ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

POEMA SAFADO DE PÉ QUEBRADO

No mato em que nasci
Nem cabra, nem jabuti,
Virava as noites frias
Pensando em como seria
O mundo sem uma tetinha.

Tão logo fiquei taludo
Perna grossa voz cavernosa
Corri os rabos de saia
Pensando que era o cara,
Mas era apenas um vesgo
Buscando uma enrascada

Conheci malandragem grossa,
Mas fiquei embasbacado
Com uma malta supimpa
Dessas que roem o osso
Com mentiras e venda de sonhos
Que só enganam os trouxas

Mundo, Mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Inácio
Isto seria um tema
De guabirutagem “piu grassa”
Usando uma voz roufenha
Para enganar a malta

Depois que a barba cresceu
Perdi minhas ilusões
E vi, bastante estarrecido
Como se monta um abismo
Caindo em conversa fiada
De gente que não vale nada.

Partido vermêio-istrelado
Bando que virou partido
Esfola a carne do pobre
Com promessa de picanha nobre
Esporeia a carcunda do povo
E entrega uma linguiça e dois ovos.

Mundo, Mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Inácio
Isto seria um tema
De guabirutagem “piu grassa”
Usando uma voz roufenha
Para enganar os trouxas.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

CONTRATO SOCIAL

Essoutro dia estava em casa, deitado na minha rede de imbira e vendo alguns vídeos do Youtube, com aquela preguiça proverbial de todo caeté que se preza e faz jus ao seu cocar. Ao passear por esses vídeos, acompanhei a história de um estudante pindoramense na gringolândia. Ele é estudante lá nos Zistados Zunidos, terra adotada do nosso conterrâneo Ñambiquara, Magnovaldo.

O curumim estudando lá, disse que estava meio que “atoleimado” (essa é uma homenagem à querida Violante Pimentel), como se usa cartão de crédito para pagar contas. Segundo ele, o garçom não leva a máquina até o cliente para ele passar o cartão e digitar a senha. De acordo com o depoimento dele, até a palavra senha é algo estapafúrdio nessas transações comerciais.

O moço relatou que não entendia como o garçom podia pegar o cartão do cliente, levar até o caixa, realizar o pagamento e retornar com o objeto e entregar ao cliente. Falou aos seus amigos gringos que no Brasil, jamais se faria isso, pois cartão possui senha, e o cliente precisa digitar essa para que o pagamento seja autorizado. A surpresa foi de ambos os lados: do brazuca que não entendia essa prática e dos gringos que não entendiam como cartão pode ter senha autorizativa para se pagar por um serviço prestado.

Nessa altura, meu espírito caeté já estava armando a trempe e esfregando o cavaco para acender a fogueira irracional que nos atiça cada vez mais depressa rumo à barbárie total. O pobre rapaz ainda não compreendeu que os de lá, diferentemente dos daqui, vivem em uma sociedade cujo contrato social é baseado na confiança e na boa-fé.

Essa característica marcante dos americanos é fruto da gênese de sua própria construção como nação, cujo lema é pacta suma servanda, ou seja, “Cumpram-se os contratos”. A base na boa-fé e na confiança com que aquela nação se estabeleceu como a maior potência do mundo é fruto de diversos fatores, mas acima de tudo, de uma ética de trabalho e de tratamento que dispensa intermediários, dispensa despachantes, dispensa burocracia e papelório, tornando os negócios mais fáceis, mais baratos e as relações sociais mais diretas.

Aquele contrato social baseado na confiança e na boa-fé, que funda os Estados Unidos da América, possivelmente é o elemento coesivo e mais firme daquela nação, isto porque todos tem como princípio de que o outro, sempre vai cumprir aquilo que foi contratado, independente de papel, carimbo, ou firma reconhecida. Como se dizia nos tempos do meu avô: um fio de bigode era mais que suficiente para que as partes cumprissem o que foi contratado.

Por isso mesmo, qualquer pessoa, país, organização, empresa, quando o mundo recebe um solavanco financeiro, correm para os títulos da dívida americana, pois sabem que, pode um meteoro cair no planeta, mas os Estados Unidos não vão deixar de cumprir e honrar os seus contratos. Esse é o diferencial da moeda americana e do próprio país. Podem árabes, russos, chineses, e mesmo os países cucarachas da América Latina espernearem contra o dólar como moeda transnacional. Enquanto o pilar da confiança e da boa-fé norte-americana estiver em pé, a moeda americana não será substituída nas transações internacionais.

Diferentemente de lá, em certo país abaixo do paralelo zero, gigante e bonito por natureza, vive-se o seu exato oposto. A sociedade pindoramense é baseada, essencialmente na desconfiança e na má-fé, partindo do pressuposto de que o outro sempre vai dar o golpe, vai passar a perna, e dar um passa-moleque no outro.

Nossa sociedade é baseada, no que eu chamo de sociedade cartorial, isto é, tudo, basicamente tudo o que fazemos é baseado na burocracia, na interferência de terceiros, nas toneladas de papel que precisamos apresentar quando vamos fazer qualquer negócio. Chegamos ao paroxismo de, para vender um carro, ação que só interesse às partes (comprador e vendedor), é necessário a interferência de um cartório que, para dizer que a minha assinatura é minha assinatura, cobra um valor alto, sem ter gerência alguma no negócio, mas leva a sua parte. Noves fora a safadeza dessa ação, o Estado brasileiro está dizendo nas fuças do cidadão: eu não confio em você e nem no seu nome, preciso de alguém que ateste isso, mas quero o seu dinheiro.

A sociedade cartorial de Pindorama, cheia de vias, de reconhecimento cartorial, de reconhecimento de firma, de selos de autenticidade de guias, não somente cria um emaranhado burocrático que encarece tudo à nossa volta, cria uma fauna que ganha muito dinheiro e não produz uma agulha de tricô, se sustenta dessa desconfiança inata do brasileiro e cria uma rede de privilégios para poucos.

Há alguns anos eu dizia que, em Pindorama, o melhor negócio era abrir uma igreja. Falsa lógica a minha. No Brasil, o melhor negócio é ter um cartório para chamar de seu, ou mesmo um detran. São os dois órgãos que mais arrecadam e ganham dinheiro na sociedade brasileira. Se tivermos curiosidade e fizermos uma análise paralela, poderemos ver que um cartório, ou uma agência de detran arrecada mais dinheiro que uma rede de supermercado, em um único dia de funcionamento, mesmo essa rede de mercado gerando mais riqueza, empregando mais gente e gerando mais prosperidade.

