Sinto a nossa esperança se queimado Na fogueira da seca nordestina.
Sobre o mote acima, do poeta Diomedes Mariano, o tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira escreveu a seguinte glosa:
Quando a nuvem da chuva foi embora Que o vento passou varrendo o chão Vi na lama rachada do porão Um carão que tristonho geme e chora Uma vaca turina numa escora Um bezerro mamando na turina Sem achar uma gota pequenina Na cacimba de amor que tá sugando Sinto a nossa esperança se queimado Na fogueira da seca nordestina.
Eu tenho dito quando posso que o poeta Marcílio é um entre os maiores poetas populares contemporâneos deste país. Seus versos são gigantes.
Prestem atenção na beleza do oitavo verso, na genialidade do poeta em transformar os peitos de uma vaca em “cacimba de amor”. Nada é mais lírico!
Bom, ainda inebriado sob a beleza dos versos de Marcílio, eu, Jesus de Ritinha de Miúdo, seridoense e potiguar de Acary, havendo recebido o trabalho dele por WhatsApp, pelo mesmo meio lhe respondi com versos meus, que ora trago para os leitores do JBF.
Ei-los:
Vejo a dor do menino retirante Pés descalços no barro da estrada Rosto sério em triste caminhada Sob um sol sem clemência e escaldante. Seu futuro é um tempo tão distante Que fugiu do alcance da retina Seu olhar de lamento se neblina Por lembrar do torrão que vai deixando Sinto a nossa esperança se queimando Na fogueira da seca nordestina.
Não durou um mês a retirada das grades do Palácio do Planalto, quando, cercado pelos holofotes da imprensa, Lula cunhou a frase ‘Democracia não exige muro’.
Quarta-feira (7), o palácio estava novamente cercado.
* * *
Cercar novamente o Palácio do Planalto não é o certo.
O ex-presidiário descondenado Lula está atrás das grades erradas.
Semana passada, o querido amigo João Humberto Martorelli citou verso do poeta Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor”. Continuo no tema e já digo que o poema foi escrito em 1º de abril de 1931. Com originais guardados, na Arca do autor, em maço com título Itinerário. Ao companheiro de noitadas e primeiro biógrafo João Gaspar Simões logo manda cópia e dois dias depois rabisca, num papel velho, “é por ser mais poeta que gente que sou louco?” (todos os textos aspeados, sem outras referências aqui, estão nos escritos de Pessoa).
Foi publicado no número 36 da revista Presença, em novembro de 1932. Irene Ramalho Santos constata ser “o poema de Pessoa mais citado e analisado”; e ainda observa que “ao contrário da grande maioria dos poemas de qualquer heterônimo, não é escrito na primeira pessoa do singular”. A dualidade começa no seu próprio título, Autopsicografia, que psicografia é descrição psicológica de uma pessoa e também escrito sugerido por um espírito desencarnado. Para quem (ainda) não conhece, é esse:
O Poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração.
A ideia não é original. Na Grécia Antiga Arquíloco (712-664 a.C.), criador dos versos âmbicos (com duas sílabas, uma curta, outra longa), escrevera “seco de inspiração mas não de sentimento”; enquanto, em 1635, o militar e sacerdote espanhol (Pedro) Calderón de La Barca (1600-1681), no seu La vida es sueño y los sueños sueños son, disse “O poeta que em grã dor não teve sorte/ Chora fingindo, e toca-nos tão fundo”. São muitas as interpretações para tais versos.
Considerando que “fingir a qualidade de uma dor que deveras se sente é aquilo que se atinge quando o fingimento é mais completo” ‒ assim o tem Manuel Gusmão. Ou sugerindo que “não se trata de simular, mas de sublimar, que o leitor não sabe nada acerca do sentimento do poeta” ‒ segundo August Willemsen. Ou indicando “o reconhecimento da dor como base imprescindível da criação poética”, incorporando esse fingimento ao seu próprio estilo ‒ palavras de Gaspar Simões. Agora, o mestre Martorelli os acompanha sugerindo se tratar de “hipocrisia, cinismo, deslealdade”.
Todos considerando “fingir”, acabamos de ver, como o ato de falsear a realidade. A quem leia o poema com essa percepção, bom lembrar advertência do próprio Pessoa: “A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele; deduzindo-se parecer, dito segundo sentido, do fato de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz”. Sigamos nessa trilha.
