Que ligação pode haver entre um jogo de futebol, a queda de um avião e uma missa campal?
Pois é. À primeira vista parecem situações bem distintas. E são. Mas, neste caso, os acontecimentos se conectam de um modo muito peculiar, que o leitor certamente descobrirá, à medida que os fatos forem sendo narrados.
Comecemos do princípio. Seguiremos a ordem cronológica dos fatos.
No dia 3 de dezembro de 1972, a cidade de Fortaleza estava agitada com a presença de ninguém menos que o Rei do Futebol. Isso mesmo. Pelé, já com três Copas do Mundo na bagagem, estava na cidade. E ele não foi à capital cearense a passeio: o Santos enfrentaria o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.
Se era uma partida histórica para o Ceará – que enfrentaria o Santos de Pelé, com ele em campo, no auge de sua carreira – o jogo também era histórico para o próprio Pelé, que faria o seu milésimo jogo com a camisa do Santos.
Naquela época, ainda não havia o estádio Plácido Castelo – popularmente conhecido como Castelão – que somente seria inaugurado em novembro de 1973. Então, cerca de 38 mil pessoas se aglomeraram nas arquibancadas do Presidente Vargas – o PV. A maioria estava ali para torcer pelo Ceará, evidentemente, mas muitos também compareceram só para ver o Rei jogar.
E o espetáculo não decepcionou.
O Santos abriu o placar logo aos 11 minutos do primeiro tempo, com um gol dele. Sim, um gol de Pelé! O cimento das arquibancadas vibrou sob os pés dos torcedores. A euforia foi tão grande que teve torcedor do Ceará que comemorou.
Mas o melhor – pelo menos para a torcida do Ceará – ainda estava por vir. No segundo tempo o Vozão virou o jogo e venceu por 2 a 1. Gols de Samuel e Da Costa. A torcida do Ceará em festa. Quem esteve presente ao Estádio Presidente Vargas naquele dia assistiu a um jogo realmente histórico.
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Menos de um ano depois, no dia 20 de outubro de 1973, outro fato importante reuniu uma grande multidão em Fortaleza: foi inaugurada a Avenida Presidente Castelo Branco.
A via tinha como finalidade abrir um corredor de tráfego que ligaria a Barra do Ceará, localizada no extremo oeste da cidade, ao Porto do Mucuripe, aproximadamente 15 km ao leste. Nesse percurso, cruzava vários bairros, dentre eles, o Pirambu, cuja referência evoca até hoje a parte mais pobre da cidade, e a Aldeota, onde residia – e ainda reside – a classe de maior poder aquisitivo.
Na época, comentava-se que até o Presidente da República – então o General Emílio Garrastazu Médici – compareceria à inauguração. Não compareceu, mas mandou o seu Ministro do Interior.
Um grande evento, realmente, com a presença de políticos, militares (prestigiados por conta do regime em vigor na época) e milhares de espectadores. Mas o dia ficou marcado por uma tragédia: durante a celebração, um dos caças da Força Aérea Brasileira que participava da festa perdeu o controle e caiu.
Houve correria, perplexidade e desespero. A multidão se dispersou em pânico. Bombeiros, que compunham o grupo de militares presentes ao evento, deixaram sua formação festiva e saíram em disparada, com as sirenes de seus caminhões vermelhos acionadas em direção ao local do acidente. Um caos.
Aumentando a dramaticidade da tragédia, soube-se depois que o impacto da aeronave com o solo se dera sobre as casas de uma estreita rua do bairro do Pirambu, causando a morte de cerca de 15 pessoas (nunca se soube o número exato), além do piloto.
O fato foi tão marcante, que a Rua Gomes Parente, onde a aeronave caiu, passou a ser conhecida como “Rua do Avião”.
Um dia que começou com uma grande festa, mas terminou com lágrimas, dor e luto.
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Chegamos assim ao terceiro fato, que também poderíamos chamar de terceiro ato, se tratássemos de uma peça de teatro. E, de fato, trata-se de um ato, um grande e multitudinário ato de fé.
Aconteceu em 9 de julho de 1980. Naquele dia, chegava a Fortaleza o Papa João Paulo II.
Era a primeira vez que um Papa visitava o Brasil. Em um período de 12 dias – de 30 de junho a 10 de julho daquele ano – ele esteve em 14 cidades brasileiras, começando por Brasília e terminando em Fortaleza, onde abriu o X Congresso Eucarístico Nacional.
Na manhã de 9 de julho, o Estádio Plácido Castelo recebeu cerca de 120 mil pessoas, vindas de todos os cantos do Ceará e de Estados vizinhos. Gente que chegou de madrugada, rezou, se emocionou e até cantou, junto com Luiz Gonzaga, uma canção que o Rei do Baião compôs especialmente para a ocasião: “Obrigado, João Paulo”. “João Paulo II/ que Deus deu de graça/ o povo te abraça/ e em ti vê Jesus”, dizia uma parte do refrão.
