DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

NO RIO SOU PARAÍBA E EM SÃO PAULO BAIANA

Sou cearense da gema
Onde o sol nasce encarnado
A minha cabeça chata
Faz parte desse legado
Nunca me vi coitadinha
Faca, tirei da bainha
Pra riscar o meu traçado.

No Rio sou Paraíba,
Em São Paulo sou baiana
Minha nordestinidade
Não me deixa ser fulana
Na Feira dos Paraíbas
Revejo em minhas idas
Que nossa gente se irmana.

Não nasci pra ser piolho
Tenho meu discernimento
Jamais segui a manada
Pra isso tenho argumento
Prefiro ter meu poder
Sem empoderada ser
Só sigo meu pensamento.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

SOU MULHER E SOU BENDITA

Eu bem sei que tudo passa
Na vida que a gente tem
Por isso é que vivo a vida
Decidida e sem porém,
Pois triste de quem nasceu
Viveu e nem percebeu
O prazer de ir além.

Montei no lombo da vida
E na sela eu me aprumei
As rédeas em minhas mãos
Com firmeza segurei
Aticei meu alazão
Tirei poeira do chão
A porteira escancarei.

Assim eu ganhei o mundo
Na estrada não me perdi
Provei dos sabores da vida
Chorei pouco e mais sorri
Dei aval ao coração
Pra cada contravenção
Das emoções que senti.

Em noite de lua cheia
O luar foi companheiro
Banhou-me com sua prata
Seduzi meu companheiro
Que vendo o brilho da lua
Rajando a pele nua
Operou como posseiro.

Criei asas e voei
Até devorei zangão
Provei geleia real
Escapei por ter ferrão
A vida não foi só mel
Se por vezes fui cruel
Faltou-me submissão.

Eu apeei em açude
Em ribeirão e riacho
Nos lugares mais bonitos
Arrefeci o meu facho
Pois a vida me sorria
E a dona hipocrisia
Deixei com cara de tacho.

Quem arriscou me laçar
Ficou com corda na mão
Eu derrubei muita estaca
E até cerca de mourão
Campeei como eu queria
Hoje faço é poesia
Dessa saga no sertão.

Dei corda ao meu instinto
Feito Maria Bonita
Meu fado eu canto em verso
Pois não caí em desdita
Entre o profano e o sagrado
Meu norte foi consagrado
Sou mulher e sou bendita.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

ROLA X PERIQUITO

Qualquer semelhança com a vida dos racionais é mera coincidência

Nesses tempos atuais
Amigo vou lhe contar
Tem coisa que não entendo
Também não posso explicar
Pois até a natureza
Exibe sua aspereza
Quando resolve brigar.

Um periquito vadio
Que gostava de dinheiro
Resolveu grana ganhar
Não aqui, no estrangeiro,
Começou a atuar
E viu seu plano vingar
Foi esperto e foi ligeiro.

Para uma pomba lesa
O periquito ligou
Mas a rola vaidosa
Burra nem desconfiou
Que o tal do periquito
Todo sarado e bonito
Um bom golpe planejou.

O periquito esperto
Enviou fotografia
Mostrou que era capaz
De encarar uma porfia
E a pomba encantada
Logo caiu na cantada
Sem saber o que fazia.

Periquito decidido
Resolve a situação
Levou a pomba abestada
Direto para o colchão
Foi pena pra todo lado
Fizeram amor adoidado
Até rolaram no chão.

O periquito contente
Deu conta do seu recado
A rola baixou a cabeça
Quando viu o resultado
É hoje ave acuada
Porque vai ser depenada
O golpe foi confirmado.

Após contar essa saga
Pasmada eu aqui medito:
Pois tem coisa que me assombra
Eu vejo e não acredito
Só sendo coisa do diabo
É pomba tomar no rabo
Por comer um periquito.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DUAS GLOSAS

Mote e glosas da colunista:

Eu levo minha vidinha
Do jeito que gosto e quero.

Não nasci pra ser padrão,
Tenho manha e sou teimosa,
Não sou fraca ou desditosa,
Piso com força no chão.
Eu sou mulher do sertão!
Sem queixa, sem lero-lero,
Ti ti ti eu não tolero,
Quem diz isso é Dalinha:
Eu levo minha vidinha
Do jeito que gosto e quero.

