Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé Arca e Noé prisioneiros desse esfaqueado Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis E os incontáveis cacarecos soltos remexidos Dois falecidos num retrato olham pra paisagem Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.
Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu E o mundaréu ensolarado se faz de carona Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona Uma poltrona escancarada de pernas pra cima Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas De sentinela dois pilões de bojo carcomido E um retorcido pé de bucha de flor amarela.
Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno E o último aceno de saudade de um cortinado. Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino Um peregrino pitombado de grande esperança Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.
Nesses tempos de denúncia contra Bolsonaro e mais 33 pessoas, o Estadão divulga uma pesquisa feita na Câmara e no Senado sobre a receptividade da ideia de anistia, pois a anistia está ganhando tanto na Câmara quanto no Senado. Recém começou e vai ser impulsionada agora por essa denúncia.
Os números, na Câmara dos Deputados, 50% dos pesquisados são a favor da anistia, 42% contra, abstenções, 8%. Ainda não tomaram decisões. No Senado, 46% a favor e 38% contra, com 15% ainda indecisos.
Foi o Instituto Ranking dos Políticos, que ouviu 110 deputados e 26 senadores de 11 partidos políticos. É um número importante. Quanto a essa denúncia, vejam só, o ministro do Supremo, aposentado, que já presidiu o Supremo, já presidiu eleições, já presidiu o TSE, já foi o decano, Marco Aurélio Mello, disse que os ministros do Supremo perderam a cidadania, que não podem mais sair para a rua. E já passou a hora de fazerem autocrítica.
Eu já lembrei que desse Supremo de hoje não dá para se esperar nada, porque parece que já está no script. Assim como a Polícia Federal a serviço do relator Moraes, o procurador-geral, e agora foi lá para a primeira turma para aceitar ou não a denúncia, depois vai para o plenário dos 11 do Supremo. Não são mais os 11 de 1994, quando absolveram Collor, que tinha sido objeto de impeachment, renunciou antes, mas o impeachment ficou valendo, ao contrário do que aconteceu com Dilma, um caso bem diferente, no qual o impeachment não ficou valendo na punição, na pena. Absolveram Collor por falta de provas, porque só tinha declarações, notícias, blá, blá, blá, conversa entre pessoas, mas não tinha provas.
Agora mesmo, nesse relato todo, nessa denúncia toda, os jornais que costumavam dizer “declarou sem provas” e coisas semelhantes, agora não estão ressaltando o essencial, que é a falta de provas. Tem uma declaração e umas conversalhadas aí entre gente que, uma vez, ouviu o general Heleno chamando “uns malucos aí”.
Isso serviu para algo que não houve, não aconteceu, não mobilizou Forças Armadas, não mobilizou armas, não fez ameaça. A gente vê casos da justiça penal criminal situações em que o sujeito tentou entrar na casa, mas não conseguiu, e aí ele é solto porque não concluiu o roubo que ele estava tentando fazer. Mas aí está a explicação.
Lula disse que no governo dele, o que vale é a presunção da inocência, mas agora os denunciados vão ter que provar que são inocentes. É risível, não é? Quem tem que provar que a pessoa é culpada é o que está denunciando.
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2026
Bom, José Roberto Guzzo, num artigo publicado no Estadão, disse que a melhor coisa é submeter Lula e Bolsonaro ao julgamento do povo na eleição de 2026. O povo faz o julgamento e pronto, isso é o que há de mais democrático, é assim que age a justiça americana. O julgamento popular, já que todo o poder emana do povo, é o julgamento supremo, esse é o julgamento popular, uma boa ideia do Guzzo.
Mas falei de Lula, ele disse isso numa entrevista que deu ontem e perguntaram se o Brasil ia mandar tropas em missão de paz se houver um cessar fogo entre Rússia e Ucrânia. Ele disse que não, que não manda tropas. Agora o fato de The Economist, a revista inglesa que tem muito prestígio mundial, lembrar do Brasil já é algo. Por que lembrou do Brasil? Em primeiro lugar, porque está separando a potencialidade do país Brasil e os problemas do governo atual. Está separando toda aquela história de corrupção, de mediocridade, olhando separadamente da grandeza do Brasil. Lembrou da tropa brasileira.
Aliás, eu vi uma citação do Hélio Gasperi no Globo de ontem, citando uma pessoa dizendo Lula não sabe governar com pouco dinheiro. Isso me lembrou Margaret Thatcher, que disse: o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.
