PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

BUDISMO MODERNO – Augusto dos Anjos

Tome, Doutor, esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharada roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contado de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

DEU NO JORNAL

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

OS ABSURDOS DOS EXTREMISMOS

Imaginem a cena — uma calçada, uma farmácia, uma barra de ferro encostada no vidro, talvez enferrujada, quem sabe com um bilhete amarelecido colado por cima: “cuidado”. Eu, numa atitude puramente blague, dou um chute distraído; a barra tomba com um som metálico, ninguém se machuca, nenhum vidro se estilhaça. Mas não se enganem: no novo teatro social, esse simples ato já tem enredo preparado. Em minutos surgirá um herói improvável — com crachá, cartão de visita e uma página no Instagram — fundando uma ONG para “proteger barras de ferro contra agressões físicas”, angariando doações, patrocínios e manchetes. Haverá demanda coletiva, petição online e uma cobertura midiática com especialistas em metálicos feridos. Se o final não for trágico, será pelo menos ridículo.

Vivemos numa era que transformou a sensibilidade em pólvora e o aborrecimento em programa de auditório. É verdade: a humanidade sempre teve exageros — inquisidores, moralistas, censores de várias épocas — mas o que nos distingue, hoje, é a industrialização do espanto. Tudo vira causa, cada tropeço é uma proclamação, e a indignação tem cronograma: nasce, explode, viraliza e se esvai, enquanto os problemas que realmente importam — educação, saúde, infraestrutura, a loteria de oportunidades — continuam algemados no porão.

O extremismo que desejo apontar não é uma única doutrina; é o hábito de transformar a defesa de um valor legítimo numa liturgia dogmática incapaz de ouvir. Defendem-se causas nobres com gestos exagerados e palavreados de tribunal; a medida do engajamento vira a intensidade do ataque, não a qualidade da proposta. Quando a fragilidade do argumento é grande, a voz é mais alta; quando o conhecimento falta, o insulto vem de prontidão. Assim, o diálogo morre asfixiado pela histeria preventiva.

Há uma comicidade triste nisso tudo. Lembro de Swift e de sua ironia — ele demonstraria que muitas das nossas paixões públicas são carapaças vazias que estalam ao menor toque. Machado de Assis sorriria, com aquele esgar de quem não se engana, e apontaria as contradições: a mesma pessoa que exige tolerância para suas causas é impaciente com opiniões divergentes; pede abertura para seu grupo e fechamento para os demais. A hipocrisia, quando vestida de virtude, torna-se a mais ruidosa das falsificações.

É claro que não estou propondo a apologia do descuido ou do desrespeito. Nada disso. Há limites que valem ser preservados — a dignidade das pessoas, a segurança, o direito à integridade física e moral. O que combato é o autoritarismo do sentimento, a tirania do microtema. Quando a indignação se organiza como aparato repressivo, ela sufoca a curiosidade, a contradição e a comédia — e sem comédia não há humanidade, apenas tribunais de exceção vestidos de moral pública.

O exagero institucionaliza o absurdo. Quantas regras foram criadas para não ferir sensibilidades que, ao final, só servem para empurrar o riso para debaixo do sofá? A censura autorreforçada — aquela em que alguém se autocensura por medo de represália social — é mais mortal que qualquer decreto oficial. As palavras ficam com muletas; as ideias, com freio de mão puxado. E assim a cultura empobrece: menos risco, menos invenção, menos ousadia. O espírito crítico enfraquece, substituído por mantras prontos e slogans reciclados.

Outra faceta perversa: a mercantilização da ofensa. Surgem empresas de escândalo, consultorias de outraged management, cursos para criar narrativas de vitimismo e monetizar o sofrimento. A economia da indignação transforma dor em capital simbólico. Já vimos movimentos genuínos capturados por interesses que nada têm de nobres; é a velha lógica do oportunismo: onde há barulho, há lucro. E o silêncio, mais uma vez, paga o maior preço — pois o que não dá likes desaparece.

Dói admitir que a polarização é fruto também de preguiça intelectual. É mais simples rotular, inserir em categorias binárias e empunhar a bandeira. Não digo que todas as convicções sejam iguais — longe disso —, mas rejeito o pendor de reduzir debates complexos a duelos de insultos. A grandeza do pensamento público consiste em suportar contradições e, sobretudo, em transformar adversários em interlocutores, não em inimigos a serem anulados.

Portanto, a proposta — modesta e atrevida — é a de readotar alguma moderação. Que tal reaprender a rir? Rir de si, do exagero, da própria severidade. Que tal cultivar a paciência para ouvir o argumento antes de preparar o linchamento moral? Que tal libertar a política do espetáculo e devolver ao argumento o lugar de honra? Não é um convite ao cinismo, mas à sobriedade. É recuperar o efeito civilizador do humor: ele diminui a tensão, permite a autocrítica e revela, muitas vezes, a estupidez com ternura.

O exagero não será extirpado por decretos; só desaparecerá com a prática cotidiana de diálogo, ironia e humildade. Quando aprendermos que as causas nobres não pedem cânticos de sacrifício, mas planejamento e esforço, talvez voltemos também a encontrar sentido no debate público. Até lá, continuaremos a ver ONGs que defendem barras de ferro, colunas de comentaristas que alimentam incêndios morais e leitores que, entre um like e outro, preferem o espetáculo à substância.