Resolvi ser diferente
Somente pra não ser santa
Eu sei que meu jeito espanta
Porém fico indiferente
Pra viver eu boto é quente
Tempo bom eu não espero
Levo na valsa ou bolero
A saga que é só minha
Eu levo minha vidinha
Do jeito que gosto e quero.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

MARIA SEM VÉU

1
Eu de Maria sou filha
Neta e bisneta também
Herdei da prole esse nome
Que da sucessão provém
Portanto, eu sou Maria
Guerreira do dia a dia
Que na luta se mantém.

2
Eu sou Maria de Lourdes,
Sou Aragão e Catunda.
É na gleba nordestina
Minha raiz mais profunda
Minha alma não fraqueja
Sou Dalinha sertaneja
Do Ceará, oriunda.

3
Quantas Marias eu fui
A quantas me comparei
Nas linhas desse cordel
Em versos discorrerei
Quem nasceu pra ser Maria,
Jamais se acovardaria
Para viver me alistei.

4
Fui Maria-sem-vergonha
Nos jardins daquele chão
A tal Maria teimosa
Em era de reinação
Tempos de felicidade
Bem na flor da mocidade
Das primícias e emoção.

5
Como Maria das graças
Eu esbanjei alegria
Faceira desaforada
Replena de rebeldia
Uma flor a ser colhida
Que multiplicou na vida
Sem ser a Virgem Maria.

6
Assim então me tornei
A tal Maria das Dores
Em tempos de pouca idade
Acreditei em amores
E saí no prejuízo
Pois perdi meu paraíso
Provei dos velhos rigores

7

Em Maria Madalena,
Eu logo fui transformada
A torpe sociedade
Não se esqueceu da pedrada
Sem lembrar que era vidraça
Quase que me despedaça
Então fui expatriada.

8
Ser Maria do Rosário
Desfiando amargura
Não estava em meus planos
Depois dessa ruptura
Daí eu tomei coragem
Para seguir a viagem
Sabendo da lida dura.

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DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

QUANDO PAPAI ME FEZ…

Quando meu papai me fez
Diz ele que caprichou
Começou no escurecer
E a noite inteira levou
Não faltou material
A gala era especial
Mamãe também cooperou.

Capricharam nos olhinhos
Na boca, queixo e nariz
Minha mãe abriu as pernas
E o velho passou o giz
Assim foram desenhando
E formato fui ganhando
Naquele dia feliz.

Quando painho chegou
Largou logo a lazarina
E disse para mainha
Hoje eu faço uma menina
Os documentos lavou
E com mamãe se deitou
E apagou a lamparina.

Numa cama de pau duro
Começou o rebolado
Meu velho ia e voltava
E mamãe fazendo agrado
Para eu não nascer feia
Fizeram na lua cheia
E foi bom o resultado.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

AS FACES DA CHUVA

Quando a chuva esperada
Chega molhando o nordeste
Uma alegria inconteste
Não demora é espalhada
O povo cai na risada
Vendo a água em profusão
Aflora na multidão
Clima de felicidade
Chuva na grande cidade
Não é igual ao sertão.

Quando a chuva chega forte
Inunda a cidade grande
O aguaceiro se expande
Causa dano, causa morte,
O povo fica sem norte
Com tanta destruição
A chuva sem compaixão
Exibe sua crueldade
Chuva na grande cidade
Não é igual ao sertão.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

O DELEITE DA ROSA

Encantei-me com conversa
De bico de beija-flor
Minha ode hoje versa
Sobre esse sublime amor.

Sobre esse sublime amor
Pelo qual fui seduzida
Exalando meu olor
Era por ele sorvida

Era por ele sorvida
Ao despertar orvalhada
Libertina e atrevida
Incontida era sugada.

Incontida era sugada
E quase a desfalecer
Feliz mas despetalada
Desmanchei-me em prazer.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

ALMA SEBOSA

Tem gente que vem ao mundo
Feito a figura do cão
É o ser humano imundo
Que causa abominação
É a tal alma sebosa
É serpente venenosa
Que só maldade alimenta
Já peguei o meu rosário
De dentro do santuário
E ungi-me com água benta.