Para começar, já se pode perceber que o problema desse aparente equívoco pode ser pressentido em sua simples leitura. E está na primeira estrofe. Posto que se o poeta finge uma dor é porque não a sente “deveras”; ou, em sentido contrário, se a sente mesmo de verdade, então é que (ao menos) a partir desse momento não finge. Pouco importando que, no começo fingida, tenha mesmo a dor se convertido fisicamente em real; porque, a partir do momento em que passa a ser real, em que é sentida fisicamente, então deixa de ser fingida. Sendo impossível à frágil condição humana fingir, e ao mesmo tempo não fingir, uma única e mesma dor. A explicação estaria, portanto, não nos sentimentos do poeta; mas no fato de que, com enorme frequência, Pessoa escrevia por códigos. Brincando com o preciso, ou impreciso, sentido das palavras.
Dando-se que o verbo fingir teria no texto, diferentemente do seu significado hoje corrente, o sentido de exprimir. Ou ainda mais propriamente, e retomando seu significado arcaico, o de construir. Mário Sacramento, como os amigos Cleonice Berardinelli e Richard Zenith, também assim consideram. Fingir vem do latim fingere, equivalente a modelar em barro, esculpir, formar, construir.
Com este preciso sentido de construir está, inclusive, no provérbio latino Humus de qua finguntur pocula (Terra de que se fazem os corpos). Ou na bem conhecida expressão, própria da língua portuguesa, areia de fingir ‒ aquela de jazida, branca, que se usa para fazer argamassa. Areia de construir, portanto. E, no fundo, que seria o fingimento senão a construção de uma nova realidade? Sem contar que, segundo o próprio Pessoa, “a única arte verdadeira é a da construção”.
Não só isso. A explicação, como veremos, talvez seja mais simples ainda. Começemos por lembrar que a partir de fins do século XIX, e até os anos 1940, tivemos o apogeu da belle époque por toda a Europa. Em Portugal também. As casas eram decoradas, num estilo art nouveau, com paredes das salas pintadas à mão reproduzindo cenas de natureza ou caça. Tetos ornados com arabescos em gesso. Por fora, fachadas tinham requintes elaborados imitando esculturas em pedra. Sem que se pudesse usar gesso, nessas obras externas, dada sua fragilidade ante as intempéries do tempo. Para isso, usava-se uma argamassa feita com cimento e aquela areia finamente crivada (de fingir), à qual se misturava cal em pó.
Essas fachadas em pedra eram trabalhadas com instrumentos conhecidos como colheres (ou colherinhas) de fingir, algumas com apenas cinco a sete centímetros de comprimento, ainda hoje encontradas no mercado. Tenho uma, em casa, para quem quiser saber como era. Os artistas que se especializaram nesse tipo de ornamentos acabaram conhecidos, em Lisboa, como fingidores. Assim foi até que, dado o custo de manter tanto luxo, ditos adereços foram aos poucos desaparecendo. E a profissão perdendo adeptos. Só que Pessoa, com absoluta certeza, ao tempo em que escreveu seu poema, conhecia bem ditos profissionais. E, por isso, terá usado uma metáfora ‒ a de ser, o poeta, só um fingidor. Um construtor. Como aqueles artesões. Até construindo ele próprio, como poeta, as dores que sentia.
Em carta a Francisco Costa (10.08.1925), resume esse processo: “A arte é expressão de um pensamento através de uma emoção. Pouco importa que sintamos o que exprimimos; basta que, tendo-o pensado, saibamos fingir sem tê-lo sentido” ‒ aqui usada, essa palavra, em seu significado hoje atual. Algo mesmo natural em quem proclama que “toda sinceridade é uma intolerância” e se diverte inventando “novos tipos de fingir”. Por ser “uma criatura de sentimentos vários e fictícios”, já não lhe bastam as angústias do mundo. Ou estas não têm a delicadeza, a generosidade ou a amplidão pelas quais seu incandescente coração anseia. O poeta, então, nada finge (no sentido atual da expressão), apenas constrói as dores que depois sente de verdade.
Pensando no Brasil, para terminar, poderíamos dizer que boa parte de nossos homens públicos fingem no sentido hoje corrente e vulgar da palavra; enquanto os poetas, iluminados e predestinados, esses fingem em outro sentido, aquele usado por Pessoa (como aqui expresso); o de construir, com seus versos, uma nova realidade ‒ diferente, espantosa e bela. É isso.
