DEU NO JORNAL

A GASTANÇA GOVERNAMENTAL COMEÇA A DERRUBAR O VAREJO

Editorial Gazeta do Povo

As Casas Bahia pediram recuperação judicial e tiveram prejuízo de R$ 10 bilhões no segundo trimestre deste ano

Em poucos dias, duas grandes redes de varejo, com décadas de atuação e conhecidas por todos os brasileiros, pediram recuperação judicial, evidenciando sua frágil situação. No domingo, as Casas Bahia, rede que teve prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano, protocolou o pedido no Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. Na véspera, o conglomerado das Lojas Marabraz pediu a recuperação judicial de cinco de suas empresas. O instrumento é usado por empresas em apuros, antes que passem a correr risco concreto de falência, permitindo renegociação das dívidas com credores; ainda que a recuperação seja bem-sucedida e as redes não fechem as portas, os dois episódios mostram as consequências nefastas de uma política fiscal desastrosa, que insiste em manter a economia rodando muito acima de sua capacidade.

A história de cada empresa que busca a recuperação judicial ou vai à falência tem suas peculiaridades. Um caso emblemático é o de outra gigante do varejo, as Lojas Americanas, cujo declínio ocorreu devido a uma fraude contábil na casa das dezenas de bilhões de reais. Outras empresas vivem disputas internas entre sócios (é o caso da Marabraz), ou colhem os resultados de decisões de negócio equivocadas, como a demora em se adaptar a modelos de comércio eletrônico. Mas há um elemento comum que é fatal para as grandes redes varejistas: os juros altos, que dificultam a manutenção de estoques, reduzem o apetite do consumidor e encarecem o crediário, vital para empresas que vendem bens como móveis e eletrodomésticos, os carros-chefe de redes como Casas Bahia e Marabraz. Esses produtos pertencem àquela categoria cuja aquisição o consumidor costuma adiar em tempos de vacas magras, redirecionando o consumo para os itens de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos.

Apontar a influência dos juros altos no declínio de grandes redes varejistas, no entanto, é contar a história apenas pela metade. É preciso perguntar por que o Banco Central continua a manter a Selic em patamares tão altos, quase dez pontos porcentuais acima da inflação medida pelo IPCA. E a resposta não está no BC, mas no Palácio do Planalto. Ao levar adiante uma política fiscal baseada na expansão dos gastos e no estímulo ao consumo, de forma a manter a economia superaquecida, Lula criou a pressão inflacionária que forçaria o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC a retomar o aperto monetário, depois de um ciclo de afrouxamento no primeiro ano e meio do terceiro mandato lulista.

Com recordes sucessivos no número de famílias brasileiras endividadas e inadimplentes, e o fracasso dos programas eleitoreiros de renegociação como o Desenrola (cuja primeira versão acabou servindo para elevar o endividamento, segundo o BC), o brasileiro ou parou de comprar, ou está redirecionando seu consumo. E, assim, o modelo lulista, que era uma repetição turbinada da “nova matriz econômica” que nos legou a recessão de 2015-16, começa a mostrar sua exaustão, arrastando consigo gigantes que não caíram nem mesmo na maior crise econômica da história do país, e que ficaram mais vulneráveis devido a eventuais fragilidades individuais ou que afetam determinados setores.

PENINHA - DICA MUSICAL

A PALAVRA DO EDITOR

RODRIGO CONSTANTINO

CENSURA E DIREITA PREJUDICADA: O HISTÓRICO DO TSE JUSTIFICA A DESCONFIANÇA DAS CAMPANHAS

Censura e direita prejudicada: o histórico do TSE justifica a desconfiança das campanhas

Agora sim, começou oficialmente a disputa eleitoral. Os pré-candidatos, já em campanha faz tempo, podem se assumir como candidatos e passar a pedir votos – aquilo que Lula já tinha feito fora da lei antes. São menos de dois meses para definir os futuros governadores dos estados, deputados estaduais e federais, senadores e o presidente da República. Dias agitados à frente.

