DEU NO JORNAL

ROMBÃO

Sob o governo Lula, o rombo das estatais federais já chegou a R$ 5,9 bilhões até abril, recorde para o período e maior que todo o déficit de 2025.

Os dados foram apresentados pelo Banco Central.

* * *

Ainda tá pouco.

O rombo vai aumentar muito mais até o descondenado tirar o traseiro da cadeira presidencial.

Enquanto isso não acontecer, o rombo vai virar rombão.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DONA MARIA, A MORADORA DA CASA 82

Dona Maria reflexiva

A vida não está boa. Agora. Mas, já foi excelente, antes. Tudo acontecia dentro de uma normalidade e seguia os caminhos da humanização que sonhamos.

Dona Maria, soube-se tempos depois, nascera ali naquela casa 82, Rua das Paparaúbas. Ali também crescera, enfrentou a juventude, e casou. Casou com João, naquele tempo, Cabo da Marinha de Guerra. Era Taifeiro (aquele que cuida e se envolve com a alimentação – no caso dele, no navio).

Embarcado, João passou mais tempo da vida no navio que em casa. Naquela casa de número 82. E, sempre que João desembarcava revivia com Dona Maria, a quente lua de mel. A gravidez era inevitável, e, João nunca acompanhou a luta de Dona Maria durante a gestação dos cinco filhos. Três meninos e duas meninas.

Sem reclamar, Dona Maria cuidava de tudo. E ninguém reclamava de nada. Só Ela, que, às vezes, carente, se obrigava a recorrer aos métodos antigos para satisfazer as carências do corpo. As maiores carências eram satisfeitas no desembarque de João.

Dona Maria era a mãe e o pai dos filhos. Cuidava de tudo. Da escola, da orientação familiar, das dificuldades e, principalmente, de esclarecer as dúvidas e os questionamentos dos filhos.

Cuidava, sozinha, dos afazeres domésticos daquela casa 82.

Muitos aniversários e datas religiosas foram vividos sem a presença paterna. Mas, Dona Maria, por acreditar em milagres, durante os aniversários dos filhos, guardava sempre uma fatia do bolo para João. Entendia que era seu dever e a forma de imaginar a presença do marido.

Os anos iam passando. Os filhos, todos já adultos e agora graduados nas universidades, começaram a cuidar de suas próprias vidas. Dona Maria já não lavava mais as fraldas e nem passava no ferro as camisas usadas pelos filhos ainda alunos. Todos, inclusive as duas meninas, já cuidavam de suas vidas.

Numa manhã de uma quinta-feira, a campainha da casa 82 tocou. De soslaio, Dona Maria viu uma viatura da Marinha. Imaginou que João estivesse voltando de mais uma viagem de serviço.

Do carro desceu um oficial da Marinha, em vez de João. O oficial pediu a presença de Dona Maria, pois tinha algo a comunicar. O falecimento de João. O desmaio foi inevitável. O oficial procurou apoiar Dona Maria, ao tempo que garantia que a Marinha cuidaria de tudo. Do translado do corpo, ao sepultamento.

Os dias seguintes não foram os mesmos. Dona Maria reuniu os cinco filhos e lhes comunicou o fato. Toda a vizinhança da Rua das Paparaúbas soube, e, claro, demonstrou solidariedade. A vida seguiu, mas de forma diferente.

Os filhos casaram. Todos. Os netos começaram a chegar. Mas, contrastando com os anos anteriores, as visitas dos filhos foram “roubadas” pelo modernismo e os novos valores que a sociedade enfrenta diariamente.

Dona Maria, a moradora da casa 82 da Rua das Paparaúbas “adotou” um novo filho. O croché. Com ele e ao lado dele vivia as folgas das atividades domésticas, agora não tão intensas.

Todo fim de tarde, tão logo “o sol esfriava”, Dona Maria brincava com o novo filho, sem chupeta, sem fralda e sem carrinho. Era ali que vivia cada dia, cada fim de tarde. Até que as estrelas cadentes parecessem visitá-la.

O croché preenche a ausência dos filhos

A prática desenvolveu a atividade de Dona Maria. Dona Maria evoluiu tanto nos cuidados com aquele filho adotivo, que passou a receber encomendas. A diminuição das despesas domésticas com a saída dos filhos naturais daquela casa 82, não afetou a pensão que Dona Maria continuou recebendo pelo falecimento de João. O que valia para ela, era a ocupação do tempo vago e o preenchimento da solidão inevitável.

