DEU NO JORNAL

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BATE-BOCA NÃO PODE FAZER RELAÇÃO BILATERAL DESCARRILAR

Editorial Gazeta do Povo

editorial milei lula

Javier Milei chamou Lula de “ladrão” e “presidiário” durante convenção do PL, em São Paulo

Os governos de Argentina e Brasil se entregaram a uma troca de insultos nos últimos dias. O presidente argentino, Javier Milei, esteve no Brasil para participar da convenção do PL que lançou oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto; no evento, chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”, em referência ao tempo que o petista passou preso após ser condenado na Lava Jato – as condenações e todos os processos seriam depois anulados pelo Supremo Tribunal Federal. Dois dias depois, o presidente Lula ironizou Milei, respondendo com um “quem é esse cara?” à pergunta de um jornalista, deixando os xingamentos para seus ministros: Dario Durigan, da Fazenda, chamou o argentino de “palhaço”, e Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, disse que Milei era uma “caricatura patética” e “puxa-saco de [Donald] Trump”.

A choradeira petista sobre “interferência estrangeira” no próximo pleito presidencial é hipocrisia pura, pois Lula e seu partido são veteranos em demonstrações de apoio a camaradas ideológicos em disputas presidenciais no continente americano – em vários casos, os episódios ocorreram quando Lula era o chefe de Estado brasileiro. No caso argentino, o apoio foi muito além de simples declarações ou vídeos gravados: em 2023, Lula, que já estava de volta à Presidência, enviou seu ex-marqueteiro (e hoje ministro) Sidônio Palmeira à Argentina, com uma equipe de publicitários, para colaborar na campanha do socialista Sergio Massa; além disso, deu uma forcinha para que a Argentina conseguisse um empréstimo muito conveniente no Banco de Desenvolvimento da América Latina, mesmo já tendo estourado seu limite de crédito.

Nada disso funcionou: Massa acabaria derrotado por Milei no segundo turno. Ainda assim, esse tipo de ajuda (e marqueteiros brasileiros não foram emprestados por Lula apenas aos socialistas argentinos, mas também aos venezuelanos) configura “interferência estrangeira” de forma muito mais acintosa que declarações de apoio ou xingamentos – mesmo neste campo, aliás, o petista supera seu homólogo argentino com folga, como quando, em 2024, afirmou que uma vitória de Trump seria “o fascismo e o nazismo voltando a funcionar com outra cara”.

Quando os adultos entraram em campo, no entanto, o resultado foi bem diferente. O Itamaraty chamou a Brasília o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, e convocou Daniel Raimondi, embaixador argentino no Brasil – o procedimento diplomático padrão quando um país julga necessário transmitir sua contrariedade em relação a ações de outro país ou de seus governantes. E a contrariedade em relação às falas de Milei de fato se justifica, pois, como diz a nota do ministério, “não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado”. Mas, por outro lado, segundo informações de bastidores, a chancelaria brasileira também deu um puxão de orelha em Durigan e Boulos. O ministro argentino de Relações Exteriores, Pablo Quirno, por sua vez, afirmou que “a Argentina não eleva nem elevou este tema ao nível institucional”, que “separamos o caminho político e ideológico do caminho institucional”, e que “não há nenhuma chance de que isso [um rompimento] ocorra do nosso lado”.

Na mesma nota, o Itamaraty afirmou que a Argentina é “um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”, e o chanceler argentino seguiu a mesma linha ao afirmar que “temos a mais alta estima pelo embaixador brasileiro na Argentina” e que as rusgas entre Lula e Milei não impediram que ambos os países assinassem o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. O mesmo, aliás, ocorreu quando os sinais estavam trocados: com Jair Bolsonaro no Planalto e Alberto Fernández na Casa Rosada, também houve estremecimento e insultos, mas as relações comerciais se mantiveram como se nada estivesse acontecendo entre os mandatários.

Presidentes passam, mas os países (e as relações entre eles) ficam – os diplomatas de ambos os lados parecem perceber isso, e talvez seja demais esperar o mesmo dos políticos, especialmente em época eleitoral. Brasil e Argentina já tiveram momentos de tensão muito maior, como na década de 1970, devido aos programas nucleares de ambos os países, com desconfiança mútua a respeito de possíveis intenções de fabricar armas atômicas. Com a redemocratização dos dois lados da fronteira (e um empurrão norte-americano), o impasse foi superado. O destempero verbal de presidentes e ministros também tem tudo para sê-lo.

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MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O ÓBOLO DA VERECÚNDIA OU QUANDO A ESMOLA VIRA MÉTODO E A POBREZA VIRA POLÍTICA DE ESTADO

Houve um tempo em que o óbolo era gesto. Pontual. Emergencial. Humano. Dava-se porque alguém caíra — e a queda não definia a pessoa. Hoje, o óbolo foi institucionalizado, burocratizado, estetizado e rebatizado. Recebeu logotipo, slogan, campanha publicitária e blindagem moral. Tornou-se política permanente — não para extinguir a miséria, mas para administrá-la. Chamam isso de cuidado social. Eu chamo de verecúndia travestida de virtude.

A esmola que exige silêncio

O novo óbolo não pede gratidão explícita — pede submissão simbólica. Não exige trabalho — exige adesão narrativa. Não emancipa — fixa. Qualquer tentativa de crítica é imediatamente classificada como crueldade. Questionar o método vira ataque aos pobres. Criticar o sistema vira crime moral. A discussão é interditada antes mesmo de começar. E assim se constrói o dogma supremo: “Não toque no óbolo”. Mas tocar é necessário. Porque há algo profundamente errado quando uma política pública deixa de ser ponte e passa a ser destino.