Não é tarefa fácil para o TSE regular essas disputas num ambiente de redes sociais. Mas, historicamente, sua atuação tem sido para prejudicar a direita, que tem justamente nas redes sociais um habitat natural, enquanto a esquerda conta com o viés da velha imprensa. O deputado Marcel van Hattem, que disputa vaga para o Senado pelo Rio Grande do Sul, criticou decisão recente que impõe regras ao X de Elon Musk:

“A censura começou. Você só está lendo este tweet porque já me segue no X. O TSE criou por resolução – ou seja, e não por lei aprovada pelo Congresso – um mecanismo que, na prática, reduz absurdamente o alcance orgânico dos candidatos nas redes. No X, perfis declarados à Justiça Eleitoral estão excluídos a partir de hoje das recomendações da aba ‘Para Você’. Quem já me segue continua vendo meu conteúdo, mas quem ainda não me conhece tem menos chance de receber minhas propostas, opiniões e ideias, a não ser que alguém as reposte”.

Numa eleição ideal, os candidatos apresentariam suas ideias e os eleitores, livremente, poderiam analisá-las e tomar uma decisão mais embasada. Mas, na prática, há o risco de “abuso de poder político e econômico”, o que gera certa subjetividade e permite ao TSE um filtro arbitrário. Marcel reclama: “Defendo que todos os candidatos, inclusive aqueles de quem discordo profundamente, tenham o direito de apresentar suas ideias e disputar a atenção dos eleitores. A democracia verdadeira requer o livre mercado de ideias: cada candidato fala, cada eleitor compara, confronta e decide. O Estado não deveria interferir para reduzir a chance de que as ideias dos candidatos cheguem ao eleitor”.

O TSE mandou retirar também vídeo de Flávio Bolsonaro que associa Lula a facções criminosas. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral, que só existe no Brasil, reverte posição inicial de Nunes Marques. Lula disse que traficantes são vítimas dos usuários. Isso poderá ser usado na campanha? Nas eleições passadas, esta Gazeta do Povo, jornal centenário e respeitado, ficou impedido de fazer reportagens sobre os elos históricos de Lula e ditadores comunistas. Será igual este ano? Essas decisões afetam a liberdade dos candidatos e, acima de tudo, dos eleitores, que têm todo o direito de se informarem de maneira adequada para decidir os rumos da nação.

Isso quando não há intervenção direta para influenciar nas alianças partidárias. O jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, afirmou que ministros do STF pressionaram partidos do centrão para que ficassem neutros, sem apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Merval Pereira, no Globo, disse que tal informação é “grave”. Um colunista do UOL pediu investigação sobre essa denúncia. Se comprovada, estaríamos diante de um golpe mesmo, algo totalmente ilegal e absurdo. Não custa lembrar que o então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, confessou num convescote de comunistas da UNE: “Nós derrotamos o bolsonarismo”.

Toda atenção, portanto, faz-se necessária. O jogo deveria ser limpo para que o eleitor, de fato, seja o protagonista. Mesmo com regras justas, filtrar conteúdo decente em meio a tanto barulho já seria uma missão difícil. Há, ainda, o mito do eleitor racional, como diz Bryan Caplan. Eleição tem muito de emoção e nem tanta razão como deveria. E os candidatos exploram isso, evidentemente.

São partidos demais também, fruto do modelo estatizado que temos. O editorial do Estadão diz: “Partido político é negócio da China”. Como exemplo, o jornal alega que escândalo não é o PCO desviar fundo eleitoral, e sim um partido sem voto ter direito a fundo eleitoral. “Quem abre um partido político – seja ele comunista revolucionário ou capitalista selvagem – não precisa nem ganhar eleição para garantir sua prosperidade”, diz. Se acabar com o fundo eleitoral e o fundo partidário, essa palhaçada acaba! O “Ruizão” do PCO é milionário “vendendo” comunismo com recursos públicos!

Por fim, ver tantos colegas disputando vagas na política me deixa com sentimentos mistos. Por um lado, acho ótimo que tanta gente boa queira fazer a diferença na política; por outro, isso pode sinalizar que o mecanismo de incentivos é perverso no país e todos querem os privilégios estatais. Não é para menos, quando lembramos que mais de 80% das famílias estão endividadas e que a inadimplência já atinge mais de nove milhões de empresas no país, com mais de R$ 230 bilhões de dívidas em atraso! Que o eleitor faça sua parte, portanto, para o país voltar a sonhar com um futuro melhor.