Dona Maria: “eu me abraço abraçando o tronco da árvore”

Aquela casa 82 da Rua das Paparaúbas parecia ser muito distante para os filhos fazerem uma visita. Viviam alegando que não tinham tempo – mas eram vistos nos fins das tardes passeando com os cães e cadelas que, insuflados e absorvidos pelo modernismo, passaram a criar. Até lhes davam nomes humanos.

Para Dona Maria, só o croché.

Certo dia Dona Maria precisou comprar agulhas novas – as antigas estavam lhe trazendo lembranças (João, em vida, trouxera da Hungria e as presenteou, para quem sabe, as necessidades de algum dia) desconfortáveis e precisou comprar novos novelos de linhas coloridas para as encomendas das clientes. Aproveitou e foi dar um rápido passeio pelo parque.

Ali, avistou uma das duas filhas passeando com duas cadelas nas coleiras. Não se aproximou. Preferiu olhar de longe.

Correu e abraçou o tronco de uma árvore, enquanto pensava em voltar para casa e conviver com o filho adotivo – o croché.

A partir daquela descoberta, Dona Maria passou a chamar aquele tronco de árvore de João.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A CASINHA

Sítio Espinho Branco, Altinho-PE – Foto Almir Altinho

* * *

O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Mote do Poeta Fifia da Cabeça de Boi

Foi em Mil e Setecento
Quando o meu tataravô
Há muito tempo morô
Aqui nesse apartamento.
A cangalha e o jumento:
Algumas coisas que tinha,
Meia dúzia de galinha,
Um gato e um papagái.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Poeta Fifia da Cabeça de Boi

A casa foi construída
De vara, barro e cipó.
Por minha tataravó
Foi muitas vezes varrida.
A paz viveu escondida
Nesta humilde taperinha
Quando chego à porteirinha
A lágrima no olho cai.
O pai do pai de papai
Morava nessa casinha.

Wellington Vicente

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

DEU NO JORNAL

ZORRA TOTAL

Vem dos ativistas de esquerda, alinhados ao governo, o espetáculo mais patético, justificando o fato de o governo Lula (PT) não agir contra organizações criminosas.

Parecem viver uma Síndrome de Estocolmo: defendem, justificam ou minimizam as mesmas gangues que aterrorizam a população.

Mal disfarçam fascínio pelos que, nas periferias e favelas, exercem o poder com eficiência brutal.

Para eles, o criminoso é vítima da “desigualdade”, nunca o algoz. E o cidadão refém nem merece menção.

Soberania não é discurso contra os EUA, é a capacidade de controlar território, proteger o povo, impedir o crime de substituir o poder público.

Facções controlam rotas de drogas, impõem toque de recolher, recrutam crianças, dominam penitenciárias e até financiam campanhas eleitorais.

O governo Lula não age porque não quer. Prefere narrativas e rejeitar ajuda externa não por patriotismo, mas por ideologia e conveniência.

* * *

Jamais o gunverno lulo-petralha iria agir contra os cumpanheros.

Isso é claro e evidente.

Faz parte da cartilha ideológica do bando vermêio-istrelado.

A zorra administrativa não vai peitar nunca a zorra criminal.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Martha Rocha

Maria Martha Haelecker Rocha nasceu em 19/9/1932, em Salvador, BA. Eleita Miss Bahia, aos 21 anos, foi a primeira Miss Brasil, aos 22, em 1954. No mesmo ano foi bem cotada para vencer o concurso de Miss Universo, nas casas de apostas dos EUA, mas ficou como vice, projetando-a no cenário nacional. O ideal de beleza consolidado pela baiana seguiu influenciando algumas gerações por mais alguns anos.

Filha de Hansa Hacker Rocha e Álvaro Pereira Rocha, uma família de 10 filhos. Segundo ela mesma: “Nossa casa era austera e grande. Era sala de visita para lá, sala de não sei quê para cá, portas fechadas sempre. Eu sonhava com aquela sala onde jantavam as irmãs mais velhas com meus pais. Ficava sempre de olho comprido, jantando com os irmãos menores e vovó Eulália”.

