A rua da minha meninice tinha um nome esquisito: rua Francisco Parreão, pessoa cuja identidade nunca consegui saber. Teria sido um Padre? Ou um Industrial que contribuiu para o desenvolvimento do bairro de Nazaré? Ou foi apenas um eleitor que ajudou a eleger um vereador da Cidade, que, em retribuição, lhe atribuiu o nome da minha rua? Sei que, sem motivo justificável, eu tinha vergonha de dizer o nome de minha rua. Achava esteticamente feio, soava mal. Preferia dizer que morava na rua do capinzal, em homenagem à plantação de capim que se ‘amostrava’ em toda a sua extensão, certamente para prover de alimento as alvinegras vacas que habitavam a leiteria em uma de suas extremidades. Dali vinha o leite diário de nossos cafés matinais.
RUA CHEIA DE AREIA
Na rua, areal de ponta a ponta, sem calçadas que limitassem nosso futebol. Ali, jogávamos bola, ralávamos joelhos e torcíamos os pés. Água para lavá-los, retirávamos do cacimbão, ao fundo do quintal, onde um dia caiu do bolso do meu pai sua caneta Parker 51, na tentativa frustrada de salvar Tupã do suicídio inconsciente. À esquerda, Dona Izabelina e suas filhas, coroas donzelas ainda à espera de príncipes que nunca vieram. Do outro lado, dona Ana, baixinha, grossa que nem papel de embrulhar prego, mãe de Zé Raimundo e viúva de seu João, morrido de tanto beber.
TUDO ERA VIZINHO DE TUDO
Tudo era perto: a escola, a igreja, a avenida principal do bairro, onde morava o Tenente Aguiar, casa bonita de cujas janelas víamos Renato Aragão, início de carreira na TV Ceará. Só aquele militar tinha o luxo da televisão. Tempos passados. Hoje, depois de ter morado na Bernardo Vieira de Melo, sertanista e político importante, e na Avenida Presidente Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, quedo-me ante a saudade daquela rua que homenageava um ilustre desconhecido, o Sr. Francisco Parreão, cidadão de quem nem o ‘inteligente’ Google sequer ouviu falar.
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Agora falta a crônica seguinte, mestre Xico. Como anda hoje a sua rua? Ainda existe? Ou hoje é outra, sem mais registros do passado? Abraços.
Minha rua de criança, meu caro Doutor, ficou em Fortaleza, no Bairro de Nazaré. Soube que não há mais o capinzal de outrora e as vaquinhas também lá mais não moram. Por fim, soube também que até mudou de nome (hoje é rua Tianguá) o que só comprova a inexpressividade do cidadão que lhe emprestara o nome. Coitado do Parreão.
Um dia ela vai se chamar Rua poeta Xico Bizerrra. Quer apostar?