa, e logo vemos, no esmirrado corredor um bocado de esculturas no piso, onde estão expostas algumas de suas magistrais obras de arte.

Acompanhado de meu “Sancho Pança” da época, o fotógrafo Diógenes Montenegro, estávamos em missão, para colher uma entrevista no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco.

Daquela criaturinha franzina – Abelardo da Hora – eu já falei em outra crônica, citando-o como irmão do meu amigo, o cantor Claudionor Germano da Hora, que biografei em 1988, no livro “Canta se Queres Viver”.

Mas, agora, o tema enfocado é outro: a pressa que nós, os da “idade avançada”, (a velhice) provoca em nossos esqueletos, e alguns modos de se aproveitar o tempo que nos resta.

Não tenho fugido à regra. Como todo velhote que se preza possuo respeitável barrigão, (gordura abdominal acumulada na pança), que alguns qualificam como “circunferência avançada”) e tenho certa pressa porque, na verdade, nosso tempo está acabando.

Depois dos 80 – a idade de Abelardo naquele dia – os relógios passam a ser uma espécie rara de inimigos. Tanto os carrilhões residenciais quanto os de algibeira e até os de pulso, sem falar naqueles que aprecem nos smarthphones.

Muitos de nós evitam até os de pulso, por dois motivos: porque sempre ficamos de olhos neles e assim, sofremos a pressão das horas que passam, com maior frequência, denotando que o nosso tempo por aqui está indo embora. E a “Véia da Foice” nos espera ansiosa.

Mas rememoremos a entrevista. Iniciei o questionário tradicional: origens familiares, profissões exercidas, família atual e as obras expostas. Apressadíssimo, com passinhos curtos, ele foi respondendo e andando rápido. Começou pelo corredor, onde nos esprememos para passar e logo chegamos à sala.

Esculturas por todos os cantos. Notei que não era ali sua casa residencial e sim o atelier e loja de vendas. Impressionou-me um visível vexame em nos responder. Indaguei se estava com outro compromisso iminente.

– Não, é que eu sou meio “eletrificado” assim mesmo. Meu tempo já se foi e agora me sinto na prorrogação!

Abelardo representava naquele instante a imagem perfeita de um velhote acelerado. Agora percebo que chegando aos 88 anos parece que o relógio gira com maior rapidez.Seria melhor que só víssemos os calendários porque são estáticos. Não nos causam inquietude.

E enfrento outras questões. Meus familiares – que na verdade são meus “Cuidadores”, já não permitem que eu saia sozinho e muito menos de ônibus. Resultado, fico na dependência do filho, que quando não está de plantão nos hospitais, se gruda em mim, como se fosse um Agente de Segurança.

Em algumas situações uso meu “reagente natural”: o berro. Nas faixas de pedestres ele me segura pelo braço, e de propósito, travo a pisada, alegando que não sou nem desejo parecer um velho decrépito, diante do público, sobremodo da velharada concorrente.

Nunca gostei de ir a médico ou de tomar remédios. Já bastaram as muitas furadas que levei na infância, tomando preventivos, porque sendo um magricela, dependi de terríveis picadas nas veias e bebi muito “Calcigenor Irradiado”.

Agora compreendo porque também sou tão acelerado quanto Abelardo. Foi por causa da “irradiação” do Calcigenor, preocupação de D. Alice, minha santa mãe, para me fortalecer a “carcaça”, quando ainda criança, isto porque eu era mais magro do que uma “vara de bater pecados”.

Os profissionais de saúde se espantam quando perguntam quem é meu médico geriatra e digo que ainda nem escolhi.

Tenho um filho que é dessa área e vive me infernizando para sempre ingerir água, marca em seu celular a hora dos “remédios preventivos”, com precisão telescópica. É outra chatice traumatizante!

Não tenho mais o direito de dar um bom espirro ou liberar uma flatulência – a famosa emissão de gases pelo furo que se esconde nos “países baixos”; ou seja, no terminal da espinha dorsal. – porque ele já parte pra tirar minha pressão arterial.

Carro, já não dirijo mais, a fim de evitar o desconforto que sofre um amigo médico – Dr. Luiz Guimarães – já beirando os 80, que ao subir a rampa da garagem do seu prédio, desce do carro no meio da subida para ver se o bicho será capaz de se contorcer a fim de contornar tantas colunas. O “possante” dele já está um bocado arranhado.

Outro dia saí com uma respeitável dama e para chegar ao local de trabalho o carro deu tantas voltas que fiquei meio tonto. Impressionei-me com a vertiginosa rampa de acesso ao 2º andar do edifício-garagem. Deus me livre de dirigir automóvel!