Governo Lula tem se colocado contra medidas que ampliam investimentos privados
Para um país que precisa crescer, gerar empregos e aumentar a renda média pessoal, uma das condições é o aumento da taxa de investimento. O Brasil tem possibilidades de crescimento, a começar com o grande setor do agronegócio, que é uma das esperanças do mundo para alimentar a população global que já passou dos 8 bilhões de habitantes. Nesse sentido, joga contra a nação e contra os interesses dos mais pobres o próprio presidente da República, quando chama os empreendedores do agronegócio de fascistas, quando grita contra a privatização de empresas estatais e ameaça reestatizar empresas já privatizadas, e quando diz que o governo vai cancelar todo o programa de privatizações, incluindo aquelas já em andamento, como é o caso dos Correios e da Eletrobras.
Toda vez que um político diz em campanha que vai aumentar programas sociais, elevar salários dos servidores da máquina estatal, aumentar investimentos e aumentar o nível de emprego, ou ele não cumprirá o que prometeu, ou aumentará os impostos, ou fará mais dívida. Como os candidatos não gostam de anunciar medidas impopulares, torna-se inevitável que as campanhas eleitorais apresentem mentiras e demagogia – e nas última eleição presidencial vimos muitos exemplos disso. Mas não precisaria ser esse o caminho se os governos tivessem um pouco menos de apego a ideologias e modelos ultrapassados de gestão pública e incentivassem – de fato – os investimentos da iniciativa privada.
A capacidade produtiva do país hoje é limitada. Temos uma população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar) composta por 108 milhões de pessoas, e um PIB que gira em torno de R$ 10 trilhões, divididos em duas fatias: 20% (R$ 2 trilhões) de bens de capital, que inclui fábricas, máquinas, equipamentos e infraestrutura; e outra, representada por 80% (R$ 8 trilhões) de bens e serviços de consumo. Quando os bens de capital – capital físico – são incorporados ao sistema produtivo nacional e aumenta o tamanho deste, a isso se chama de “investimento”.
Nessa lógica, a estrutura nacional de capital físico é resultado de anos e anos de produção de bens de capital, logo, se a infraestrutura física, empresarial e social atual apresenta deficiências – por exemplo, sendo pequena e insuficiente para o tamanho do país e da população – é porque o investimento anual do passado não acompanhou o crescimento população e a evolução da economia nacional. Uma das saídas é o próprio governo usar parte da arrecadação – hoje em torno de 34% do PIB – para fazer investimentos. Mas ao gastar mais no aumento do capital físico nacional, menos recursos sobram para os serviços públicos e os programas sociais. Então, o melhor programa social é a privatização do que for possível dos investimentos, isto é, conseguir que o setor privado faça o máximo investimento possível.
Dizendo de outro modo, quanto maior for o nível de investimento feito por empresas privadas, em infraestrutura, por exemplo, mais recursos sobrarão para o governo priorizar os programas sociais. Um governo que se recusa a transferir o máximo de investimentos ao setor privado, ou eleva gastos com obras de investimento e, portanto, gastará menos com serviços e programas sociais, ou reduz os investimentos ao mínimo – para poder gastar com o social – e com isso compromete o futuro, reduz o PIB potencial dos anos seguintes e se torna fator de atraso.
O caminho para incentivar o setor privado a executar investimentos inclui aprovar legislação de investimentos privados nacionais e estrangeiros na infraestrutura física, atualizar o marco regulatório das parcerias público-privadas e ampliar as concessões de estruturas estatais, especialmente nas rodovias, ferrovias, portos, aeroportos etc. Além dos efeitos em termos de aumento do PIB, cuja contrapartida é aumento da renda nacional na mesma proporção, o aumento do investimento nacional é condição necessária à melhoria da renda por habitante. Por exemplo, com alguma variação, sabe-se que o investimento tem de ser algo como 25% do PIB anual para que o crescimento do produto nacional cresça 5%. Não é uma receita tão complicada, mas para aplicá-la, é preciso que o governo se desapegue da visão distorcida de que o setor produtivo é um “inimigo”. E isso parece cada vez mais difícil.
