MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

“Tirando nossa completa incapacidade de relacionar causa e consequência, tudo vai bem no Brasil”

Já não lembro onde ou quando li a frase acima, mas ela continua verdadeira e tão atual como sempre. A nossa incapacidade de perceber a relação entre as decisões que tomamos e as consequências dessas decisões é tão grande como nosso talento em achar culpados externos para todos os nossos problemas.

Um exemplo dessa dissonância é a sucessão de escândalos que se sucedem desde que D. Pedro deu o grito do Ipiranga, e nossa completa incapacidade de ligar esses escândalos à impunidade que acompanha as autoridades que produzem esses escândalos.

O Banco do Brasil quebrou pela primeira vez em 1829 – faltam só três anos para o bicentenário. Nossa monarquia também produziu escândalos de venda de títulos de nobreza, nepotismo, superfaturamento de obras como a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e muitos outros. Veio a república e com ela o escândalo da Central do Brasil, o atentado a Carlos Lacerda, Delfin, Capemi, Lutfalla, Ferrovia do Aço, Ferrovia Norte-Sul, Casa da Dinda, Anões do Orçamento, Projeto SIVAM, Sede do TRT-SP, Mensalão, Petrolão, Dossiê dos Aloprados, quebra do sigilo do caseiro Francenildo, Erenice Guerra, Rocha Loures correndo com a mala de dinheiro, Fabrício Queiroz e os cheques, e tantos outros.

Em cada um deles, o país vivia um sentimento de “desta vez será o fim do mundo”. Claro que o mundo nunca acabou e todos eles viraram piada em questão de meses ou mesmo semanas. Em nenhum deles alguém lembrou de um fato que está na origem da maior parte, senão de todos os escândalos brasileiros: o fato de que aqui, desde sempre, juiz faz o que quer, deputado faz o que quer, senador faz o que quer, ministro faz o que quer, enfim, quem faz parte da chamada “alta cúpula” sempre teve a plena convicção de que pode fazer o que quiser com total impunidade. Aliás, vamos ser francos: no Brasil até estudante de direito do primeiro ano acha que pode tudo.

Duzentos e três anos de escândalos mensais, semestrais e anuais trouxeram uma certeza a todos que fazem parte desses escândalos: haverá muitos gritos, muito barulho, intensa competição na imprensa pelas manchetes mais escandalosas, intensa competição entre as personalidades públicas para se mostrar mais indignado e mais ofendido que todo mundo. E depois disso, o esquecimento e a impunidade.

No nosso país, vigora a certeza de que todos nossos problemas vêm de fora: somos vítimas do imperialismo, do capitalismo, do comunismo, das multinacionais, dos banqueiros estrangeiros, dos illuminati. Nenhum problema brasileiro é consequência daquilo que fazemos.

Por exemplo, ninguém vê nada de errado ao constatar que praticamente todos os juízes e desembargadores, de todos os setores do judiciário, têm como cônjuge um advogado/advogada. No meu estado, Paraná, tivemos um secretário da fazenda (cuja função básica é cobrar impostos) cuja esposa era dona do maior escritório de advogados tributaristas do estado.

Da mesma forma, ninguém vê nada de errado quando membros do executivo, legislativo, judiciário e ministério público aceitam convites “desinteressados” de grandes corporações e bancos para comparecer a eventos, palestras, seminários e congêneres, sempre em hotéis de luxo ou resorts paradisíacos. Também é normal quando essas mesmas empresas contratam essas mesmas pessoas do alto escalão do governo para proferir palestras em troca de cachês de seis dígitos.

Definir a causa disso é assunto para muito debate sociológico e antropológico, mas vou citar dois palpites: de um lado, a tradição absolutista que herdamos de Portugal no século 18 e que se mantém pelo controle que o poder exerce sobre a educação e a mídia.

De outro lado, existe a eterna esperança dos brasileiros de um dia chegar ao andar de cima. Como dizia um antigo colega meu, quando o brasileiro vê uma manchete de jornal sobre um escândalo e diz “Que absurdo!”; ele não está pensando “que absurdo, isso têm que acabar”, ele está pensando “que absurdo, eu não consigo fazer parte desse esquema”.

Tentativas de explicação à parte, também registro meu palpite para o mais recente escândalo: excetuando o caso de alguém “sair da linha” e ser tomado como bode expiatório, em questão de algumas semanas o caso estará dado como resolvido e ninguém do alto escalão dos três poderes será responsabilizado. E, em breve, um novo escândalo tomará as manchetes.

3 pensou em “ESCÂNDALOS

  1. Só garanto um coisa meu nobre, somos na grande maioria analfabetos politico, muitos após às eleições não lembram em quem votou, ganham alguma coisa em troca para tal (grana, cesta básica) e à esquerda onde passa ou passou, deixa terra arrasada, aqui em brasuela não é diferente.

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