Assim, voltado àquele curumim curiboca que estuda nos zisteites, fico a pensar quando ele irá compreender que viver em uma sociedade baseada em contrato de confiança e boa-fé é bastante difícil para quem está acostumado à barbárie e a desconfiança mútua de Pindorama.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

ARROZ, AGRO E LULA

Junho, mês de foguetório e festas populares está sendo bem interessante em Pindorama, apesar dos prognósticos nada animadores para a indiada que por aqui mora. Enchente no sul do país, endividamento sem controle, ministro ateu indo ao Papa pedindo para ele ser o “ombudsman” do mundo, cacique chamando assassinato de brasileiros por terroristas de “falecimento”, ministro supremo mandando prender a quem ele não vai com as fuças, a GESTAPO, digo, Polícia Federal fazendo o que bem entende, e por aí vai.

Mas, o que me chamou a atenção foi a dita compra internacional de arroz, autorizada pelo Ladrão Descondenado, para, supostamente, abastecer o mercado interno, alegando que a falta do produto nacional vai encarecer o produto, como se este não estivesse já caro, pela carga tributária colocada na carcunda do cidadão. Mas, o que me assustou é o volume e a montanha de dinheiro reservada para isso.

Diz o chefe da quadrilha, digo, o presidente da república – assim mesmo em minúsculo para homenagear o atual estado das coisas -, que reservou sete BILHÕES de reais para comprar um milhão de toneladas de arroz no mercado internacional. Nessa ruma de número aí, há duas coisas que me preocupa. A primeira é relativa ao valor em si, e a segunda diz respeito às intenções de se fazer isso.

Sete bilhões de reais para um milhão de toneladas de arroz é muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. A não ser que aí esteja uma logística medonha que sairá mais cara que o produto em si, afora o pungente cheiro de falcatrua que está embutido nisso. Afinal o governo vai comprar por 25 reais o pacote de cinco quilo e vender a 20 reais. Não faz o menor sentido econômico, ou mesmo matemático essa ação. No passado isso era chamado de “câmbio português”, em que a operação gerava prejuízo, em vez de lucro. Noves fora os agrados, a lubrificação dos contatos, as facilidades e agrados para agilizar o processo, já vimos essa novela antes e o final foi tudo, menos feliz.

Essa situação é a de menor impacto nessa confusão toda. O que eu percebo, e não sei se os demais caetés, potiguaras, tupis e guaranis de Pindorama perceberam é o que está por trás dessa manobra. Lula está seguindo à risca a cartilha stalinista reservada para o agronegócio. Cartilha essa que foi usada por Fidel Castro em Cuba, Mao Tsé-Tung na China, e mais recentemente a dupla diabólica Hugo Chavez e Nicolás Maduro na Venezuela.

Lula já disse que o agronegócio brasileiro é fascista – será que o analfabeto de Garanhuns sabe o que é fascismo? -, e, portanto, precisa ser combatido. E está combatendo com eficiência, amparado na desculpa de frear o preço do arroz nas gôndolas de supermercados para que o povão possa ter acesso ao produto.

Na Venezuela, a começar por Hugo Chaves, e depois pelo Maduro, a primeira coisa que fizeram foi desestabilizar a produção agrícola do país, causando a famosa “insegurança alimentar” nas cidades. As interferências de Chavez e Maduro na produção agrícola venezuelana, ainda que aquela não conseguisse suprir as demandas do país, acabaram por desorganizar o setor, fazendo o produtor deixar de plantar e colher, pois estavam tendo prejuízo. As compras internacionais de produtos do agro desorganizaram a produção. Logo depois o governo alegando “falta de patriotismo” daqueles produtores, “expropriaram”, – palavra bonita para roubo, ou esbulho possessório -, as propriedades, colocaram seus comparsas para administrar essas propriedades, e elas foram de vez destruídas.

O segundo passo foi a intervenção na rede de distribuição – atacadistas, atravessadores, supermercados, mercados e mercearias de esquinas -, alegando sonegação, especulação e interesses escusos para ganhar mais as custas da fome da população. Quando houve a destruição desse setor, criou-se as cadernetas de alimentação, a distribuição de comida, desde que as pessoas beneficiadas estivessem inscritas em programas governamentais e apoiassem as manifestações do governo, e também, apoiassem e votassem no governo em todas as situações. Qualquer tentativa de oposição por parte da população e esta era cortada de receber sua “cesta básica” doada pelo governo que, intencionalmente destruiu a produção agrícola do país.

Analisando o panorama com uma distância adequada, pode-se ver que o governo Lula está aplicando à risca esse manual de destruição do setor mais competitivo, eficiente e lucrativo nacional. Um setor que emprega milhões de brasileiros, produz e utiliza tecnologia de ponta, põe comida barata na mesa do brasileiro. Mas, alguém pode dizer que a comida está cara, nas gôndolas do mercado. Está sim. Mas, de quem é a responsabilidade? Basta a gente ler o cupom fiscal que o vendedor entrega para a gente, isso mesmo, aquela notinha amarelada, cheia de letras miúdas. E ver, lá, que, o total de impostos, contribuições, taxas e intervenções respondem por quase 56% do valor final do produto.

Gastando como se não houvesse amanhã, empregando gente desqualificada, incompetente, preguiçosa e burra, o governo Lula está, pelo menos nesse ponto, cumprindo exatamente o que disse que iria fazer: destruir as bases da economia nacional, acabar com o agronegócio e transformar o Brasil em uma nação de indigentes e esmoleres estatal, que, até para limpar o rabo, vai depender da boa vontade do governo para que este forneça papel higiênico, quando tiver algo que expelir, óbvio, já que a insegurança alimentar e a fome será uma constante na vida do país.

E pronto! O cenário para o domínio total do país estará concretizado. Não pensem que o que o Lula está fazendo é fruto de uma preocupação com a segurança alimentar do brasileiro. Sua meta é a destruição do setor produtivo, roubo de quem produz e a inclusão de toda a população em uma horda de indigentes e pedintes que devem viver às custas do Estado. Foi assim na União Soviética, foi assim em Cuba, foi assim na Venezuela, e será assim no Brasil.

