DEU NO JORNAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

O MELHOR

Hamilton Mourão (Rep-RS) se espantou com a cara de pau do governo Lula nas propagandas penduradas na Esplanada, que autointitula o governo como o “melhor da História”.

Ledo engano, rebateu o ex-vice.

* * *

Depende, sinhô Mourão.

Depende de como se faça a análise.

Se for “o melhor de História” em ladroagem, patifaria, canalhice e mentiras, não há engano algum.

É certíssimo!!!

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DA MINHA JANELA – Florbela Espanca

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito, murmurado…
Voo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!

Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado…
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Como um branco lilás que se desfaça!

Amor! Teu coração trago-o no peito…
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

DEU NO JORNAL

DEPARTAMENTO

Lula (PT) tem dito, segundo assessores, que Dias Toffoli deveria também “sair do STF para não contaminar o governo”.

A frase reveladora não é crítica ao ministro, mas a confissão de que, para ele, o STF não é Poder independente, mas uma espécie de departamento do Planalto, órgão auxiliar, que não pode “contaminar” o governo com suas malfeitorias.

Sem respeitar a separação de poderes, Lula passou a querer a vaga de Toffoli como se fosse cargo de confiança, demissível a qualquer tempo.

Lula trata o STF como braço estendido do Executivo, convocando seus ministros para reuniões, almoços e jantares excluídos da agenda oficial.

* * *

Isso é a cara do Brasil 2026.

A expressão “departamento do Planalto”, contida nessa nota aí de cima, resume tudo.

Não é preciso acrescentar mais nada.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESCÂNDALOS

“Tirando nossa completa incapacidade de relacionar causa e consequência, tudo vai bem no Brasil”

Já não lembro onde ou quando li a frase acima, mas ela continua verdadeira e tão atual como sempre. A nossa incapacidade de perceber a relação entre as decisões que tomamos e as consequências dessas decisões é tão grande como nosso talento em achar culpados externos para todos os nossos problemas.

Um exemplo dessa dissonância é a sucessão de escândalos que se sucedem desde que D. Pedro deu o grito do Ipiranga, e nossa completa incapacidade de ligar esses escândalos à impunidade que acompanha as autoridades que produzem esses escândalos.

O Banco do Brasil quebrou pela primeira vez em 1829 – faltam só três anos para o bicentenário. Nossa monarquia também produziu escândalos de venda de títulos de nobreza, nepotismo, superfaturamento de obras como a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e muitos outros. Veio a república e com ela o escândalo da Central do Brasil, o atentado a Carlos Lacerda, Delfin, Capemi, Lutfalla, Ferrovia do Aço, Ferrovia Norte-Sul, Casa da Dinda, Anões do Orçamento, Projeto SIVAM, Sede do TRT-SP, Mensalão, Petrolão, Dossiê dos Aloprados, quebra do sigilo do caseiro Francenildo, Erenice Guerra, Rocha Loures correndo com a mala de dinheiro, Fabrício Queiroz e os cheques, e tantos outros.

Em cada um deles, o país vivia um sentimento de “desta vez será o fim do mundo”. Claro que o mundo nunca acabou e todos eles viraram piada em questão de meses ou mesmo semanas. Em nenhum deles alguém lembrou de um fato que está na origem da maior parte, senão de todos os escândalos brasileiros: o fato de que aqui, desde sempre, juiz faz o que quer, deputado faz o que quer, senador faz o que quer, ministro faz o que quer, enfim, quem faz parte da chamada “alta cúpula” sempre teve a plena convicção de que pode fazer o que quiser com total impunidade. Aliás, vamos ser francos: no Brasil até estudante de direito do primeiro ano acha que pode tudo.

Duzentos e três anos de escândalos mensais, semestrais e anuais trouxeram uma certeza a todos que fazem parte desses escândalos: haverá muitos gritos, muito barulho, intensa competição na imprensa pelas manchetes mais escandalosas, intensa competição entre as personalidades públicas para se mostrar mais indignado e mais ofendido que todo mundo. E depois disso, o esquecimento e a impunidade.

No nosso país, vigora a certeza de que todos nossos problemas vêm de fora: somos vítimas do imperialismo, do capitalismo, do comunismo, das multinacionais, dos banqueiros estrangeiros, dos illuminati. Nenhum problema brasileiro é consequência daquilo que fazemos.

