Disco na voz de Nelson Gonçalves, Orquestra de Zacarias. Coleção Nirez
O Café Lafayette situava-se na Rua Primeiro de Março, esquina com a Rua do Imperador, no Recife. Oferecia lanches e cafés-pequenos no balcão, internamente, e em mesas de mármore, espalhadas democraticamente pela ampla calçada de pedras portuguesas, sem atrapalhar os transeuntes.
A atração pública era um painel permanente, na calçada, onde podiam ser coladas, gratuitamente, as ofertas de compra e venda de quaisquer produtos, sem custos.
O Lafayette era frequentado por intelectuais, jornalistas e poetas, servindo para encontros da mais distinta gama cultural pernambucana, notadamente jornalistas, dado à proximidade do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno, Diário da Noite e do Jornal do Commercio.
À direita, a marquise do Café Lafayette, vendo-se o painel de anúncios grátis.
Eu tinha uns 10 anos de idade quando, acompanhando meu pai, que estava de férias, fazíamos um lanche no Café Lafayette. Logo, apareceu um amigo dele e sentou-se conosco.
Era um famoso compositor de músicas carnavalescas e tradicional folião, Eduardo Barbosa. O cidadão, respeitosamente, me estirou a mão, sorridente, para o primeiro cumprimento, como se eu fosse gente importante.
Papai me apresentou:
– Este é meu filho, Carlos Eduardo!
E o sorridente compositor, disse:
– Ah, então você é o herdeiro do meu amigo?!
Logo – papai, que não deixava escapar nenhum escorrego vernacular – advertiu o compositor, a título de deboche:
– Não, amigo! Podemos dizer melhor, que ele é meu primogênito, isto porque, não há herdeiro de pai vivo! De fato, só há herdeiro depois da morte de alguém.
Ouviu-se a gargalhada!
Ao sair do Lafayette, papai me contou a história da principal música de Eduardo: “Adeus Dona Folia”, a última que ele havia composto e foi até gravada por Nelson Gonçalves, em disco RCA Victor, fazendo sucesso em vários estados do Brasil.
A inspiração foi significativa. Sua filha única sofrera uma queda e durante três dias ficou sem visão. Havia caído numa calçada e ocorreu um traumatismo na zona cerebral que comanda a visão.
Aflito, Eduardo foi a Igreja dos Martírios, apiedou-se, e fez uma promessa à Santa Clara. Se sua filhinha recobrasse a visão ele se despediria para sempre de quaisquer atividades com relação ao carnaval.
Deixaria de produzir músicas, de colaborar com a organização de blocos ou cair no frevo das ruas.
Por se tratar de dano cerebral temporário, três dias depois a menina voltou à normalidade. Não chegou a ser verdadeiramente um milagre.
Mas, católico obediente, pagou a promessa, que deu motivo à criação da música: “Adeus Dona Folia”.
ADEUS DONA FOLIA – De Eduardo Barbosa
Adeus eu vou me despedir
Não pretendo mais voltar
Levo saudades de você, Dona Folia
E sinto até vontade de chorar.
Eu sempre vivi com você, querida
Numa eterna e verdadeira paixão
Foi você toda alegria de minha vida
Mas tudo não passou de ilusão.
E neste carnaval de 2026, aos 90 anos, vejo que, eu também, já dei meu adeus a Dona Folia.


Sensacional, meste!
Mestre é mesmo quem me chama de Mestre, porque é Mestre de fato, mestrado e doutorado, o é nas fotos, nas conquistas de amizade, na permanência do amor à Luiza, na quietude da rede malandrícia; e tudo o mais que se possa inventar em termos de mestria; inclusive até a carnavalesca, porque precisa ser bom mesmo para fotografar as bundas sensuais se balançando pelas plagas serratalhadenses..
És o editor e escritor mestre!
Parabéns por mais essa preciosa crônica, meu amigo!
Um pernambu-carioca é suspeito para se pronunciar, face à sua tradicional generosidade e afetuosa amizade.
Mas, registro, com muito gosto, seu aplauso, para mimm muito representtivo.
Carlos Eduardo