XICO COM X, BIZERRA COM I

MINHA TABACARIA

Todo o mistério que envolvia a tabacaria da Tabacaria de Pessoa foi desvendado em minuciosa e competente pesquisa de Dr. Zé Paulo (JC, 08.09.23). A verdade é que na Havaneza dos Retrozeiros um Alves lhe atendia e o deixava feliz com seus cigarros e cigarrilhas que, de tão prazeirosos, não lhe permitia perceber o estrago que produziria em seus pulmões (mais vale um prazer que um pulmão sadio, diria minha vó Mariquinha). Fernando comprava-os e voltava para seu quarto sem janelas no aguardo de Manassés, que lhe fazia a barba. Todo santo dia.

A BODEGA DE ‘SEU’ JÚLIO

Eu, adolescente, sem barba por fazer, escolhi a venda de seu Júlio, duas ruas atrás da minha, perto da Igreja e do colégio, para ser minha tabacaria, até porque, além das especiarias e condimentos comuns a uma bodega de bairro, era a única da região que vendia cigarros a ‘de menores’. Fumávamos escondidos de nossos pais, como rezava a cartilha dos bons adolescentes. Seu Júlio era o único que tinha coragem de transgredir a regra de não vender fumo aos ‘pirralhos’. Além do que, seu filho, Cauby, era nosso amigo de peladas (ainda hoje não sei se o seu nome foi em homenagem ao Cantor, famoso na época). Talvez por isso o perdoássemos e não levássemos a sério suas grosserias e indelicadezas. Usávamos a ‘elegância’ do fumo para ressaltar nossa macheza, para nos tornar adultos na aparência, e, principalmente, para exibição às menininhas nos ‘assustados’ da época.

CONTINENTAL E HOLLYWOOD

Parei de fumar faz 20 anos mas ainda hoje sonho com tabaco e vem-me à lembrança a figura baixinha e grossa do bodegueiro – físico compatível com seu proceder. Assim era seu Júlio, o da minha tabacaria, que não vendia cigarrilhas finas ou charutos, como as de Lisboa antiga que abastecia o Poeta lusitano, mas apenas cigarros Continental, Hollywood e BB, estes de qualidade inferior e, talvez por esta razão, mais baratos. Saudades da tabacaria. Da minha saudosa tabacaria, tão modesta quanto as letras que hoje arrumam meus textos.

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DEUS MUDO

Ouvindo o silêncio de Deus
deparei-me com o barulho dos homens:
gritos e ais, tiros e outras pancadas,
barulhos, zoadas,
de opressores e oprimidos,
vencedores e vencidos.
Nenhum sussurro de amor consegui ouvir,
nenhuma palavra de paz pude escutar:
Onde está Deus
que não se importa com isso tudo?
Por que esse Deus mudo?
Por que esse absurdo?
Será que esse deus é também surdo?

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MICROCONTO MALCHEIROSO

No elevador lotado, meu amigo Eristáclames deixou escapar um pum e desceu no primeiro andar. A feijoada do dia anterior começara a fazer efeito e seu bucho já anunciava o processo derradeiro da digestão. Vingou-se da Síndica, também passageira, que mora no 19°. Bem feito para ela, autoritária, gastadeira e que vive a instituir taxas extras. Castigo maior, o elevador é dos antigos e moroso como poucos. Dizem alguns que a vingança é doce: não sei se chega a tanto pois o doce à abelha custa-lhe a vida. Talvez melhor dizer que a vingança é algo malcheiroso. Enganei-me também ao acreditar que não havia maior vingança do que o esquecimento. Se você também pensa assim, entre no elevador lotado do prédio de Eristáclames e vá passear lentamente por 19 andares numa segunda-feira pós feijoada. Ao sentir o sub nitrato do pó da flatulenta expelição de gases de meu amigo você também mudará de opinião. A síndica que o diga.

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AS MIÇANGAS DE LADY

Cinzenta e triste essa impossibilidade de ir até a praia para ver a beleza do mar quebrando na areia e a gente bonita que por lá aparecia, tempos outros. Hoje, o risco de vida desaconselha o perigoso passeio. Minha amiguinha Lady, que vendia miçanga na praia de Piedade, deixou de fazê-lo porque os fregueses sumiram, com medo da galera lisa que se amarra no ‘do alheio’ e dos enormes peixes que fizeram da praia o refeitório deles preferido.

ASSALTANTES E TUBARÕES

Assim é que restaram próximo à igrejinha apenas os assaltantes e os tubarões, que adoram carne humana – uma perna aqui, um braço ali, e não usam colares. Hoje, Lady é bailarina de uma banda funk e agradece aos céus, todo santo dia, ter a esplendorosa e rebolativa bunda que tem. Igual a de uma tal de Lexa, que vi no Programa do Mion, e que tem 2.000.000.000 de views no YouTube. O que não faz uma bela bunda?