Pesquisas, sabe-se muito bem, são retratos do momento específico em que são feitas, e só uma série histórica mais prolongada permite falar em tendência ou em opinião consolidada da população. Mesmo assim, não caíram nada bem entre o petismo os números trazidos por uma recente pesquisa Datafolha, que deu ao presidente Lula a menor aprovação e a maior reprovação, considerando todos os seus três mandatos. Apenas 24% dos entrevistados consideraram seu governo “ótimo” ou “bom”, contra 41% que o avaliaram como “ruim” ou “péssimo” – são números piores que os exibidos por Jair Bolsonaro no mesmo momento do mandato (aprovação de 31% e reprovação de 40%).
O susto não se deu apenas pelos números em si, mas pela velocidade com que a aprovação do presidente se deteriorou, com queda de 11 pontos porcentuais em apenas dois meses – no mesmo período, a reprovação cresceu sete pontos. Além disso, a popularidade de Lula caiu de forma ainda mais acentuada entre grupos historicamente mais propensos a apoiar o petismo: 16 pontos no Nordeste (de 49% para 33%), 15 pontos entre negros e entre quem ganha até dois salários mínimos (de 44% para 29% nos dois casos) e 14 pontos entre as mulheres (de 38% para 24%). A cereja do bolo foi a queda de 20 pontos entre os que disseram ter votado em Lula em 2022 (de 64% para 44%).
Aliados de Lula culparam especialmente dois fatores pela queda na popularidade do presidente: a “crise do Pix”, com a enorme repercussão negativa de uma norma da Receita Federal sobre monitoramento de operações financeiras, e a escalada recente nos preços de vários produtos, graças à disparada na cotação do dólar iniciada no fim de novembro, com a divulgação do pífio pacote fiscal de Fernando Haddad, e que só agora começa a ser revertida. Se uma das razões pode ser considerado um episódio isolado, a outra é bem mais complicada de lidar. Em outra pesquisa divulgada recentemente, da Quaest, 8 em cada 10 brasileiros afirmaram que os preços dos alimentos subiram recentemente; a percepção é idêntica tanto entre os mais pobres quanto entre os mais ricos e a classe média.
Para melhorar sua imagem, Lula já colocou seu marqueteiro da campanha de 2022 na Secretaria de Comunicação Social, e deve fazer uma série de viagens pelo país. No entanto, já deu mais tiros no pé, como ao sugerir que a população simplesmente deixasse de comprar algo que julgasse estar caro, esquecendo-se de que se trata de alimentos e produtos de primeira necessidade, e não de supérfluos. Dentro do petismo, há a convicção de que Lula deveria fazer uma “guinada à esquerda” em seu governo. É o momento em que surge a tentação de turbinar ainda mais a gastança e o populismo que caracterizam os governos petistas e que, mesmo dando resultados de curto prazo, contratam crises no médio e longo prazo, como bem sabe qualquer brasileiro que se recorde dos últimos dez anos.
Lula aposta, por exemplo, no projeto que isenta do Imposto de Renda os brasileiros que ganham até R$ 5 mil mensais. A medida, lida isoladamente, é até elogiável, pois sabe-se que a defasagem acumulada na tabela do IR entre 1996 e 2024 varia de 125% a 167%, dependendo da faixa de renda, segundo a Unafisco, e cada ano sem correção pela inflação representa, na prática, um aumento de impostos. No entanto, é preciso também observar que não se sabe, ainda, como os estimados R$ 45 bilhões que o governo deixaria de arrecadar anualmente com a medida seriam compensados, já que não há a menor perspectiva de que o governo realize algum corte de gastos dessa mesma magnitude. A isenção sem uma compensação, no fim, prejudicaria ainda mais a saúde fiscal do país, já muito debilitada.
Um presidente que entendesse o mínimo de economia, ou que se dispusesse a ouvir quem entende, saberia que mais irresponsabilidade fiscal leva a mais inflação e perceberia o risco de uma elevação populista nos gastos – a bem da verdade, um presidente com essas características nem teria iniciado o processo de gastança que levou à atual perda do valor de compra da moeda brasileira. Mas Lula não é esse presidente; ele segue jurando que não há crise fiscal no país, o que deixa a porta aberta para o governo “fazer o diabo para ganhar a eleição”, nas palavras de uma certa ex-presidente que fez exatamente isso e contratou a maior recessão da história do país.