CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TOROCA

Walter Pitombo Laranjeiras, Toroca, figura de destaque no Estado de Alagoas, conhecido nas altas e baixas rodas, peça insubstituível no mundo dos esportes. Jogou bem voleibol, inclusive na seleção alagoana e brasileira. Entretanto, sua vocação foi ser técnico de voleibol feminino. Há mais de 50 anos treina as equipes do CRB. Inúmeras vezes campeão como treinador da seleção, muitas de suas pupilas chegaram a titular da seleção brasileira. Nesses últimos 50 anos, Alagoas esteve no topo do voleibol nacional graças ao treinador Toroca. Severo, considerado durão na condução do time em campo, porém, no voleibol não pode haver relaxamento, as atletas têm que estar sempre em momento de tensão.

Outra paixão de Toroca é o Clube de Regatas Brasil, o CRB. Ele foi presidente várias vezes. No final da década de 1960, eleito presidente do clube, convidou-me a participar de sua diretoria, não me fiz de rogado, tomei posse como Diretor Social. Juntos, fizemos um bonito trabalho, organizando festas e atividades sociais. Contudo, o grande sucesso de nossa gestão foi a boate do CRB aos sábados à noite. A moçada e a coroada dançavam esbaldando-se ao som do afinado conjunto LSD. Os componentes do conjunto afirmavam ser Luz, Som e Dimensão, para não confundir com o ácido lisérgico, droga altamente consumida naquela época. A afinadíssima Leureny Barbosa era vocal, Lino outro componente, na guitarra, um jovem tocava um som moderno e arrasava também cantando, de nome incomum, Djavan.

No intervalo, descanso dos músicos, havia alguma atração. Certa vez, Toroca contratou um mágico. O cara era bom, muito aplaudido com suas fantasias mágicas no escurinho da boate. Estranho apenas, que em vez de tirar coelho da cartola, o mágico tirava um pato branco, bonito e lustroso. Com muito aplauso o “Mandrake” terminou o espetáculo.

Ao iniciar o segundo tempo da boate, fui procurado pelo mágico, estava desesperado, havia sumido seu querido e lustroso pato branco. Fomos em busca, todos procurando, em cada canto da sede do CRB havia um funcionário vasculhando, até cheirando, nenhuma pista do pato. O mágico se aborreceu quando um funcionário, por ignorância ou gozação, perguntou: – O senhor não é mágico? Faça o pato aparecer!

Chegamos à conclusão de que o pato havia fugido, só assim poderia ter sumido. Iniciamos busca pela rua, pela praia; nenhum indício, ninguém viu algum pato passar, que dirá um pato branco.

O mágico, inconformado, aborrecido, tinha compromisso no dia seguinte pela manhã, espetáculo em Caruaru. Recebeu o cachê, despediu-se, agradecendo nossos préstimos. Irado, junto à sua gostosa ajudante, deu arranque no carro, pensando no trabalho de amestrar outro pato, chorava, não sei se de raiva ou saudade do querido pato branco.

A boate continuou animada, namorados dançando lentamente na escuridão da luz vermelha, na leveza da música afinada e sensual do LSD. Ninguém àquela altura imaginaria que estava dançando ao som de um dos músicos mais importantes da história da música brasileira, Djavan.

Ao terminar a boate, cerca de duas horas da manhã, um garçom procurou a mim e ao Toroca, tinha um recado de amigos que estavam à nossa espera no Restaurante Galo de Campina, anexo à sede do CRB, onde se comia o melhor galeto assado da cidade.

Eu e Toroca descemos e entramos no restaurante lotado e logo percebemos em uma animada mesa, felizes, risonhos, tomando cerveja, os amigos Hélio Miranda, Betuca, Clailton, Lelé, Frazão, Quico e Beto Prazeres. Hélio, gentil, reverente, ofereceu cadeira: “Senhores diretores, sentem-se, são nossos convidados”. Agradecemos tomando uma cerveja geladinha comentando o sucesso da boate e do espetáculo do mágico. Pena o pato ensinado, tão branquinho, ter fugido, alguém deve ter achado pela praia de Pajuçara.

