XICO COM X, BIZERRA COM I

CÂNTICO DAS MALDADES ou O QUASE FIM DO SONHO VERDE

O machado, longe da mão de quem o conduz para o erro, será apenas um machado, não mais que uma ferramenta de trabalho. Só isso. O homem que o carrega para o mal, para o abate de inocentes árvores, este sim, é um criminoso impiedoso e por isso nem merece ser chamado de ser humano. Pior que estes, aqueles que, detentores do poder, permitem tamanha crueldade contra o próprio homem, a natureza e o meio ambiente.

O CÉU CINZENTO

Quando o céu se tinge de cinzento e a fumaça apaga a beleza das nuvens, a consciência criminosa do desmatamento surge manchada pela vergonha e indecência. Ouve-se, então, o entoar triste do cântico das maldades e a textura fria de uma poesia de pé quebrado, de um texto subjetivo e de conclusão duvidosa ou de uma zoada de péssima qualidade equivocadamente apelidada de Música.

O CHORO DOS POETAS

João Cabral e Jorge Amado, lá de cima, dão as mãos a Hélder Câmara e a Josué de Castro, a eles se juntando Bandeira e Paulo Freire, que choram juntos o fim do sonho verde. Manuel de Barros, a um canto, junta-se às rãs e às flores num abraço de dor. A todos estes e a mais alguns unem-se os homens de bem, numa tentativa de impedir o ‘passar da boiada’. Às vezes, já é tarde. Tomara que ainda dê tempo.

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O SÁBIO CÃO E O SÃO JOÃO …

O portão permanecia aberto, mas o cachorro teimoso não se atrevia a sair. O trânsito era intenso e Tupã, esse o seu nome, tinha medo dos automóveis malucos que não respeitavam os cães. Isto e sua fidelidade a Zé o impediam de sair. Mas era junho e Tupã já estava nervoso com o foguetório que assolou sua rua naquele período, agoniando animais, velhos e até crianças não acostumadas com tanta zoada nos ares. Mas era São João e as bombas faziam parte da festa, tanto quanto as fogueiras e as comidas de milho. Falta faziam os silenciosos peidos de véia e traques de massa dos meus São Joões antigos. Não bastasse a zoada toda, eis que surge, não se sabe de onde, uma música da mais reles qualidade, de abjeta categoria, interpretada por autodenominados universitários que nunca tiveram assentadas suas bundas numa Universidade e por Sertanejos que sequer suspeitam para que lado fica o Sertão. Foi demais. Muita zoada para ouvidos tão sensíveis. Tupã não resistiu, aproveitou o portão aberto e, aí sim, saiu. Desviou dos automóveis malucos e foi-se esconder num lugar longe, sem bombas e sem música ruim. Sábio Tupã. Não à toa o cachorro é considerado o mais inteligente dos animais. Mais, até, que alguns humanos que soltam bombas e sujam os ouvidos com o que há de pior na ‘trilha sonora’ do São João. Nessa noite Zé não dormiu, com aquele barulho todo e, principalmente, com saudade de Tupã.

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SONHOS E PESADELOS

Já os tive. Ambos. Sonhos bons, românticos como um filme de Fellini. Pesadelos terríveis, misteriosos como um filme de Hitchcock. Imagino que tanto Federico quanto Alfred assim pensavam: sonhos são filmes. Pesadelos, também. Aliás, segundo Freud, os sonhos constituem “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. Devaneios, fantasias, lembrança, tudo cabe na mente durante o sono.

MEUS PESADELOS

Diferentemente dos sonhos bons de sonhar, recorrentemente tenho sonhado caindo, sem asas ou paraquedas. Também constitui enredo de meus sonhos estar perdido, em lugar desconhecido, sem saber voltar para casa. Angustiantes, as duas situações. Pior é que acordo e as imagens projetadas no meu inconsciente continuam a afligir-me por algum tempo, até dar-me conta de que tudo não passou apenas de um mau sonho. Mas da opressão aflitiva não consegui escapar.

UPGRADE

Assim são os sonhos que teimam em me acordar. Hoje, meus pesadelos estão atualizados: sonho sonhos e pesadelos virtuais. Angustiante perder o celular em que estão inseridos todos os meus contatos ou ser vítima de roubo do notebook que contém textos, músicas inéditas e planilhas indispensáveis ao meu viver. Pesadelos do século XXI.

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TELEFONES PRETOS

Quando os telefones eram pretos, a gente ligava o rádio e escutava música boa. Plataformas, só existiam as de prospecção de petróleo. Deezer e Spotify, disso não se ouvia falar. Arco-Íris, estes sim, já existiam, coloridos tais como são hoje em dia. No meu tempo eram pretos os telefones. Iguais ao de Rubem Braga.