Casou-se aos 24 anos com o banqueiro português Álvaro Júlio Victorino Piano e tiveram 3 filhos: Álvaro Luis, Carlos Alberto, nascidos em Buenos Aires, e Fernanda, falecida aos 29 anos, em 2009, fato que a deixou muito deprimida por longo tempo. Como Miss Brasil, teve uma agenda de viagens pelo País. Em 1955 visitou Caxias, no Rio Grande do Sul. A imprensa local noticiou: “Vaidosa ao extremo, a miss veio escoltada por uma secretária particular e uma cabeleireira, que costumavam acompanhá-la em todas as visitas pelo país”.

Em 2015 o jornalista Ancelmo Goes revelou a história das duas polegadas a mais para consolar o orgulho brasileiro. No Carnaval de 1955 lançaram uma marchinha, gravada pela própria Martha, onde se cantava “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas, e logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz!”. Tudo foi combinado com os demais jornalistas e a própria Martha autorizou a versão.

Em 16/2/1959, seu marido faleceu num acidente de avião. Dois anos após, casou-se com Ronaldo Xavier de Lima, com quem teve uma filha, a artista plástica Claudia Xavier de Lima. A partir de 1996, passou a aparecer em júris de concursos de beleza, tornando-se a primeira miss a cobrar cachê para tais eventos. Mais tarde, explicou numa entrevista que era uma necessidade, pois no ano anterior perdera todo o dinheiro que tinha com a falência de uma instituição financeira (a Casa Piano) comandada à época por um de seus familiares.

Em 2000, descobriu ser portadora de câncer de mama e passou a ter outro estilo de vida. Nessa época, mudou-se do Rio para Laranjal, bairro de Volta Redonda. Foi homenageada, em 2004 (50º ano do concurso de Miss Brasil), com uma exposição itinerante de fotos de sua trajetória, contando inclusive com o Rollys Royce que ganhou no concurso.

Em março de 2019, revelou em seu Facebook que por questões financeiras, estava vivendo no lar de idosos Carol Caminha, em Niterói. “Não me sinto diminuída” por isto, acrescentou. Faleceu em 4/7/2020, aos 87 anos após uma insuficiência respiratória seguida de um infarto. Recebeu, também, outras homenagens como o bolo ou a torta “Martha Rocha”. A receita foi criada por Dair da Costa Terzado, da Confeitaria das Famílias, em Curitiba. A pick-up Chevrolet 3100, lançada em 1955, recebeu o apelido “Marta Rocha”, devido aos “quadris” largos.

Seu nome foi usado como apelido num sorvete e até num tipo de pão doce. Os interessados em conhecer mais a primeira Miss Brasil, podem recorrer a ela própria em Martha Rocha: uma autobiografia, publicada por Ida Pessoa, pela Editora Objetiva em 1999.

DEU NO X

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

UM TEÓLOGO EVOLUCIONARIO

Logo após o encerramento do Concílio Vaticano II, os alunos da Pontifícia Universidade Laternense efetivaram um levantamento para se eleger o maior teólogo católico de todos os tempos. E o resultado surpreendeu: o eleito foi Karl Rahner, um teólogo que defendia uma Igreja democrática e aberta, com fronteiras indefinidas, com uma teologia pluralista do ponto de vista teológico, filosófico e doutrinário. Uma nova Igreja, na visão de uma dinâmica juventude católica, embora nem tudo fosse transcorrer como os resultados da pesquisa indicavam.

Karl Josef Erich Rahner nasceu em Friburgo, na Brisgóvia, em 5 de março de 1904, eternizando-se em Innsbruck, em 30 de março de 1984, tendo sido um sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais dinâmicos teólogos do século XX.

Influenciado por Erich Przywara e Joseph Maréchal e estimulado por seus estudos com Martin Heidegger, Rahner tentou estruturar uma síntese da tradição teológica com o pensamento contemporâneo. Ele desenvolveu uma teologia baseada na experiência transcendental.

Karl Rahner foi ainda considerado um representante de uma teologia querigmática e foi um pioneiro na abertura da doutrina católica ao pensamento do século XX, sua teologia influenciando o Concílio Vaticano II, tendo Rahner trabalhado como especialista em sua preparação e implementação.

Rahner foi co-editor da segunda edição da enciclopédia católica Lexicon for Theology and Church e, portanto, teve um impacto em toda a teologia católica de língua alemã. Ele promoveu a comunicação teológica internacional e o diálogo entre a teologia e as ciências naturais.