Por exemplo, ninguém vê nada de errado ao constatar que praticamente todos os juízes e desembargadores, de todos os setores do judiciário, têm como cônjuge um advogado/advogada. No meu estado, Paraná, tivemos um secretário da fazenda (cuja função básica é cobrar impostos) cuja esposa era dona do maior escritório de advogados tributaristas do estado.

Da mesma forma, ninguém vê nada de errado quando membros do executivo, legislativo, judiciário e ministério público aceitam convites “desinteressados” de grandes corporações e bancos para comparecer a eventos, palestras, seminários e congêneres, sempre em hotéis de luxo ou resorts paradisíacos. Também é normal quando essas mesmas empresas contratam essas mesmas pessoas do alto escalão do governo para proferir palestras em troca de cachês de seis dígitos.

Definir a causa disso é assunto para muito debate sociológico e antropológico, mas vou citar dois palpites: de um lado, a tradição absolutista que herdamos de Portugal no século 18 e que se mantém pelo controle que o poder exerce sobre a educação e a mídia.

De outro lado, existe a eterna esperança dos brasileiros de um dia chegar ao andar de cima. Como dizia um antigo colega meu, quando o brasileiro vê uma manchete de jornal sobre um escândalo e diz “Que absurdo!”; ele não está pensando “que absurdo, isso têm que acabar”, ele está pensando “que absurdo, eu não consigo fazer parte desse esquema”.

Tentativas de explicação à parte, também registro meu palpite para o mais recente escândalo: excetuando o caso de alguém “sair da linha” e ser tomado como bode expiatório, em questão de algumas semanas o caso estará dado como resolvido e ninguém do alto escalão dos três poderes será responsabilizado. E, em breve, um novo escândalo tomará as manchetes.

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CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ADEUS DONA FOLIA

Disco na voz de Nelson Gonçalves, Orquestra de Zacarias. Coleção Nirez

O Café Lafayette situava-se na Rua Primeiro de Março, esquina com a Rua do Imperador, no Recife. Oferecia lanches e cafés-pequenos no balcão, internamente, e em mesas de mármore, espalhadas democraticamente pela ampla calçada de pedras portuguesas, sem atrapalhar os transeuntes.

A atração pública era um painel permanente, na calçada, onde podiam ser coladas, gratuitamente, as ofertas de compra e venda de quaisquer produtos, sem custos.

O Lafayette era frequentado por intelectuais, jornalistas e poetas, servindo para encontros da mais distinta gama cultural pernambucana, notadamente jornalistas, dado à proximidade do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno, Diário da Noite e do Jornal do Commercio.

À direita, a marquise do Café Lafayette, vendo-se o painel de anúncios grátis.

Eu tinha uns 10 anos de idade quando, acompanhando meu pai, que estava de férias, fazíamos um lanche no Café Lafayette. Logo, apareceu um amigo dele e sentou-se conosco.

Era um famoso compositor de músicas carnavalescas e tradicional folião, Eduardo Barbosa. O cidadão, respeitosamente, me estirou a mão, sorridente, para o primeiro cumprimento, como se eu fosse gente importante.

Papai me apresentou:

– Este é meu filho, Carlos Eduardo!

E o sorridente compositor, disse:

– Ah, então você é o herdeiro do meu amigo?!

Logo – papai, que não deixava escapar nenhum escorrego vernacular – advertiu o compositor, a título de deboche:

– Não, amigo! Podemos dizer melhor, que ele é meu primogênito, isto porque, não há herdeiro de pai vivo! De fato, só há herdeiro depois da morte de alguém.

Ouviu-se a gargalhada!

Ao sair do Lafayette, papai me contou a história da principal música de Eduardo: “Adeus Dona Folia”, a última que ele havia composto e foi até gravada por Nelson Gonçalves, em disco RCA Victor, fazendo sucesso em vários estados do Brasil.

A inspiração foi significativa. Sua filha única sofrera uma queda e durante três dias ficou sem visão. Havia caído numa calçada e ocorreu um traumatismo na zona cerebral que comanda a visão.

Aflito, Eduardo foi a Igreja dos Martírios, apiedou-se, e fez uma promessa à Santa Clara. Se sua filhinha recobrasse a visão ele se despediria para sempre de quaisquer atividades com relação ao carnaval.

