DEU NO X

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A GRAÇA DA PILANTRAGEM

“O Amigo da Onça” personificava a alta malandragem carioca

Desde os anos de 1970 que aprecio as charges notáveis do pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, que se radicou no Rio de Janeiro, tornando-se um dos principais cartunistas, cujo personagem principal era um cidadão muito elegante, apelidado por “O Amigo da Onça”, publicação permanente na revista “O Cruzeiro”.

Explicava as cenas com piadas ácidas, quase sacanas, politicamente incorretas, caracterizando o legítimo malandro carioca. Há quem diga que surgiu naquela cidade o hábito da pilantragem e da enganação.

Daí a inspiração destas notas de hoje, que fazem parte do meu acervo de recortes inolvidáveis, semelhantes aos “Arquivos Implacáveis” de João Condé.

O gentil leitor que se assina sob o pseudônimo de Deco, colabora conosco trazendo uma graça interessantíssima, o que agradecemos.

“Depois de ler e rir de tantas “graças” dos políticos, só lembrando de uma frase do saudoso Stanislaw Ponte Preta, com relação a eles, os políticos:

“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. ”

Artistas e intelectuais se reuniram, certa vez, para malhar a arte. Mas Arnaldo Jabor não deu trégua aos “críticos”:

– Antes os burros se encolhiam pelos cantos, se esgueiravam tímidos do próprio analfabetismo. O burro hoje, é diferente: trepa num caixote e grita: “Eu sou uma besta! ” Logo tenho razão! ” E de imediato é cercado por u’a multidão de: bestas que o aplaudem.

Ou seja: alta pilantragem artística.

Dr. Roberto Magalhães, quando governador de Pernambuco conhecia o problema dos pombos que “Sentavam praça” nos beirais do Palácio do Campo das Princesas e sujavam muito a entrada do prédio. Mas achava até interessante. E foi deixando…

Certa feita, já saindo apressado para um compromisso, enquanto esperava o carro na porta do palácio, ouviu prosa de alguns políticos, todos numa roda bem embaixo do beiral, quando um pombo resolveu abrir sua “comporta” e soltar uma “papa de cocô” bem no ombro do governador. Aquela nojeira!

Mesmo apressado Dr. Roberto tirou o paletó para trocar e respondendo a um repórter que o acompanhava, fuzilou?:

– Eu pensava que os pombinhos fossem inocentes, mas já vi que são uns pilantras da Oposição.

Ziraldo, numa entrevista respondeu:

– Ninguém faz charge sem raiva de políticos. Se fizer não é artista, é ilustrador.

Oscar Wilde, já moribundo, vivendo num quarto pobre em Paris, olhou para o papel de parede e disse:

– Um de nós terá que sair daqui!

Diz-se que ocorreu certa malandragem do maior astrônomo da antiguidade – Cláudio Ptolomeu – mas não deu certo. Os astros descritos por ele, que viveu no Egito, só são visíveis na Grécia.

Eduardo Gianetti, em 1999, anunciou:

– O mercado de previsões é rígido e regido por uma lógica curiosa. Se o que se pode prever quase nunca é aquilo que se deseja saber, o que se deseja saber é o que não se pode prever.

Mera pilantragem!

Recém-eleito governador, Antônio Carlos Magalhães, conhecido alhures por “Toinho Malvadeza”, respondendo a um entrevistador:

– Como você bem sabe no mundo inteiro um quilômetro tem 1.000 metros. Mas nas estradas da Bahia ficam só com 700 porque os 300 são da comissão dos políticos da vez.

É o caso da pilantragem explícita esse novo Sistema Métrico Baiano.

Meu pai costumava dizer que quando uma pessoa não era correta, na balança dele não dava um quilo; só dava 700 gramas.

O jornalista Moacyr Scliar, num hotel em Florianópolis, não aguentava mais o portunhol do garçom, no café da manhã e pediu que ele falasse em português, por favor. E o homem:

– “No puedo. Es que soy argentino!”

Matéria de revista carioca comentando as principais gírias da então Capital:

Praticamente – Em geral é puro sofisma. Quando alguém diz: “Está praticamente pronto!”, isso quer dizer que tão cedo não estará.

A gente se vê – Quer dizer: a gente não vai se ver.

Aparece por lá – Quer dizer: Não é para aparecer.

Se puder eu vou – Nunca irá.

Depois a gente acerta – Nunca pagará, claro!

Tudo bem – Não quer dizer absolutamente nada. Pilantragem usada nas horas de dificuldades.

Tenho certeza – Não tem certeza de nada, apenas está ventilando. Principalmente quando diz: Tenho certeza e que Fulano está transando com a mulher de Beltrano.

Ou seja, o carioca, que já foi considerado o mestre da pilantragem, usa um vocabulário cheio de bossas e sofismas que só eles mesmos sabem decifrar. Haja inteligência para entender tal verborragia.

PENINHA - DICA MUSICAL