O que me preocupa é que, mesmo havendo jornalistas sérios e críticos, ainda não levantaram essa lebre para que a população fique de olho e não se deixe levar pela lorota do governo e sua preocupação com o desabastecimento de alimento do país. Corremos um grande risco. Só não vê essa situação dois tipos de pessoas: os canalhas que apoiam esse minueto, e os idiotas úteis que entrarão, também, na fila de pedintes e mendigos estatais em um futuro bem próximo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

SÓ BOBAGENS DA BOTOCÚNDIA

Semana começou fria na gloriosa Campo Grande, ao mesmo tempo em que eu acompanho as tragédias e desastres que vem ocorrendo em Pindorama neste mês de maio que eu chamo de bobagens, coisas sem importância alguma.

1 – A Tragédia no RS – mesmo comovido com a rede de solidariedade civil em ajudar nossos irmãos gaúchos, o que mais ouço é as pessoas dizerem: “não é hora de buscar culpados”. É sim. E, digo mais, passou da hora de apontar quem foram esses culpados. Infelizmente o RS, não diferente do resto do Brasil sempre votou em tragédias anunciadas que envidaram todos os esforços para destruir o Estado. Alceu Colares (PDT), Antônio Brito (PMDB), Olívio Dutra (PT), Germano Rigotto (PMDB), Yeda Crusius (PSDB), Tarso Genro (PT) e Eduardo Leite (PSDB). Todos esses governadores contribuíram, de uma forma, ou de outra para a incompetência chegasse ao estado de Arte. O resultado…morte, enchentes, perda de patrimônio e um atraso de mais de um século para o povo gaúcho. Vale de alerta para os demais estados da federação refletirem sobre o tipo de liderança política que querem. A natureza não é mãe. Quando ela se manifesta, bons e maus acabam na mesma lama e no mesmo caos.

2 – Lula e a doação de carne ao RS – hoje acordei com uma notícia que me arrepiou os cabelos da carcunda. Lula anunciando a doação de carne para os desabrigados do RS, tendo ao lado os irmãos bucaneiros Batista. A notícia ainda dizia que esse ajuntamento de donos de frigoríficos “não pediram nada em troca” da doação de carne e a distribuição será feito pelo M.E.R.D.A – Ministério Especial de Reconstrução de Desastres e Alagamentos -, Paulo Montanha Pimenta. Mal sinal. Juntar Lula e os irmãos Batista na mesma sala é sinal claro de corrupção da grossa está rolando nos bastidores e que essa carne “doada”, vai sair salgada, não só para os gaúchos, mas para toda a população brasileira. A quantidade não se me fixou na mente, mas só de saber que os irmãos Metralha, digo, Batista, estão na jogada, é informação mais que suficiente para botar a PF em campo.;

3 – Combustíveis – notícias jornalisteiras já estão dizendo que o preço dos combustíveis estão 20% defasado em relação ao mercado internacional e que a Petrobras – sempre esse anacronismo típico do Brasil -, está segurando os preços para evitar a explosão dos índices de inflação. Mal sinal. Usar empresa de capital misto para fazer politicagem de preços vai nos levar ao mesmo cenário de 2016. Empresa quebrada, com o otário pagador de imposto enfiando a mão no bolso para sanear uma excrescência que há muito tempo deveria estar nas mãos da iniciativa privada, processos internacionais levando o resta de dinheiro e o gunverno bostejando que está trabalhando para o nosso “pogreço”.

4 – Eleições – já começaram as movimentações para as eleições municipais. Gente em quem eu não confiaria nem com um estilingue na mão sendo vendida como preparada, com experiência, com visão política. Tudo mentira. São os mesmos profissionais da política que têm trabalhado pelo progresso do nosso atraso há cerca de 30 anos, não largam o osso, não deixam as boquinhas. Prefeitos que querem ser reeleitos gastando como se a dívida não fosse um dia cobrada, e que o credor vai querer o seu dinheiro de volta. Aqui no glorioso Mato Grosso do Sul, ainda no mês de abril já houve suplementação orçamentária na casa de 400 milhões de reais, e no município, neste mês de maio, suplementação orçamentária de 120 milhões. Trocando em miúdo, o dinheiro acabou, verba suplementar é dinheiro emprestado que está sendo usado para cobrir rombo, e um dia vai ter que ser pago. Mas, a festa precisa continuar e o circo precisa levar adiante a apresentação.

5 – Arrependidos do L – vejo nas redes sociais, nos canais do Youtube, depoimento de pessoas que estão zangadas com o “Barba”, jurando nunca mais votar no PT e fazer o L. A trupe de gozadores que se divertem com essa notícia, no entanto, desviam do essencial para o acessório, ou seja, a abóbora e o capim. Eu sempre me pergunto do motivo dessa zanga. A resposta é sempre a mesma. Estão emputiferado com o “Barba” porque ele cortou o Bolsa Farelo da turma. Não vejo nenhum falando que estão zangados porque o governo está cavando um buraco fiscal impagável, ou porque a educação está uma merda, pior do que era a merda anterior, ou porque não suportam mais pagar impostos, ou, ainda porque o governo não criou um clima de segurança jurídica para que o investidor crie empregos, ou porque a segurança pública já foi para a lata de lixo e hoje vivemos o “salve-se quem puder”, e o resto deixe para o crime organizado. Não! A única reclamação vem do fato de que, uma geração criada com espírito e alma parasitária, teve sua bolsa esmola cortada. Isso não é arrependimento. Basta o “Barba” soltar a grana e todos voltam feliz da vida para beijar aquela mão bucaneira.

E, por hoje chega. Caeté não é chegado a boquejar desastre, mas sempre torce para que algum toitiço “più grasso” sobre nessa lambança toda.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

HERMENEGILDO GAIA

Para Valter Portela

Hermenegildo Ferreira Boaventura da Silva, assim fora batizado lá nos panos de cueros, pelo batina de Santo Amaro, antesmente de poder falar a primeira palavra. Criado e amamentado aos pés da devoção, desde pequeno tinha vocação para sermonista, sacristão, ou qualquer outro cargo que a religião e seu povo quisesse investir nele. Procissionista de primeira marca, nunca perdera estar debaixo dos paus do andor, seja lá o tipo de santo que fosse, desde Santa Bárbara que protege dos coriscos, até São Bartolomeu que protege das matilhas de lobisomens e outros atrasos dos pastos.