Karl Rahner cresceu em uma família de classe média. Seu pai lecionou em um curso de magistério. Em sua juventude, ele participou do movimento católico Quickborn, onde conheceu Romano Guardini. Depois de obter o diploma do ensino médio, ele entrou na ordem dos jesuítas em 1922. Mais tarde estudou filosofia e teologia em Feldkirch, Pullach, Valkenburg, Freiburg, em Breisgau e Innsbruck. A participação dele nos seminários de Martin Heidegger nos anos 1934-1936 revelou-se decisiva para o treinamento de Rahner.

Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, ele realizou atividade pastoral na Baixa Baviera. Depois do conflito, ele continuou sua atividade de ensino, primeiro como professor na escola secundária da ordem em Pullach.

Em 1965, fundou, com Antonie van den Boogaard, Paul Brand, Yves Congar, Hans Küng, Johann Baptist Metz e Edward Schillebeeckx), a revista Concilium, uma das mais importantes da teologia católica contemporânea. Nesta época, ele também voltou a escrever, na forma de ensaios e artigos em prol do pacifismo e do desarmamento nuclear.

De 1967 até aposentadoria, em 1971, ele foi professor catedrático de dogma na Westfälischen Wilhelms-Universität, em Münster. Em 1971 foi nomeado pela Hochschule für Philosophie München como professor honorário para as questões filosóficas e teológicas “na fronteira“.

Em 1969, o Papa Paulo VI nomeou-o membro da Comissão Teológica Internacional, cargo que ocupou até 1972. Em 1981 mudou-se para Innsbruck, onde morreu subitamente em março de 1984 e foi enterrado na cripta da Igreja dos Jesuítas.

Escritor prolífico, Rahner escreveu mais de 800 artigos e ensaios.

A base para a teologia de Rahner: Todos os seres humanos têm uma experiência latente (“não-temática”) de Deus em qualquer percepção de significado ou “experiência transcendental”. Segundo ele, é somente por causa dessa proto-revelação que é possível reconhecer uma revelação distintamente especial como o Evangelho. A teologia transcendental de Rahner atraiu a atenção de teóricos de diversas vertentes teológicas.

Para todos os leitores católicos do JBF, recomendo um lançamento recente da Editora Paulus: DA NECESSIDADE E DA BENÇÃO DA ORAÇÃO, Karl Rahner, São Paulo, Editora Paulus, 2026, 144 p.

Karl Rahner foi um pensador jesuíta muito arretado de ótimo para os atuais momentos planetários.

DEU NO JORNAL

O PAPEL DO ESTADO NO INCENTIVO À CULTURA

Editorial Gazeta do Povo

estado cultura

Nem controle ideológico, nem distanciamento total devem marcar a participação do Estado no setor cultural

A notícia de que uma rede de cinemas usava uma brecha nas regras da chamada “cota de tela” – a exigência de que parte da grade de exibição seja preenchida com filmes nacionais – para liberar horários melhores para as produções de maior apelo comercial reacendeu a discussão sobre o papel do Estado na definição da política cultural. Este debate sempre foi marcado pelas posições mais diversas, desde a defesa de um direcionamento ideológico do apoio estatal às artes, até o afastamento completo do Estado do setor cultural, que ficaria única e exclusivamente a cargo da população e dos agentes privados.

Há três grandes linhas que norteiam a maioria das posições a respeito da relação entre Estado e cultura: 1. não se envolver; 2. controlar e dominar; ou 3. apoiar e incentivar. Uma boa análise do problema requer, de início, identificar em quantos segmentos se divide a cultura para, em função das peculiaridades de cada setor, decidir sobre a política oficial para cada segmento. A direita liberal, de saída, descartada a segunda opção (controlar e dominar), típica de regimes políticos ditatoriais que, em geral, se dedicam a buscar o controle do pensamento, das crenças e dos hábitos da população. Nesses regimes, filmes, televisão, teatro, música, literatura, jornalismo, crítica literária e outras formas de expressão e opinião são todas controladas (e censuradas) pelo governo, sem cuja concordância nada se faz.

