CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Tórax de um paciente defuntável

Um cidadãozinho magricela, todo ligeirinho, gênio da escultura brasileira, me recebe, nos idos de 90, na Rua do Pombal, um conservadíssimo casarão do Recife. Abre a porta de duas folhas verticais, tipo holandesa, e logo vemos, no esmirrado corredor um bocado de esculturas no piso, onde estão expostas algumas de suas magistrais obras de arte.

Acompanhado de meu “Sancho Pança” da época, o fotógrafo Diógenes Montenegro, estávamos em missão, para colher uma entrevista no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco.

Daquela criaturinha franzina – Abelardo da Hora – eu já falei em outra crônica, citando-o como irmão do meu amigo, o cantor Claudionor Germano da Hora, que biografei em 1988, no livro “Canta se Queres Viver”.

Mas, agora, o tema enfocado é outro: a pressa que nós, os da “idade avançada”, (a velhice) provoca em nossos esqueletos, e alguns modos de se aproveitar o tempo que nos resta.

Não tenho fugido à regra. Como todo velhote que se preza possuo respeitável barrigão, (gordura abdominal acumulada na pança), que alguns qualificam como “circunferência avançada”) e tenho certa pressa porque, na verdade, nosso tempo está acabando.

Depois dos 80 – a idade de Abelardo naquele dia – os relógios passam a ser uma espécie rara de inimigos. Tanto os carrilhões residenciais quanto os de algibeira e até os de pulso, sem falar naqueles que aprecem nos smarthphones.

Muitos de nós evitam até os de pulso, por dois motivos: porque sempre ficamos de olhos neles e assim, sofremos a pressão das horas que passam, com maior frequência, denotando que o nosso tempo por aqui está indo embora. E a “Véia da Foice” nos espera ansiosa.

Mas rememoremos a entrevista. Iniciei o questionário tradicional: origens familiares, profissões exercidas, família atual e as obras expostas. Apressadíssimo, com passinhos curtos, ele foi respondendo e andando rápido. Começou pelo corredor, onde nos esprememos para passar e logo chegamos à sala.

Esculturas por todos os cantos. Notei que não era ali sua casa residencial e sim o atelier e loja de vendas. Impressionou-me um visível vexame em nos responder. Indaguei se estava com outro compromisso iminente.

– Não, é que eu sou meio “eletrificado” assim mesmo. Meu tempo já se foi e agora me sinto na prorrogação!

Abelardo representava naquele instante a imagem perfeita de um velhote acelerado. Agora percebo que chegando aos 88 anos parece que o relógio gira com maior rapidez.Seria melhor que só víssemos os calendários porque são estáticos. Não nos causam inquietude.

E enfrento outras questões. Meus familiares – que na verdade são meus “Cuidadores”, já não permitem que eu saia sozinho e muito menos de ônibus. Resultado, fico na dependência do filho, que quando não está de plantão nos hospitais, se gruda em mim, como se fosse um Agente de Segurança.

Em algumas situações uso meu “reagente natural”: o berro. Nas faixas de pedestres ele me segura pelo braço, e de propósito, travo a pisada, alegando que não sou nem desejo parecer um velho decrépito, diante do público, sobremodo da velharada concorrente.

Nunca gostei de ir a médico ou de tomar remédios. Já bastaram as muitas furadas que levei na infância, tomando preventivos, porque sendo um magricela, dependi de terríveis picadas nas veias e bebi muito “Calcigenor Irradiado”.

Agora compreendo porque também sou tão acelerado quanto Abelardo. Foi por causa da “irradiação” do Calcigenor, preocupação de D. Alice, minha santa mãe, para me fortalecer a “carcaça”, quando ainda criança, isto porque eu era mais magro do que uma “vara de bater pecados”.

Os profissionais de saúde se espantam quando perguntam quem é meu médico geriatra e digo que ainda nem escolhi.

Tenho um filho que é dessa área e vive me infernizando para sempre ingerir água, marca em seu celular a hora dos “remédios preventivos”, com precisão telescópica. É outra chatice traumatizante!

Não tenho mais o direito de dar um bom espirro ou liberar uma flatulência – a famosa emissão de gases pelo furo que se esconde nos “países baixos”; ou seja, no terminal da espinha dorsal. – porque ele já parte pra tirar minha pressão arterial.

Carro, já não dirijo mais, a fim de evitar o desconforto que sofre um amigo médico – Dr. Luiz Guimarães – já beirando os 80, que ao subir a rampa da garagem do seu prédio, desce do carro no meio da subida para ver se o bicho será capaz de se contorcer a fim de contornar tantas colunas. O “possante” dele já está um bocado arranhado.

Outro dia saí com uma respeitável dama e para chegar ao local de trabalho o carro deu tantas voltas que fiquei meio tonto. Impressionei-me com a vertiginosa rampa de acesso ao 2º andar do edifício-garagem. Deus me livre de dirigir automóvel!

Vivo nessa correria toda – apressadinho como o saudoso Abelardo da Hora – porque sou candidato a uma cova rasa portanto, um perfeito defuntável.

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