Mas o evento dentro do Castelão não foi a parte mais marcante daquele dia. Do lado de fora do estádio, uma multidão de mais de um milhão de duzentas mil pessoas aguardava o início da missa campal que seria realizada pelo pontífice.
Na época, o lugar – hoje ocupado por casas e prédios – era um amplo terreno vazio, com o chão coberto de vegetação rasteira e carnaubeiras. Desde as primeiras horas da manhã, foram se acomodando por ali milhares de fiéis, peregrinos e curiosos. Chegavam a pé, de ônibus e em caminhões conhecidos como paus-de-arara, em cujas carrocerias se instalam bancos de madeira para o transporte de pessoas.
Segundo os registros da época, a missa campal começou às quatro horas da tarde, e só terminaria às oito da noite. Quatro horas de celebração de um ato de fé que é certamente, até hoje, o maior já realizado na cidade de Fortaleza.
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Foi assim que três fatos realmente marcantes ocorreram em Fortaleza, em um intervalo de menos de dez anos.
E já poderíamos dar por terminadas essas rememorações. Muitos dos leitores que chegaram até aqui certamente desconheciam esses fatos, ou pelo menos algum deles. O registro está feito.
Mas há outra conexão entre esses fatos, bem menos conhecida, que está além do tempo e do lugar em que ocorreram.
Aconteceu que, no dia do jogo entre Ceará e Santos, um homem saiu de casa com seus dois filhos – um de dez anos e outro de seis – em direção ao Estádio Presidente Vargas.
Era torcedor do Ceará. Sabia que aquele seria um momento histórico e queria que seus filhos também estivessem presentes. Na arquibancada, ele conseguiu espaço para os três, em meio àquela multidão, e juntos comemoraram os gols. Inclusive o do Pelé.
Na volta para casa, tiveram que caminhar muito até conseguir pegar um ônibus. Mas ninguém reclamou. Estavam eufóricos. Tinham visto seu time jogar contra o Santos de Pelé. Viram Pelé fazer um gol. E viram o Ceará vencer o time do melhor jogador do mundo. Tudo isso no mesmo dia. No mesmo jogo.
Aquele homem não foi à inauguração da Avenida Leste-Oeste. Era um sábado, ele precisava trabalhar até o meio-dia. Mas os seus dois filhos foram. Estavam acompanhados da mãe, sua esposa. Como era outubro, o caçula já havia completado sete anos, mas o mais velho só faria onze em novembro.
Foram a pé. O palanque das autoridades não era muito longe de casa. Uns trinta a quarenta minutos de caminhada, no máximo.
Acompanhavam as celebrações em meio à multidão, quando viram quatro aviões Xavante passarem sobre suas cabeças. O irmão mais velho ensinou ao mais novo uma palavra nova: rasante. Aquilo era um voo rasante.
Ficaram observando os aviões se afastarem em baixa altitude, até começarem a subir novamente, quase na vertical, em um movimento aparentemente acrobático, embora não fosse a Esquadrilha da Fumaça.
Viram quando um deles se desgarrou dos outros, girou no ar – ainda parecendo fazer acrobacias – até apontar o nariz diretamente para o chão e descer girando como um parafuso, sumindo por detrás das casas.
Uma coluna de fumaça preta subiu. Da posição em que estavam, a mãe e seus dois filhos perceberam que a fumaça surgia de um lugar próximo a sua casa. Em meio à correria da multidão, a mãe das crianças conseguiu entrar com elas em um táxi. Levou os filhos à casa de uma amiga que morava mais distante. Tinha receio de voltar para casa com os filhos e a casa ter sido destruída.
A preocupação fazia sentido. Ao voltarem para casa, já à noite, ficaram sabendo que o avião caíra a cerca de 250 metros de onde moravam. Não na mesma rua, mas na rua de trás. A menos de duas quadras. Os pais comentaram com os filhos que, anos antes – na época em que se casaram – chegaram a visitar uma das casas que haviam sido destruídas, com intenção de comprá-la e morar ali. Mas não houve consenso quanto ao preço.
O tempo seguiu seu curso.
No dia 9 de julho de 1980, aquela família acordou bem cedo. O sol ainda não havia nascido, quando arrumaram as sacolas de comida, as garrafas térmicas com água, as almofadas e os guarda-sóis no porta-malas do seu fusca. Um modelo 1972, verde guarujá, com faixas brancas nas rodas, comprado meses antes.
Horas depois estariam no entorno do estádio Castelão, em meio a romeiros e peregrinos, para assistir à missa do Papa. Passariam o dia ali, vendo a multidão crescer, até formar um mar de gente, de um tamanho que nunca haviam imaginado.