Vivo nessa correria toda – apressadinho como o saudoso Abelardo da Hora – porque sou candidato a uma cova rasa portanto, um perfeito defuntável.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O VÉIO MANGABA

Walmir Chagas, o Véio Mangaba, em “Amor Paregórico”

Todos nós pernambucanos devemos ao múltiplo artista Walmir Chagas sinceros aplausos e a louvação digna daquelas que dedicamos aos santos.

Topei com o Véio Mangaba, certo dia, não sei onde, e quase palavras não tive para cumprimentá-lo porque logo comecei a rir com suas presepadas mesmo fora do palco.

Para homenageá-lo com estas notas, de muito gosto, sirvo-me de pesquisa em várias fontes, principalmente no livro de Renato Phaelante: “MPB – Compositores Pernambucanos” – porque pouco o conheço.

Todavia, minha admiração começou quando numa Campanha Eleitoral para Governador de Pernambuco ele fez personagem de um chinês incrível, com diálogos que empolgavam pela hilariedade dos gestos e improvisação do idioma oriental..

Talvez haja sido na Campanha de Joaquim Francisco, candidato que se elegeu e fez excelente gestão administrativa do nosso Estado. Não me lembro bem. Tentei telefonar para confirmar mas não consegui.

Walmir é um artista popular, com formação acadêmica, que tem renovado o teatro típico do circo, adaptando chavões, frases, música e atitudes pelos palcos do mundo. Já se deslocou para apresentações de suas palhaçadas para Israel, Portugal, Espanha e Estados Unidos.

A começar pelo nome que caracteriza seu personagem principal – o Véio Mangaba – tudo nele inspira alegria pois provoca o riso inocente que contamina crianças e adultos imediatamente.

Se louvo com toda a potencialidade do meu coração, o artista é porque seu personagem me traz de volta os anos da infância, quando meu pai organizava pastoris e mamulengos na Vila dos Remédios, no bairro de Afogados.

O Véio Mangaba é o reconhecimento do artista aos velhos Barroso e Faceta, ambos integrantes do mundo encantador do teatro improvisado nos circos.

Mas ele soube superar essas figuras porque é, por natureza, um criador de tipos multifacetados.

Walmir é um homem de multiplicidade impressionante, pois é perfeito como músico, compositor, ator, palhaço, dançarino e pesquisador. Quando menino em circos mambembes, apresentava-se como cantor e ator, geralmente em peças engraçadas.

Temos semelhanças a respeito dos tempos em que fizemos arte teatral.

Aos 15 anos eu já pisava o palco do Teatro Santa Isabel, no Recife e do Teatro Regina, no Rio de Janeiro, participando do Teatro de Amadores de Pernambuco. Mas era em peças dramáticas.

Ele, entretanto, aprofundou-se nos estudos para apresentar sua arte em novo estilo. Aos 16 anos ingressou no Conservatório Pernambucano de Música, e concluiu cursos de Teoria, Solfejo e Prática. Antes de ser homem feito fez curso e estágio na Orquestra Sinfônica do Recife.

Na década de 1970, quando Ariano lançou o Movimento Armorial, criou o Balé Popular do Recife, Walmir se tornou o primeiro solista do Grupo e um dos seus fundadores. Tem participações em vários CDs independentes, inclusive com “Opereta do Recife. ”

Suas composições musicais para peças teatrais se notabilizaram e foram muitas, dentre elas: “Véio Mangaba e suas Pastoras”, para campanha eleitoral no Recife que em 1993, tema que varou meio mundo.

Para finalizar este agradecimento em forma de louvação, como já disse, cabe dizer que Walmir é um artista popular, que faz rir e se diverte com suas próprias invenções. Ri dele mesmo. Para isso aplica a malícia, a esperteza e a safadeza, que são algumas de suas qualidades.

Uma de suas peças mais hilárias é “Amor Paregórico”, inspirada em antigo remédio popular – Elixir Paregórico”, que servia para males intestinais, evitar flatulências insalubres e outras congestões diarréicas do bucho humanóide.

Em suma, Walmir é um dos gênios do nosso teatro musicado.

E Viva o Véio Mangaba!!!…

* * *

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

LIVROS LIDOS E RELIDOS

Prometi a mim mesmo que ao me aposentar iria reler todos os livros de minha propriedade, porque em cada Folha de Guarda sempre anoto as páginas que irei precisar para futuras referências.

Não cumpri a promessa, mesmo emplacando quase 88 anos, porque deixei de ser bancário no prazo regulamentar, mas não parei de trabalhar, ocupando-me em outros ofícios.

Mas agora, sob o peso de tantos anos transitando pelas calçadas da vida e entrevistando tantas pessoas, estou me aquietando. E vou cumprir a promessa de me aposentar das ruas.

Nessa busca obtive material para escrever sobre frases notáveis, umas curiosas e outras engraçadas, que encontrei em vários compêndios.