Deixaria de produzir músicas, de colaborar com a organização de blocos ou cair no frevo das ruas.

Por se tratar de dano cerebral temporário, três dias depois a menina voltou à normalidade. Não chegou a ser verdadeiramente um milagre.

Mas, católico obediente, pagou a promessa, que deu motivo à criação da música: “Adeus Dona Folia”.

ADEUS DONA FOLIA – De Eduardo Barbosa

Adeus eu vou me despedir
Não pretendo mais voltar
Levo saudades de você, Dona Folia
E sinto até vontade de chorar.

Eu sempre vivi com você, querida
Numa eterna e verdadeira paixão
Foi você toda alegria de minha vida
Mas tudo não passou de ilusão.

E neste carnaval de 2026, aos 90 anos, vejo que, eu também, já dei meu adeus a Dona Folia.

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PRECISAM CAIR

Marcel van Hattem

A República ultrapassou o ponto de saturação. O que já veio à tona sobre o ministro Dias Toffoli não dá mais qualquer margem de tolerância institucional. Não estamos diante de mera controvérsia jurídica. Estamos diante de fatos gravíssimos que atingem um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e maculam a corte como um todo.

Segundo reportagens recentes, mensagens encontradas no celular do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, mencionam pagamentos ao ministro. A própria Polícia Federal, de acordo com a imprensa, solicitou o afastamento de Dias Toffoli das investigações envolvendo o banco por conflito de interesses. O que mais precisa acontecer?

Estamos falando de um ministro da mais alta corte do país mencionado em conversas sobre valores financeiros com investigados, cujos processos passaram por suas mãos e, por diversas vezes, Toffoli decidiu em benefício de quem deve julgar. Foi assim quando decidiu impor grau máximo de sigilo aos processos relacionados ao caso. Quando retirou da CPMI do INSS o acesso a documentos essenciais à investigação da roubalheira contra aposentados. Quando determinou a retirada de acesso da Polícia Federal às provas do inquérito. E, não satisfeito, quando requisitou para si os celulares apreendidos, inclusive o aparelho do próprio investigado, além de ter decidido quem seriam os peritos do caso.

O novo pedido de impeachment que protocolamos contra o ministro Dias Toffoli, fundamenta-se diretamente no artigo 39, itens 2, 4 e 5, da Lei 1.079/1950. Ali estão descritos os crimes de responsabilidade de ministros do Supremo.

Três incisos do artigo são cristalinos sobre os crimes de responsabilidade potencialmente cometidos por Toffoli: (2) proferir julgamento quando por lei o juiz seja suspeito na causa; (4) ser patentemente desidioso no cumprimento dos deveres do cargo; e (5) proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções.

Há, portanto, elementos objetivos. O próprio ministro Toffoli admitiu, além de tudo, ser sócio da empresa Maridt, que manteve negócios com familiares de Vorcaro. Em qualquer democracia séria, tal admissão deveria recomendar o afastamento cautelar imediato do ministro.

O Senado não pode fingir que nada está acontecendo. Não pode imitar o próprio Supremo, que em pífia nota emitida na quinta-feira (12) e assinada por todos os seus membros, chancela todos os atos de Dias Toffoli. Se tudo o que Toffoli já fez no processo do Banco Master foi correto, por que, então, ele decidiu deixar o caso? A conta não fecha!

Assim como Dias Toffoli, também Alexandre de Moraes tem contra si claras suspeitas de ser beneficiário da rede de Daniel Vorcaro. Além de todos os absurdos cometidos por Moraes, que denuncio há anos nesse espaço e no Parlamento, o escritório de advocacia da esposa de Moraes fechou um contrato no valor de R$ 129 milhões com o banco Master para serviços supostamente de advocacia. Esse fato é escandaloso e evidencia o quanto Moraes e Toffoli mancham a pouca reputação e credibilidade institucional que o STF ainda possui perante a população.

Por isso, o Senado precisa decidir se continuará de joelhos ou se exercerá a autoridade que a Constituição lhe conferiu. A República exige resposta. E o povo, já convocado para tomar as ruas no próximo dia 1º de março, dará voz tonitruante aos que se julgam donos do poder. Toffoli e Moraes precisam cair. O tempo da omissão e da cumplicidade do Senado com os desmandos do Supremo não pode mais persistir.