Mas tudo mudou, evoluiu, na visão de alguns. Já não consulto a empoeirada Barsa quando a dúvida aflora. Minha Enciclopédia Britânica, que tantas vezes me socorreu, nem sei onde está. Nem vou procurá-la: dela não preciso. À curta distância de meus dedos está o Google, que tudo sabe e me tira dúvidas em fração de segundos. Sou de um tempo que passou. Meus grandes influenciadores eram meus pais e meu avô materno, Poeta, professor de Português e de Latim (sim, houve um tempo em que se estudava Latim, origem de nossa inculta e bela flor do Lácio, segundo Bilac). Estes, sim, exemplos de bom caráter e retidão desde quando nem se ouvia falar de Internet, dos atuais ‘influencers’. Tempos em que as redes serviam tão-somente para o balanço das merecidas sestas após o almoço.

Minha avó falava-me que o tempo é o senhor da razão. Nunca entendi o sentido da frase. Mas sei que ele não volta. A verdade é que tudo passa, rapidamente, sem esperar por ninguém, queiramos ou não. Evoluamos, pois. Se alguém souber, aguardo sugestão: que faço com as fichas do ‘orelhão’ que me sobraram no bolso de minha camisa ‘Volta ao Mundo’? Além delas resta-me a saudade dos telefones pretos.

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INVERNIA DE AMOR

No friozinho de Gravatá, com o dia já envelhecido e o sol indo descansar sob uma chuva fininha, pus-me a refletir sobre o bem-querer revigorante que deve envolver as pessoas. E aí, utilizando-me de toda a liberalidade poético-gramatical permitida, brotou a letra abaixo, melodiada por DANIEL GONZAGA, Filho de GONZAGUINHA, Neto de GONZAGÃO. Em breve, a cantiga estará à disposição de quem quiser ouvi-la em todas as plataformas digitais.

(usei a capa do Livro do Grande Poeta Jadson Lima (RN) para ilustrar o texto).

INVERNIA DE AMOR

No meu sonho eu namoro estrelas
Desejando tê-las para te ofertar
E as palavras viram Poesia
De noite e de dia só pra te encantar
Esperando como quem espera
Uma primavera em pleno verão
Ou outono bordados de flores
Ternurando amores em toda canção

Só queria que você me desse
Esse teu cheiro gostoso de flor de alecrim
E eu seria invernia de amor
Para todo dia ver você chover em mim

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RIDÍCULAS CARTAS DE AMOR

Teria Ofélia feito mal juízo de Álvaro por achar ridículas suas cartas de amor? Não creio. Ao contrário, imagino que ela se deliciava com o tom exageradamente romântico, e por isso ridículo, daquelas epístolas amorosas. Não seriam cartas de amor se assim não fossem, já dizia o Poeta. Eu também já as escrevi. Muitas. Ridículas, todas. Não mais as faço. Aliás, ainda que fizesse, de nada adiantaria, pois nem selos há mais. Vivemos o tempo rápido dos e-mails e outras facilidades tecnológicas.

Hoje, envio WhatZaps de amor, tão ridículos quanto as cartas que escrevia, repletas de clichês e transbordantes de emoção, como convém a quem ama. Sou obrigado a concordar com Pessoa também sobre este assunto. Burrice seria dele discordar. E eu sou apenas ridículo. De burro, não poderão me acusar. Nem de infeliz.

Pensando bem, infelizes são os que nunca escreveram cartas de amor. Estes, verdadeiramente ridículos, nunca souberam o que é estar apaixonado e desconhecem a dosagem do não-ridículo que há quando se ama.

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FÁBULA DE UM TRÁGICO MATRIMÔNIO COM FINAL POUCO FELIZ

No casamento do gato cor de rosa com a gatinha azul a capela estava lotada. Na primeira fila, o rei do mato, seu Leão, e amigos próximos do casal. Na mesma cerimônia haveria o casamento da Raposa Felpuda. Por isso, aquela chuvinha fina sob um sol inclemente. Claro que os casamentos desses bichos acontecem independentemente dos sóis e chuvas, mas, por tradição, já se esperava esse contraste da natureza: afinal, aconteceria o casamento da Raposa.

A RATINHA FOGOSA

Eis que na calçada da Igreja, bem na hora da marcha nupcial, passou uma Ratinha cinzenta, cor de rato, rebolativa e fogosa, que, de pronto, desconcentrou o Gato casadoiro e tornou solitária e triste a agora não-mais-azul Gatinha. A chuva intensificou-se e o sol, teimoso, permaneceu acima de todos. O felino, soube-se, foi morar na floresta vizinha; a Gatinha emudeceu, não mais sorri, desaprendeu a miar. Da Ratinha, não se teve mais notícias … Nunca mais alguém viu seu rebolado nas calçadas das capelas. Seu Raposo e sua amada vivem felizes, porteiros-guardiões do galinheiro do lugar.