ALEXANDRE GARCIA

ELEITOR NÃO SE CONQUISTA NA BASE DA BRIGA, MAS DO CONVENCIMENTO

Quem quer convencer o outro a votar em seu candidato não vai conseguir nada sendo agressivo. 

Olhando a pesquisa publicada nesta segunda-feira pela Nexus, que foi paga pelo BTG Pactual, vamos perceber que ainda há muito eleitor a ser conquistado. Segundo a pesquisa, são 5% de brancos e nulos, 2% de indecisos, 23% que não têm interesse e 5% que não vão votar. São 40 milhões, 50 milhões, 55 milhões de eleitores em 159 milhões a serem conquistados.

Até nisso há um potencial. O Brasil é um país que tem um tremendo potencial de riqueza, mas não se torna potência porque não sabe usar o seu potencial. Será que os candidatos, os partidos e os próprios eleitores interessados em defender os seus candidatos a deputado, senador, governador e presidente sabem como conquistar mais votos para os seus preferidos? Não se conquista voto brigando, mas argumentando e convencendo. Para isso, é preciso ter informação e conhecimento. Nós nos valorizamos e ganhamos poder com o conhecimento. Por isso muitos políticos não fazem questão de investir no ensino, porque fica mais fácil de dominar a população; vejam só o nível do serviço público e dos políticos.

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Dino afasta presidente de TCE ligado a grupo político rival

O ministro Flávio Dino, que é maranhense, ex-governador e que foi eleito para ser representante do Maranhão no Senado, abriu mão disso e deu as costas para o seu eleitor, aceitando ser ministro do Supremo. Acho tão estranho isso, um desprezo ao eleitor. Agora ele determinou o afastamento, por 180 dias, do presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, Daniel Brandão. Esses tribunais de contas têm muita coisa a ser examinada, porque dão lugar a protegidos – o presidente afastado, por exemplo, é sobrinho do atual governador.

O motivo do afastamento seria a interferência nas investigações de um assassinato ocorrido em 2022, causado por uma discussão sobre distribuição de propina com verbas públicas federais. Por causa disso, o processo até veio para o Superior Tribunal de Justiça, onde o senador Weverton teria atuado para resolver as coisas. Em 2024, Gilbson Cutrim Soares Júnior foi condenado pelo homicídio. O sobrenome lembra alguém? Raimundo Cutrim, ex-secretário, teve contra si operação de busca e apreensão; ele seria a fonte do jornalista Luís Pablo, que denunciou o suposto uso irregular de carro oficial por Dino em São Luís. Neste caso do assassinato, o que se diz é que Raimundo teria pedido para o pai do condenado que ele retirasse algumas declarações para não envolver o presidente do Tribunal de Contas, o sobrinho do governador.

É uma trama enorme, difícil de entender, mas que nos deixa pensando: tudo isso é feito em nome do povo (porque todo poder emana do povo) e com o dinheiro do povo, que paga imposto mesmo que não queira, sempre que compra alguma coisa.

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Mais um acidente que mostra por que é preciso usar cinto também no ônibus

Eu posso soar chato porque vivo me repetindo sobre esse assunto, mas vocês viram o que aconteceu com o ônibus fretado que estava levando pessoas de Belo Horizonte, para um fim de semana em Copacabana? Eram 56 pessoas no ônibus, inclusive a tripulação, e na serra de Petrópolis ele rolou para fora da estrada. Eu vi as fotos; o ônibus está inteiro. Quem estivesse amarrado no cinto estaria preservado lá dentro, a menos que alguém sem o cinto tivesse sido jogado e acertasse outro passageiro. Sempre digo que é preciso usar cinto de segurança também nos ônibus. Houve 10 mortos e, ao que parece, de 15 a 20 feridos. Provavelmente quem saiu ileso é porque estava com o cinto e teve a sorte de não ser atingido por ninguém ou por nada enquanto o ônibus rolou – ele deu umas duas voltas, pelo que vi na foto. Usar cinto é a diferença entre a vida e a morte.