Não demorou e para nossa surpresa apareceu o garçom “Pescoço” equilibrando uma vistosa travessa de metal. Acolchoado de farofa, laranjas, maçãs; deitado em decúbito ventral, majestosamente, um suculento, dourado e apetitoso pato assado.

Obs – Essa história contei a algum tempo em minha coluna. No último dia 31 de maio, meu querido Toroca, amigo e parceiro foi embora. Alagoas está de luto, nunca mais aparecerá um esportista igual ao grande Toroca. Se eu fosse prefeito mandava esculpir sua estátua e a colocava no calçadão da praia de Pajuçara, em frente onde foi um dia a sede do CRB.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O HOMEM DA MARIOLA

Pedro Moura Jr., um Benemérito de Belo Jardim

Em novembro de 1937, após a decretação do Estado Novo, Agamenon Magalhães foi nomeado Interventor Federal em Pernambuco e substituiu vários Prefeitos que não se alinhavam às metas de Getúlio Vargas.

Pedro José de Moura Jr. Foi um deles. Juntou os documentos de sua gestão, esvaziou as gavetas e deixou seu gabinete de fronte erguida porque fez muito pela cidade de Belo Jardim. Nunca se ouviu falar que houvesse algum deslize em sua gestão.

Ao que constatei quando escrevi sua biografia, em 2001, ele deixou sim uma herança de exemplos.

Amigo de meus pais, manteve visitas constantes à nossa casa, quando vinha ao Recife, de forma que fui fundamentando uma admiração que se iniciou quando me fiz gente e comecei a entender o que era ser um homem público de vergonha. Nesse tempo havia poucos sem vergonha!

Na última vez que estivemos juntos, em Belo Jardim, ele me levou a conhecer uma pequena barragem que havia patrocinado e construído no Rio Bituri, empreendimento que aliviou o grave problema de falta de água na cidade.

“O ponto alto de qualquer ser humano – me disse na ocasião – é atravessar a vida construindo passagens para o engrandecimento dos seus semelhantes. ” Mais adiante soube que não tendo a Prefeitura recursos para executar aquela obra ele o fez com suas próprias economias.

Pontos de sua trajetória de vida valem aqui ser realçados. Quando jovem, deixou sua cidade – Vitória de Santo Antão – e foi ganhar a vida após sentir-se forte o suficiente para por em prática os ensinamentos da casa paterna.

Aos 13 anos conheceu as primeiras letras numa escola particular, mas só estudou até o “2º Livro”, de Felisberto de Carvalho, que se assemelhava ao antigo Curso Ginasial. Todavia, era um bom autodidata. Lia tudo e muito.

Foi ser caixeiro de uma padaria em Bezerros. Ao atingir 18 anos viajou ao Recife e qualificou-se como Representante da Singer Sewing Machine Company, fabricante de máquinas de costura, tendo como meta viajar pelo interior.

Um dos primeiros modelos de máquinas de costura manual

Viajando pelos sertões chega a Belo Jardim para demonstrar seu produto. Visita as casas ensinando às moças e senhoras como manusear as Singer, ainda manuais. Sentava-se e sem acanhamento costurava. Vendeu horrores.

Numa dessas demonstrações conhece um dos ramos de minha família, as Quaresma de Carvalho: Tereza, Laura, Alice, Doralice, Amália e uma de suas vizinhas: Josefa Augusta, que por não apreciar seu nome de batismo se tornou conhecida como “Mocinha”. Namorou, noivou e casou-se com a futura costureira, que seria sua companheira por toda a vida.

Não saiu de seus planos comprar um caminhão e trabalhar dias e noites estradas afora, todas ainda de chão batido, sofrendo com poeira comendo no centro. O cunhado, Jorge Aleixo da Cunha, lhe convida para ocupar um cargo na Fábrica de Doces Mariola. Arrendou o Super White e foi ser administrador da “Mariola”.