SONHANDO COM A FAMA

Voltando a Lady, seu derradeiro estoque de miçangas está nas mãos do assaltante que a abordou na sua volta pra casa em sua última tentativa de ser comerciante. Ela aguarda, esperançosa, ser descoberta pelo programa do Mion. Enquanto isso não ocorre, seu corpinho quase adolescente se quebra ao som das batidas do funk. É um pouco menos perigoso que dar bobeira pra tubarão e assaltantes de plantão, ambos em pleno ofício. Afinal, a doçura de morrer no mar só acontece na metafórica cantiga do baiano Dorival.

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SAUDOSISTA, EU?

Meu filho diz que sou saudosista. Ledo engano. Chegou a esta conclusão apenas porque fiquei nervoso quando o toca fitas ‘mastigou’ minha fita k7 preferida, dos Beatles. Não sabe ele o trabalho que tive ao passar as músicas para a fita, com todo o cuidado para a agulha da radiola não arranhar o LP. Sem contar que, para aumentar meu nervosismo, na noite anterior, o sinal da TV caiu justamente na hora em que o jogador do Sport ia bater o pênalti. Subi no telhado para mexer na antena, botei Bombril, mas de nada adiantou. Melhorou alguns canais, outros não. O que transmitia o jogo, não teve jeito. Menos mal que, soube depois, a penalidade foi convertida em gol. Aumentou a convicção de meu filho quando lhe disse que todas as 36 fotos do aniversaário do meu neto, semana anterior, tinham ficado desfocadas. E o filme era Kodak, o melhor de todos (um dia descubro como se faz fotos com celular e aposento minha Olympus OM12). Para compensar os desgostos todos resolvi pedir uma pizza pelo ‘modernoso’ delivery, mas a ficha acabou no meio da ligação e o outro orelhão ficava muito distante. Fui para casa, torcendo para que a TV já estivesse funcionando. Não podia perder o Programa Flávio Cavalcanti daquela noite, em que Carlos Galhardo ia cantar. Depois vou conversar com meu filho e tentar fazê-lo ver que eu sou uma brasa, mora! Saudosista é a mãe do Padre.

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RUA FRANCISCO PARREÃO

A rua da minha meninice tinha um nome esquisito: rua Francisco Parreão, pessoa cuja identidade nunca consegui saber. Teria sido um Padre? Ou um Industrial que contribuiu para o desenvolvimento do bairro de Nazaré? Ou foi apenas um eleitor que ajudou a eleger um vereador da Cidade, que, em retribuição, lhe atribuiu o nome da minha rua? Sei que, sem motivo justificável, eu tinha vergonha de dizer o nome de minha rua. Achava esteticamente feio, soava mal. Preferia dizer que morava na rua do capinzal, em homenagem à plantação de capim que se ‘amostrava’ em toda a sua extensão, certamente para prover de alimento as alvinegras vacas que habitavam a leiteria em uma de suas extremidades. Dali vinha o leite diário de nossos cafés matinais.

RUA CHEIA DE AREIA

Na rua, areal de ponta a ponta, sem calçadas que limitassem nosso futebol. Ali, jogávamos bola, ralávamos joelhos e torcíamos os pés. Água para lavá-los, retirávamos do cacimbão, ao fundo do quintal, onde um dia caiu do bolso do meu pai sua caneta Parker 51, na tentativa frustrada de salvar Tupã do suicídio inconsciente. À esquerda, Dona Izabelina e suas filhas, coroas donzelas ainda à espera de príncipes que nunca vieram. Do outro lado, dona Ana, baixinha, grossa que nem papel de embrulhar prego, mãe de Zé Raimundo e viúva de seu João, morrido de tanto beber.

TUDO ERA VIZINHO DE TUDO

Tudo era perto: a escola, a igreja, a avenida principal do bairro, onde morava o Tenente Aguiar, casa bonita de cujas janelas víamos Renato Aragão, início de carreira na TV Ceará. Só aquele militar tinha o luxo da televisão. Tempos passados. Hoje, depois de ter morado na Bernardo Vieira de Melo, sertanista e político importante, e na Avenida Presidente Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, quedo-me ante a saudade daquela rua que homenageava um ilustre desconhecido, o Sr. Francisco Parreão, cidadão de quem nem o ‘inteligente’ Google sequer ouviu falar.

