DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

Se o Brasil fosse um grande confessionário, estaria faltando espaço. Se o Brasil fosse um grande divã, ainda seria necessário um beliche. A dívida de sinceridade anda grande por aqui. Mas nem tudo está perdido.

Uma parte bastante influente da sociedade resolveu fazer uma aposta arriscada nos últimos anos. De olho numa construção política artificial, gente bastante esclarecida decidiu participar de um banho de loja no petismo. Lula ressurgiu do cárcere da Lava Jato como o grande emblema da democracia brasileira.

O esforço para a construção dessa miragem foi tão bem-sucedido (!) que a coreografia nem pegou tão mal assim. A bolha gigante absorveu o vexame. Imprensa, universidade, cultura, business — foi um formidável aparato institucional ecoando a mesma fábula (rendeu até Oscar). A impostura foi suficientemente acolchoada na sociedade para mitigar o constrangimento dos envolvidos.

Quanto tempo pode durar uma lenda? Depende. A de Daniel Ortega já se aproxima de meio século. Mas o divã da Nicarágua é menor que o nosso. E as longas páginas do PT no poder são gritantes demais para que um banho de loja as enxágue plenamente. Mesmo desconsiderando o capítulo da corrupção, há passagens das quais nenhuma lavagem poderá remover o encardido.

É um partido que, com Lula ou sem Lula no leme, pratica expansão de gastos públicos e incremento tributário — na contramão do que, ainda no século passado, se consagrou como princípio essencial para a saúde econômica e o crescimento: o rigor fiscal.

O projeto presidencial do PT, em 2022, não tinha nenhum sinal que indicasse uma guinada no que sempre praticou. E recebeu o apoio de vários economistas importantes do período do Plano Real — justamente quando se consagrou, no Brasil, o princípio da responsabilidade fiscal. Agora, um desses mestres, Armínio Fraga, faz uma crítica contundente à condução macroeconômica do governo Lula — em quem não apenas votou, mas para quem também recomendou publicamente o voto.

“A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara, e os resultados estão aí, na forma de juros altos”, disse Armínio à revista Veja. “Não descarto uma recessão em 2027”, acrescentou o ex-presidente do Banco Central, contando que tem recomendado aos seus clientes que não contraiam dívidas.

Se, em 2022, Armínio tivesse dado uma rápida consultada em sua bola de cristal, estaria tudo lá. Mas, na época, ele preferiu dizer que entrevistou Lula por telepatia e obteve do candidato as melhores garantias de uma conduta econômica responsável. De qualquer forma, menos importante do que entrevistar Armínio por telepatia para entender sua lógica quatro anos atrás é reconhecer a importância do que está dizendo agora.

Que outros economistas consagrados também se animem a deitar no divã do Brasil e abrir o jogo para os brasileiros sobre o que está em jogo nesta eleição.

Um comentário em “(AINDA) É PRECISO OUVIR ARMÍNIO FRAGA

  1. Victor Zapata

    @VictorZapataAdm
    ·
    27 de jul
    A eleição de 2026 não é um pleito eleitoral simples de compreender e prever; quem diz que os resultados são óbvios e evidentes, quem arrota soluções simples e eficazes não tem a mínima ideia do que está acontecendo.

    A eleição de 2026 é o desfecho de um processo histórico mais amplo — quem sabe o Dia D de uma longa guerra pela domesticação e neutralização do povo brasileiro como agente participante de sua política interna, como grandeza política nacional.

    O ambiente cultural após a queda do Muro de Berlim tratava como louvável a teoria do fim da história de O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama.

    Falar sobre governança mundial e paz era muito bonito; relatórios como Our Global Neighborhood, publicado pela Oxford University Press — que tratava justamente sobre as reformas necessárias para se alcançar um modelo institucional e político de governo mundial —, eram o ápice da civilidade e da busca pelo bem comum.

    Mas as elites que propunham esse modelo, seus estudiosos ou mesmo a grande mídia jamais avisaram qual era o preço a se pagar pela tal governança global. Bem, o preço é justamente a planificação da política, a neutralidade de toda tensão política nas instituições, o que resulta, no fim das contas, na retirada do poder decisório das instituições e no esvaziamento do poder do povo de decidir os rumos de sua própria nação.