A pobreza como ativo político

O verdadeiro escândalo não é ajudar quem precisa. O escândalo é precisar que ele continue precisando. Uma política social honesta trabalha para diminuir a si mesma. A política do óbolo moderno trabalha para expandir-se, justificar-se, perpetuar-se. Ela cria dependência e a chama de inclusão. Cria estagnação e a chama de proteção. Cria silêncio e o chama de dignidade. O pobre deixa de ser cidadão em trânsito e passa a ser personagem fixo. Um número útil. Um argumento ambulante. Um voto encapsulado.

O trabalho como elemento incômodo

Nada incomoda mais a lógica do óbolo permanente do que o trabalho real. Trabalho exige formação. Formação exige tempo. Tempo exige planejamento. Planejamento exige governo. É muito mais simples distribuir renda do que produzir capacidade. Muito mais fácil pagar do que educar de verdade. Muito mais conveniente manter do que transformar. O resultado? Uma sociedade onde produzir virou exceção heroica e depender virou normalidade moral. E quem ousa apontar isso é acusado de elitismo — como se exigir autonomia fosse opressão.

A estética da boa consciência

O óbolo moderno não quer resolver o problema. Quer parecer bom. Ele se alimenta da imagem: fotos, discursos, números soltos e manchetes emocionais. É uma política fotogênica, não eficaz. Uma política que funciona melhor em palanque do que na vida concreta. Enquanto isso, o país afunda em informalidade, desalento, improdutividade e um cinismo coletivo onde todos fingem não perceber o óbvio: algo saiu do eixo.

O insulto final

Talvez o insulto mais cruel dessa engenharia moral seja este: ela trata o pobre como incapaz de crescer. Em nome da proteção, nega a potência; em nome da ajuda, retira o horizonte; em nome da dignidade, normaliza a dependência. Isso não é compaixão. É paternalismo com orçamento.

Epílogo: o que deveria ser

Auxílio deveria ser: temporário, exigente, formativo e orientado para saída. Não um colchão eterno onde o Estado se deita confortável, enquanto a sociedade paga a conta e finge não ver o abismo se abrindo.

A verdadeira política social não distribui óbolos. Ela cria chão. E quem confunde crítica com crueldade já perdeu o debate porque prefere a própria virtude performática à emancipação real de quem diz defender. Nós não cuspimos slogans; nós desmontamos mecanismos. E este, meus caros, está apodrecendo à vista de todos.

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(AINDA) É PRECISO OUVIR ARMÍNIO FRAGA

Guilherme Fiuza

Se o Brasil fosse um grande confessionário, estaria faltando espaço. Se o Brasil fosse um grande divã, ainda seria necessário um beliche. A dívida de sinceridade anda grande por aqui. Mas nem tudo está perdido.

Uma parte bastante influente da sociedade resolveu fazer uma aposta arriscada nos últimos anos. De olho numa construção política artificial, gente bastante esclarecida decidiu participar de um banho de loja no petismo. Lula ressurgiu do cárcere da Lava Jato como o grande emblema da democracia brasileira.

O esforço para a construção dessa miragem foi tão bem-sucedido (!) que a coreografia nem pegou tão mal assim. A bolha gigante absorveu o vexame. Imprensa, universidade, cultura, business — foi um formidável aparato institucional ecoando a mesma fábula (rendeu até Oscar). A impostura foi suficientemente acolchoada na sociedade para mitigar o constrangimento dos envolvidos.

Quanto tempo pode durar uma lenda? Depende. A de Daniel Ortega já se aproxima de meio século. Mas o divã da Nicarágua é menor que o nosso. E as longas páginas do PT no poder são gritantes demais para que um banho de loja as enxágue plenamente. Mesmo desconsiderando o capítulo da corrupção, há passagens das quais nenhuma lavagem poderá remover o encardido.

É um partido que, com Lula ou sem Lula no leme, pratica expansão de gastos públicos e incremento tributário — na contramão do que, ainda no século passado, se consagrou como princípio essencial para a saúde econômica e o crescimento: o rigor fiscal.

O projeto presidencial do PT, em 2022, não tinha nenhum sinal que indicasse uma guinada no que sempre praticou. E recebeu o apoio de vários economistas importantes do período do Plano Real — justamente quando se consagrou, no Brasil, o princípio da responsabilidade fiscal. Agora, um desses mestres, Armínio Fraga, faz uma crítica contundente à condução macroeconômica do governo Lula — em quem não apenas votou, mas para quem também recomendou publicamente o voto.

“A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara, e os resultados estão aí, na forma de juros altos”, disse Armínio à revista Veja. “Não descarto uma recessão em 2027”, acrescentou o ex-presidente do Banco Central, contando que tem recomendado aos seus clientes que não contraiam dívidas.

Se, em 2022, Armínio tivesse dado uma rápida consultada em sua bola de cristal, estaria tudo lá. Mas, na época, ele preferiu dizer que entrevistou Lula por telepatia e obteve do candidato as melhores garantias de uma conduta econômica responsável. De qualquer forma, menos importante do que entrevistar Armínio por telepatia para entender sua lógica quatro anos atrás é reconhecer a importância do que está dizendo agora.

Que outros economistas consagrados também se animem a deitar no divã do Brasil e abrir o jogo para os brasileiros sobre o que está em jogo nesta eleição.

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