Até foi incensando pelo padre de Santo Amaro a seguir carreira religiosa, mas um rabo de saia destruiu qualquer vocação dele para as artes igrejeiras, os sermões e fé na vida do claustro. Ainda que fosse católico de marca maior, seguiu o exemplo de seus antepassados, pratrasmente desde quando chegaram na terra, época em que Santo Amaro era terra mais de bugre que qualquer outra coisa, ou seja, decidiu levar vida de casado, sem abandonar devoção igrejista.

E foi, no primeiro casamento que seu nome apareceu atarrachado com o epíteto de Gaia. Não que fosse um estudioso da ciência de um Mercator, longe disso, a Gaia, no caso, não se referia à geografia, mas sim o belo par de aspas que a mulher dele colocou, antes mesmo do casamento virar a folhinha de dezembro.
Sabedor da novidade, de pessoalmente deu despacho de desembargador à mulher e a mandou ao diabo que a carregasse, desde que longe dele. Inventou doença malina, que teve que mandar a mulher para a cidade grande, onde ela finou-se, sem saber que a novidade da gaia corria solta. Hermenegildo obtemperava que aquilo era tudo bocage de beira de buteco, que nunca levara gaia. Só o padre de Santo Amaro sabia toda a verdade, contada e repisada por Hermenegildo. Seis meses depois, contraiu novas núpcias com uma sarará de maiores encantos, do tipo aparentada de tanajura, onde os avultados dos de cima se ligam às exorbitâncias dos debaixo por uma cintura mais fina que tolete de taquara.

E aí começou a sina. Hermenegildo levou gaia de A até Z, passando, inclusive pelo Ypissilone duplo carpado. A cada mulher nova que arrumava, nova gaia enfeitava a testa, andando ele desgostoso, desvontadoso, com a carcundinha envergada pelo peso que levava na cabeça. Levou gaia do Açougueiro, do Barista, do Carpinteiro, do Dentista, do Eletricista, completando todo o alfabeto, sem esquecer as letras estrangeiras que fazem parte do abecedário.

Injuriado com aquela situação, praguejava Santo Amaro. Terra de gente safada, oco de lobisomens, lugar onde nem o tinhoso com pata de bode e mão de garfo queria botar as patas. Não podia ver ajuntamento de boiadeiro que ele esfarinhava aquele comício a poder de sua língua, já que era assunto que mais vendia na praça, fazendo até mesmo inveja aos nababos do governo e suas imundícies, seja em roda de vinte-e-um, seja em conversa de donzela desencaminhada e de casa sem vergonhista.

Decidiu, como último ato de bravura encontrar uma mulher que nunca o traísse, que fosse sempre leal a ele. Matutou um par de meses e decidiu. Nunca em terra deseducada encontraria tal madama, por isso decidiu construir uma para ele. Encontrou um belo tronco de aroeira, usando seus dotes de santeiro fez uma mulher, inteirinha para si. Obra de mão perita, empombada. Mas, tomou cuidado de nunca contar a ninguém seu feito. Ao agir como o Collodi, esperava uma esposa fiel e que nunca levantasse a voz, ou mesmo fosse pegada em ato de sem vergonhismo, do tipo, põe-a-mão-e-olha-a-porta.

Mas, dizem que quem nasceu para levar gaia, pode desaparecer do chão de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas a gaia fica. Chegando em casa certo dia, olhou para sua mulher, deu um grito alto e caiu durinho de pedra, de não ser Hermenegildo Gaia nunca mais nessa vida. Os cupins tinham comido a mulher feita de madeira!

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

COMO NOSSO LAR

Judy Garland, no filme “O Mágico de Oz”, disse uma célebre frase: “… não há nada melhor como nosso lar”! De fato, a moça tinha razão, principalmente quando o assunto é cagatório, o lar é o melhor lugar do mundo, quando a pessoa sente a hiena mordiscando as pregas do bufante.

Esteja onde você estiver, a hora que for, nos momentos mais tristes, ou felizes da vida, quando se sente aquele arrepio que sai da nuca, desce pela carcunda e chega na pontinha do osso do mucumbu, pode ir se despedindo. Nada, mas, nada vai fazer com que você consiga dar uma chapiscada na louça, se não for no recesso do lar.

A pessoa está na casa de um amigo, compadre, ou até mesmo de um irmão, irmã. Sente aquele bululu nas tripas, um remelexo das verminas e uma piscadela rápida do olho de Thundera. Batata! É sinal de bater em retirada. Você pode até pedir licença para a pessoa e ir usar o banheiro dela. Nada. Sabe aquele momento em que você faz cara feia para o nada? Pois é. Assim mesmo. Solta umas bufas bem fininhas, quase em pianíssimo, sua igual a cavalo quarto de milha depois de uma corrida, o rosto fica parecendo um pimentão e…. nada.

Nessas horas parece que o toroço cria uma relação de paixão misturada com super cola. Não sai de jeito nenhum. Afora a vergonha de soltar uma bufa mais alta e todo mundo que está na sala ouvir. Ao sair do banheiro, mais sem jeito que cachorro arteiro, ainda ficar pensando se os amigos não caíram na gargalhada às suas custas.

Ou, quem nunca, estando em um bar, vê o amigo dar aquela emborcada no copo de cerveja e dizer, de forma altaneira… vou pra casa cagar e já volto! Sai e deixa os demais meio que apalermados e, depois de uma meia hora volta, senta, pede outra gelada e continua a conversar como se nada tivesse acontecido.

Todas as vezes é a mesma coisa, estando em um local que não seja o lar, quando a ariranha começa a arranhar as bordas da olhota, não tem jeito, o indivíduo tem que correr para casa, sentindo as picadas do marimbondo já na saída da colmeia. Aí se trava uma luta quase titânica entre a máquina de picotar churros e o trem de carga já apitando na curva da estrada, avisando que está chegando na estação. É a hora dos calafrios, do suar até mesmo em dias com temperatura abaixo de zero.

Um ato tão natural quanto respirar, mas que damos a maior importância, a ponto de só nos sentirmos bem se estivermos chapiscando nossa própria porcelana. Na dos outros, é quase impossível. Uma tarefa que até Rambo pensa duas vezes antes de aceitar. Acredito que essa hora seja um momento de epifania de você com você mesmo. Alguns usam esse momento, enquanto o caminhão betoneira está trabalhando, para pensar em grandes temas da humanidade.