MORAL DA HISTÓRIA

A moral da história, que deve estar contida nas fábulas, fica por conta de cada um que lê-la.

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VIVA A VIDA

Na delícia de uma manhã de sol, em plena lavagem do peritônio com o mais precioso dos líquidos (e nem me importa a marca), ocorreu-me a saudade do tempo em que eu não exercia a vagabundagem plena e irrestrita que hoje exerço, depois de longos anos dedicados ao trabalho. Hoje, ocupando-me apenas em fazer música e a escrever as besteiragens e baboseiras que escrevo, cuido também de fazer a minha parte na tentativa de construção de um mundo melhor, conquanto utópico.

PAZ E BEM!

Faço minha parte. Modestamente, vivo a adubar perdões em mares tantos que sinto nos Sertões de sol muito. Tento distribuir sementes de paz onde enxergo desertos de alegrias e secas de afetos, venturas esteadas em terras de poucas luas e nenhum baião. Quando olho para o céu e mesmo não vendo estrelas, sei que elas estão lá, não obstante o nublar, e que em breve enfeitarão o firmamento. Da esperança, não lhe solto as mãos.

VALEU A PENA!

A consciência tranquila permite-me um sono reparador, sonhos bons, cabeça no travesseiro de plumas leves da certeza do dever cumprido. E não posso esquecer as calçadas altas e as veredas escuras e estreitas que tive que enfrentar para chegar onde cheguei. Valeu a pena! Sou feliz com a construção do bem que consegui realizar, com a família que tenho e com os amigos que tive a sorte de conquistar e isto vale mais que qualquer benesse material. Resta-me gritar: Viva a Vida!

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MEUS INTERIORES

Em meu interior, bem distante e íntimo, escondo-me dos maus e das maldades destes. A porteira, sempre aberta, deixa passar apenas os sonhos ainda não vividos e a vida por sonhar. No alpendre, além do balanço da rede e de um bom livro, repousa a conversa com os amigos, proprietários das sãs palavras, afagos e carinhos. Percorro as veredas do meu eu e me reencontro nos largos corredores comigo às seis da tarde, ao som da Ave-Maria na sanfona bonita de Gonzaga. Os segredos e desgostos, joguei-os todos no cacimbão do quintal e sorri feliz quando percebi o espelho das águas se desfazer, por instantes, para depois voltar ao normal, proporcionando-me a delícia da água limpa e pura que só os cacimbões da paz podem produzir. Meu interior tem o mato onde mato a minha sede e encontro a felicidade, rara, e por isso tão desejada. Lá, muito pouco ou quase nada me faz falta e nem preciso de capital ou da Capital para ser feliz. Basta-me o cheiro bom da terra. Quando molhada, quanto melhor. Que o silêncio do Acauã permaneça anunciando a chuva por vir.

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PEQUENAS COISAS DE QUE NÃO GOSTO – Parte 2

Continuando a lista de coisas que não me deixam feliz e que, exatamente por isso, por elas nutro a maior antipatia:

– Síndico autoritário e incompetente que deixa de me desejar bom dia, ao encontrar-me no elevador, pelo simples fato de eu ter discordado de suas pretensões de interesse pessoal na última reunião do condomínio;

– De terno e gravata. Usei durante 25 anos por força de minhas atribuições funcionais. Era exigência do Banco Central, quando em missão externa encontrava-me. Hoje, não mais uso ternos: prefiro usar ternuras;

QUADROS E VIZINHOS

– Quadros em desalinho na parede em relação ao chão, ao teto ou a outros quadros. Não suporto assim vê-los. O artista que os pintou não merece tê-los em desalinho. Sou defensor do prumo;

– Vizinho chato e fazedor de zoada ou que tenha filho com vocação e desejo de um dia ser baterista e para isso esteja fazendo aulas práticas em casa, nos horários menos apropriados;

– Da companhia do espelho na segunda-feira de manhã, depois de um fim-de-semana de comemorações e ‘beberagens’. Olhar-me de ressaca reflete uma imagem que não me agrada vê-la. Espelho, espelho meu …;

DOR DE BARRIGA E PREGUIÇA

– Dor de barriga na hora errada e vontade de fazer xixi, quando à espera de um elevador preguiçoso, em viagem longa até o 9° andar, que não se importa com as necessidades do passageiro ‘apertado’;

– Acordar de madrugada com uma boa ideia na cabeça e com preguiça tamanha que não permita o levantar-se para registrá-la. Dia seguinte, bem feito para mim, a ideia foi passear na cabeça de outra pessoa.

Basta! É muita infelicidade junta numa só crônica. Melhor falar de coisas boas, que me deixem feliz. Aliás, como sempre tento fazer em meus escritos e músicas.