Faço referência a Mário Goulart que organizou o “Livro dos Erros” e a Jaime Klinowitz, livro de cuja capa ilustro estas notas.

CHOQUE FINANCEIRO – “Em três meses quero a direita indignada e a esquerda perplexa” – Fernando Affonso Collor de Melo, ex-Presidente do Brasil.

SEM FINGIMENTO – Uma definição de Garrincha feita pelo Lateral Esquerdo Nilton Santos: “Não é que ele fingisse ir por um lado e fosse por outro. Ele insinuava que ia por um lado e ia por lá mesmo. ”

ADEUS MICROFONE! – Em fase aposentadoria, Garrincha atende a um repórter de campo que lhe pede para dar um adeus ao microfone e ele, prontamente: “Adeus microfone! ”.

PROVÍNCIAS RELUTANTES – “O Império do Brasil havia nascido com a aclamação de Dom Pedro como Imperador, em 12 de outubro de 1822. Faltava ainda cada província o aceitar como Soberano. Isso foi feito aos poucos e não sem relutância.

PAIS FRAGMENTADO – Entre 1821 e 1823 foi grande o risco de o Brasil se fragmentar em dois ou três países menores, como ocorreu na América Espanhola.

MEIO BRASIL – Pernambuco, uma das províncias mais ricas, hesitou até dezembro. Portanto, entenda-se que até o início de 1823 que D. Pedro tinha nas mãos era apenas um meio Brasil.”

ARRISCADO – Entrevistado, Ananias, jogador pernambucano, foi indagado por um jornalista: Quais são os seus prognósticos para o campeonato regional? “Olha, prognóstico eu só dou quando acabar o jogo. Antes não me arrisco!”.

INTER PARES – O nadador Fernando Scherer, o Xuxa, sente assim o segundo lugar: “O primeiro dos últimos”.

JORNADA NAS ESTRELAS – “Bernard, famoso voleibolista brasileiro, tinha um saque que fazia a bola subir 24 metros, mais do que um prédio de oito andares e servia apenas para desorientar os adversários e torná-los ridículos nos segundos em que ficavam olhando para cima. Para completar o atleta chamava os adversários que tentavam segurar a bola, de Perdidos no Espaço.”

PENDURICALHOS – Zélia Cardoso de Melo, Ministra da Economia de Collor, responde à Imprensa sobre o Plano Collor: “Não li direito o que os economistas estão dizendo e tem causado alvoroço. Mas conheço minha categoria. Posso imaginar que eles estão prestando mais atenção nos penduricalhos do que no essencial.”

CHICO BACON – Certo jornalista implicou com o economista Celso Furtado, que num livro se referia a Francisco Bacon e não a Francis Bacon: “Por que não o chamou logo de Chico?”

GOLPE CONTRA – Leonel de Moura Brizola, diante dos assédios da Imprensa, espoletou: “Se não dermos o golpe, eles o darão contra nós.”

VACA FARDADA – O General Mourão filho, entrevistado por Salviano Filho, diante da primeira pergunta, pipocou: “Meu nego, em matéria de política eu sou uma vaca fardada.”

BARÃO DE ITARARÉ – “De onde menos se espera, dali é que não vem nada.”

BRAZIL ANTIGO – Antigamente se escrevia Brazil com “Z” e ainda hoje vemos nos produtos importados o nome Brazil. Aparece Cândido de Figueiredo e manda brasa: “O Brasil é a única nação civilizada do mundo que não sabe escrever o próprio nome.”

MEU PAI – Quando mamãe não se lembrava de alguma frase ele “aplicava”: “Me diga que eu lhe lembro!”

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EXCENTRICIDADES JORNALÍSTICAS

Mitzi Gaynor, atriz de Hollywood, sugestão de Hugo Vaz para capa de livro

Papai costumava dizer que quando um jornalista errava não era erro nem burrice, era excentricidade, pois, na época, todos eram considerados mestres. Por isso admito que qualquer deslize na interpretação de fatos está o “escorrego” justificado.

Hoje as folhas, estão repletas de “escorregos”.

Fui contemporâneo do Professor Luiz Beltrão, que afirmou, certa feita, “Reconheço as deficiências da formação profissional dos jornalistas brasileiros, que se manifestam na desorientação, no baixo nível cultural e mesmo técnico do jornalismo. ”

Aproveito a deixa para “castigar”, reproduzindo as palavras do Professor José Brasileiro Vilanova: “O brasileiro nunca falou tão mal e cometeu tantos erros”. Depois das chamadas Redes Sociais é que a bosta virou boné, digo eu.

E nesse fuzuê de conceitos sobre escritores, jornalistas e apresentadores de notícias para a Televisão, aproveito para narrar besteirol sobre o tema da “burrologia jornalística”, tão em moda, como diria Hugo Vaz.