Outros, trazem à lembrança momentos do dia, a briga com a mulher, ou marido, o desentendimento no serviço, o estresse do trânsito. O ato de desfazer aquele prato, muitas vezes preparado por um “chef” de renome, torna-se um momento catártico, sublime, como se a pessoa estivesse adentrando os portões do paraíso. Mas isso só ocorre em casa. Na dos outros é descer ao sétimo círculo do inferno dantesco. Se for no do trabalho, aí então pode esquecer…. nem com lavagem de mangueira de bombeiro você consegue exorcizar o espirito maligno que gruta em sua essência.

Ato primitivo. Qualquer ser vivo o faz, principalmente os animais. Os irracionais o fazem em qualquer lugar, à hora que bem entendem, na frente de qualquer um. Aliás, é bem conhecida a história do bugio que, quando está irritado, caga na mão e joga em quem estiver em sua frente. Mas vá lá…. um bugio não tem consciência nem de si e nem do seu ato. O humano é diferente. No século XX ele ritualizou o ato de picotar barro e escondeu no banheiro, casinha, reservado, WC, ou qualquer outro nome que se use para indicar o espaço onde ele se senta e os pensamentos correm soltos como corcéis selvagens na pradaria.

Aliás, ritualizou-se tanto que fomos suavizando o ato para exprimir a essência de nosso eu: ir falar com o Che Guevara, Soltar o Lula, Aliviar as entranhas, exorcizar um espírito maligno, reinar, sentar no trono, despachar-se, aliviar-se, despachar a marmota, picotar churros, despejar um inquilino, e por aí vai. São tantas as expressões, principalmente no Brasil, terra que tem mais gozador que eleitor, os nomes variam de lugar para outro, para o simples ato, como dizia coronel Jesuíno, de ir cagar.

E, não adianta, voltando a Judy Garland, esse ato epifânico só acontece em sua plenitude se você estiver dentro de seu lar, sentindo-se acolhido e seguro por paredes brancas, uma louça limpa que será borrada, a depender da quantidade e qualidade da legião que sairá de você. Aí você não se importa com o ronco da cuíca, ou mesmo com o som dos morteiros que soltará. Será quase uma salva de canhões, fazendo força para que, quanto mais alto for o tiro, mais heroico você se sentirá. Tente fazer isso em outro local que não seja sua louça. Nem com os poderes do He-Man conseguirá se aliviar e sentir aquele alívio que só existe nos anjos e nas crianças de colo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

O PENITENTE

Resolveu pegar aquela van porque os amigos disseram que seria mais rápido. Pensou. São apenas 200 Km. Chega-se rápido e sem cansaço algum. Afinal, que mal faria estar em casa antes da hora do jantar… pensou assim durante o dia todo. Telefonou rápido. Reservou lugar. Pagaria quando o veículo o pegasse no endereço passado à moça que o atendeu. Colocou rapidamente suas coisas na mochila.

Quatro e trinta. Uma buzina. Despediu-se dos amigos com um “até logo”. Sentou-se. Depois de várias paradas começou a ver a cidade rarear. Contou de relance, onze pessoas, ao todo naquele veículo. Depois campos cultivados, viadutos, pontilhões. Adormeceu embalado pelo sacolejar da van no asfalto irregular. Antes de fechar os olhos pensou em sua casa. Na tranquilidade e silêncio de seu lar. Acostumara-se a esse silêncio. Acostumara-se à paz de viver sozinho, apenas, de vez em quando, ouvindo o barulho de vozes que passavam na rua, ou no som de motocicletas, carros e caminhões, lá, do outro lado do muro, como se fosse um mundo distante, separado, alheio a ele.

Acordou meio que assustado. O sol na linha do horizonte. Tentou se mexer. Uma dor subiu-lhe da bexiga até o peito. Placa de 10 Km até o seu destino final. Ficou contente. Precisava de um banheiro mais do que do ar que respirava. Cada sacolejo da van, que antes o fizera dormir, agora provocava uma dor excruciante que passeava pelo abdome, descia até aos pés e subia novamente. Tentou pensar em algo, mas o cérebro só se fixava naquele pequeno saco de urina. Cheio. Quase para estourar. Por mais que se concentrasse. Nada. Dor. Dor. Dor apenas.

Levantou-se. Nada. A dor não lhe dava trégua. Começou a se desesperar. Placa 5 Km. Pensou aliviado que chegaria ao seu destino rápido. 15 minutos talvez, descontando o trânsito. Sentou-se. Piora na dor. Resolveu ficar em pé. Nove pessoas sentadas dormiam tranquilamente. Olhou para o motorista. Olhos fixados na estrada. Cada movimento da van era como se agulhas perfurassem o seu corpo todo. Desespero. Contorcia-se. A dor cada vez mais intensa. Tinha vontade de gritar. Pedir ao motorista para parar. Queria descer. Precisava descer. Necessitava descer. Cada vez mais urgente. Nada mais via. A dor o cegava. Colocava-o como um animal desesperado dentro de uma jaula.

Na estrada a van em alta velocidade. O sol se pondo. Metade ainda no céu e a outra metade já abaixo da linha do horizonte. Cortando rápido o vento. 5 Km. 5Km. Nada. O desespero cada vez maior. Suava frio. Retorcia-se. Quase clamando piedade. E a cidade ainda não chegara. E a van fazendo o seu caminho rotineiro.

Km 10. Um inferno! Socorristas. Bombeiros. Policiais. Trânsito parado. Sirenes e buzinas enlouqueciam o ar. Borbotões de fogo e fumaça no ar. Cheiro de combustível queimando. Manchete no dia seguinte? Quem vai saber! Doze corpos enegrecidos, queimados até o osso. Horrendos. Odor de carne queimada. Vísceras à mostra. Uma van e um caminhão com seus ferros retorcidos ao lado da estrada.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

VÍCIO EM PORNOGRAFIA

Tenho alguns vícios, como qualquer mortal deste pedregulho que orbita uma estrela de quinta magnitude, pequena, em relação a outras estrelas espalhadas no firmamento. Há pessoas que são viciadas em álcool, em jogos, voyer, erotismo, pornografia escrita, falada, também chamada de coprolagnia, ou visual. O vício em pornografia – quem não se lembra de Sylvia Cristel fazendo aqueles malabarismos eróticos às duas da manhã de domingo, na televisão aberta, com certeza, não teve adolescência.

