Estava à toa na vida. Não havia qualquer sinal que me obrigasse a parar, mas parei para dar passagem àquela moça que atravessava a rua. Sequer percebi se ela era bonita – nem precisava ser, ante a beleza anatômica de que se revestia a jovem quando observada de costas, da cintura para baixo. Faceira e apressada, falava e ria ao celular e, pela justeza da calça que trajava, devia estar indo para a Academia.
Tão à toa estava que não vi o carro no sentido perpendicular. O outro motorista, por certo, não teve o privilégio do ângulo de visão a lhe favorecer, senão teria parado para olhar a moça que passava. Impossível não parar ante a ‘redondice’ perfeita daquela moça, preenchendo as mais rigorosas exigências estéticas porventura existentes. Batemos os carros. Terá sido castigo? Não acho. Castigo seria se meu olhar não fosse repleto de bons sentimentos, de boas intenções, um olhar artístico, um olhar puro. Nada restou a fazer a não ser ligar para o seguro.
Tudo porque eu me abestalhei apenas para ver a bunda passar, como se fosse um pornográfico Chico Buarque de Holanda … Ante o ocorrido, obrigo-me a dar razão ao especialista, profundo conhecedor do assunto – Vinícius de Moraes que, em sua Receita de Mulher, decreta como condição de beleza, dentre outros requisitos, que a mulher ‘seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo’. Parodiando o sábio Poeta eu ouso dizer: as desbundadas (não-calipígias para os eruditos) que me perdoem, mas o ‘dernière’ é fundamental …