Pátio Interno e Campo de Futebol do Colégio Diocesano
Depois do banho de mar matinal na Praia da Avenida da Paz, eu tomava um café reforçado da Dona Zeca. Era hora de pegar o bonde para o Colégio Diocesano. Havia um ponto de parada de bonde perto de minha casa, na esquina, defronte à belíssima mansão de Seu Paulo Tenório. Eu, menino cheio de vigor, preferia pegar o bonde andando ao passar em frente à minha casa. Pulava dando impulso com um pé, juntava o outro firme no estribo, a mão segurava o barrete vertical; viajava em pé, mesmo com vagas nos bancos, equilibrando uma pesada bolsa de livros e cadernos na outra mão. O bonde paquidérmico andava lentamente. Eu sentia, gostava da carícia do vento no rosto. O cobrador passava esperto, uniforme desalinhado e inefável quepe, as notas de dinheiro arrumadas entre os dedos facilitando o troco aos passageiros; mandava sair do estribo e sentar nos bancos. Nós, meninos livres e teimosos, não obedecíamos.
O motorneiro (condutor) acelerava o bonde rangendo nos trilhos, tocando “Tim-Tim”. Entrava pela Praça Sinimbu, Rua do Imperador, dobrava por trás da Assembleia, subia a Rua do Comércio, finalmente chegava a nosso destino, o majestoso e bonito casarão, Colégio Diocesano, onde hoje é a Secretaria de Agricultura.
Às sete da manhã, impreterivelmente, tocava o sino, os alunos entravam enfileirados na sala. Depois de rezar três ave-marias e um padre-nosso, iniciava-se a primeira aula. Assistíamos às aulas pensando no intervalo, recreio de dez minutos, mal dava para tomar água, jogar ximbra, pião, trocar figurinhas. O sino batia novamente acabando a alegria fugaz, retorno à sala de aula.
O Colégio tinha um ensino bem organizado, todos os colegas daquele tempo ficaram bem encaminhados devido ao excelente nível de educação. Alguns colegas disputavam o primeiro lugar nas notas. Outros também se distinguiam nas aulas práticas de oratória, mostravam seus dotes brilhantes. Eu era bom na matemática. Fui aluno particular do professor Benedito na Praça das Graças, onde, três vezes por semana, assistia às aulas noturnas do excelente professor Benedito, que ficou na história da cidade.
Fui aluno marista de 1948 a 1955, sete anos, um bom tempo de aprendizado. Devo parte da minha educação aos Irmãos Maristas; havia aula de civilidade e religião. Outra parte de minha educação, mais escrachada, anárquica, devo à vida livre nas praias, praças, mares, lagoas e ruas de Maceió.
Nossa turma teve como “lente” (responsável) durante o curso Colegial o irmão Bráulio, grande liderança sobre professores e alunos. Incentivador do esporte, treinador de nossa classe, alguns anos campeã de futebol do Colégio. Eu era um jogador medíocre, mas estava sempre escalado ou na reserva do time. Os jogos do campeonato eram pela tarde no campo do Colégio, uma área entre o prédio e o muro cheia de oitizeiros centenários, ou seja, jogávamos à sombra. Quando a bola batia em uma árvore, continuava valendo. Houve um caso do goleiro Marcos Mello ter feito uma bela defesa, mas quando chutou a bola para frente, ela bateu em uma árvore e voltou entrando na própria trave, o gol foi validado.
Havia um irmão sempre mal humorado; francês, vivia enfezado. Velho ranzinza, professor de francês e matemática, reclamava e censurava a nossa educação. Insistia em nos comparar com a educação dos meninos franceses, seus conterrâneos. Um crítico dos nossos costumes. Certo dia, no intervalo de aula, um colega de turma, um tremendo gozador, hoje sério e recatado cidadão, escreveu no quadro-negro uma quadra que dizia mais ou menos assim: “Irmão Júlio vai morrer buchudo… Sem poder cuspir… Com um pirulito na boca… Sem poder engolir… E com um filho na barriga… Sem poder parir”. Quando o velho irmão entrou na sala de aula, leu os versos, soltou um grito, xingando de mal educados, cafajestes. Naquele momento teve um ataque, ficou vermelho que nem um pimentão e desmaiou na cadeira. Pensamos que estava morto, foi um corre-corre; com tapinhas na bochecha, água no rosto, ele voltou ao normal.
Era uma turma eclética. Deu bons profissionais que fizeram a história e construíram a cidade de Maceió no século XX.
Nunca gostei de água gelada, por falta de costume. O motivo é simples: Em Nova-Cruz, cidade do interior nordestino, onde nasci e me criei, não havia energia elétrica e, consequentemente, não se tinha geladeira, salvo os ricos fazendeiros, que tinham gerador próprio.
Somente em 1963, chegou a Nova-Cruz a energia de Paulo Afonso. Tempos depois, quem tinha boas condições financeiras, passou a gozar do conforto de ter geladeira e ventilador.