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Metodologia da pesquisa citada na coluna

2.003 entrevistados pelo instituto Nexus de 14 a 16 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos porcentuais. Registro no TSE n.º BR-03317/2026.

PENINHA - DICA MUSICAL

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

UM JOGO DE FUTEBOL, UMA TRAGÉDIA AÉREA E UM ATO DE FÉ

Que ligação pode haver entre um jogo de futebol, a queda de um avião e uma missa campal?

Pois é. À primeira vista parecem situações bem distintas. E são. Mas, neste caso, os acontecimentos se conectam de um modo muito peculiar, que o leitor certamente descobrirá, à medida que os fatos forem sendo narrados.

Comecemos do princípio. Seguiremos a ordem cronológica dos fatos.

No dia 3 de dezembro de 1972, a cidade de Fortaleza estava agitada com a presença de ninguém menos que o Rei do Futebol. Isso mesmo. Pelé, já com três Copas do Mundo na bagagem, estava na cidade. E ele não foi à capital cearense a passeio: o Santos enfrentaria o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.

Se era uma partida histórica para o Ceará – que enfrentaria o Santos de Pelé, com ele em campo, no auge de sua carreira – o jogo também era histórico para o próprio Pelé, que faria o seu milésimo jogo com a camisa do Santos.

Naquela época, ainda não havia o estádio Plácido Castelo – popularmente conhecido como Castelão – que somente seria inaugurado em novembro de 1973. Então, cerca de 38 mil pessoas se aglomeraram nas arquibancadas do Presidente Vargas – o PV. A maioria estava ali para torcer pelo Ceará, evidentemente, mas muitos também compareceram só para ver o Rei jogar.

E o espetáculo não decepcionou.

O Santos abriu o placar logo aos 11 minutos do primeiro tempo, com um gol dele. Sim, um gol de Pelé! O cimento das arquibancadas vibrou sob os pés dos torcedores. A euforia foi tão grande que teve torcedor do Ceará que comemorou.

Mas o melhor – pelo menos para a torcida do Ceará – ainda estava por vir. No segundo tempo o Vozão virou o jogo e venceu por 2 a 1. Gols de Samuel e Da Costa. A torcida do Ceará em festa. Quem esteve presente ao Estádio Presidente Vargas naquele dia assistiu a um jogo realmente histórico.

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Menos de um ano depois, no dia 20 de outubro de 1973, outro fato importante reuniu uma grande multidão em Fortaleza: foi inaugurada a Avenida Presidente Castelo Branco.

A via tinha como finalidade abrir um corredor de tráfego que ligaria a Barra do Ceará, localizada no extremo oeste da cidade, ao Porto do Mucuripe, aproximadamente 15 km ao leste. Nesse percurso, cruzava vários bairros, dentre eles, o Pirambu, cuja referência evoca até hoje a parte mais pobre da cidade, e a Aldeota, onde residia – e ainda reside – a classe de maior poder aquisitivo.

Na época, comentava-se que até o Presidente da República – então o General Emílio Garrastazu Médici – compareceria à inauguração. Não compareceu, mas mandou o seu Ministro do Interior.

Um grande evento, realmente, com a presença de políticos, militares (prestigiados por conta do regime em vigor na época) e milhares de espectadores. Mas o dia ficou marcado por uma tragédia: durante a celebração, um dos caças da Força Aérea Brasileira que participava da festa perdeu o controle e caiu.

Houve correria, perplexidade e desespero. A multidão se dispersou em pânico. Bombeiros, que compunham o grupo de militares presentes ao evento, deixaram sua formação festiva e saíram em disparada, com as sirenes de seus caminhões vermelhos acionadas em direção ao local do acidente. Um caos.

Aumentando a dramaticidade da tragédia, soube-se depois que o impacto da aeronave com o solo se dera sobre as casas de uma estreita rua do bairro do Pirambu, causando a morte de cerca de 15 pessoas (nunca se soube o número exato), além do piloto.