Depois que deixamos de assistir a “Vênus Platinada” passei a assistir os “jornais televisivos” das outras emissoras e nessas vou encontrar verdadeiras pérolas dos procedimentos errados.

Esta semana, u’a jovem repórter de Tv local, ao cobrir o alagamento em um dos bairros do Recife, se deu ao luxo de inventar expressões “eterofônicas”, a fim de dar mais graça às palavras, para facilmente provocar o riso dos espectadores, porém, mal informando e educando seu público.

Depois de falar que o bairro do Ibura estava “atolado de água”, informou que na principal avenida o “precioso líquido” se transformara em água fétida, esgoto puro, de mal cheiro terrível. Como se ali seria o local de depósito apenas de água mineral. Coisa não preciosa.

E disse mais, havia um buracão na calçada onde ela se encontrava trabalhando com o cinegrafista. E improvisando cena cômica saiu com esta:

– Se vocês me chamarem aí do estúdio e eu não responder será porque cai no buraco e desapareci!

Escrever e saber falar são regras básicas do jornalismo. Sempre foram. Sabemos que é muito difícil improvisar, quando se é repórter, com tempo restrito e sendo necessário prender o espectador através das palavras.

Mas, dizer que a rua estava “atolada” do “precioso líquido” é demais! Água não atola ninguém!…

O vernáculo pátrio é coisa muito séria; visto que é regido por Lei Federal. E só se tornam os verbetes oficiais quando aprovados pela Academia Brasileira de Letras; portanto, não pode ser condicionado – como disse o Professor José Lourenço de Lima – violências em sua grafia, na sintaxe, na semântica e na sua estilística. Nada disso será jamais admissível.

Estive com Hugo Vaz durante várias vezes, até de madrugada, trabalhando na Gráfica Comunicarte, do nosso amigo Olbiano Silveira, quando editávamos jornais e ali trocamos ideias sobre o assunto da falta de competência no jornalismo pernambucano. Aprendi um bocado com aquele que era também reconhecido jurista.

Sobre seus livros ele costumava dizer:

– Minhas crônicas mostram o lado desconhecido do jornalismo: o picaresco, jocoso, esdruxulo e ingênuo. Uma face que representa verdadeiro monumento à distração e à incompetência. É também uma homenagem à ignorância e ao despreparo.

Certa feita indaguei sobre uma imagem para a capa de um livro de crônicas ao que Hugo me respondeu:

– Quer vender muitos, bote na capa u’a mulher seminua. Assim como Mitzi Gaynor, por exemplo!

E assim finalizo estas minhas excentricidades jornalísticas com frase do mestre do pitoresco, Milor Fernandes, se referindo ao que chamaríamos de “dejetos jornalísticos”:

– Estão usando a língua como sempre. Mas cada vez menos como idioma.

Mas eu preferiria completar taxando esses “burrófilos distraídos” como redatores de “excentricidades jornalísticas”, como costumava afirmar o velho Arthur Lins dos Santos.

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FOI NÉCO MIRANDA

FNM: o mais brasileiro dos caminhões

Na década de 60 entrevistei no Recife o mirabolante senador Néco Miranda. Cidadão do interior, empresário famoso por suas excentricidades, costumava desfilar trajando roupas de linho irlandês branco e não dispensava alpercatas de couro, sem meias, mesmo em sessões do Senado.

Onde estivesse, seu trajar era o mesmo. Entre seus pares era conhecido por discursos fora de moda, mas de grande poder de fogo, porque se anunciava ser macho que só preá. Enfrentava gato e sapato.

Nas rodas palacianas do Recife circulava com ares de “otoridade” e se fazia impor pelo medo. Andava sempre com um trabuco na cintura. Dizem até que construiu uma estradinha para que seus caminhões contornassem o Posto da Fazenda e as cargas não fossem tributadas.

Era chegado a desfilar nas madrugadas em seu belo Studbaker modelo 1948, automóvel conversível, acompanhado de beldades famosas, de forma que fosse visto em qualquer hora se exibindo com o que havia de mais belo no sexo oposto.

Costumava dizer que não costumava sair com rapariga barata. Só quengas elegantes.

Certo amanhecer, quando desfilando com u’a conhecida Miss Pernambuco, levou um “tranca” de um caminhão vazio, que tentava estacionar no Cais de Santa Rita para descarregar açúcar. Sentiu um arrepio na espinha e enfureceu-se.

Desceu do conversível e pra mostrar que era macho, sacou um 38 cano longo e foi até bem perto da cabine do “Fenemê”, tendo a audácia de reclamar o “tranca” ao motorista. Abriu a porta do alto-carga para soltar seus impropérios, cara a cara, afrontando aquele trabalhador, conhecido como “Chico Alicate”.