Se a opção “controlar e dominar” é inaceitável e incabível em sociedades livres, abertas e democráticas, por ser incompatível com a própria ideia de liberdade e direito de manifestação cultural, restam outras possibilidades. Para os liberais, a livre manifestação cultural deve ser um direito e, portanto, pessoas, empresas, entidades culturais e a comunidade devem atuar em liberdade e segundo as regras do livre mercado. Deixar a manifestação cultural livre e em paz, no entanto, não significa a ausência total de regras, pois há segmentos e aspectos culturais que requerem alguma ação pública, mostrando que a opção de distanciamento completo, preferida de libertários e liberais antiperfeccionistas, também não é uma opção ideal.

Um exemplo é o caso de museus que guardam e protegem objetos históricos, cuja manutenção e administração requerem algum dinheiro público e proteção contra formas de destruição. Recorde-se, a esse respeito, o lamentável episódio do saque e destruição do Museu de Bagdá, em 2003, quando mais de 170 mil peças foram destruídas ou roubadas nos dias que se seguiram ao colapso do regime de Saddam Hussein. Aquele museu mantinha peças da antiga Mesopotâmia, região considerada o berço da civilização, onde surgiram as primeiras cidades, o primeiro alfabeto e o primeiro código jurídico. Ali, a humanidade jogou fora um pedaço importante de seu passado e objetos que representavam civilizações antigas, cuja guarda, sob responsabilidade do poder público, falhou lamentavelmente.

Outro caso é o das chamadas “belas artes”, que, mesmo não tendo forte apelo popular, oferecem algo valioso a quem entra em contato com elas, e por isso também podem merecer a proteção e o apoio estatal – e é inegável que, em muitos lugares, atividades culturais como orquestras sinfônicas só conseguem sobreviver bancadas pelo Estado. Por outro lado, também parece evidente que nem tudo deve receber apoio governamental, a começar por obras que desrespeitem valores importantes para a sociedade, ou promovam ideias que violem, por exemplo, a dignidade do ser humano. Sociedades fundadas na liberdade de opinião e expressão, portanto, sabem analisar os vários tipos de manifestação cultural para adotar a opção de apoiar e incentivar sem controlar e dominar, além de guardar aquilo que é histórico e não pode ser objeto de comércio.

No Brasil, houve o caso da Embrafilme, que durante o tempo em que funcionou, foi acusada de selecionar filmes e projetos para executar ou incentivar segundo o controle e a censura dos burocratas que a dirigiam, sempre submetidos ao padrão ideológico do governo a que pertenciam. Em 2009, durante o segundo governo Lula, uma Conferência Nacional de Comunicação chegou a defender a recriação da estatal, que havia sido extinta em 1990. Independentemente do nome, interessava aos estatistas apenas a existência de uma empresa estatal de produção, com cargos e verbas cobertas com dinheiro do pagador de impostos e, por isso mesmo, com algum poder de controle sobre a cinematografia comercial e vontade de impor sua visão de mundo a toda a população.

Vale a pena manter e expandir bibliotecas públicas, museus históricos e obras de memória dos feitos nacionais, para ficar em alguns exemplos. O Brasil tem uma forma indireta de promover a cultura nacional por meio da Lei Rouanet, que autoriza empresas e pessoas físicas a destinarem parte de seus impostos a projetos culturais. Ainda que tenha alguns vícios problemáticos, essa lei nasceu com a ideia de que as pessoas físicas ou jurídicas busquem apoio a projetos culturais, desde que cumpram regras sobre regularidade fiscal, qualidade técnica dos projetos, cumprimento dos códigos de postura, obediência às normas de segurança, respeito às leis ambientais, proteção aos direitos trabalhistas dos envolvidos, prestação de contas e submissão à fiscalização pelo poder público. E a Lei Rouanet não deixa de ter um viés liberal, ao deixar que uma pessoa ou empresa possa escolher onde investe ao menos parte dos impostos que deve, em vez de entregá-los todos ao governo para que decida como bem entender.

O uso de recursos públicos no apoio e incentivo à cultura, portanto, é legítimo. O que o Estado não pode fazer é impor regras que violem o princípio da proporcionalidade, ou avançar até o ponto de autorizar ou vetar determinado projeto ou ação em função de sua ideologia e lado político, pois isso abre espaço para a censura e o controle estatal sobre as ações culturais desenvolvidas pela sociedade. O apoio direto a determinadas manifestações culturais, regras de incentivo à participação da iniciativa privada na produção e patrocínio, e regulamentações como a mencionada “cota de tela” são políticas públicas que merecem debate, dado o papel fundamental da cultura em qualquer sociedade.