Não foi um dia fácil, sob o calor do sol cearense, tendo como única água disponível a das garrafas térmicas que guardavam em suas sacolas. Mas suportaram bem. Os filhos – agora com 13 e 17 anos de idade – já tinham consciência da importância do acontecimento do qual faziam parte. Então, ninguém reclamava.
E assim foi até acompanharem a missa mais longa de suas vidas, das quatro da tarde às oito da noite, celebrada por ninguém menos que o Papa João Paulo II, que seria reconhecido pela Igreja Católica como santo em 2014.
Quando tudo terminou, caminharam durante muito tempo até encontrar seu Fusca, que haviam deixado estacionado longe dali. Voltaram para casa cansados, mas sobretudo felizes com o que tinham vivido naquele dia.
Os personagens dessa história: Seu Mansueto, meu pai; Dona Ivonete, minha mãe; Materson, meu único irmão; e eu, o filho mais novo daquela família.
É por isso que a conexão entre esses fatos não está registrada apenas em documentos históricos.
Afinal… eu estava lá.
Memórias boas, a do Pelé e do S. João Paulo II e não tão boa, a da tragédia do avião.
Coisas que levamos pela vida.
Eu também vi o Pelé jogar em S. José do Rio Preto – SP, onde eu morava em 1969 aos 9 anos de idade. Meu pai me levou, junto dos meus irmãos. O Santos jogou contra o América, pelo Paulista O placar? Pouco importa, pois eu queria era ver o Pelé.
Pelé também jogou pelo Flamengo no Maracanã em 6 de abril de 1979, em um amistoso beneficente contra o Atlético-MG. O jogo, organizado para arrecadar fundos para as vítimas das enchentes em Minas Gerais, teve um público de 139.953 pessoas e terminou com uma goleada de 5 a 1 para o Rubro-Negro. Eu era um destes mais 140K (muitos pularam a catraca.
Quanto ao Papa, tive oportunidade de vê-lo no RJ em 80, mas não foi possível.
Bons tempos.
Pesquisei agora;
27 de abril de 1969: O jogo terminou em empate por 1 a 1 no estádio Mário Alves Mendonça, em Rio Preto, com Pelé marcando o único gol do Santos.
Até lembrei do gol do Pelé.
Valeu Dr. Marcos, realmente fatos historicos e com final emocionante, o primeiro não tenho uma nitida lembrança pois nunca acompanhei futebol muito de perto, mas os dois ultimos foram muito marcantes e lembro-me mesmo não vendo de perto só pela TV. Um grande abraço Dr Marcos.
Parabéns pelo dia de hoje, meu querido amigo.
Bom dia caro Berto, como está o amigo? Com fé em Deus breve você estará de volta ao batente. Abraços
Obrigado, Berto. Estive fora do ar ontem exatamente pro conta do aniversáiro.
Marcos, minha maior emoção vivi ao pisar no batente da porta de entrada da minha casa, onde moro há 40 anos. Eu passara por uma “revascularização coronariana” (implantação de uma safena e duas mamárias), onde passei 10 horas numa mesa de cirurgia. Indescritível a emoção (acabei de chorar neste momento) de “voltar para casa vivo”.
Mas, a emoção de ver Pelé num estádio, em carne e osso, foi quando eu era Árbitro da então Federação Cearense de Desportos (gestão do General Aldenor da Silva Maia) e fui escalado como Auxiliar de Linha (Bandeirinha) como prêmio por ter ficado na segunda colocação ao concluir o Curso de Arbitragem ministrado por Alzir Brilhante – o primeiro lugar coube a José Leandro de Castro Serpa, naquela época Terceiro Sargento do Exército. O ano foi 1965 ou 66. Pelé estava distante do milésimo gol. Mas já arrastava multidões aos estádios. Não me aproximei de Pelé, porque não fazia sentido algum. Mas, mantive um rápido diáologo com Zito, à quem perguntei: “Zito, vocês não aquecem antes de jogar”? Resposta de Zito: “Pra que, se esse assédio ao crioulo muda tudo”? Coisas da nossa vida.
Seu José Ramos, essa foi surpresa pras mim. Não sabia que você tinha sido árbitro de futebol. E ter atuado como bandeirinha em um jogo do Pelé não é mesmo para qualquer um!
Marcos, os “árbitros” eram outros, com decisões de tirar o chapéu. Hoje os “musculosos” só precisam tatuar os braços e amar o cabelo em “coq”! Não foi por menos que o nosso conterrâneo Ayrton Vieira de Moraes (Sansão), quis pegar o “homão” Yustrich de porradas! Eram outros tempos.
Caros amigos, obrigado pela participação. Vocês sempre enriquecem a coluna com seus comentários.