Por resposta, o motorista, apenas com a mão esquerda, deu-lhe o sinal emblemático semelhante a um “Vá tomar caju!”.

Só se ouviu o estrondo. Bala saindo e o “Chico Alicate”, condutor do FNM, tombou sem vida.

Logo o Studbaker “cantou os pneus” e a miss, sem nada entender, indagou, aflita:

– O que foi o estrondo?

Ao que Néco Miranda respondeu:

– O pneu do caminhão estourou com meu tiro.

E se mandaram pra Boa Viagem, para facilitar futuro álibi.

No mesmo dia, em sua edição vespertina, o Diário da Noite publica:

Senador assassina motorista no Cais de Santa Rita.

Entram os advogados e começam as narrativas. Vários dias no vai e vem de notícias a favor e contra o senador. Mas eis que surge uma charge de Rosendo, com a legenda bem inspirada, inflamando a questão, aproveitando o símbolo do fabricante do auto carga: FNM – Fábrica Nacional de Motores.

E o Diário da Noite explode em vendas com a manchete em oito colunas:

Até a marca do caminhão confirma:

FNM – Foi Néco Miranda!

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A GRAÇA DA PILANTRAGEM

“O Amigo da Onça” personificava a alta malandragem carioca

Desde os anos de 1970 que aprecio as charges notáveis do pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, que se radicou no Rio de Janeiro, tornando-se um dos principais cartunistas, cujo personagem principal era um cidadão muito elegante, apelidado por “O Amigo da Onça”, publicação permanente na revista “O Cruzeiro”.

Explicava as cenas com piadas ácidas, quase sacanas, politicamente incorretas, caracterizando o legítimo malandro carioca. Há quem diga que surgiu naquela cidade o hábito da pilantragem e da enganação.

Daí a inspiração destas notas de hoje, que fazem parte do meu acervo de recortes inolvidáveis, semelhantes aos “Arquivos Implacáveis” de João Condé.

O gentil leitor que se assina sob o pseudônimo de Deco, colabora conosco trazendo uma graça interessantíssima, o que agradecemos.

“Depois de ler e rir de tantas “graças” dos políticos, só lembrando de uma frase do saudoso Stanislaw Ponte Preta, com relação a eles, os políticos:

“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. ”

Artistas e intelectuais se reuniram, certa vez, para malhar a arte. Mas Arnaldo Jabor não deu trégua aos “críticos”:

– Antes os burros se encolhiam pelos cantos, se esgueiravam tímidos do próprio analfabetismo. O burro hoje, é diferente: trepa num caixote e grita: “Eu sou uma besta! ” Logo tenho razão! ” E de imediato é cercado por u’a multidão de: bestas que o aplaudem.

Ou seja: alta pilantragem artística.

Dr. Roberto Magalhães, quando governador de Pernambuco conhecia o problema dos pombos que “Sentavam praça” nos beirais do Palácio do Campo das Princesas e sujavam muito a entrada do prédio. Mas achava até interessante. E foi deixando…

Certa feita, já saindo apressado para um compromisso, enquanto esperava o carro na porta do palácio, ouviu prosa de alguns políticos, todos numa roda bem embaixo do beiral, quando um pombo resolveu abrir sua “comporta” e soltar uma “papa de cocô” bem no ombro do governador. Aquela nojeira!

Mesmo apressado Dr. Roberto tirou o paletó para trocar e respondendo a um repórter que o acompanhava, fuzilou?:

– Eu pensava que os pombinhos fossem inocentes, mas já vi que são uns pilantras da Oposição.

Ziraldo, numa entrevista respondeu:

– Ninguém faz charge sem raiva de políticos. Se fizer não é artista, é ilustrador.

Oscar Wilde, já moribundo, vivendo num quarto pobre em Paris, olhou para o papel de parede e disse:

– Um de nós terá que sair daqui!

Diz-se que ocorreu certa malandragem do maior astrônomo da antiguidade – Cláudio Ptolomeu – mas não deu certo. Os astros descritos por ele, que viveu no Egito, só são visíveis na Grécia.

Eduardo Gianetti, em 1999, anunciou:

– O mercado de previsões é rígido e regido por uma lógica curiosa. Se o que se pode prever quase nunca é aquilo que se deseja saber, o que se deseja saber é o que não se pode prever.

Mera pilantragem!

Recém-eleito governador, Antônio Carlos Magalhães, conhecido alhures por “Toinho Malvadeza”, respondendo a um entrevistador:

– Como você bem sabe no mundo inteiro um quilômetro tem 1.000 metros. Mas nas estradas da Bahia ficam só com 700 porque os 300 são da comissão dos políticos da vez.