O fato foi tão marcante, que a Rua Gomes Parente, onde a aeronave caiu, passou a ser conhecida como “Rua do Avião”.

Um dia que começou com uma grande festa, mas terminou com lágrimas, dor e luto.

* * *

Chegamos assim ao terceiro fato, que também poderíamos chamar de terceiro ato, se tratássemos de uma peça de teatro. E, de fato, trata-se de um ato, um grande e multitudinário ato de fé.

Aconteceu em 9 de julho de 1980. Naquele dia, chegava a Fortaleza o Papa João Paulo II.

Era a primeira vez que um Papa visitava o Brasil. Em um período de 12 dias – de 30 de junho a 10 de julho daquele ano – ele esteve em 14 cidades brasileiras, começando por Brasília e terminando em Fortaleza, onde abriu o X Congresso Eucarístico Nacional.

Na manhã de 9 de julho, o Estádio Plácido Castelo recebeu cerca de 120 mil pessoas, vindas de todos os cantos do Ceará e de Estados vizinhos. Gente que chegou de madrugada, rezou, se emocionou e até cantou, junto com Luiz Gonzaga, uma canção que o Rei do Baião compôs especialmente para a ocasião: “Obrigado, João Paulo”. “João Paulo II/ que Deus deu de graça/ o povo te abraça/ e em ti vê Jesus”, dizia uma parte do refrão.

Mas o evento dentro do Castelão não foi a parte mais marcante daquele dia. Do lado de fora do estádio, uma multidão de mais de um milhão de duzentas mil pessoas aguardava o início da missa campal que seria realizada pelo pontífice.

Na época, o lugar – hoje ocupado por casas e prédios – era um amplo terreno vazio, com o chão coberto de vegetação rasteira e carnaubeiras. Desde as primeiras horas da manhã, foram se acomodando por ali milhares de fiéis, peregrinos e curiosos. Chegavam a pé, de ônibus e em caminhões conhecidos como paus-de-arara, em cujas carrocerias se instalam bancos de madeira para o transporte de pessoas.

Segundo os registros da época, a missa campal começou às quatro horas da tarde, e só terminaria às oito da noite. Quatro horas de celebração de um ato de fé que é certamente, até hoje, o maior já realizado na cidade de Fortaleza.

* * *

Foi assim que três fatos realmente marcantes ocorreram em Fortaleza, em um intervalo de menos de dez anos.

E já poderíamos dar por terminadas essas rememorações. Muitos dos leitores que chegaram até aqui certamente desconheciam esses fatos, ou pelo menos algum deles. O registro está feito.

Mas há outra conexão entre esses fatos, bem menos conhecida, que está além do tempo e do lugar em que ocorreram.

Aconteceu que, no dia do jogo entre Ceará e Santos, um homem saiu de casa com seus dois filhos – um de dez anos e outro de seis – em direção ao Estádio Presidente Vargas.

Era torcedor do Ceará. Sabia que aquele seria um momento histórico e queria que seus filhos também estivessem presentes. Na arquibancada, ele conseguiu espaço para os três, em meio àquela multidão, e juntos comemoraram os gols. Inclusive o do Pelé.

Na volta para casa, tiveram que caminhar muito até conseguir pegar um ônibus. Mas ninguém reclamou. Estavam eufóricos. Tinham visto seu time jogar contra o Santos de Pelé. Viram Pelé fazer um gol. E viram o Ceará vencer o time do melhor jogador do mundo. Tudo isso no mesmo dia. No mesmo jogo.

Aquele homem não foi à inauguração da Avenida Leste-Oeste. Era um sábado, ele precisava trabalhar até o meio-dia. Mas os seus dois filhos foram. Estavam acompanhados da mãe, sua esposa. Como era outubro, o caçula já havia completado sete anos, mas o mais velho só faria onze em novembro.

Foram a pé. O palanque das autoridades não era muito longe de casa. Uns trinta a quarenta minutos de caminhada, no máximo.