O doce Mariola inspirou música

Abriu mercados pelo interior como o fez com as máquinas de costura. Para muitas cidades, inclusive a Capital, conseguiu exportar os deliciosos docinhos, após criar embalagem de madeira, accessível ao transporte e fácil de ser vendido em todas as vendas, bodegas e mercados.

Empreendeu verdadeira missão ao estimular agricultores a plantar goiaba e banana para atender à fábrica.

Na Fábrica Mariola fez melhoramentos técnicos, inclusive inventou u’a maneira de cortar doces com um fio de cobre aquecido, engenhoca usada durante vários anos.

Nos demais setores fez ampliações consideráveis, de âmbito promocional e reconhecimento público, inclusive tornar-se Correspondente do Banco do Brasil, um prestigioso momento para a firma Jorge Aleixo & Cia. Ltda. Pedro Moura tinha raro tirocínio para ampliar oportunidades.

Nos dias atuais temos Petrúcio Amorim cantando a música: “Tareco e Mariola”, inspirada no tal docinho em tabletes, que surgiram em Belo Jardim.

Homem de traçado íntegro, em poucos anos se tornou popular na cidade e elegeu-se Prefeito. Sua primeira iniciativa foi ampliar o fornecimento de água na cidade e para isto construiu uma barragem, que certo dia me levou a conhece-la, orgulhoso do seu feito.

A mão de ferro da Ditadura Vargas extinguiu seu mandado de Prefeito, como vários outros em Pernambuco, mas o fez de forma imprópria. Anos depois, na década de 1970, seu genro, o Deputado Federal José Mendonça Bezerra, consegue estimular a alta direção do Banco do Brasil a se instalar em Belo Jardim.

Mas, decorridos vários meses não se achava terreno compatível para a construção da agência no Centro da cidade e se cogitou transferir a instalação para outro município.

Diante dos fatos, Pedro Moura – como se tornou conhecido – doou dois imóveis localizados na principal praça da cidade, para que ali, após demolidos, se erguesse o Banco.

Tal fato foi assinalado em vibrante discurso de Camillo Calazans, Diretor do BB, durante a solene inauguração. Nas pesquisas para escrever sua biografia o fato foi constatado pelo Autor, que esteve no Cartório de Imóveis e copiou o documento de doação dos imóveis à Prefeitura, porque o Banco não aceitava doação de terceiros.

Anos mais adiante, tornando-se especialista em reparo de baterias automotivas, funda com o filho, que se diplomara em Química – Edson Mororó Moura – a fábrica Acumuladores Moura S.A..

O padrão do produto “Baterias Moura” perenizou seu nome de família, levando-o às terras americanas do Norte, onde vendeu bem, recebendo certificado de “Melhor fornecedor de Produtos Elétricos da General Motors”, fabricante dos veículos Chevrolet.

Nos anos seguintes as Baterias Moura passaram a ser equipamento das fábricas Fiat, Ford. Vollswagen e Mercedez Benz. O sonho dos matutos Edson e seu pai, Pedro Moura Jr. invade meio mundo.

Meu personagem recebeu post morten homenagens expressivas. Uma com seu nome na grande barragem que atende a quatro municípios; e do Altíssimo, a referência de haver sido avô de um dos nossos governadores: José Mendonça Bezerra Filho, carinhosamente conhecido como “Mendoncinha”.

O nome Moura se tornou símbolo. Há poucos anos um jornal comentava: Situada a montante dos municípios de São Caetano, Belo Jardim, Tacaimbó e de Caruaru, a Barragem Pedro Moura Jr. tem comportado volume de água além de sua capacidade física.

A Barragem Pedro Moura Jr. abastece vários municípios de Pernambuco

Este colunista viveu de perto a trajetória desse Benemérito de Belo Jardim, um político e industrial da melhor cepa.

PENINHA - DICA MUSICAL