Mas, o meu vício é muito mais escatológico, mais pesado, que envergonharia qualquer cidadão, independente da religião que professe, do culto que pratica, ou mesmo o mais empedernido ateu que pisou este planeta. É um vício novo, adquirido há pouco tempo, mas que me impele, todas as manhãs, seja no serviço, em casa, ou mesmo em lugares públicos. Adquiri o vício de ler o Diário Oficial, da gloriosa Campo Grande e do Estado de Mato Grosso do Sul.

Vocês podem até rir, achando que fumei orégano estragado, ou mesmo coentro mofado. Mas, é sério. Depois que você adquire esse vício, fica muito difícil se desprender dele, ou mesmo abandoná-lo de vez. E, após a leitura, vem aquela sensação de impotência, de desânimo, de frustração. Se qualquer tipo de vício, seja o legal, ou o ilegal traz uma sensação de euforia durante o seu uso, vindo depois uma frustração, o vício na leitura dos diários oficiais é um vagalhão de frustrações, assim que começa a brilhar na tela do computador a página inicial do dito diário.

Começa-se pela apresentação das “otoridades” responsáveis pela administração pública e todas as tetinhas gordas em que se penduram centenas de gente ao qual eu não confiaria nem com um estilingue nas mãos, mas estão no comando de verbas “pìu grassas”, com um magote de assessores, diretores, coordenadores, superintendentes, adjuntos, e por aí vai. Recentemente, no diário oficial daqui da gloriosa capital do Mato Grosso do Sul houve a reestruturação da secretaria de saúde. Trata-se de um secretário, um secretário adjunto (numa época em que se pode fazer e tomar decisões via rede de computadores, ter um vice virou uma excrescência), onze superintendente, vinte e dois coordenadores e catorze chefes de departamentos. Só para começar.

Os diários oficiais, apesar de ser um jornal de comunicação da administração pública só traz leis inúteis, decretos absurdos, interferências diárias do Poder Público sobre quem produz e gera riquezas, normas feitas para atrapalhar o cidadão, instruções espertalhonas que visam criar dificuldades para quem produz, para depois se vender facilidades, além de reorganizações do próprio serviço visando a criação de vantagens remuneratórias, verbas e gratificações para quem comanda a máquina pública.

Afora essas coisinhas, o que mais existe são extratos de contratos, termos aditivos de contratos, reajustes em contratos, despesas financeiras sem fim, e num crescendo que, se a estrutura pública fosse uma empresa privada, á teria ido à falência há muito tempo. A gestão pública, pelo que tenho visto e lido nos diários oficiais, se enquadram, com perfeição ao que se chama de “gestão temerária”, aplicada às sociedades de capital aberto.

Basicamente o Poder Público, que toma o dinheiro de quem produz riqueza virou um mero atravessador dessa riqueza, pois todas as ações, todas as intervenções são feitas com a contratação de agentes privados, de empresas privadas, de pessoas físicas privadas, sem ligação com esse mesmo poder. O caso da dita “filósofa” Marcia Tiburi dando uma palestra na Petrobras sobre gênero é a cereja do bolo dessa balbúrdia. Aí vou me utilizar da frase lapidar do ex-presidente Ernesto Geisel sobre a empresa: a Petrobras existe para furar poços de petróleo. Ponto Final.

Cada órgão do Poder Público é obrigado por lei a dar publicidade às suas ações, mas o que ninguém repara é que noventa e nove por cento dessas informações é sobre gastos da máquina pública, e gastos que tem aumentado na mesma proporção em que os impostos estão subindo e escorchando o cidadão que produz riqueza. Nesses sete meses de vício pesado, ainda não vi um ato da administração pública que vá na contramão dessa ação. Não vi um ato que busque a economia, a restrição de gastos, a eficiência e efetividade dos serviços supostamente prestados.

As ditas conferências, seminários, palestras, dentre tantas ações, sempre são feitos com contratações elevadas de entidades privadas. Sempre me pergunto se não há, dentro do próprio serviço público pessoas qualificadas, tituladas, com expertise para encabeçar esses eventos. Alexandre Garcia, certa vez, declarou que não cobra centavo algum para dar palestra quando o ente é público, pois entende que é um dever como cidadão cooperar para a elevação da qualidade do serviço prestado.

Mas Garcia é uma exceção. Honrosa, mas exceção. Qualquer evento que envolve palestra o Poder Público contrata pessoas a peso de ouro para duas, máximo três horas de palestras. Não existe gente qualificada no serviço público, nas universidades públicas, nas autarquias e fundações que vivem diariamente os desafios, e com muito mais experiência para compartilhar com os demais? Sairia mais barato, já que funcionário público não pode cobrar para prestar serviço para o órgão público. Além de mais barato, valorizaria o próprio servidor, honraria o próprio serviço e criaria um ambiente propício para a busca da qualificação permanente.

Afora discussões inócuas, em leis e decretos inócuos. Fica-se debatendo se a faca que feriu uma pessoa entrou na vertical, na horizontal, ou na diagonal no bucho do indivíduo. A pergunta é: que diferença isso faz para o esfaqueado? Nenhuma. Mas, acima de tudo, depois que se adquire esse vício, é muito difícil, quase impossível se apartar dele e ter o resto do dia alegre e tranquilo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

APOLÔNIO PREÁ

Para Violante Pimentel

Chamava-se Apolônio Boaventura de Jesus, mas era mais conhecido como Apolônio Preá, ou apenas Preá. Matador de aluguel, conhecido pelo bom serviço que fazia na arte de despachar cristãos para a terra do além. Gabava-se do bom serviço que fazia: seu doutor! Tenho tirocínio e maestria no meu ofício. Faço serviço melhor que muito doutor médico com suas poções, sinapismos e beberagens, na minha arte.

Nascera em Cacimba do Mato Dentro nos idos tempos de antanho. Já molecote, bem puxado para o pardavasco entrou em quizília com um desafeto e passou o desinfeliz na lâmina de sua “Coqueiro”. Serviço de primeira. O vitimizado não teve tempo de dizer ai, antes de entregar a alma pra Deus, Nosso Senhor! Dessa rezinga de tempos de moleque investiu-se no cargo de matador de aluguel, e era bem pago pelos serviços prestados.