Acompanhavam as celebrações em meio à multidão, quando viram quatro aviões Xavante passarem sobre suas cabeças. O irmão mais velho ensinou ao mais novo uma palavra nova: rasante. Aquilo era um voo rasante.

Ficaram observando os aviões se afastarem em baixa altitude, até começarem a subir novamente, quase na vertical, em um movimento aparentemente acrobático, embora não fosse a Esquadrilha da Fumaça.

Viram quando um deles se desgarrou dos outros, girou no ar – ainda parecendo fazer acrobacias – até apontar o nariz diretamente para o chão e descer girando como um parafuso, sumindo por detrás das casas.

Uma coluna de fumaça preta subiu. Da posição em que estavam, a mãe e seus dois filhos perceberam que a fumaça surgia de um lugar próximo a sua casa. Em meio à correria da multidão, a mãe das crianças conseguiu entrar com elas em um táxi. Levou os filhos à casa de uma amiga que morava mais distante. Tinha receio de voltar para casa com os filhos e a casa ter sido destruída.

A preocupação fazia sentido. Ao voltarem para casa, já à noite, ficaram sabendo que o avião caíra a cerca de 250 metros de onde moravam. Não na mesma rua, mas na rua de trás. A menos de duas quadras. Os pais comentaram com os filhos que, anos antes – na época em que se casaram – chegaram a visitar uma das casas que haviam sido destruídas, com intenção de comprá-la e morar ali. Mas não houve consenso quanto ao preço.

O tempo seguiu seu curso.

No dia 9 de julho de 1980, aquela família acordou bem cedo. O sol ainda não havia nascido, quando arrumaram as sacolas de comida, as garrafas térmicas com água, as almofadas e os guarda-sóis no porta-malas do seu fusca. Um modelo 1972, verde guarujá, com faixas brancas nas rodas, comprado meses antes.

Horas depois estariam no entorno do estádio Castelão, em meio a romeiros e peregrinos, para assistir à missa do Papa. Passariam o dia ali, vendo a multidão crescer, até formar um mar de gente, de um tamanho que nunca haviam imaginado.

Não foi um dia fácil, sob o calor do sol cearense, tendo como única água disponível a das garrafas térmicas que guardavam em suas sacolas. Mas suportaram bem. Os filhos – agora com 13 e 17 anos de idade – já tinham consciência da importância do acontecimento do qual faziam parte. Então, ninguém reclamava.

E assim foi até acompanharem a missa mais longa de suas vidas, das quatro da tarde às oito da noite, celebrada por ninguém menos que o Papa João Paulo II, que seria reconhecido pela Igreja Católica como santo em 2014.

Quando tudo terminou, caminharam durante muito tempo até encontrar seu Fusca, que haviam deixado estacionado longe dali. Voltaram para casa cansados, mas sobretudo felizes com o que tinham vivido naquele dia.

Os personagens dessa história: Seu Mansueto, meu pai; Dona Ivonete, minha mãe; Materson, meu único irmão; e eu, o filho mais novo daquela família.

É por isso que a conexão entre esses fatos não está registrada apenas em documentos históricos.

Afinal… eu estava lá.

XICO COM X, BIZERRA COM I

CEM FORMIGUINHAS

Sonhei com Manoel de Barros
À beira de um formigueiro,
Num domingo alvissareiro:
Foi conversa sem esparros.
No lugar não tinha carros.
Um caminho das antigas,
Avenida das formigas,
Distante das coisas más,
Longe dos tamanduás,
Sem formicidas ou brigas

Se ainda espaço houver nessa estrada de areia branquinha darei boas vindas às cem formiguinhas que se achegam para passear por onde passeia o sol, o vento e a lua. No mesmo lugar por onde passa a luz vou ter todo o cuidado de desviar de cada uma delas, alegrantes passeadoras, para não lhes machucar. Elas, algumas com folhas em suas bocas, andarão a passos lentos junto às flores do meu jardim. A lhes fazer companhia, borboletas com suas mil e uma cores para alegrar todos os caminhos. Tamanduás, longe, sonham delirantes sonhos, pesadelos terríveis, por distantes que estão do formigueiro, formicidas que são. Deus salve as inofensivas formiguinhas!