Se esta carta — mordaz, ferina, bem-humorada — provocar um espasmo nos devotos do ultraje, tanto melhor: que o espasmo vire reflexão. E se provocar riso, ótimo: o riso é um antídoto poderoso contra a tirania do excesso. O verdadeiro extremismo a combater é aquele que reduz o humano à caricatura e transforma o diálogo em arena. Contra isso, ergamos a arma mais subversiva que existe: a capacidade de pensar, e de rir enquanto pensamos.

E se, por acaso, alguém decidir fundar uma associação para defender as barras de ferro, que ao menos tenha bom gosto para o logotipo. Afinal, até o absurdo merece um pouco de estética.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

CHEGOU A HORA DA ANISTIA!

Deltan Dallagnol

Congresso Nacional

“Estou convicto de que a anistia é ilegítima e inconstitucional, porque de fato se trata de um crime contra a democracia, uma lesão grave a uma cláusula pétrea do texto constitucional”, disse o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, em mais um de seus surtos de violação das regras básicas da magistratura. Esta foi a vigésima quinta entrevista do ministro sobre política desde o início do ano.

Para além do fato de que Gilmar Mendes violou um dos grandes tabus da magistratura ao antecipar sua opinião sobre um tema que pode julgar no STF, a afirmação do ministro é simplesmente falsa: trata-se da mais pura desinformação que, dita por qualquer político de direita, garantiria uma inclusão automática em algum dos inquéritos supremamente ilegais conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes.

A Constituição, ao contrário do que disse Gilmar, não proíbe a anistia a crimes contra a democracia. Simplesmente não existe qualquer previsão constitucional nesse sentido. Ao declarar que a anistia é inconstitucional sem base alguma, dando a entender que o STF não a aceitaria, o ministro pratica nada menos que golpismo: a recusa em obedecer às regras do jogo democrático estabelecidas na Constituição, que jurou defender.

Mas por que o ministro se adiantou para descartar a anistia como ilegítima e inconstitucional? Porque hoje, 17 de setembro, é o dia em que Hugo Motta anunciou a votação da anistia, aprovada em regime de urgência, mas barrada por ele durante meses. O medo de Motta era um só: desagradar os ministros do STF, que não hesitam em mandar avançar processos criminais contra parlamentares que não andam na linha.

Motta, como se sabe, é um dos que mais têm rabo preso no Congresso: além de seu pai já ter sido citado em investigações por corrupção em emendas, o próprio Motta protagonizou escândalos recentes de funcionários fantasmas em seu gabinete e suspeitas de rachadinha. Enquanto mantinha a anistia em banho-maria, noticiou-se que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, estaria preparando uma anistia “light”, que reduziria apenas as penas dos réus do 8 de janeiro, mas excluiria Bolsonaro de qualquer benefício. Segundo a imprensa, Alcolumbre teria recebido o aval dos ministros do STF.

Agora, às vésperas da votação, depois de meses de espera, descobrimos que Motta fez um acordão — com Supremo e com tudo — para pautar a anistia de modo que ela seja rejeitada; em seguida, convenceria o colégio de líderes a apoiar o projeto “light” de Alcolumbre. Assim, Motta mataria três coelhos com uma cajadada só: cumpriria o acordo feito com a direita de pautar a anistia em troca de apoio à sua eleição; apaziguaria os ministros do STF ao excluir Bolsonaro de uma anistia “ampla, geral e irrestrita”; e evitaria uma briga ainda maior com o governo Lula, que é contra a anistia.

O problema é simples: a direita aceitará esse acordo absurdo, feito entre Motta, Alcolumbre e ministros do STF, que não têm legitimidade para acordar nada e cometem, ao se envolverem nessas discussões, crime de responsabilidade por exercerem atividade político-partidária? Só no Brasil, republiqueta de bananas em que o governo vive em lua de mel com o Supremo, um presidente da Câmara faz “acordos” com ministros para pautar projetos — atuando contra seus próprios colegas parlamentares.

A hora é agora: hora de a direita mostrar por que a esquerda teme nossa força nas redes sociais. Hora de mostrar por que o governo Lula e o STF querem desesperadamente regulamentar a internet e impor censura: porque não conseguem competir conosco. Hora de mostrar a mesma força, tenacidade e resistência que derrubaram o PL da Censura no Congresso. Hora de fazer ecoar a voz das ruas nas manifestações verde e amarelas que cobrem o país.

É hora de aprovar a anistia ampla, geral e irrestrita, e frustrar o acordo malandro de Motta e do STF. Eles acham que terão votos para rejeitar o projeto? Hora de provar o contrário e garantir a aprovação, mostrando de forma indubitável qual é a vontade popular. Por isso, mobilize-se agora: entre em contato com TODOS os deputados de seu estado pelas redes sociais, encontre o número do gabinete no site da Câmara e ligue exigindo voto favorável à anistia. Não pare até que todos os deputados de seu estado tenham se comprometido publicamente com essa pauta. Temos menos de 24 horas.

Abusos, censuras, prisões ilegais, penas desproporcionais, processos a jato, provas sigilosas, dumping probatório, parcialidade judicial, foro privilegiado inexistente, tribunal de exceção, pescarias probatórias, violação de direitos fundamentais… todos aqueles que são perseguidos politicamente pelo STF contam conosco. Fazer cessar todos esses arbítrios é lutar por Estado de Direito, democracia, justiça e liberdade. É lutar pelo restabelecimento da fundação legal e moral do nosso país.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ELZA MARIA SERRANO – VITÓRIA-ES

Peço por favor que veja possibilidade de publicar no nosso jornal este vídeo.

Muito bom!

Tem que ser divulgado.

Bom dia e muito obrigada!

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO JORNAL