Com a fama de valente, de sujeito que não levava desaforos para casa, sentou praça em São José. Sua sala, naqueles tempos, pratrasmente de muitos verões, quando política se resolvia na bala e na ponta de faca, tornou-se cabo eleitoral, juiz, promotor, júri e carrasco daqueles a quem era encomendada morte matada. O cliente apresentava o nome, o tipo do sujeito e a espécie de morte. Preá, como todo bom servidor estipulava tabela de preço no ofício de sua arte, e ainda brincativo, preguntava para o cliente se tinha algum recado a mandar pro falecido de morte contratada e com firma passada em cartório.

Mas, deu também de apresentar ares de funcionário público de alto escalão. Coisa nanica, tipo surra de cipó de boi, ou mesmo de lâmina de fação, nem se dava o trabalho de pessoalmente despachar o corretivo. Mandava um de seus moleques qualquer fazer o serviço, pagava o jornal do trabalho subalternista e ia gozar licença prêmio na casa de sua amiga Maria Veludo.

Valente que só a peste, olhos de um verde claro que mais parecia caninana em noite de lua cheia, quando as bichas estão com o cio aberto, andava meio cambaio, pra lá e pra cá. Falava todo cacarejoso, de peito estufado, voz de entupir sala e saleta. Também era conhecido pelo seu educativismo com mulher moça e moça mulher. Pedia benção às senhoras cujas bocas muitos verões já haviam esquecido e era devocioneiro de José e São Lifôncio, apesar de não machucar piso de igreja pra mais de vinte anos.

Vivia em sua casinha na entrada de um capoeirão, criando galinha, cabra e porco, além de um roçado de aipim, feijão e milho. Era a sua mantença, fora os serviços de finadismo que dava conta quando contratado por algum figurão que queria se livrar de um desafeto, seja em briga de terra, de política, ou de qualquer outro assunto, como perda de donzelismo. Só não dava finalmência em ladrão de moça. Até elogiava o ladronismo do sujeito. Mesmo com ares superiores, não enjeitava nenhum serviço. Trabalho graúdo, desses de aparecer em gazeta de primeira página, dava de pessoalmente o serviço. Trabalho nanico, mandava algum dos afilhados, pois era padrinho de muitos moleques em São José, principalmente daqueles moleques cujos pais eram desconhecidos, ou tinham paradeiro incerto, ou daqueles filhos de moças de casas suspeitosas.

Bom caçador, gostava de ter em sua mesa, carne de alguma caça, fosse anta, tatu, ou mesmo onça, que, segundo os mais velhos da cidade era de muita sustança. Nas suas caças, sempre que trazia bicho mais graúdo, não se esquecia dos afilhados, ou dos velhos a quem sempre prestava algum ajutório. Naqueles dias bons, quando Preá caçava, os velhinhos tinham certeza de gosto de gordura na mesa.

Apolônio Preá, no entanto, tinha um segredo. Era temente de lobisomem, visage de menino pagão, ou qualquer abusão de noite trevosa, principalmente em noite de corisco, quando as lacraias de fogo de Nosso Senhor Jesus Cristo cortavam o céu de São José. Certa noite desabou uma tempestade na cidade, justo na hora que Preá voltava de um serviço de despachamento de um graúdo da política da cidade de Mocambos. Mal abriu a porta e aquela chama de corisco alumiu toda a sua casa. Nesse alumiar, Preá viu a figura de um menino comedor de terra que tinha virado anjo pra mais de vinte anos.

Sabedor de toda raça de encantado, de toda marca de visage, seja dentro de casa, em porta de cemitério, ou mesmo em estrada de chão, ao meio dia, horário mais apropriado para esses abusões e provocativismo do povo já pertencido ao barro do cemitério, encalistrou e sentiu um frio que correu da ponta da nuca, passado pelo cavername do peito e chegando no dedão do pé.

Tentou chamar alguém. Sua voz grossa de não respeitar nem sala de doutor médico, nem de desembargador jubilado saiu fininha, quase um sussurro, gaguejando um ora pro nobis aprendido nos seus verdes anos de menino quando um cura de Cacimba de Mato Dentro ensinou a ele e aos demais moleques, a garatujar o nome e algumas rezas em latim em homenagem aos santos de sua devocionice. Nem pernas Preá tinha mais. Só pensava na visage, quando sentiu um arrepio na carcunda e logo pensou em lobisomem. Mal acabou de pensar, sentiu uma mão grande e peluda tocar seu ombro e escorrer pelo espinhaço, até quase perto de suas partes subalternas.

Aí era demais. Nunca que um Apolônio Preá, matador de fama contada e cantada iria permitir tamanho sem-vergonhismo com sua pessoa. Tirou seu “Coqueiro” da cintura, chamou pelos santos de sua devoção e esfarinhou aquela mão que escorria pela sua cacunda a poder de “toma, safardana”. Quando avivou o pavio do lampião de querosene começou a rir do seu próprio medo. Na noite trevosa e cheia de vento, não reparou que havia deixado a vassoura de piaçava atrás da porta que, com o vento caiu e derrapou pela carcundinha do Preá, de alto a baixo.

ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

PORQUE SOU MONARQUISTA

Muitos podem até estranhar essa minha confissão, mas analisando Pindorama no século e mais algumas quireras de República, posso afirmar, sem a menor dúvida: nessa história de republicanismo, a indiaida nacional entrou bem. Os donos da república entraram com o fumo, e a bugraiada, com a bunda.

Quase dois anos após o falecimento da Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, peguei-se-me a pensar como a monarquia britânica promoveu, entre o século XX e agora, cento e vinte e quatros anos de estabilidade, mesmo com a ruma de primeiros-ministros bons, excelentes, ruins, péssimos e petistas, mesmo.

Eduardo VII, após o falecimento da Rainha Vitória, assumiu o trono em uma sucessão tranquila. Seu filho, George V enfrentou a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão e manteve a serenidade e o Reino e o Império unidos. A crise da abdicação de Eduardo VIII, causou comoção, mas logo depois da sucessão, George VI enfrentou o resto da depressão, a guerra mais destrutiva da história da humanidade e a desagregação do império em estados independentes, mas a maioria optando por permanecer na chamada Commonwelth, tendo o soberano britânico como chefe de estado dessas nações. Há até uma história, não sei se verdadeira que, quando George VI anunciou a entrada da Grã-Bretanha na Segunda Guerra, o primeiro-ministro da Austrália, nem solicitou autorização do Parlamento para declarar guerra à Alemanha nazista, apenas comunicou: “Se a Grã-Bretanha está em guerra, a Austrália também está em guerra”.

