Dona Maria reflexiva
A vida não está boa. Agora. Mas, já foi excelente, antes. Tudo acontecia dentro de uma normalidade e seguia os caminhos da humanização que sonhamos.
Dona Maria, soube-se tempos depois, nascera ali naquela casa 82, Rua das Paparaúbas. Ali também crescera, enfrentou a juventude, e casou. Casou com João, naquele tempo, Cabo da Marinha de Guerra. Era Taifeiro (aquele que cuida e se envolve com a alimentação – no caso dele, no navio).
Embarcado, João passou mais tempo da vida no navio que em casa. Naquela casa de número 82. E, sempre que João desembarcava revivia com Dona Maria, a quente lua de mel. A gravidez era inevitável, e, João nunca acompanhou a luta de Dona Maria durante a gestação dos cinco filhos. Três meninos e duas meninas.
Sem reclamar, Dona Maria cuidava de tudo. E ninguém reclamava de nada. Só Ela, que, às vezes, carente, se obrigava a recorrer aos métodos antigos para satisfazer as carências do corpo. As maiores carências eram satisfeitas no desembarque de João.
Dona Maria era a mãe e o pai dos filhos. Cuidava de tudo. Da escola, da orientação familiar, das dificuldades e, principalmente, de esclarecer as dúvidas e os questionamentos dos filhos.
Cuidava, sozinha, dos afazeres domésticos daquela casa 82.
Muitos aniversários e datas religiosas foram vividos sem a presença paterna. Mas, Dona Maria, por acreditar em milagres, durante os aniversários dos filhos, guardava sempre uma fatia do bolo para João. Entendia que era seu dever e a forma de imaginar a presença do marido.
Os anos iam passando. Os filhos, todos já adultos e agora graduados nas universidades, começaram a cuidar de suas próprias vidas. Dona Maria já não lavava mais as fraldas e nem passava no ferro as camisas usadas pelos filhos ainda alunos. Todos, inclusive as duas meninas, já cuidavam de suas vidas.
Numa manhã de uma quinta-feira, a campainha da casa 82 tocou. De soslaio, Dona Maria viu uma viatura da Marinha. Imaginou que João estivesse voltando de mais uma viagem de serviço.
Do carro desceu um oficial da Marinha, em vez de João. O oficial pediu a presença de Dona Maria, pois tinha algo a comunicar. O falecimento de João. O desmaio foi inevitável. O oficial procurou apoiar Dona Maria, ao tempo que garantia que a Marinha cuidaria de tudo. Do translado do corpo, ao sepultamento.
Os dias seguintes não foram os mesmos. Dona Maria reuniu os cinco filhos e lhes comunicou o fato. Toda a vizinhança da Rua das Paparaúbas soube, e, claro, demonstrou solidariedade. A vida seguiu, mas de forma diferente.
Os filhos casaram. Todos. Os netos começaram a chegar. Mas, contrastando com os anos anteriores, as visitas dos filhos foram “roubadas” pelo modernismo e os novos valores que a sociedade enfrenta diariamente.
Dona Maria, a moradora da casa 82 da Rua das Paparaúbas “adotou” um novo filho. O croché. Com ele e ao lado dele vivia as folgas das atividades domésticas, agora não tão intensas.
Todo fim de tarde, tão logo “o sol esfriava”, Dona Maria brincava com o novo filho, sem chupeta, sem fralda e sem carrinho. Era ali que vivia cada dia, cada fim de tarde. Até que as estrelas cadentes parecessem visitá-la.
O croché preenche a ausência dos filhos
A prática desenvolveu a atividade de Dona Maria. Dona Maria evoluiu tanto nos cuidados com aquele filho adotivo, que passou a receber encomendas. A diminuição das despesas domésticas com a saída dos filhos naturais daquela casa 82, não afetou a pensão que Dona Maria continuou recebendo pelo falecimento de João. O que valia para ela, era a ocupação do tempo vago e o preenchimento da solidão inevitável.
Dona Maria: “eu me abraço abraçando o tronco da árvore”
Aquela casa 82 da Rua das Paparaúbas parecia ser muito distante para os filhos fazerem uma visita. Viviam alegando que não tinham tempo – mas eram vistos nos fins das tardes passeando com os cães e cadelas que, insuflados e absorvidos pelo modernismo, passaram a criar. Até lhes davam nomes humanos.
Para Dona Maria, só o croché.
Certo dia Dona Maria precisou comprar agulhas novas – as antigas estavam lhe trazendo lembranças (João, em vida, trouxera da Hungria e as presenteou, para quem sabe, as necessidades de algum dia) desconfortáveis e precisou comprar novos novelos de linhas coloridas para as encomendas das clientes. Aproveitou e foi dar um rápido passeio pelo parque.
Ali, avistou uma das duas filhas passeando com duas cadelas nas coleiras. Não se aproximou. Preferiu olhar de longe.
Correu e abraçou o tronco de uma árvore, enquanto pensava em voltar para casa e conviver com o filho adotivo – o croché.
A partir daquela descoberta, Dona Maria passou a chamar aquele tronco de árvore de João.


