
FNM: o mais brasileiro dos caminhões
Na década de 60 entrevistei no Recife o mirabolante senador Néco Miranda. Cidadão do interior, empresário famoso por suas excentricidades, costumava desfilar trajando roupas de linho irlandês branco e não dispensava alpercatas de couro, sem meias, mesmo em sessões do Senado.
Onde estivesse, seu trajar era o mesmo. Entre seus pares era conhecido por discursos fora de moda, mas de grande poder de fogo, porque se anunciava ser macho que só preá. Enfrentava gato e sapato.
Nas rodas palacianas do Recife circulava com ares de “otoridade” e se fazia impor pelo medo. Andava sempre com um trabuco na cintura. Dizem até que construiu uma estradinha para que seus caminhões contornassem o Posto da Fazenda e as cargas não fossem tributadas.
Era chegado a desfilar nas madrugadas em seu belo Studbaker modelo 1948, automóvel conversível, acompanhado de beldades famosas, de forma que fosse visto em qualquer hora se exibindo com o que havia de mais belo no sexo oposto.
Costumava dizer que não costumava sair com rapariga barata. Só quengas elegantes.
Certo amanhecer, quando desfilando com u’a conhecida Miss Pernambuco, levou um “tranca” de um caminhão vazio, que tentava estacionar no Cais de Santa Rita para descarregar açúcar. Sentiu um arrepio na espinha e enfureceu-se.
Desceu do conversível e pra mostrar que era macho, sacou um 38 cano longo e foi até bem perto da cabine do “Fenemê”, tendo a audácia de reclamar o “tranca” ao motorista. Abriu a porta do alto-carga para soltar seus impropérios, cara a cara, afrontando aquele trabalhador, conhecido como “Chico Alicate”.
Por resposta, o motorista, apenas com a mão esquerda, deu-lhe o sinal emblemático semelhante a um “Vá tomar caju!”.
Só se ouviu o estrondo. Bala saindo e o “Chico Alicate”, condutor do FNM, tombou sem vida.
Logo o Studbaker “cantou os pneus” e a miss, sem nada entender, indagou, aflita:
– O que foi o estrondo?
Ao que Néco Miranda respondeu:
– O pneu do caminhão estourou com meu tiro.
E se mandaram pra Boa Viagem, para facilitar futuro álibi.
No mesmo dia, em sua edição vespertina, o Diário da Noite publica:
Senador assassina motorista no Cais de Santa Rita.
Entram os advogados e começam as narrativas. Vários dias no vai e vem de notícias a favor e contra o senador. Mas eis que surge uma charge de Rosendo, com a legenda bem inspirada, inflamando a questão, aproveitando o símbolo do fabricante do auto carga: FNM – Fábrica Nacional de Motores.
E o Diário da Noite explode em vendas com a manchete em oito colunas:
Até a marca do caminhão confirma:
FNM – Foi Néco Miranda!