Elizabeth II governou durante setenta anos, e viu o fim do império, a ascensão da guerra fria, o fim do bloco soviético, a guerra dos Bálcãs, os desastres humanitários na África, a escravidão trazida pelos regimes socialistas, a ascensão dos ideários sindicalistas, a chamada Revolução Tatcher, a retomada dos princípios da livre iniciativa. Tudo bem que os filhos deram mais trabalhos que os súditos, principalmente em assuntos privados, mas Elizabeth II se manteve firme.

Há um documentário da década de 1980 quando os idiotas dos generais argentinos resolveram invadir as Falklands, em um debate no parlamento inglês, um deputado do Partido Trabalhista, abanando a mão na cara da senhora Tatcher gritou que ela havia deixado a Argentina humilhar a Rainha Elizabeth. Vejam, não foi a nação que foi humilhada, mas a rainha, tal a concepção que os ingleses têm de que o Trono é o país e o país é o Trono.

Voltemos os olhos para Pindorama nesse século e alguns anos de republicanismo. Se olharmos com curiosidade de pesquisador veremos que não houve uma década sequer de estabilidade política, uma década sequer de previsibilidade econômica, social, educacional. Já começamos errados. A res publica, ou coisa pública brasileira, de público mesmo nada tem. A república brasileira começou com um golpe militar que, malandramente deixou o povo fora, restando a este, apenas pagar as contas das festas que se seguiram ao golpe. Em seguida vieram as crises: crise da abdicação de Deodoro, a Revolta da Chibata, a Revolta da Armada, a Guerra de Canudos, a Guerra do Contestado, o tenentismo, a revolta de 1930 que implantou o populismo e o varguismo como panaceia para todos os nossos males.

Vargas, boa bisca que era, provocou a revolta constitucionalista de 1932, o golpe de 1937 e foi chutado em 1945, após a vitória brasileira nos campos italianos, lutando contra aquele carequinha – tô falando do carequinha 1, o Mussolini, não do dois, ou do… bem, deixa pra lá -, entre o governo Dutra, a volta de Getúlio, houve um aparente período de tranquilidade que pariu figuras como Jânio Quadros, João Goulart, Francisco Julião, Miguel Arraes, entre outros símbolos do atraso. A posse de Juscelino também foi antecedida de revoltas militares, como a do Araguaína outras instabilidades. Jânio fez o que fez e foi jogado na lata de lixo da história. Jango, com aquela sua postura nem-nem, trafegava pelo apadrinhamento, pela politicagem do toma lá da cá, até ser chutado da presidência e começar os governos de coturno e toda a barbárie cometida neste torrão, seja pela direita, seja pela esquerda.

Após a dita redemocratização veio o desastroso governo Sarney, a aberração chamada Constituição de 1988, o ladroísmo descarado de Collor, e o impeachment do mesmo que quase nos leva para o buraco. O governo Itamar foi aquela sensaboria que todos conhecem, afora a cena com a sans-cullote no carnaval que se tornou um escândalo e quase leva Itamar para o buraco. Fernando Henrique Cardoso tentou dar alguma racionalidade, mas rendeu-se ao sistema republicano do toma lá-da cá para poder passar a emenda da reeleição. Chamaram isso de presidencialismo de coalização, ou seja, o chefe do executivo entrega um ministério, uma autarquia, um banco, uma estatal de porteira fechada para um chefe político, em troca de votos no congresso. E o público? Sempre convocado a pagar essa brincadeira cara demais, sem graça demais, para quem precisa gerar riqueza e sustentar essa máquina balofa e ineficiente chamada Poder Público.

Após FHC – Fernando Henrique Cardoso – inaugurou-se a república do lúmpen sindicalismo, com toda sorte de bucaneiro, parasita, escroque, vagabundo, preguiçoso e oportunista se adonando da nação. O resultado? Mensalão, Petrolão, a Fraude contábil, que muitos idiotas chamam de pedalada fiscal, como se esse crime fosse tipificado, mas é apenas uma forma de atenuar os crimes cometidos por um desastre ambulante que somou nove mais quatro e encontrou onze, que disse que uma bola feita de folha de bananeira era o ápice da evolução do brasileiro, que saudou uma raiz de mandioca, que encontrou um cachorro como sujeito oculto atrás de uma criança, e por aí vai.

E outra crise se instalou quando, os bucaneiros do congresso resolveram chutar a inquilina do Alvorada porque as tetinhas estavam magrinhas e saindo pouco leite. Só não saiu porrada no congresso porque estava todo mundo de olho, mas cuspe, xingamentos, alusão à mãe, promessa de vingança pulularam, naquele espaço que chamam de casa do povo. Sinto, mas até um puteiro há mais ordem, decência e organização do que naquele espaço. Imagina isso ocorrendo na casa de um cidadão? Jamais.

Veio o governo Bolsonaro, a pandemia e toda a esculhambação político-jurídica que bagunça a nação e destrói as possibilidades de futuro. Certa vez Paulo Guedes disse que em seis meses o Brasil viraria uma Argentina de Cristina Kirchner e em um ano, uma Venezuela de Maduro. Enganou-se. Em um ano saímos de uma Argentina e fomos direto para uma Coreia do Norte, com toda a sua arbitrariedade, sua truculência, suas vinganças e mesquinharia.

Aproveitou-se a pandemia para levantar a bandeira de “salvar a democracia”, reconduzindo um ladrão triplamente condenado, e seu acusador, aquele que dizia que o ladrão queria voltar à cena do crime, de volta ao poder e à lúmpen república. Em resumo, nunca, na história republicana tivemos vinte anos sem crises e regressos, sem objetividade e sabotando o futuro do país, tudo em nome de uma república que, de público nada tem, apenas o dinheiro para pagar as contas dos “donos do poder”.

Comparativamente, acredito que dei exemplos suficientes de que, a volta à monarquia, pelo menos dará estabilidade e previsibilidade ao país, mesmo porque, despejar um primeiro-ministro inepto é menos traumático do que um presidente, pois uma família imperial será espelho dessa estabilidade, tranquilidade e certeza de uma representação de decoro público que nossa república prometeu, mas nunca cumpriu.