    Você já não teve a sensação de que o poder político é muito distante e indiferente? Ou mesmo que a capacidade de mudar os rumos do país é simplesmente impossível, porque não há a quem recorrer?

    Parlamentares, prefeitos, governadores e até um ex-presidente parecem de mãos amarradas diante de um sistema político que parece transferir para longe dos representantes do povo o poder de promover qualquer mudança.

    E isso é efeito direto do avanço globalista sobre o Brasil, da neutralização da política em nossa nação. Quando a capacidade de mudar a ordem política é transferida para instituições globais, agentes de mercado e acordos multilaterais, o povo fica sem ter a quem recorrer e os cargos eletivos viram enfeites: são figurativos.

    Há décadas, uma pequena elite, muito bem amparada financeira e intelectualmente, vem trabalhando metodicamente para a implantação de um governo mundial, uma ditadura burocrática internacional encarregada de pacificar e unificar a humanidade.

    No Brasil, entretanto, as garras desse projeto se fincaram com uma facilidade humilhante.

    Na década de 1990, contando com a discrição da mídia mainstream e de todo o complexo acadêmico nacional, foi implementada a “estratégia das tesouras”.

    Sob as bênçãos e o patrocínio do Diálogo Interamericano, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva arquitetaram o mais cínico teatro de fantoches da nossa história política.

    O tucanato assumiu o papel da direita permitida: administrava a nação com compromisso com a tecnocracia e o economicismo liberal, enquanto entregava o monopólio da moralidade, da cultura e da educação para a esquerda.

    O povo brasileiro foi reduzido a escolher entre o socialismo fabiano e o socialismo bolivariano. Qualquer direita orgânica ou com apelo popular foi banida da política nacional.

    Esse monopólio absoluto e a supressão de qualquer oposição real prepararam o terreno perfeito para a ascensão do PT e, por consequência, para o Mensalão. A roubalheira comunopetista nunca foi um fim em si mesma. Ela foi a aplicação rigorosa e metódica de um projeto de poder totalitário, concebido nas sombras do Foro de São Paulo.

    Tratava-se de sugar o capitalismo brasileiro para comprar o Parlamento por dentro, destruir as defesas institucionais do “Estado burguês” e enviar bilhões para salvar ditaduras e movimentos terroristas em todo o continente.

    O PT salvou a agenda bolivariana do Foro de São Paulo, com obras de infraestrutura em países vizinhos, empréstimos para ditaduras e muito dinheiro dos impostos do contribuinte brasileiro.

    Dentro do projeto globalista havia espaço para ditaduras, países socialistas e republiquetas disfuncionais. Mas a utopia globalista naufragou e, com isso, as nações estão voltando a buscar independência e soberania.

    O Brasil viveu sob o domínio de duas forças que buscavam a neutralização da política: o tucanato globalista/fabiano e o petismo bolivariano.

    Ambos precisavam neutralizar a política nacional e retirar do povo o poder político: o primeiro para entregar esse poder e legitimidade a instituições internacionais; o segundo para dissolver o Brasil no grande bloco bolivariano da “Pátria Grande”.

    Com o processo de desglobalização, os EUA em tensão com a China e politizando sua diplomacia, o Brasil tem uma chance de ter um presidente que não é comprometido com nenhuma dessas agendas, mas depende de sua popularidade e conexão com o eleitorado.

    Flávio Bolsonaro é o único nessa corrida sem compromisso com essas duas agendas e essas forças internacionais.

    Vimos o sistema convulsionando com Bolsonaro no poder; agora, o sistema igualmente convulsiona para impedir que Flávio chegue ao Planalto.

    Não é uma eleição qualquer: é a escolha entre a possibilidade de um projeto nacional e o retorno às agendas de neutralização da política.

    Isso é inegável e incontestável: Flávio é completamente desvinculado e descomprometido com esses dois movimentos que tanto oprimiram e empobreceram o Brasil.

    Milton Santos e Olavo de Carvalho avisaram com muita antecedência sobre os perigos desses movimentos; aqui vemos como Milton, com muitíssima antecedência, falava sobre a ausência de projeto de país e como a globalização subjugou o Brasil.

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