É o caso da pilantragem explícita esse novo Sistema Métrico Baiano.

Meu pai costumava dizer que quando uma pessoa não era correta, na balança dele não dava um quilo; só dava 700 gramas.

O jornalista Moacyr Scliar, num hotel em Florianópolis, não aguentava mais o portunhol do garçom, no café da manhã e pediu que ele falasse em português, por favor. E o homem:

– “No puedo. Es que soy argentino!”

Matéria de revista carioca comentando as principais gírias da então Capital:

Praticamente – Em geral é puro sofisma. Quando alguém diz: “Está praticamente pronto!”, isso quer dizer que tão cedo não estará.

A gente se vê – Quer dizer: a gente não vai se ver.

Aparece por lá – Quer dizer: Não é para aparecer.

Se puder eu vou – Nunca irá.

Depois a gente acerta – Nunca pagará, claro!

Tudo bem – Não quer dizer absolutamente nada. Pilantragem usada nas horas de dificuldades.

Tenho certeza – Não tem certeza de nada, apenas está ventilando. Principalmente quando diz: Tenho certeza e que Fulano está transando com a mulher de Beltrano.

Ou seja, o carioca, que já foi considerado o mestre da pilantragem, usa um vocabulário cheio de bossas e sofismas que só eles mesmos sabem decifrar. Haja inteligência para entender tal verborragia.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A GRAÇA DOS OUTROS

Quando percebo que o momento exige humorismo de fato, vou ao meu arquivo de notas para escascavilhar e arranjar assuntos pouco visto pelos meus leitores do JBF.

Suspeita-se que há “anos-luz” houve compra de votos para aprovação da Emenda que permitiu a reeleição de FHC para a Presidência da República. O reeleito, todo risonho, defendeu-se de forma estranha, mas inteligente: “Certamente não fui eu o comprador! ”.

Quando Prefeito de Palmeira dos Índios, AL, o escritor Graciliano Ramos estabeleceu que cavalos, porcos e cabras não podiam mais andar soltos nas ruas da cidade. Em certa ocasião as vacas encontradas no passeio público eram do pai do escritor. O Fiscal informou constrangido, mas Graciliano ordenou, na hora: “Lavre a multa e remeta os animais a leilão. Prefeito não tem pai! ”

No dia 8 de dezembro de 1991, em Brest, os presidentes das repúblicas da Ucrânia e Bielo-Rússia assinaram um acordo revogando a entidade chamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O grande derrotado teria sido Mikhail Gorbachev. Assim como houve “o último dos moicanos” ele se tornou o último dos soviéticos. Mas fez história!

Em tempo de defender as reformas políticas da Polônia o sindicalista Lech Walesa afirmou: “Não estou aqui para parecer Presidente, mas para sê-lo!”

Já que estamos vendo as barreiras rolarem por cima de Collor, vem à mente esta: “Os todo-poderosos devem tomar cuidado pois o Poder que tudo dá, também subtrai.” Mas não é bem assim, segundo o Primeiro-ministro da Itália, Giúlio Andreotti: “O Poder só desgasta quem não o tem!”

Em janeiro de 1993, o economista Mário Henrique Simonsen enumerou os quatro maiores erros da década: a Lei da Informática: O Plano Cruzado, a Constituição de 1988 e o Plano Collor.

Collor acabara de se separar de Rosane quando o trocadilhista e ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima fuzilou, comentando o Projeto de Entendimento Nacional: “Isso é coisa de Collor, que anda louco atrás de nova aliança. ”

Mas, por via das dúvidas, na mesma época, jornais publicaram que a matriarca dos Malta, D. Rosita, descartou logo qualquer possibilidade de divórcio: “Na família Malta não existem mulheres separadas. Só viúvas! ”

O Ministro Antônio Rogério Magri, ex-Ministro do Trabalho, não entendia porque tanto fuzuê da Imprensa apenas pelo fato de sua mulher haver levado numa Kombi do Governo, sua cadela Orca ao veterinário. E pipocou: Cachorro também é ser humano! ”

Só para atualizar algumas ideias presidenciais de hoje, lembro aos incautos endinheirados que o Plano Collor, deflagrado em março de 1990 confiscou valores de quem possuía mais de 50 mil cruzeiros no Over, nas Contas Correntes ou na Poupança. Um mendigo, na porta de famoso restaurante de São Paulo, castigou: ”Ô ricãos! Vocês num tão cum nada!”

Quando Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso expeliu suas qualidades de médico: “A inflação deu um soluço. – Quando a inflação espirra a gente dá aspirina para evitar que vire pneumonia. – O País está sofrendo de esquizofrenia. – A inflação é uma urticária.”