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UM CASO DE AMOR

Tenho um caso de amor com a chuva. Talvez algo recôndito, escondido na aridez do meu interior. Mas que tenho, tenho. Por menor que seja. Fico ancho ao vê-la correr e escorrer pelo telhado, molhando o chão. Não me importa a quantidade de gotas, basta que caia. Se as sinto, então, alegria maior. E quando o tempo se ‘embonita’ pra chover, escurecendo, a alegria troveja em meu peito. Fico a esperar seus pingos, tal qual se espera a mulher amada, com a mesma ansiedade. Daí a pouco, chuva. Pingos e mais pingos deixando o chão alagado de alegria, poças de felicidade lavando minha alma e complementando meu contentamento. O vento corre mais veloz que de costume e, em sua pressa, dá mais alegria à chuva que chove. Só tenho medo quando ela é muita. Detesto raios e trovões. Prefiro a água caindo, lentamente, macia, escorrendo, molhando … O chão molhado, que ontem era só chão, amanhã será uma plantinha, e depois uma árvore, ou um pé de pau, como eu dizia lá no Crato. E nele pendurados, cajus, ou mangas, ou laranjas, ou seriguelas ou qualquer outra coisa que se ponha na boca para adoçar a vida. Adoro o riso aberto do povo no sertão ao primeiro pingo, só um pingo, mas um mundo de esperança. Daí a pouco a mesa farta, o chão vestido do verde mais verde e a chuva caindo. Que venha a chuva. De preferência, silenciosa, tímida, caladinha, carinhosa, bem chuvinha. Cheia de preguiça. Que nem eu …

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ANJO CALADO

Este colunista e Domingos

(a chegada de um Domingos no Céu)

No caos do tempo,
angelical torre,
balbúrdia de anjos,
em terras do céu.

Babel …
Eis que surge
do meio do nada
um anjo-silêncio,
um anjo sem fala,
e tudo se cala.

Alheio a tudo,
o anjo mudo
só sabe sorrir e nada mais …
Palavras de menos,
sorrisos demais.
Uma sanfona se escutou,
do anjo-anjo,
do anjo calado que a tudo calou …

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A COR DO PASSARINHO AMARELO DO MEU JARDIM

Quando criança, tempos sem Internet onde as embaçadelas são outras, as ‘pulhas’ não passavam de um gracejo para pregar uma peça em crianças menos avisadas. Uma dessas troças, lembro bem, era perguntar a ‘cor do cavalo branco de Napoleão’. Sobre o estadista francês, nós, meninos, não sabíamos de quem se tratava, mas a cor do seu cavalo – resposta já implícita na pergunta – todos respondíamos ser branca, para desapontamento do inquisidor.

REFAZENDO A PERGUNTA

Hoje refaço a pergunta a meus netos substituindo o ‘cavalo branco’ pelo ‘passarinho amarelo’ do meu jardim. À parte minha falta de criatividade, tenho tido inteligentes respostas. Bernardo, o mais velho (um rapazinho, 9 anos nos costados), diz que depende do passarinho. Se for feliz, disse-me, será amarelo reluzente, da mais brilhante tonalidade. Ao contrário, se assim não for, terá um amarelo desbotado, quase branco, respondeu-me aprofundado em convicção.

OUTRAS RESPOSTAS

Vinicius, 3 aninhos bem vividos e pleno de inteligência, disse-me, obedecendo à mais elementar lógica: ‘é amarelo, vô’. E Leonardo, do alto de sua sabedoria de 2 anos, embaraçou-me ao devolver a pergunta: ‘tu tem jardim, vô?’. Já não se fazem cavalos brancos como antigamente. Nem passarinhos amarelos. Acho que nem avôs, também.

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DOMINUS VOBISCUM

Acho que perdi o trem que leva o povo para o céu. Esqueci as rezas todas. Dos tempos em que eu ajudava o Padre Silvio a celebrar missas – fazia-o para agradar a minha mãe, só recordo do momento em que o celebrante, siciliano bonachão, elevava o cálice e eu, num movimento sincronizado, levantava, com uma das mãos, a vestimenta branca usada sobre sua batina, enquanto que, com a outra mão, balançava e fazia badalar um pequeno sino cujo som acompanhava o gesto do sacerdote. Esforçava-me para conter o riso e desviar os pensamentos mais inoportunos que ali me ocorriam.

IN PACE

Padre Sílvio dizia ‘Dominus Vobiscum’ e eu, sem saber o que significava, respondia ‘Et cum spiritu tuo’. E agradecia aos Deuses quando, após a benção, o Padre dizia: – Ide em Paz, a missa terminou, e todos nós respondíamos, em uníssono: Graças a Deus! Hoje mudaram esse ritual de despedida. Na época sabia, de cabo a rabo (perdoem-me a heresia) a Salve Rainha, que louvava a ‘clemente, a piedosa, a doce virgem Maria.’ Também sabia, de cor e salteado, a oração do Credo que dizia ‘creio em Deus Pai, todo poderoso, criador do Céu e da Terra’. Hoje, tudo isso perdeu-se na poeira da lembrança. Do ‘Pelo Sinal’ só me resta na memória o ‘Em Nome do Pai’.

VADE RETRO SATANA

Mas vou reaprender tudo de novo pois, mais do que o calor das chamas e do espeto afiado do cão, morro de medo de ter a vida eterna com endereço no Inferno, na vizinhança de gente da estirpe de Malafaia, Edir, RRSoares, Valdomiro, além de alguns outros corretores do céu, mercadores da Fé menos famosos, mas nem por isso menos ofensivos. Vou começar rezando uma Ave-Maria e um Pai Nosso. Será que ainda lembro? Valei-me Nosso Senhor Jesus Cristo!