Antes da chegada da energia de Paulo Afonso, os municípios do interior do Rio Grande do Norte eram iluminados por meio de motores elétricos a óleo, que eram ligados às seis da tarde. Às nove horas da noite era dada a primeira “piscada”, um aviso à população de que os candeeiros e as lamparinas deveriam ser acesos.
Mesmo depois da chegada de uma geladeira em nossa casa, me recusei, ainda mocinha, a beber água gelada. Inventava que me dava dor de dente, ou que me irritava a garganta. Mas era a tal coisa: desculpa de amarelo é comer barro. Eu não suportava água gelada mesmo. Continuo, até hoje, preferindo água natural. Foi um costume que eu assimilei desde criança e conservo até hoje.
Meu saudoso irmão Adriano, o primogênito, era muito espirituoso. Depois que serviu ao Exército, foi aprovado em concurso para a Petrobrás e foi nomeado para trabalhar em Ilhéus (BA). Depois foi transferido para Maceió (AL), Aracaju (SE), Joaçaba (SC), e, finalmente para o Rio de Janeiro (RJ), onde, anos depois, se aposentou. Morou em Niterói (RJ), até o fim dos seus dias.
Certa vez, depois que chegou energia elétrica em Nova-Cruz, um conhecido oportunista, que não pagava nem promessa a santo, lhe telefonou pedindo dinheiro emprestado, para comprar uma geladeira. Adriano, recém casado, e ainda mobiliando uma casa para morar, respondeu:
– Rapaz, estou recém-casado e ainda não pude comprar uma geladeira. Por enquanto, continuo bebendo água do filtro. Coloco uma pastilha de hortelã “garoto” na boca e a água fica gelada, que é uma beleza. Faça isso, que você vai gostar! A água desce gelada, gelada.
O cara ficou desapontado, e não insistiu.
Outra vez, um outro conhecido enrolão, dizendo que sua geladeira tinha dado o prego, telefonou para Adriano, em Niterói, pedindo dinheiro emprestado para mandar consertá-la.
Ironicamente, meu irmão deu a mesma resposta:
– Rapaz, a minha geladeira também está quebrada. Resolvi não mandar mais consertar, pelo menos por enquanto. Aqui em casa, estamos bebendo água do filtro, com uma pastilha de hortelã “garoto” na boca. É a água gelada melhor do mundo!!! Experimente!
Ele tinha um humor fino, e quando vinha de férias, com a esposa e filhos para Nova-Cruz, gostava de brincar com Dona Severina, uma empregada antiga da minha avó e perguntava se ela ainda subia no coqueiro para tirar coco, como fazia antigamente.
A mulher respondia:
– Que nada, Adriano. Não tenho disposição mais pra me trepar num coqueiro e tirar coco.
E ele perguntava, achando graça:
– Então, a senhora não trepa mais num coqueiro?
Ela respondia:
– Estou velha e minhas pernas não aguentam mais. Não trepo nem num tamborete, muito menos num coqueiro!!!
Todos prendiam o riso…
Dona Severina gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, todos os dias. Jogava uns trocadinhos, somente no grupo. Para um bom palpite, ela enchia uma xícara com café, riscava um fósforo, jogava dentro e cobria com o pires. Cinco minutos depois, descobria a xícara e o bicho estava desenhado no café, pelo menos para ela. Vez por outra, ganhava um dinheirinho no bicho e ficava radiante.
Para ajudar no palpite, ela dizia que rezava uma oração forte, que era “tiro e queda.” A oração fazia com que o desenho do bicho dentro do café ficasse nítido de dar gosto.
Na cozinha da casa da minha avó, com os olhos fixos na xícara de café, Dona Severina rezava:
“Meu São Marcelo do couro preto, me mostrai o bicho de hoje, que eu lhe dou o que o senhor quiser de mim, até mesmo o impossível.”
E essa oração era supimpa, para dona Severina ganhar no jogo do bicho.
Favor publicar no JBF este vídeo, que serve como alerta e indignação para todo povo nordestino e em especial aos músicos e artistas em geral, de todo o nordeste.
Se exatamente na época de São João e das Festas Juninas, esses malacabados tratam com desrespeito e com desprezo aqueles que são os maiores e os verdadeiros representantes da arte, da cultura e do folclore nordestinos. Imaginem como deve ser no resto do ano, né verdade?
Que possamos reverter essa situação humilhante e injusta com os nossos conterrâneos.