Sem essa de muito respeito em campanhas políticas, dizia o candidato a governador paranaense, Roberto Requião, em 1990: “Campanha de alto nível é pra candidato que tem rabo preso.”

A família do saudoso amigo ex-governador de Pernambuco, Nilo de Souza Coelho, poderosa e tradicional, inspirou o ditado, em 1990: “Aqui, quem não é coelho é couve! ” Anos antes Rosa e Silva havia soltado esta: “Em Pernambuco quem não é Cavalcanti com “te e ti”, é cavalgado.

E o candidato a se reeleger governador de Pernambuco, que era chegado a um joguinho de cartas nas madrugadas de palácio, mandou fazer uma faixa bem grande e fixou na principal avenida do Recife, respondendo a seu contendor que havia lhe criticado em uma entrevista: “Minha palavra é uma só! ”

Mas a Oposição, na madrugada seguinte, completou a frase com a palavra “baralho”, e a faixa ficou assim: “Minha palavra é uma só: Baralho”.

Fui biógrafo do advogado José David, um dos maiores criminalistas do Recife e, sendo jornalista, vi os fatos de perto, os quais publiquei em seu livro. O povão ficava até as madrugadas esperando a edição dos jornais para saber quem estava vencendo. Nesse tempo eram votos em papel. Uma trabalheira infame.

A campanha já nos finalmente, chumbo grosso pela Imprensa. Defensor ferrenho de Roberto Magalhães – que disputava com Marcos Freire o governo de Pernambuco – José David se arreta ao ver a manchete espalhafatosa dos esquerdistas do Diário de Pernambuco:

“É hora da virada de Marcos Freire! ”. Mas o candidato não chegava nem perto do concorrente. Vinha perdendo feio.

E eu lá, no salão do Clube Internacional do Recife, contando votos, sob requisição da Justiça Eleitoral, que sempre solicitava ao Banco do Brasil alguns dos seus funcionários.

No dia seguinte à manchete, Dr. José David compra num ferro-velho de Iputinga, uma Kombi, daquelas mais enfadada do que lata de construção, mete num guincho e despeja os “restos mortais” do veículo na frente do prédio do jornal: a Praça da Independência. Aquela presepada!

José David faz campana para saber a quantas andavam os números da apuração dos votos cuja contagem se encerraria de madrugada, a fim de se certificar da vitória de Doutor Roberto e completar sua comemoração.

Pela manhã aparece a Kombi tombada na praça e a faixa: “A virada de Marcos Freire!”.

Dr. Roberto se reelege. Dr. José David espuma de alegria.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O HOMEM DA MARIOLA

Pedro Moura Jr., um Benemérito de Belo Jardim

Em novembro de 1937, após a decretação do Estado Novo, Agamenon Magalhães foi nomeado Interventor Federal em Pernambuco e substituiu vários Prefeitos que não se alinhavam às metas de Getúlio Vargas.

Pedro José de Moura Jr. Foi um deles. Juntou os documentos de sua gestão, esvaziou as gavetas e deixou seu gabinete de fronte erguida porque fez muito pela cidade de Belo Jardim. Nunca se ouviu falar que houvesse algum deslize em sua gestão.

Ao que constatei quando escrevi sua biografia, em 2001, ele deixou sim uma herança de exemplos.

Amigo de meus pais, manteve visitas constantes à nossa casa, quando vinha ao Recife, de forma que fui fundamentando uma admiração que se iniciou quando me fiz gente e comecei a entender o que era ser um homem público de vergonha. Nesse tempo havia poucos sem vergonha!

Na última vez que estivemos juntos, em Belo Jardim, ele me levou a conhecer uma pequena barragem que havia patrocinado e construído no Rio Bituri, empreendimento que aliviou o grave problema de falta de água na cidade.

“O ponto alto de qualquer ser humano – me disse na ocasião – é atravessar a vida construindo passagens para o engrandecimento dos seus semelhantes. ” Mais adiante soube que não tendo a Prefeitura recursos para executar aquela obra ele o fez com suas próprias economias.

Pontos de sua trajetória de vida valem aqui ser realçados. Quando jovem, deixou sua cidade – Vitória de Santo Antão – e foi ganhar a vida após sentir-se forte o suficiente para por em prática os ensinamentos da casa paterna.

Aos 13 anos conheceu as primeiras letras numa escola particular, mas só estudou até o “2º Livro”, de Felisberto de Carvalho, que se assemelhava ao antigo Curso Ginasial. Todavia, era um bom autodidata. Lia tudo e muito.

Foi ser caixeiro de uma padaria em Bezerros. Ao atingir 18 anos viajou ao Recife e qualificou-se como Representante da Singer Sewing Machine Company, fabricante de máquinas de costura, tendo como meta viajar pelo interior.

Um dos primeiros modelos de máquinas de costura manual

Viajando pelos sertões chega a Belo Jardim para demonstrar seu produto. Visita as casas ensinando às moças e senhoras como manusear as Singer, ainda manuais. Sentava-se e sem acanhamento costurava. Vendeu horrores.

Numa dessas demonstrações conhece um dos ramos de minha família, as Quaresma de Carvalho: Tereza, Laura, Alice, Doralice, Amália e uma de suas vizinhas: Josefa Augusta, que por não apreciar seu nome de batismo se tornou conhecida como “Mocinha”. Namorou, noivou e casou-se com a futura costureira, que seria sua companheira por toda a vida.

Não saiu de seus planos comprar um caminhão e trabalhar dias e noites estradas afora, todas ainda de chão batido, sofrendo com poeira comendo no centro. O cunhado, Jorge Aleixo da Cunha, lhe convida para ocupar um cargo na Fábrica de Doces Mariola. Arrendou o Super White e foi ser administrador da “Mariola”.

O doce Mariola inspirou música

Abriu mercados pelo interior como o fez com as máquinas de costura. Para muitas cidades, inclusive a Capital, conseguiu exportar os deliciosos docinhos, após criar embalagem de madeira, accessível ao transporte e fácil de ser vendido em todas as vendas, bodegas e mercados.

Empreendeu verdadeira missão ao estimular agricultores a plantar goiaba e banana para atender à fábrica.

Na Fábrica Mariola fez melhoramentos técnicos, inclusive inventou u’a maneira de cortar doces com um fio de cobre aquecido, engenhoca usada durante vários anos.

Nos demais setores fez ampliações consideráveis, de âmbito promocional e reconhecimento público, inclusive tornar-se Correspondente do Banco do Brasil, um prestigioso momento para a firma Jorge Aleixo & Cia. Ltda. Pedro Moura tinha raro tirocínio para ampliar oportunidades.

Nos dias atuais temos Petrúcio Amorim cantando a música: “Tareco e Mariola”, inspirada no tal docinho em tabletes, que surgiram em Belo Jardim.

Homem de traçado íntegro, em poucos anos se tornou popular na cidade e elegeu-se Prefeito. Sua primeira iniciativa foi ampliar o fornecimento de água na cidade e para isto construiu uma barragem, que certo dia me levou a conhece-la, orgulhoso do seu feito.

A mão de ferro da Ditadura Vargas extinguiu seu mandado de Prefeito, como vários outros em Pernambuco, mas o fez de forma imprópria. Anos depois, na década de 1970, seu genro, o Deputado Federal José Mendonça Bezerra, consegue estimular a alta direção do Banco do Brasil a se instalar em Belo Jardim.

Mas, decorridos vários meses não se achava terreno compatível para a construção da agência no Centro da cidade e se cogitou transferir a instalação para outro município.

Diante dos fatos, Pedro Moura – como se tornou conhecido – doou dois imóveis localizados na principal praça da cidade, para que ali, após demolidos, se erguesse o Banco.

Tal fato foi assinalado em vibrante discurso de Camillo Calazans, Diretor do BB, durante a solene inauguração. Nas pesquisas para escrever sua biografia o fato foi constatado pelo Autor, que esteve no Cartório de Imóveis e copiou o documento de doação dos imóveis à Prefeitura, porque o Banco não aceitava doação de terceiros.

Anos mais adiante, tornando-se especialista em reparo de baterias automotivas, funda com o filho, que se diplomara em Química – Edson Mororó Moura – a fábrica Acumuladores Moura S.A..

O padrão do produto “Baterias Moura” perenizou seu nome de família, levando-o às terras americanas do Norte, onde vendeu bem, recebendo certificado de “Melhor fornecedor de Produtos Elétricos da General Motors”, fabricante dos veículos Chevrolet.

Nos anos seguintes as Baterias Moura passaram a ser equipamento das fábricas Fiat, Ford. Vollswagen e Mercedez Benz. O sonho dos matutos Edson e seu pai, Pedro Moura Jr. invade meio mundo.

Meu personagem recebeu post morten homenagens expressivas. Uma com seu nome na grande barragem que atende a quatro municípios; e do Altíssimo, a referência de haver sido avô de um dos nossos governadores: José Mendonça Bezerra Filho, carinhosamente conhecido como “Mendoncinha”.

O nome Moura se tornou símbolo. Há poucos anos um jornal comentava: Situada a montante dos municípios de São Caetano, Belo Jardim, Tacaimbó e de Caruaru, a Barragem Pedro Moura Jr. tem comportado volume de água além de sua capacidade física.

A Barragem Pedro Moura Jr. abastece vários municípios de Pernambuco

Este colunista viveu de perto a trajetória desse Benemérito de Belo Jardim, um político e industrial da melhor cepa.